sábado, 14 de fevereiro de 2015

É carnaval cidade!!

O Carnaval da Libertação na perspectiva de um monge

09/02/2015
MARCELO BARROS é um monge beneditino que une mística e política (busca do bem comum), oração com a caminhada dos movimentos populares e dos indígenas no Brasil, na América Latina e no mundo. É um dos conferencistas mais solicitados aqui e fora do Brasil pois em tudo o que fala imprime uma aura de espiritualidade e ao mesmo tempo de engajamento para a transformação do mundo no sentido da justiça e da paz. Esse artigo sobre o Carnaval da Libertação mostra bem seu espírito. Reconhece a celebração da vida e ao mesmo tempo associa esta celebração com a alegria espiritual que nos vem do encontro com Deus ou com a Divindade, conhecida por muitos nomes. Vale a a pena ler este texto no contexto do Carnaval que se aproxima. Lboff
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Em várias cidades brasileiras, já estamos em tempo de Carnaval. No Rio de Janeiro, Olinda, Salvador e outras cidades tradicionais, os blocos estão nas ruas e as pessoas superam as dores e angústias do cotidiano através da dança, das brincadeiras e da alegria do Carnaval. Ainda há pessoas e grupos que veem nisso mera alienação. Alguns grupos religiosos condenam o mundanismo e julgam o Carnaval como produto do diabo. Não há dúvidas de que o Capitalismo faz de tudo mercadoria. No Carnaval, explora um erotismo simplesmente comercial. Fomenta o uso exagerado de bebidas e mesmo de drogas. Tudo isso cria um circulo vicioso com a violência urbana que explode em alguns fenômenos de massa não bem canalizados. No entanto, apesar desses problemas, toda festa, mesmo a mais aparentemente mundana, reúne pessoas em uma expressão de alegria e tem, por isso, uma dimensão nobre e, podemos mesmo dizer: espiritual.

De um modo ou de outro, todas as culturas valorizam a festa como sinal e antecipação do pleno e definitivo encontro com a divindade. Jesus afirmou que o reinado divino vem ao mundo, qual uma música deliciosa que convida todos a dançarem. Ele se queixa de sua geração que parece com pessoas que, mesmo ao som da música, não reagem e ficam indiferentes (Lc 7, 31- 32). Ninguém deveria ficar apático diante dos sinais do amor e da comunhão humana que tornam a vida, mesmo sofrida, uma festa de alegria, inspirada pelo Espírito. Conforme o quarto evangelho, Jesus começou a anunciar o reinado divino no mundo, transformando água em vinho simplesmente para que não faltasse alegria em uma festa de casamento (Jo 2).

As pessoas e comunidades marcam a vida pela cadência das festas. Cada ano, o aniversário natalício recorda o dom da vida. Conquistas importantes, como conclusão de um curso, obtenção de um novo trabalho e casamentos são celebrados com festas. Todo país tem festas cívicas e cada religião, festividades litúrgicas. O que caracteriza a festa é a liberdade de brincar, o direito de subverter a rotina e de expressar alegria e comunhão, através de uma comida gostosa, a música contagiante e a dança que unifica corpo e espírito.

Na Bíblia, se conta que, quando a arca da aliança foi transferida das montanhas para Jerusalém, “o rei Davi dançava alegremente”. Davi dançou para agradecer a bênção divina sobre o povo. Vários salmos aludem à dança como forma de oração. Apesar disso, a dança não é muito valorizada nas liturgias. Nas sinagogas, o uso variou muito, de acordo com o tempo. Em épocas mais recentes, principalmente em festas como a da Simchá Torá, a festa da “alegria da Lei”, no nono dia depois da festa das Tendas (Sucot), a dança é o rito central. Em um artigo na internet, o rabino Nilton Bonder explica: “Nós dançamos com a Torá e não nos damos conta como dançamos com a vida e de que a dança revela muito”.

A dança é mais do que um método. É caminho de meditação interior e comunitária. Indica abertura do ser humano a uma dimensão de transcendência. No Brasil, as danças são ancestralmente praticadas pelas religiões indígenas e afro-descendentes. Muitas vezes, além de ser uma forma de orar com o corpo, servem também como instrumentos de cura e equilíbrio para a vida.

As formas mais conhecidas de danças sagradas espalhadas pelo mundo vêm do Oriente e são a Hatha Yoga, T´ai Chi e as danças do Dervixe na tradição mística Sufi (muçulmana). Um dervixe disse ao escritor grego Nikos Kazantzakis: “Bendizemos ao Senhor, dançando. A dança mata o ego e uma vez que o ego é morto não há mais obstáculos que o impeçam de se unir a Deus”.

