Continuidade do comentário do Padre José Soares, arquidiocese de Aracaju, sobre a primeira encíclica de Leão XIV;
NESTE SEGUNDO espaço para abordarmos o pensamento social da encíclica atual do Papa Leão XIV, queremos destacar a sua forte percepção no capítulo primeiro (Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho), com três expressões bem contundentes; abordaremos mais uma “janela” da Doutrina Social da Igreja (DSI) que corresponde ao pontificado de Paulo VI e faremos uma apresentação bem detalhada do que chamamos o arco histórico entre as ideias do Papa Leão e os pontificados do séc. XX, dando ênfase – claro que a ideia é essa – a Paulo VI e a Populorum Progressio.
1) As expressões de Leão XIV. O caminho da Doutrina Social da Igreja no século XX, não pode ser apartado do Concílio Vaticano II. Enquanto ele tem sido quase que “triturado” nas redes sociais e até em alguns ambientes da própria Igreja Católica, o Papa Leão XIV cita-o com abundância em sua encíclica e faz da Gaudium et Spes, “janela” – como chamamos no artigo passado – ou seja, um lugar profundo de interação com a DSI e o mundo atual. O papa afirma que a Doutrina Social, “nasce de uma Igreja que caminha com a humanidade” (M.H., n. 18) e enxergamos nesse número uma extraordinária chave de leitura para o capítulo primeiro e para quem está iniciando seus estudos ou pesquisas sobre o tema. Ele aborda as expressões que seguem:
- 1.1. “Patrimônio de Sabedoria” (n. 24). Uma colocação como essa perpassa e ultrapassa o campo eclesial, colocando o pensamento do papa na vanguarda das discussões sobre a Inteligência Artificial (IA), sobre o conhecimento científico – e ele aborda demais isso no n. 23 – dentro da discussão teológica e aproxima as ideias de Leão XIV de João XXIII e Paulo VI e dos demais papas que foram célebres no século XX. A ideia de patrimônio é profunda e significa: origem, herança, consistência, arcabouço, legado e bens. O próprio Papa Leão se expressa assim:
“Alimentada por este diálogo fecundo entre Evangelho e conhecimentos humanos, a Igreja aprofundou progressivamente a sua Doutrina social, fazendo amadurecer ao longo do tempo um património de sabedoria dotado de uma coerência teológica e antropológica enraizada na visão cristã da pessoa” (M.H., n. 24).
Não se pode correr do diálogo e abertura com as ciências modernas e nem execrar o pensamento que está fora do redil da Igreja, pois, a Igreja tem uma Tradição imensa que a qualifica para debater e sugerir caminhos de luzes para a sociedade como um todo. A Igreja não é um pote seco à beira da estrada na espera de alguém para enchê-lo. Ela é uma fonte, lugar de saciar a sede e de tornar a sua água, espelho de vida e de salvação. E fechando a profunda citação do patrimônio, Leão fecha assim: a função da Doutrina social não é substituir as instituições, mas ajudar no discernimento e reconhecimento da dignidade das pessoas (n. 24)
- 1.2. A toda luta insana pelo ‘poder’ – e na Igreja existe e muito, como na sociedade civil a ponto de desgastar, excluir e até matar – nos contrapomos com a verdade do evangelho (n. 25) e acrescenta: “antes de mais, não conta ocupar espaços de poder ou defender bastiões culturais, mas iniciar processos de bem e deixá-los amadurecer; assim, a verdade do Evangelho não se impõe de cima, mas cresce no tempo, no entrelaçar-se concreto das vidas, das comunidades e das culturas” (n. 25). Que afirmação forte e densa de conteúdo para nossas formações em paróquias e fora delas. O Papa Leão mostra que enxerga além de nossos limites eclesiais, escreve para aumentar a força da Doutrina Social da Igreja e sabe – com toda a certeza e pelas luzes que o acompanham – que nossos lugares curiais e eclesiais estão fragilizados, “adoecidos” e paralisados...INÉRCIA.
1.3. “Teologia da comunhão na história”. É o resultado de muita preocupação por parte da Igreja e dos crentes de todas as religiões (M.H. n. 27), que não se perca a defesa dos direitos de quem sofre. Esse caminho de luta e discernimento só se dá na história humana e ligada a ela com muita acuidade e misericórdia, para deixar claro a opção de Deus pelos últimos. Leão XIV afirma: “Assim, quando a dignidade dos irmãos é desfigurada, quando a política não responde aos dramas da humanidade, quando a economia se volta contra a pessoa ou a ciência ultrapassa os limites do seu método” (n. 27), a Igreja deve entrar nesse debate e recordar que ela possui instrumentos para servir a apoiar que está desfigurado e ferido. Uma exposição de fato extraordinária essa do n. 27, ao colocar a Teologia no lugar do encontro entre a fé de tantos irmãos e irmãs, excedendo o campo da mera doutrina especulativa, para mergulhar na prática de uma pastoral que resgata atitudes e vidas. Portanto: na Doutrina Social não se aceita o aniquilamento da dignidade de ninguém; não se concebe uma política afastada do bem comum e não podemos conceber uma economia separada da ética e geradora de miséria exclusão social.
