Ran (1985), dirigido por Akira Kurosawa, é um épico de drama histórico franco-japonês considerado uma das maiores obras-primas da história do cinema.
Para aprofundar sobre Ran
Roger Ebert — “Ran” (2000)
Ebert vai além de dizer que Ran é uma adaptação de Rei Lear: ele percebe no filme uma espécie de reflexão de Kurosawa sobre sua própria vida e sobre o poder, observando a relação entre o velho senhor Hidetora e o próprio diretor, então com 75 anos. Para uma leitura mais política, isso é especialmente fértil: guerra, poder, vaidade, envelhecimento, violência e a tentativa de construir uma ordem que termina produzindo o caos.
O BFI publicou “Kurosawa vs Shakespeare”, de Ben Nicholson, que discute justamente como Kurosawa transforma Shakespeare ao incorporar tradições japonesas, sobretudo o teatro Nô, e como seus filmes utilizam a narrativa para fazer comentários sobre ganância, corrupção e poder.
“Kurosawa vs Shakespeare” — BFI
A Folha de S.Paulo, em texto de Inácio Araújo, publicou em 1994 uma pequena, mas interessante crítica sobre Ran. Ele chama atenção para o paradoxo de um filme construído em torno do desequilíbrio dos personagens, mas que alcança uma espécie de equilíbrio cinematográfico entre beleza e tragédia.
“Kurosawa revê Shakespeare” — Folha de S.Paulo
Pensar Ran não apenas como adaptação de Rei Lear, mas como um filme sobre a decomposição de uma ordem política fundada na guerra, na concentração do poder e na incapacidade de transmitir esse poder sem transmitir também os conflitos acumulados pelo velho senhor. O próprio Criterion destaca Ran como uma reflexão sobre a guerra e o desmoronamento de uma família sob o peso da traição, da ganância e da busca insaciável pelo poder.
Isso permitiria inclusive aproximar Ran de uma questão bastante contemporânea: o que acontece quando uma geração que construiu sua autoridade pela disputa e pela guerra tenta deixar como herança uma ordem que já não consegue controlar?
Terra em Transe (1967), dirigido por Glauber Rocha, é uma das obras-primas do Cinema Novo e um dos filmes mais importantes da história do cinema brasileiro.
Para aprofundar
“Diálogos entre Walter Benjamin e Glauber Rocha: uma leitura alegórica de Terra em Transe e o mito fundador do Brasil”, publicado nos Cadernos Benjaminianos, da UFMG.
Terra em Transe não seria apenas uma alegoria do Brasil imediatamente anterior ao golpe de 1964, mas uma representação de ciclos históricos que se repetem, nos quais o país passa de uma crise a outra procurando um salvador e reproduzindo as condições que produziram a própria crise. O artigo aproxima Glauber de Walter Benjamin justamente para pensar essa circularidade histórica.
“Estética e política no Brasil contemporâneo: Terra em Transe e Maranhão 66 revisitados”, de Alexandre Fernandez Vaz.
Ler o artigo na revista ethic@/UFSC
O autor retorna aos dois filmes para observar como suas formas estéticas continuam produzindo sentido diante dos impasses políticos posteriores. A leitura coloca em relação o Brasil dos anos 1960 e desenvolvimentos políticos posteriores, tratando os filmes como obras que amadurecem historicamente.
E há um terceiro, muito importante para o seu tipo de leitura
“A autocrítica do intelectual militante no cinema político: Terra em Transe e Lutas na Itália”, publicado pela UFMG.
Ler o artigo sobre a autocrítica do intelectual militante
Ele examina Paulo Martins, o poeta-jornalista interpretado por Jardel Filho, como figura do intelectual que quer intervir na política, mas também se confronta com seus próprios limites e contradições.
Paulo Martins não é simplesmente o intelectual que denuncia a política; ele está dentro do transe político que pretende compreender e transformar. Isso permite discutir uma questão muito atual: o que acontece quando artistas, intelectuais, jornalistas e militantes tentam falar em nome do povo sem conseguir estabelecer uma relação efetiva com ele?