Lamentavelmente ao se falar de dança sagrada, corre-se o risco de separar o sagrado e o profano, como se houvesse uma dança santa e a outra mundana e pervertida. É claro que, como toda atividade humana, a dança também pode se tornar instrumentalizada em espetáculos de mau gosto. Entretanto, se, em seu erotismo, ela é humana e humanizadora, repõe as energias do amor em um equilíbrio unificador da pessoa e da comunidade. Desse modo, toda dança é sinal da bênção divina e instrumento de cura do corpo e do espírito. Tanto no Carnaval, como no dia a dia, é importante valorizar os ritmos, músicas e danças de cada cultura.

Nos anos 70, Chico Buarque compôs a melodia para o filme “Quando o Carnaval chegar”, uma comédia musical de Cacá Diegues que tomava o Carnaval como parábola da festa da libertação. Apesar de que superamos a ditadura militar e, hoje, vivemos uma democracia formal, ainda há muito para alcançarmos uma igualdade social e uma realidade de justiça que signifique uma verdadeira libertação para todo o nosso povo. Por isso, continua válida a esperança proposta nas imagens daquela música de Chico, cantada no filme, junto com Maria Bethânia e Nara Leão: “Quem vê assim, tão parado e distante, parece que eu nem sei sambar. Tou me guardando pra quando o Carnaval chegar”. É bom que nos Carnavais que passam, não deixemos de esperar e nos preparar para o Carnaval definitivo, mais profundo e transformador da vida.

Carnaval no blog da Acão Cultural.. AQUI



Outros Olhares

Carnaval em comunidade Giuliana Capello - 21/02/2012    

BLOGS |Gaiatos e Gaianos


Este deve ser o quinto carnaval que passo na ecovila e o primeiro com direito a marchinhas, fantasias e muito pandeiro. Incrível, porque estou mais para o pessoal que “é ruim da cabeça ou doente do pé”, mas mesmo assim posso dizer que foi – está sendo – muito divertido.
Cada vez mais percebo que viver em comunidade requer abertura para olhar cara a cara nossos preconceitos e ilusões. Sempre achei, nos meus sonhos mais remotos, que minha vida na ecovila seria baseada em yoga, meditação, comida vegetariana e música suave com toque oriental. E ponto, ou seja, imaginava que seria apenas isso. O tempo, no entanto, tem me mostrado situações bem diferentes – e nem por isso menos interessantes.
É verdade que muita gente na comunidade tem essa ideia de sossego, introspecção e desenvolvimento do espírito. Mas isso não é regra nem serve para todo mundo. Aprendi, nesses anos de convivência com gente de histórias e origens diversas, que o mais gostoso é a diversidade, as oscilações ou os ciclos, as surpresas, as frestas que abrem novos mundos. Não existe linearidade nem predestinações. A vida por aqui pode, sim, ser feita de humores, sol e chuva, mantras e samba-enredos. Por que não?
O que você acha mais rico: uma plantação de eucalipto ou um pedacinho da floresta amazônica? Se você ficou com a segunda opção é sinal de que conhece os prazeres e as delícias da biodiversidade… Em grupo é assim. Querer pasteurizar pessoas e encaixá-las todas no mesmo rótulo é desgastante, inócuo, sem sentido.
Aos poucos, estou aprendendo a lidar com quem é diferente, com gente que come carne, que sabe cantar dezenas de sambas e que guarda em casa caixas e mais caixas de fantasias e apetrechos para brincar o carnaval. Tempos atrás, algumas dessas características (especialmente a que se refere à alimentação) geravam em mim um afastamento quase involuntário, um pé atrás que me impedia de ir além e de conhecer um pouco mais de perto essas pessoas. (Ainda acho que não comer carne, por exemplo, faz parte do caminho de quem busca uma vida mais sustentável por várias razões. Mas isso não pode virar motivo para eu me afastar de ninguém.)
Este feriado tem sido muito significativo para todos da ecovila, tenho certeza. Todas as casas estão ocupadas pelas famílias e com direito a hóspedes que, em geral, são os amigos da comunidade que ainda não têm casa construída. Estamos todos envolvidos em atividades que acontecem concomitantemente e que, vez e outra, têm o dom de unir todo o grupo. Tem gente aproveitando o descanso para curtir a criançada no camping instalado num quintal bem aconchegante; gente que se reúne para participar de um curso de vitrofusão; gente que organiza projeção de filme com bate-papo sobre agricultura na ecovila; gente que faz churrasco com cerveja, samba e pandeiro; gente que sabe agregar pessoas e que consegue – quase num passe de mágica – fazer surgir na comunidade um verdadeiro bloco de carnaval; gente que aproveita o feriado para pintar paredes, limpar a casa e sonhar com a obra terminada… É de gente assim que eu me alimento e descubro o sentido da palavra entusiasmo.
E mais: saber que as casas têm sempre a porta aberta para receber é, de longe, um dos valores de que mais gosto por aqui. Ainda que existam diferenças, ainda que sejam diversos os altares, os times de futebol e as visões políticas, a comunidade prefere o abraço, o riso, o encontro, a lição que vem com o estranhamento. É óbvio que os espinhos também estão lá e os conflitos deixam a gente de boca torta de vez em quando. Mas nem assim posso dizer (de coração) que melhor seria morar num apê e não saber o nome do vizinho ao lado.
Esse papo todo de ecologia, de ambientalismo, de sustentabilidade precisa ter bases fortes no afeto e nos laços que ligam as pessoas. Este é o pilar central, o verdadeiro alicerce. Nossos maiores desafios não são de ordem técnica ou tecnológica. Não somos pouco sustentáveis por falta de equipamentos verdes que transformem poluição em combustível limpo para nossos carros. Nem ficaremos mais ecológicos se pudermos construir, um dia, cidades inteiras com os mais modernos recursos. A mudança toda começa de dentro para fora. Pessoas com comportamentos e hábitos insustentáveis não se tornam mais razoáveis com o planeta ao mudarem de endereço, sabe? É preciso algo mais, algo que nos inspire, nos mobilize, algo que alimente nossos sonhos e nos faça seguir em frente. Tal como num baile de carnaval, a graça está no colorido e na possibilidade de vermos o outro e nós mesmos com outros olhos.
Foto: Desculpem o efeito na imagem. Foi um cuidado para dificultar a descoberta das verdadeiras identidades… Sabe como é…        

