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quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Maori é uma verdadeira faísca

Por: Pedro Bomba
  3 de junho de 2015
Fonte:  http://bagaceiratalhada.com.br/o-maori-e-uma-verdadeira-faisca/
Foto: Rodrigo Cortez/Divulgação Maori
Foto: Rodrigo Cortez/Divulgação Maori


Jessica M. Em 6/1/15
Meu lugar Alternativo
Melhor lugar na cena alternativa de Aracaju, onde acontecem show de diversas bandas locais e não

 cobra cover, a contribuição é espontânea. Além de ter o melhor hambúrguer artesanal e de carne 
de sol da Cidade.
Tragam eles aqui. Tragam esses desgraçados destruidores de vida alheia. Como são capazes de deixar pessoas tão órfãs assim de si, de qualquer gente. Tragam. Quem sabe assim eles não aprendem de uma vez como se vive nessa cidade. Vamos procurar os culpados. Aliás, vamos abrir um corrida para encontrar os culpados. Agora. Já. Façam suas apostas. As opiniões são importantes, falem.

Quando a gente souber quem são os culpados a gente vai fazer sei lá o quê numa praça pública com esse gente, vamos dizer bem assim: “tá vendo, é por conta de pessoas como vocês que a cidade tá desse jeito”. Pra todo mundo ver, sair comentando. Capa do Cinform. Ao vivo no SETV. Na agenda cultural. O culpado pela crise loopiniana da cultura.

Aquela velha história de que os espaços alternativos surgem na cidade, crescem, não reproduzem e morrem. Quando algum espaço surge na cidade, as palavras já ficam dançando nas bocas alheias. “Tá massa, mas logo logo acaba, é assim em Aracaju”. Verdadeira crise generalizada de comentarista de cultura (também serve para outras áreas, cabe uma adaptação).

O Maori é um ótimo exemplo disso, só que ao contrário. Ouvi de um amigo poeta certa vez que tem coisa que já nasce que nem filhote de elefante. Grande. E como todo e qualquer elefante, um Maori incomoda muita gente. E continua incomodando – só mudo a conjugação do verbo em junho – muito mais.

Primeiramente, os chamados “donos de casas de shows”, que como citado por eles mesmos, o Maori é uma “praga”. Aí a gente pergunta: praga pra quem? Para o bolso de quem? Para a cena? A situação é que o Maori derrubou os muros. Não se sabe por onde se entra, nem por onde se sai no Maori. Só sabe que se está lá. Isso incomoda. Porque todo mundo pode estar naquele espaço. Tanto a roupa nova da Cocci, como a camisa dos sem-camisas. Como o artista renomado com carreira na carreira de segunda-feira ou o maluco de estrada de talento profundo. Ambos estão lá, pra todo mundo ver.

Isso é muito ousado. E quem faz isso, não pensa a cultura como mercadoria. Somente. Como lucro. Como um ótimo empreendimento para gerar renda. Consumir cultura, como dizem por aí, é algo muito perigoso. Até hoje, não encontrei um saco de cultura no Mercadinho. Fui na Feira e pedi um “moio” de cultura e a mulher disse que não tinha. Cultura está mais para ser realizada do que para ser consumida. Porque a gente consome aquilo que está pronto. Pré-cozido. Enlatado. Com conservante. Com glúten. Agora, tem quem ache a cultura à venda. Tem quem queira vender. Mas não é disso que estamos falando.

Estamos falando de quem quer realizar e do que já foi realizado. Diversos projetos surgiram por conta do Maori. Novas bandas. Novas pesquisas. Novas ideias. Quem toca é quem quer realizar, e não quem vai gerar mais lucro para o empresário da cultura.

Tire o chapéu. E contribua espontaneamente, a quantia que puder. Essa ideia quebrou um outro muro. Aquela ideia de “tá muito caro, vou não” perdeu sua força. Não era 10. Nem 20. Nem 35. Mulher não paga a metade. Nem entrada free antes da meia-noite. Todo mundo entra. Digo, está lá.

Mas alguém pode dizer: “assim é foda, não pagar cachê para a banda. Querem destruir a cena cultural”. Aí é onde está o x da questão ou alfabeto todo. Os melhores e gordos cachês estão nas mãos das bandas empresariais, pagos pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de Aracaju. Enquanto a gente discute a cultura da cidade, eles pagam 500 mil para uma banda qualquer. Enquanto a gente busca culpados, eles gastam milhões em publicidade e propaganda. Enquanto a gente, opa… mais dinheiro foi embora. Aí fica a pergunta: onde está o problema mesmo?

O Maori é uma verdadeira faísca. É nado sincronizado contra correnteza. O problema da cultura não é o Maori. Muito menos, diga-se de passagem, o problema do Maori não são os ambulantes. Lembrem-se do Camelô de Edson Gomes. Eles são trabalhadores e nós também. Só que enquanto isso, o Secretário de Cultura está na sua sala de ar-condicionado. Enquanto isso, eles esperam os artistas nos seus balcões de negócios. Enquanto isso a gente busca culpados e eles brincam de contar dinheiro. Já percebeu? Que todo problema da cultura se resume somente ao artista e ao público? Nunca o Estado? Que todo problema está no consumo e não no direito? Onde está sendo investido o dinheiro da Cultura?

Não é no Maori que resolveremos o problema da Cultura de Aracaju. É com o Maori. É com quem quer realizar a cultura. Seja artista, seja pedreiro, vendedor, ambulante ou camelô. São com as ocupações culturais espalhadas pela cidade. Com as pessoas que participam e vivem, com as tantas outras pessoas que querem mas não sabem. O Maori é o exemplo do que seguir, o contrário de braços cruzados, é o trabalho que vem antes do consumo, são as palavras que saem pelas mãos. Enquanto a gente busca culpados, o governo engorda o bolso e assiste de camarote a nossa corrida de círculos. Não culpe a cidade,
Ocupe!

Pedro Bomba é poeta e jornalista, membro do Coletivo Sarau Debaixo

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