quinta-feira, 16 de abril de 2026

DIÁRIO DE UM PADRE Os Rapazes e a Dúvida no Ar. Padre Monteiro (Portugal)

A tarde de Páscoa estendia-se sobre a aldeia quando o Pe. António fechou o computador com um suspiro. Acabara de ler um artigo no Expresso que o deixou inquieto. O título ecoava na sua cabeça como um alarme: "A geração dos rapazes zangados: conservadorismo e misoginia crescem entre os mais jovens". Falava-se de redes sociais, de frustração, de crise de identidade. Especialistas apontavam "um fracasso na mensagem passada aos rapazes". E os sinais já se viam nas salas de aula.

O padre levantou-se e foi à janela. Lá fora, os miúdos brincavam na rua, indiferentes às guerras ideológicas que se travavam nos ecrãs. Mas ele sabia que aquela aparente tranquilidade escondia um problema profundo. Ele via os sinais. Nas conversas com os jovens da catequese, nos comentários soltos durante as atividades, nas piadas que alguns rapazes faziam sobre as raparigas, na forma como olhavam para as colegas, na adesão a discursos agressivos que ecoavam o que consumiam online.

Precisava de falar com alguém. Pegou no telefone e ligou à Dora, uma psicóloga da terra, especializada em adolescência, que já várias vezes o ajudara a compreender o que se passava no coração dos mais novos. Encontraram-se numa esplanada, ao fim da tarde.

Jesus consola Maria e Marta nesta cena dos Vídeos da Bíblia. | The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints

— Li o artigo do Expresso — disse o Pe. António, mal se sentaram. — Fiquei perturbado. Isto confirma o que temos visto por aqui?

A Dora suspirou, apoiando os cotovelos na mesa.

— Confirma e agrava. Não é só em Lisboa ou no Porto. Chega cá, às aldeias. Pelas redes sociais, pelos grupos de WhatsApp, pelos canais do YouTube que os miúdos consomem sem supervisão. Há uma crise de identidade entre os rapazes, padre. Eles sentem-se perdidos. Por um lado, crescem a ouvir que os privilégios dos homens estão a ser questionados, que o feminismo veio para equilibrar a balança. Por outro, veem nos pais e nos avós modelos de masculinidade que já não se usam. Ficam sem referências.

O Pe. António coçou a barba.

— E a resposta deles a essa crise é virar-se para o conservadorismo e para a misoginia?

— Para alguns, sim. É uma falsa segurança. Agarrar-se a discursos que dizem que "os homens é que mandam", que "as mulheres é que sabem cozinhar", que "o lugar da menina é em casa". É uma forma de recuperar um controle que sentem que estão a perder. E há influencers nas redes sociais que alimentam isso, com discursos agressivos, com piadas machistas, com uma visão distorcida do que é ser homem.

O padre passou a mão pelo rosto, preocupado.

— E na escola? No dia a dia?

— Vê-se. Rapazes que gozam com as meninas porque são boas a matemática. Rapazes que se recusam a trabalhar em grupo com colegas do sexo feminino. Rapazes que dizem piadas sobre violência doméstica como se fosse normal. E, pior, meninas que começam a achar que isso é aceitável. É um retrocesso, padre. Um retrocesso perigoso.

O Pe. António ficou em silêncio por um momento. Lembrou-se das conversas que tinha tido com alguns jovens na catequese. Das piadas que ouviu e que, na altura, julgou serem brincadeiras sem importância. Agora percebia que eram sintomas de algo maior.

— E o que podemos fazer, Dora? Nós, que estamos no terreno? A família, a escola, a igreja?

— A primeira coisa é não fingir que não vemos. Muitos adultos preferem ignorar, dizem que "são coisas da idade". Não são. São coisas da sociedade, e a idade só as amplifica. A segunda coisa é falar com eles. Não de cima para baixo, mas ao lado. Perguntar o que andam a ver, o que andam a ouvir. Mostrar que há outras formas de ser homem. Que a força não está no punho fechado, mas no respeito. Que a masculinidade não se mede pela submissão das mulheres, mas pela capacidade de cuidar e de se deixar cuidar.