Carnaval: que desejos te seduzem?


Festival Aho, 2012/13, em Ilha Comprida (SP): outro momento em que desejo não rima com poder
Festival Aho, 2012/13, em Ilha Comprida (SP): outro momento em que desejo não rima com poder
Celebrar corpo, consciência e prazer pode ser alternativa à cultura que reduz sexo a fetiche de egos e poderes

Por Katia Marko, editora da coluna Outro Viver | Imagem: Paco Antonino
Chegou o Carnaval. Momento tão esperado por muitos. Espaço para soltar o freio, viver fantasias, desfrutar o prazer. Pacatos cidadãos experimentam o sonho de virar reis e rainhas. Desejos inconscientes escapam pela janela agora aberta com o consentimento social. Tudo vale na busca do prazer.
O meu Carnaval, há alguns anos, tem sido na Comunidade Osho Rachana, onde promovemos um grupo chamado Carnawow. Já está confirmada a participação de 70 pessoas para este ano. Serão quatro dias de trabalho corporal, meditações, trilhas na natureza, encontros, diversão e criatividade. Tudo para aumentar a capacidade de curtir a vida. Pra começar, vamos “limpar o terreno”. Sessões de bioenergética e meditações pra ajudar a soltar tensões e sentimentos guardados e reconectar com a energia do corpo. No domingo, depois de reconectar consigo mesmo, é a vez de encontrar o outro, no sentido mais rico da palavra. Trabalhos terapêuticos que vão ajudar a recuperar a confiança na amizade. Já na segunda-feira, é o espaço para a celebração e o êxtase. O grupo é dividido para criar e apresentar duas escolas de samba com direito a alas, bateria, carros alegóricos e o que mais a imaginação permitir.  No último dia, é relaxar, curtir a natureza e meditar.
Mesmo que todos nós busquemos o prazer, esta é uma palavra que evoca sentimentos conflitantes. Por um lado esta associada com o que é “bom”. Mas, a maioria das pessoas acharia desperdício uma vida devotada ao prazer. Temos medo que o prazer nos leve a caminhos perigosos, onde esqueceríamos deveres e obrigações, deixando que nosso espírito se corrompesse pelo prazer descontrolado.
No livro Prazer, uma abordagem criativa da vida, o médico-psiquiatra Alexander Lowen, explica que todos nós queremos que a vida seja mais do que a luta pela sobrevivência, e deveria ser agradável, e sabemos que todos têm amor a dar. “Mas quando o amor e a alegria desaparecem, sonhamos com a felicidade e procuramos a diversão. Não conseguimos perceber que o alicerce de uma vida alegre é o prazer que sentimos em nossos corpos, e que sem essa vitalidade, ela se transforma na cruel necessidade de sobrevivência, onde a ameaça de tragédia nunca está ausente”.
TEXTO-MEIO
Na real, em nossa cultura, todos receiam o prazer. “Como a cultura moderna é dirigida mais pelo ego do que pelo corpo, o poder se transformou no principal valor, reduzindo o prazer a uma situação secundária. A situação do homem moderno se assemelha à de Fausto que vendeu a alma a Mefistófeles em troca de uma promessa que nunca poderá ser cumprida. Apesar da promessa de prazer ser uma tentação do diabo, o prazer não pode ser proporcionado pelo diabo”, diz Lowen.
Segundo ele, todos nós, como o Dr. Fausto, estamos prontos a aceitar as tentações do demônio. Ele está dentro de cada um sob a forma de um ego que nos acena com a realização de um desejo desde que o obedeçamos. A personalidade dominada pelo ego é uma perversão diabólica da verdadeira natureza humana. O ego não existe para ser mestre do corpo, mas sim seu servo leal e obediente. “O corpo, ao contrário do ego, deseja prazer e não poder. O prazer é a origem de todos os bons pensamentos e sentimentos. Quem não tem prazer corporal se torna rancoroso, frustrado e cheio de ódio.
O pensamento é distorcido e o potencial criativo se perde. A perda se torna autodestrutiva. O prazer é a força criativa da vida. A única força capaz de se opor à destrutividade em potencial do poder”.
Para Lowen, o prazer e a criatividade estão relacionados dialeticamente. Sem prazer, não haverá criatividade. Sem uma atitude criativa diante da vida não haverá prazer. “Essa dialética surge do fato de ambos serem aspectos positivos da vida. A pessoa viva é sensível e criativa. Através da sensibilidade coloca-se em harmonia com o prazer e através do impulso criativo procura sua realização. O prazer na vida encoraja a criatividade e a comunicação, e a criatividade aumenta o prazer e a alegria de viver”.
Então, para vivermos plenamente o prazer e a criatividade temos que mexer nas tensões do nosso corpo, respirar profundamente e expressar nossas emoções. Essa é a proposta do Carnaval na comunidade em que moro: prazer com consciência.
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Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma.
Para ler todos os seus textos publicados em Outras Palavras, clique aqui

