sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Mandato coletivo e cultura de base: como a Bancada Cultura Viva tenta redesenhar a representação política na Alesp.

  Por Redação Blog da Cultura


O desenho tradicional da política institucional brasileira, frequentemente pautado por lideranças centralizadoras e campanhas personalistas, ganha novos contornos no Estado de São Paulo com a consolidação das candidaturas coletivas. Entre as propostas que emergiram com força no campo progressista, a Bancada Cultura Viva desponta como um dos arranjos mais orgânicos de ocupação do espaço legislativo, convertendo décadas de militância artística de periferias e do interior paulista em uma plataforma de disputa real por uma cadeira na Assembleia Legislativa (Alesp).

Oficialmente, a legislação eleitoral do país ainda não reconhece o modelo multifacetado na urna, exigindo o registro de um único CPF e uma única foto. Para contornar o engessamento jurídico, o coletivo apresenta o nome de Alessandro Azevedo (registrado como Alessandro Cultura Viva, sob o número 13000). Por trás do número, contudo, opera uma engrenagem horizontal composta por sete trabalhadores e fazedores de cultura: além de Azevedo, a chapa traz nomes de peso do setor como Valéria Silvestre, Ellen Moreira, Vinícius Cassiolato, Alexandre Braz (Xandão) e Gilberto Augusto da Silva (Gil do Jongo).

A costura dos territórios: da base ao manifesto

A arquitetura da Bancada Cultura Viva diferencia-se dos arranjos de cúpula partidária por ter sido gestada de baixo para cima, mimetizando a própria dinâmica da Política Nacional Cultura Viva — programa federal de fomento comunitário que inspira o grupo. A construção da proposta buscou quebrar o histórico isolamento entre a capital e as demais regiões do estado, costurando uma rede que une as franjas da metrópole (como o bairro de Perus) a polos culturais do interior e do litoral, incluindo cidades como São José dos Campos, Sumaré, Araras, Peruíbe e Piquete.

O programa de diretrizes do mandato foi blindado do modelo tradicional de gabinetes fechados. Em vez disso, foi maturado em praças, fóruns abertos, saraus e terreiros de comunidades tradicionais. Segundo o manifesto oficial do grupo, o estopim para a unificação das candidaturas foi a urgência de "transformar a indignação contra o desmonte cultural em efetivação de políticas públicas", oferecendo uma resposta técnica e coordenada após anos de contingenciamento orçamentário e asfixia de editais no estado.

Coerência sob a lupa: trajetórias sem ruídos públicos

Em um cenário onde propostas coletivas por vezes enfrentam desconfiança quanto à sua real coesão, o histórico dos integrantes da chapa funciona como um selo de consistência entre o discurso e a prática. Os "co-deputados" acumulam vivências que cobrem as principais lacunas do fomento público estadual.

Alessandro Azevedo traz o lastro de 30 anos de teatro e da criação do Sarau do Charles, um marco da literatura periférica paulistana. A representação da ancestralidade e dos direitos humanos ganha peso com Valéria Silvestre, mestra jongueira e especialista pela USP com trânsito na gestão de políticas para minorias, e com Gil do Jongo, liderança tradicional do Vale do Paraíba. No interior, nomes como Ellen Moreira (do Circo Colorê) e Vinícius Cassiolato (do Ponto de Cultura Cia Tupinambá) — ambos com experiência recente como Agentes Territoriais de Cultura do Ministério da Cultura (MinC) — garantem a capilaridade regional do projeto.

Um levantamento nos canais de transparência e nos arquivos da imprensa especializada mostra que a retidão pública tem sido uma constante no grupo. Não há registros de escândalos financeiros, denúncias de improbidade administrativa ou controvérsias que arranhem a imagem dos proponentes. A projeção pública do coletivo tem se mantido estritamente atrelada ao debate programático, defendendo a descentralização de recursos e o fortalecimento do Sistema Estadual de Cultura.

O desafio da governança compartilhada

O grande teste da Bancada Cultura Viva, caso conquiste a vaga na Alesp, será a operacionalização prática do gabinete. O grupo firmou um pacto político de tomada de decisões horizontais, onde o voto de cada coparlamentar tem o mesmo peso no direcionamento de emendas e no posicionamento em comissões.

Mais do que uma estratégia de marketing eleitoral, a chapa tenta provar que a "cultura de redes" e a solidariedade comunitária que sustentam os pontos de cultura há mais de duas décadas são ferramentas perfeitamente capazes de gerir o orçamento e a burocracia do maior parlamento estadual da América Latina.


Para conhecer mais detalhes, clique AQUI  e AQUI 



Nenhum comentário: