"Possivelmente o maior pensador vivo, Edgar Morin - aos 104 anos - analisa a guerra na Ucrânia, com equilíbrio e sensatez." Renato Janine Ribeiro
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As armas nucleares tornaram-se gradualmente um perigo presente e estão dando origem a debates aparentemente tranquilos, alguns dos quais afirmam calmamente que a Terceira Guerra Mundial já começou, como se não fosse uma catástrofe dantesca.
É com espanto que uma parte da humanidade observa o curso catastrófico dos acontecimentos, enquanto outra parte contribui para ele com imprudência.
Estamos cegos para a grande regressão que continua seu curso planetário, acentuada pela globalização do início do século, e que já produziu duas guerras, ambas internacionalizadas e com potencial para se alastrarem.
O período pré-guerra de 1940 foi marcado pelo pacifismo e depois pelo colaboracionismo; este, por sua vez, é marcado pela beligerância.
Costumo salientar que a história da humanidade, que se tornou "uma só" após a globalização, ao mesmo tempo que se tornou cada vez mais diversa e conflituosa, seguiu, simultaneamente com o seu progresso científico e técnico, um rumo político e ético cada vez mais regressivo.
Duas guerras nos assolam. Elas são internacionalizadas, embora ainda regionais. Exacerbam a grande catástrofe ecológica que o planeta enfrenta e contribuem para o seu agravamento em quase todos os lugares.
Ao mesmo tempo, a angústia que causam fora de seus territórios contribui para esse agravamento, o que mina todas as tentativas de solucionar a crise ecológica global.
Corrida armamentista: escalada ou colapso? Ambos ao mesmo tempo.
Vale ressaltar que a globalização econômica ocorrida no início do século favoreceu a desunião das nações e, ao mesmo tempo, das potências imperiais.
A Rússia fracassou em sua tentativa de anexar a Ucrânia após conquistá-la. Até o momento, conseguiu ocupar apenas alguns territórios além das províncias separatistas de língua russa, que estão em guerra com a Ucrânia desde 2014. É inconcebível que uma paz justa possa colocar essas províncias de língua russa sob o controle de um Estado ucraniano que proibiu o idioma, a cultura e a música russa.
Como já indiquei no meu livro De Guerra em Guerra, uma paz justa deve incluir a independência política e militar da Ucrânia, com garantias a serem negociadas (neutralidade protegida? Integração na União Europeia?).
Deveria confirmar a russificação das províncias separatistas e um estatuto para a Crimeia, que em 2014 incluía 1.400.000 russos, 400.000 ucranianos e 300.000 tártaros, os habitantes originais da Crimeia, a maioria dos quais foram deportados por Stalin.
Tal paz é concebível desde que as forças em conflito estejam mais ou menos equilibradas e desde que nenhuma delas seja forçada a capitular.
Portanto, ainda é possível até o momento em que escrevo, mas essa possibilidade desaparecerá com a crescente internacionalização desta guerra e com as escaladas que, na prática, se transformam em colapsos.
A visão unilateral da mídia ignora o fato de que a Ucrânia era um ponto de equilíbrio entre o império americano e o império russo. Antes de Trump, os EUA haviam transformado a Ucrânia em um satélite econômico, tecnológico e militar, o que teria representado uma arma apontada para a fronteira russa se o país tivesse ficado sob controle da OTAN.
Nossos meios de comunicação não apenas destacam o imperialismo russo, mas também imaginam que ele poderia invadir a Europa, embora seja incapaz de anexar a Ucrânia em três anos de guerra. O espectro da ameaça russa mascara o perigo da degradação contínua das democracias europeias, ameaçadas pela possibilidade de serem submetidas a regimes autoritários.
Paradoxalmente, as sanções beneficiaram as forças armadas da Rússia, que, além de aviões, drones e bombas, agora possuem um míssil que supera os mísseis ocidentais em termos de capacidade, pois, nas condições atuais, não pode ser interceptado.
Em vez de pressionar os dois inimigos a negociar e a estabelecer um compromisso com base nos pontos que acabei de mencionar, os europeus contribuem para a escalada do conflito.
Putin é um tirano cruel e cínico, mas o argumento de que não se pode negociar com Putin é risível vindo de governos que negociam amigavelmente com o chefe de uma ditadura totalitária muito mais abrangente do que a de Putin.
De fato, governos ocidentais já adotaram, no passado, uma política de aliança com a tirania czarista e a tirania stalinista.
Por outro lado, Trump está reconfigurando o domínio americano, no qual a Rússia deixa de ser um inimigo e se baseia em uma paz generalizada entre os Estados Unidos.
A mídia exagera a ameaça da Rússia à Europa Ocidental. Mas como a Rússia, incapaz de invadir a Ucrânia, poderia invadir a Europa?
O grande perigo reside no agravamento constante da crise da humanidade, que nos conduz a catástrofes ecológicas, políticas e militares.
Esta crise traz consigo uma tragédia palestina, ainda mais grave que o conflito ucraniano. Israel não apenas conquistou e ocupou as terras do povo palestino, como também está liquidando esse povo martirizado por meio da ocupação total de seu território.
Nada, neste momento, pode deter este processo e não nos resta nada fazer senão testemunhar com impotência e compaixão.
Finalmente, de forma mais ampla, devemos tentar pensar na policrise da humanidade em toda a sua complexidade e horrores, e devemos agir em meio à incerteza, mas com a intenção de salvar a humanidade da autodestruição.
"Com cento e quatro anos no dia 8 de julho, o sociólogo, filósofo e ensaísta francês de origem judaica Edgar Nahoum, que mais tarde adotou o sobrenome Morin (escolhido durante a Resistência), é um dos maiores intelectuais contemporâneos. Fundador do "pensamento complexo", ao qual dedicou um ensaio monumental, criador do conceito de "policrise" e fundador da transdisciplinaridade, sua pesquisa abrange da filosofia à ciência política, da sociologia do cinema à epistemologia das humanidades, e até mesmo à ecologia. Ele nos enviou este artigo original e inédito, que temos o prazer de publicar." Renato Janine Ribeiro
Atualizações
28 de novembro de 2025, 00h08 - Artigo atualizado
Os três princípios do pensamento complexo, de Edgar Morin - Carolline Ruschel

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