2) A janela de Paulo VI. Temos que ressaltar nessa janela, a contínua percepção do papa em matéria de dialogar e defender a exaustão que a Igreja não se afaste dos princípios fundamentais do evangelho. Paulo VI não destrói, mas dá prosseguimento as ideias de João XXIII, encarando com vivacidade que o novo olhar de uma sociedade em estado de ebulição, carregada de profundas mudanças, mexeu e muito com os ensinamentos da Igreja. De modo “Ad Intra” é preciso destacar as iniciativas frequentes dos episcopados nacionais que, antes do Vaticano II eram inexistentes. O próprio Paulo VI deu um grande exemplo de impulso a colegialidade e profunda comunhão, quando esteve pessoalmente na Colômbia para a II Conferência dos Bispos Latino Americanos em 1968, a chamada Conferência de Medellin. Já de modo “Ad Extra” a Igreja viu-se perante novos e provocativos desafios do mundo moderno – já passado o Vaticano II – e os documentos que compõem a DSI precisam dizer algo: sobre a secularização e a pobreza crescente no mundo. E agora, qual a posição da Igreja numa sociedade que renunciou à sua estrutura vertical e à homogeneidade, mergulhando de vez no secularismo? Como devem agir os cristãos e os demais crentes? O Papa Paulo VI respondeu em 1971 com a Carta Apostólica Octogesima Adveniens de Paulo VI em 1971.
“Diante de tantas questões novas, a Igreja procura fazer um esforço de reflexão, para poder dar uma resposta, no seu campo próprio, à expectativa dos homens”. E continua: “A doutrina social da Igreja, com toda a sua dinâmica, acompanha os homens em tal busca diligente. Se ela não intervém para autentificar uma estrutura estabelecida ou para propor um modelo pré-fabricado, também não se limita a recordar alguns princípios gerais. Ao contrário, ela é algo que se desenvolve por meio de uma reflexão que é feita em permanente contato com as situações deste mundo, susceptíveis de mudanças, sob o impulso do Evangelho” (n. 42).
Com Paulo VI o método da DSI passa de dedutivo, para o método indutivo. A preocupação do papa não está mais em destacar os “altíssimos princípios da revelação e do direito natural para daí deduzir um modelo de sociedade cristã, válido para todos os casos, a traduzir em prática em todo tempo e em todo lugar, mas se parte da leitura dos “sinais dos tempos”, confiadas às diversas comunidades cristãs, para interpretá-los depois à luz do evangelho e do ensinamento da Igreja” (Sorge Bartolomeo, p. 15). A dinâmica do diálogo deve substituir a da imposição; a beleza do mistério está presente nas atitudes dos homens e mulheres que são imagem e semelhança de Deus; a presença eclesial não se dá só coma celebração constante dos sacramentos, mas com atuação cristã nas periferias “sociais e existenciais”, como nos disse o Papa Francisco, sucessor de Paulo VI.
Dando continuidade ao que fizemos no primeiro artigo da série, trazemos novamente a arte de Gilberto Gil para conversar com as reflexões do Padre José Soares. Essa união não é por acaso: ela ajuda a iluminar as belas e desafiadoras páginas da encíclica Magnifica Humanidade.
Mas é importante dizer: essa escolha não é só enfeite ou uma forma de tornar o texto mais “leve” para agradar os leitores. Ela nasce de uma convicção bem simples e ao mesmo tempo muito forte: a de que a música popular – principalmente a nossa MPB – é um lugar especial onde a filosofia, a fé e as angústias do mundo se encontram. Gilberto Gil não é apenas um grande compositor; ele é um pensador que, com suas letras, antecipou discussões que a própria Igreja demoraria anos para colocar no papel.
Quando ouvimos "Cérebro Eletrônico", por exemplo, Gil já estava falando, lá nos anos 1960, sobre os perigos de uma tecnologia que quer substituir o ser humano e sobre o valor insubstituível da nossa carne, da nossa dor e da nossa liberdade. Esse tipo de reflexão bate de frente com o que o Papa Leão XIV e o Papa Paulo VI nos disseram sobre os limites da ciência e a defesa da dignidade de cada pessoa. A canção popular, nesse sentido, funciona como um "termômetro da alma" – ela capta o que a sociedade está sentindo antes mesmo de os grandes documentos oficiais colocarem em palavras.
Além disso, trazer Gilberto Gil para perto do Padre Soares é uma maneira de escutar os "sinais dos tempos", que é exatamente o que a Doutrina Social da Igreja nos pede, especialmente desde o tempo de Paulo VI. A Igreja não pode ficar fechada em seus próprios muros; ela precisa aprender com a poesia que nasce nas ruas, nas rodas de samba e nas canções que embalam o dia a dia do povo brasileiro.
Portanto, essa ponte entre arte e teologia não é forçada. Ela é, na verdade, um jeito de dizer que o Espírito de Deus sopra onde quer – inclusive nas melodias – e que a reflexão sobre a vida, a morte, a técnica e o sentido da existência é de todos, não só dos especialistas. Ao unir Gil e o Padre Soares, queremos mostrar que a encíclica não é um texto frio e distante, mas uma conversa viva que ganha cor, ritmo e emoção quando a gente a escuta junto com a música brasileira.
ENCÍCLICA POPULORUM PROGRESSIO | DOM PAULO RESPONDE - 27/05/2025 #93
Para ouvir a formação complete de Dom Paulo Jackson sobre Doutrina Social da Igreja na Rádio Olinda, clique aqui
A encíclica de Leão XIV “Magnifica humanitas”: áudio e texto
No 135º aniversário da “Rerum novarum”, o Pontífice reflete, em sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da Igreja na era da inteligência artificial.
serça-feira, 26 de maio de 2026
Magnifica Humanitas. Limites, possibilidades, perspectivas. Algumas análises
Abaixo, o primeiro artigo da trilogia...


Nenhum comentário:
Postar um comentário