Os “Corredores” no Audiovisual Brasileiro: Uma Proposta de Competição Justa
O problema: competição desigual desde o início
No audiovisual brasileiro, existe uma competição que, muitas vezes, começa antes mesmo da disputa pelo edital.
De um lado, estão produtoras consolidadas, com filmes realizados, equipes experientes, estrutura administrativa, acesso a profissionais e conhecimento dos mecanismos de financiamento. Do outro, pequenas empresas e realizadores que tentam viabilizar seu primeiro ou segundo projeto.
Colocar todos na mesma corrida e aplicar exatamente os mesmos critérios pode parecer democrático.
Mas não é.
É como colocar corredores profissionais e iniciantes na mesma pista e chamar isso de igualdade.
A proposta dos “corredores”É nesse ponto que surge a proposta dos “corredores”: criar faixas de competição diferenciadas, nas quais produtores com condições semelhantes disputem entre si.
Grandes produtoras poderiam disputar em um corredor próprio. Pequenas e médias, em outro. Produtores iniciantes, em outro. Poderiam existir ainda corredores específicos para povos indígenas e comunidades tradicionais, periferias, interior e territórios historicamente excluídos.
Não se trata de criar privilégios permanentes.
Trata-se de corrigir desigualdades de partida.
O círculo vicioso do sistema atual
O problema é que o sistema atual pode produzir um círculo vicioso:
Quem tem currículo consegue recursos; quem consegue recursos produz; quem produz aumenta o currículo; e quem tem mais currículo consegue novamente os recursos.
Como romper esse ciclo?
Uma possibilidade é reconhecer que mérito não pode ser medido da mesma maneira em todas as etapas de uma trajetória.
Para uma grande produtora, experiência e capacidade de execução podem ser fundamentais. Para uma produtora iniciante, talvez sejam mais importantes a qualidade do projeto, a equipe, a originalidade e o potencial de desenvolvimento.
O currículo deve contar.
Mas não pode ser a porta que impede novos produtores de entrar.
Corredores como escada, não como caixa
Os corredores também precisam ser pensados como uma escada, e não como uma caixa. A ideia é permitir que uma produtora comece, adquira experiência, cresça e, com o tempo, passe a disputar em níveis mais altos.
Isso transforma o financiamento público em algo maior do que um mecanismo para escolher projetos.
Transforma-o em uma política de formação e desenvolvimento do próprio setor audiovisual.
Descentralizar recursos não é democratizar a produção
E aqui está uma questão fundamental: descentralizar recursos não significa necessariamente democratizar a produção.
É preciso perguntar não apenas:
Onde o dinheiro está chegando?
Mas também:
Quem consegue disputar esse dinheiro? Quem consegue crescer depois de recebê-lo? E quem continuará produzindo quando o financiamento terminar?
Os corredores podem ser uma resposta a essas perguntas.
Não para impedir que os grandes concorram, mas para evitar que a vantagem acumulada pelos grandes transforme a competição em uma corrida na qual os pequenos nunca conseguem alcançar a linha de chegada.
No fim, a questão é simples:
Não basta distribuir melhor o dinheiro. É preciso distribuir melhor as oportunidades de construir capacidade de produção.
Essa talvez seja a verdadeira descentralização.
Como funcionariam os corredores na prática
A melhor maneira de pensar os corredores é não como categorias fixas, mas como sistemas de competição diferentes dentro de um mesmo edital. A ideia é que o dinheiro continue sendo público, com critérios de qualidade e responsabilidade, mas que a disputa aconteça entre agentes que tenham condições minimamente comparáveis.
1. O edital teria várias pistas
Em vez de um único ranking com todas as produtoras, o recurso seria dividido em faixas.
Por exemplo, imagine um edital de R$ 100 milhões:
Corredor Perfil % dos recursos
1 Produtoras consolidadas 30%
2 Pequenas e médias 30%
3 Emergentes / primeiro ou segundo projeto 20%
4 Povos indígenas e comunidades tradicionais 10%
5 Interior, periferias e territórios subatendidos 10%
Esses percentuais são apenas ilustrativos. Eles poderiam variar conforme o objetivo de cada política.
O ponto fundamental é: uma produtora pequena não precisa derrotar uma produtora que possui dez vezes mais experiência e estrutura para ter acesso ao recurso destinado à sua faixa.
2. Como saber em qual corredor cada um entra?
Essa é uma das partes mais importantes.
Não bastaria dizer que uma empresa é “pequena” porque tem poucos funcionários. Seria necessário construir critérios objetivos, por exemplo:
número de obras realizadas;
orçamento acumulado dos projetos;
volume de recursos públicos já captados;
faturamento da empresa;
tempo de atividade;
experiência da equipe;
número de longas ou séries produzidos;
participação em mercados e festivais;
localização e infraestrutura disponível.
Isso permitiria construir uma espécie de classificação de trajetória, e não apenas uma classificação de tamanho.
Uma empresa pode ser pequena em faturamento, mas extremamente experiente. Outra pode ter algum dinheiro, mas estar realizando seu primeiro longa.
Portanto, porte e trajetória não são exatamente a mesma coisa.
3. A competição seria diferente em cada corredor
Esse é talvez o ponto mais interessante da proposta.
Não faria sentido aplicar exatamente a mesma régua para todos.
Imagine três projetos:
Projeto A: uma produtora consolidada pretende realizar um filme de R$ 15 milhões.
Projeto B: uma pequena produtora quer realizar seu segundo longa, de R$ 3 milhões.
