A cultura sergipana perdeu, nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, uma de suas vozes identificadas com a poesia, a cultura popular e as lutas sociais. Faleceu Josineide Dantas, conhecida como Gigi Poetisa, mulher negra, poeta, cordelista, educadora popular, agente comunitária de saúde e militante dos movimentos negro, feminista e popular.
Nascida em 29 de março de 1966, em Propriá, Sergipe, Gigi construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com as populações historicamente marginalizadas e pela compreensão de que a cultura não se limita à produção artística ou ao entretenimento. A poesia, em sua caminhada, era também uma maneira de contar histórias, afirmar identidades, denunciar injustiças e contribuir para a transformação da realidade.
Sua história se confunde com a de uma geração de mulheres que, especialmente a partir dos anos 1980, ampliou a presença feminina e negra nos movimentos sociais, nas organizações populares e nos espaços de participação política em Sergipe.
A poesia como afirmação da identidade negra
Gigi Poetisa não adotou a poesia como simples exercício literário. Sua produção dialogava com a memória, a ancestralidade, a história da população negra e a luta por liberdade e igualdade. Um exemplo significativo é o cordel Zumbi, um sonho da igualdade, publicado em 2009, obra composta por 595 versos, organizados em 85 estrofes de sete versos.
O poema recupera a história da escravidão no Brasil, a formação dos quilombos e a trajetória de Zumbi dos Palmares, apresentado como personagem histórico e símbolo permanente da resistência negra. A narrativa também incorpora referências à religiosidade afro-brasileira, evocando entidades como Olorum, Oxalá e Oxum.
A obra revela uma dimensão importante de sua produção: a utilização de uma linguagem tradicional da cultura popular nordestina para abordar questões históricas e políticas contemporâneas. Ao recorrer ao cordel, Gigi aproximava a literatura da oralidade, da memória coletiva e das experiências populares, reafirmando a potência de uma expressão cultural profundamente enraizada no Nordeste.
Em 2006, sua participação na programação do Novembro Negro, realizada pela Fundação Municipal de Cultura de Aracaju, já registrava publicamente sua atuação como poetisa e representante do movimento de mulheres negras.
Uma militante das causas populares
A atuação de Gigi ultrapassava o campo artístico. Sua trajetória esteve ligada ao Movimento Negro Unificado em Sergipe, à Rede de Mulheres Negras de Sergipe, à Rede de Mulheres Negras no Espaço de Poder do Nordeste e ao Fórum de Organizações Negras de Sergipe.
Também participou de mobilizações relacionadas aos direitos das mulheres, à juventude, às populações periféricas, aos povos indígenas e à população LGBTQIA+.
Em entrevista publicada pelo Marco Zero Conteúdo, em 2020, Gigi se apresentou como mulher afro-indígena, bissexual e mãe solo, destacando sua identificação com diferentes segmentos historicamente excluídos. Naquela ocasião, afirmou que sua inserção na política estava relacionada à defesa da democracia e à necessidade de o Estado contribuir para retirar as populações das situações de exclusão.
Sua experiência profissional como agente comunitária de saúde também fazia parte desse compromisso. O trabalho cotidiano junto às comunidades populares permitia conhecer de perto as dificuldades enfrentadas pela população, especialmente pelas mulheres negras, trabalhadoras e moradoras das periferias.
Em 2020, ao falar sobre sua candidatura a vereadora de Aracaju, ressaltou que sua proposta política era construída coletivamente, por meio do diálogo e do trabalho de base. A defesa de uma cidade mais inclusiva, com atenção às desigualdades de raça, gênero e condição social, atravessava sua compreensão de participação política.
A presença nos espaços de participação e transformação social
Gigi também levou sua experiência para os debates públicos sobre racismo, feminismo e direitos humanos.
Em dezembro de 2022, participou de uma mobilização promovida pelo Ministério Público de Sergipe, intitulada "Eu, tu, eles e nós pelo fim da violência contra a mulher negra e trans", representando o Movimento Negro Unificado.
Em 2022, também esteve entre as participantes de uma atividade realizada em São Cristóvão sobre Lélia Gonzalez e o feminismo negro, contribuindo para aproximar a memória e o pensamento de uma das principais referências do feminismo negro brasileiro das novas gerações.
Na Câmara Municipal de Aracaju, sua voz foi registrada em uma sessão especial dedicada ao fortalecimento das mulheres negras. Na ocasião, recuperou as trajetórias de Beatriz e Rejane Maria Pureza do Rosário, duas mulheres cuja memória permanece vinculada às lutas negras em Sergipe. Sua fala demonstrava que a militância também se faz preservando a memória de quem abriu caminhos antes de nós.
Essa dimensão merece atenção: Gigi não apenas participou de movimentos sociais, mas também ajudou a manter vivas as histórias de mulheres que construíram essas organizações e enfrentaram as desigualdades em diferentes momentos da vida sergipana.
Cultura, política e compromisso com a vida
A trajetória de Gigi Poetisa permite refletir sobre uma compreensão de cultura que ultrapassa os limites das instituições culturais e dos circuitos tradicionais de produção artística. Sua atuação aproxima poesia, educação popular, organização comunitária e participação política.
É nesse encontro que sua história ganha significado para quem compreende a ação cultural como processo de criação de condições para que pessoas e comunidades possam reconhecer suas próprias experiências, expressar suas identidades e participar da construção de seus destinos.
A poesia de Gigi, sua presença nos movimentos sociais e sua atuação junto às comunidades revelam uma mulher que não separava a palavra da vida, nem a criação artística do compromisso com a transformação social.
Sua partida deixa saudades entre familiares, amigos, companheiros de militância, artistas e integrantes dos movimentos populares. Mas deixa também um legado que precisa continuar circulando, especialmente entre as novas gerações: a memória de uma mulher que fez da palavra uma forma de resistência e da participação coletiva uma maneira de transformar o mundo.
Gigi Poetisa, presente!
Sua poesia permanece na memória e nas lutas daqueles que acreditam que a cultura é também um direito, uma forma de liberdade e um instrumento de construção de uma sociedade mais justa.
Mais um que se vai... Gigi Poetisa
Por Pascoal Maynard*
Mais um que se vai... Depois das partidas dos queridos Tonho Baixinho e Ana Badyalli, agora recebemos a triste notícia do falecimento de Gigi Poetisa. São perdas que se sucedem e nos deixam com aquele sentimento difícil de traduzir: a saudade de quem fez parte da nossa caminhada e contribuiu, cada um à sua maneira, para a vida cultural de Sergipe.
Guardo com carinho o nosso encontro no programa Expressão, da Aperipê TV, quando tive a oportunidade de entrevistá-la sobre a literatura de cordel. Foi uma conversa muito especial, na qual compartilhamos reflexões sobre a riqueza da poesia popular nordestina, sua tradição e sua importância para a nossa identidade cultural.
É doloroso perceber quantas pessoas queridas estão partindo em tão pouco tempo. Ficam os encontros, as histórias, os registros e a gratidão por termos dividido momentos com elas.
Hoje, minha homenagem é a Gigi Poetisa, com respeito e carinho. Que sua contribuição à poesia popular continue eco


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