O padre ouvia atentamente.

E a igreja, como é que entra nisto?

— A igreja tem um papel fundamental, padre. Porque pode oferecer uma alternativa. Mostrar que Jesus tratava as mulheres como iguais, que as incluía no seu círculo, que as respeitava. Mostrar que Maria Madalena foi apóstola dos apóstolos. Mostrar que a santidade não tem género. Mas é preciso dizê-lo. É preciso ensinar. É preciso desmontar, com palavras e com exemplos, a ideia de que o cristianismo não é uma religião de machismo.

O Pe. António assentiu, convicto.

— E as famílias? Os pais?

— Os pais têm de dar o exemplo. Um pai que respeita a mãe, que divide as tarefas domésticas, que não faz comentários machistas à frente dos filhos, está a educar. Um pai que chama a atenção quando ouve uma piada ofensiva, que não compactua com gozação às colegas, está a formar. Mas muitos pais estão perdidos também. Cresceram com outros valores, outros discursos. Precisam de ser ajudados.

O silêncio instalou-se entre eles. O sol começava a descer, pintando o céu de laranja.

— E o que podemos fazer, Dora? — perguntou o Pe. António. — Concretamente. A curto prazo.

A psicóloga olhou-o nos olhos.

— O que podemos fazer, padre, é não nos calarmos. Em casa, na catequese, na escola, na rua. Sempre que ouvirmos um comentário machista, chamar a atenção. Sempre que virmos um comportamento desrespeitoso, intervir. Sempre que um rapaz disser uma piada ofensiva, explicar porque é que não tem piada. E, sobretudo, dar espaço para que os rapazes falem. Para que digam o que sentem. Para que chorem, se precisarem. A raiva é muitas vezes a única emoção que lhes permitem sentir. Se lhes devolvermos a tristeza, o medo, a vulnerabilidade, talvez a raiva diminua.

O Pe. António respirou fundo.

— Vou falar com os meus catequistas. Vou incluir este tema nas conversas com os jovens. E vou falar com os pais. Eles precisam de saber o que se passa. Precisam de estar atentos.

— É um bom começo, padre. Mas não chega. É preciso continuidade. É preciso não desistir ao fim do primeiro mês. A mudança é lenta. É de formiguinha. Mas é possível.

O padre despediu-se da Dora com um aperto de mão mais demorado que o habitual. No caminho para casa, ia pensando no artigo, na conversa, nos rapazes que via na aldeia. Os que já estavam perdidos em discursos de ódio. Os que ainda estavam a tempo de ser salvos.

Chegou a casa, sentou-se na poltrona, e pegou no Evangelho. Leu a passagem em que Jesus encontra a mulher samaritana. Falou com ela. Respeitou-a. Deu-lhe água viva. "É assim que se trata uma mulher", pensou. "É assim que se constrói um mundo diferente."

Naquela noite, antes de se deitar, escreveu um pequeno plano para as próximas semanas: uma conversa com os catequistas, uma reunião com os pais dos adolescentes, um encontro específico com os rapazes da catequese para falar sobre masculinidade e fé. Sabia que não era muito. Mas era um começo.

O que podemos fazer, Senhor, é não ficar indiferente. Não deixar que o silêncio dos adultos seja cúmplice do crescimento do ódio. Podemos ensinar, com a Tua palavra e com o Teu exemplo, que a força não está na opressão, mas no serviço. Que a grandeza não está na dominação, mas no amor. E que, aos Teus olhos, homens e mulheres são iguais em dignidade, chamados a caminhar juntos, não uns contra os outros. Comecemos por aí. Pela conversa que não foge. Pelo exemplo que não se cala. Pela esperança de que, mesmo no século XXI, ainda vamos a tempo de formar corações para o respeito e para a igualdade.

E para começar essa caminhada, aquela noite de reflexão era mais que suficiente.

A geração dos rapazes zangados: conservadorismo e misoginia crescem entre os mais jovens 

 Redes sociais, frustração e crise de identidade estão a fazer crescer ideias misóginas entre os jovens do sexo masculino 02 ABRIL 2026 22:57 Joana Pereira Bastos Jornalista  Leia AQUI 

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