Projeto C: uma produtora iniciante quer realizar seu primeiro longa, de R$ 1,5 milhão.
Os três podem ter excelentes projetos.
Mas a pergunta sobre a capacidade de realização não deveria ser respondida da mesma maneira.
Para A, pode fazer sentido avaliar fortemente histórico de produção, capacidade financeira, gestão e distribuição.
Para B, experiência da equipe, qualidade do projeto e capacidade de execução podem ter peso maior.
Para C, talvez seja mais importante avaliar a força artística, a equipe reunida e a capacidade de transformar aquele primeiro projeto em uma trajetória profissional.
O mérito continua existindo. O que muda é a régua utilizada para reconhecê-lo.
4. O corredor não deveria ser permanente
Aqui está uma diferença fundamental entre proteção e desenvolvimento.
Imagine uma produtora que entra pelo corredor das emergentes.
Ela consegue seu primeiro longa.
Depois realiza o segundo.
Passa a ter experiência, equipe e capacidade de gestão.
Em determinado momento, ela deixa de ser emergente e passa para o corredor seguinte.
Depois pode chegar ao corredor das produtoras consolidadas.
Ou seja:
Corredor 3 → Corredor 2 → Corredor 1
A política pública estaria criando uma trajetória de crescimento, e não simplesmente distribuindo pequenos recursos eternamente para os mesmos produtores.
Por isso gosto da ideia de que:
o corredor deve ser uma escada, não uma caixa.
5. E se uma empresa crescer?
Ela sai do corredor.
Isso é importante para evitar que os corredores se transformem em reservas permanentes de mercado.
Por exemplo, uma empresa que recebeu recursos como emergente e, ao longo de alguns anos, passou a captar grandes volumes, produzir vários longas e estabelecer uma estrutura robusta, deveria migrar para outra faixa.
Isso cria uma lógica de mobilidade.
O objetivo do corredor para pequenos não é manter a empresa pequena.
É ajudá-la a deixar de ser pequena.
6. E os povos indígenas e comunidades tradicionais?
Aqui eu faria uma distinção importante.
Esse corredor não deveria ser simplesmente uma categoria baseada no tamanho da empresa.
Ele teria critérios próprios.
Uma produção indígena, por exemplo, pode envolver autoria coletiva, participação comunitária, transmissão de conhecimentos tradicionais e outras formas de organização que não cabem perfeitamente na lógica de uma produtora comercial convencional.
Nesse caso, o edital poderia avaliar, além da qualidade artística:
participação efetiva da comunidade;
autonomia sobre a narrativa;
governança do projeto;
proteção dos conhecimentos tradicionais;
formação e transferência de capacidade;
controle sobre direitos e propriedade intelectual.
O objetivo seria evitar uma situação em que uma produtora convencional simplesmente se associe formalmente a uma comunidade para acessar um recurso destinado a ela.
7. Os corredores podem se cruzar
Essa talvez seja uma evolução ainda mais interessante da proposta.
Em vez de ter apenas um corredor, poderíamos trabalhar com camadas.
Por exemplo:
Camada 1 — trajetória da empresa
consolidada
pequena/média
emergente
Camada 2 — território
regiões com cadeia audiovisual consolidada
interior
periferias
regiões historicamente subatendidas
Camada 3 — contexto social
povs indígenas
comunidades tradicionais
grupos historicamente sub-representados
Assim, uma produtora poderia ser:
emergente + interior + comunidade indígena
ou:
pequena + periferia + primeira obra
Isso seria mais sofisticado do que simplesmente criar cinco gavetas.
8. Poderia haver uma regra de transição
Para que o sistema realmente produza desenvolvimento, cada corredor poderia ter metas de progressão.
Por exemplo:
Uma produtora emergente recebe financiamento para seu primeiro longa.
Depois da realização, ela poderia ter acesso a:
consultoria de gestão;
desenvolvmento de novos projetos;
formação em produção executiva;
distribuição;
internacionalização;
mercados e festivais;
novos mecanismos de financiamento.
Assim, o primeiro recurso não seria um ponto final.
Seria o primeiro degrau.
9. E como evitar que o sistema seja fraudado?
Essa é uma questão central.
Se houver dinheiro reservado para pequenas produtoras, pode surgir a tentação de grandes empresas criarem empresas menores apenas para acessar aquele recurso.
Por isso seriam necessários mecanismos como:
análise dos sócios e grupos econômicos;
histórico de captação;
vínculos societários;
beneficiários finais;
empresas controladoras;
limites de concentração;
prestação de contas;
auditoria;
regras contra empresas de fachada.
Além disso, seria importante estabelecer períodos de transição. Uma empresa não deveria perder imediatamente o acesso ao sistema porque cresceu.
O que muda, afinal?
Hoje, a lógica pode ser resumida assim:
todos disputam → os mais preparados vencem → acumulam experiência → tornam-se ainda mais preparados → vencem novamente.
Os corredores tentariam produzir outra dinâmica:
cada produtor disputa em condições mais próximas → recebe recursos → produz → adquire experiência → cresce → muda de corredor → passa a enfrentar desafios maiores.
É uma mudança de uma política baseada apenas em selecionar os mais preparados para uma política que também procura produzir novos preparados.
E talvez essa seja a questão central:
O dinheiro público deve apenas premiar quem já tem capacidade de produção ou também deve ajudar a construir essa capacidade?
Os corredores partem da segunda resposta.
Não é criar uma competição sem mérito. É criar condições para que mais gente tenha a possibilidade real de competir.

Nenhum comentário:
Postar um comentário