O carnaval e a cultura do descartável

         
          O carnaval me fez recordar do tema da cultura do descartável, que vigora em nossos dias. Nestes dias, há quem esteja procurando muita bebida e sexo. Vive-se a ideia de que “ninguém é de ninguém!” e quem for contra esta ideologia é considerado ultrapassado e careta. Segundo esta ideologia, valores como respeito e responsabilidade podem ser descartados. “Vamos beber muita cerveja e comer muita mulher!”, gritava um jovem embriagado na Praça Sete, no centro de Belo Horizonte. Expressões como esta não são ignoradas porque muita gente enxerga no outro uma coisa a ser usada e descartada. O verbo “comer” relacionado à mulher é a prova disso: desvinculado de qualquer sentimento nobre, há mulheres que se permitem ser “comidas” por muitos homens. Estes as utilizam e, em seguida, as descartam.

            Este problema não se restringe ao período do carnaval, nem está exclusivamente ligado ao tema da sexualidade. Vamos, brevemente, oferecer um olhar mais abrangente, analisando o tema nas relações interpessoais (amizade, namoro e casamento), na economia de mercado capitalista e na religião. Trata-se de um tema que precisa ser discutido pelas instituições família, escola, igreja e estado, tendo em vista a humanização das pessoas e das instituições. Para a necessária mudança de atitude, a mudança de mentalidade é essencial. Por isso, tal discussão é sempre bem-vinda e deve ser cada vez mais promovida e/ou incrementada. Claro que num curto espaço de um artigo breve não abordaremos todas as facetas do problema, mas ofereceremos apenas algumas provocações.

            Nas relações interpessoais está se tornando comportando normal o fato de uma pessoa procurar a outra para simplesmente aproveitar-se dela, visando a satisfação de seus próprios interesses. Quando estes são satisfeitos, aqueles que contribuíram para tão vergonhosa situação são descartados. Neste sentido, não há amizade, nem namoro, nem casamento, mas oportunidades que precisam ser aproveitadas. Nestes três tipos de relações, o amor deveria ser o fundamento, em vista da felicidade. As pessoas que se aproveitam das outras nestas relações costumam falar e demonstrar amor, mas tudo não passa de uma mentira diabolicamente elaborada com belas palavras, presentes e gestos de carinho que escondem as reais intenções.

            Desse modo, quando conseguem o que realmente querem, o outro é descartado com requintes de frieza, rejeição e indiferença. Quem descartou trata o outro como se este estivesse morrido. Como este outro não tem mais nada a oferecer, então é tratado com desprezo, caindo no esquecimento. Por parte de quem desprezou não há sofrimento porque não existia amor. Como aquele que foi desprezado não passava de uma coisa, então não há nenhum sentimento no ato de descartar. Acontece como quando alguém utiliza um copo descartável e depois joga fora. Não há nenhum vínculo afetivo entre o copo e a pessoa porque o copo é um mero meio para a satisfação da sede de água. Quando não há amor, ao descartar o outro, não há nenhum sentimento de perda. Não se perde nada, pois já se ganhou o que se almejava.

            Isto explica porque pessoas frias são, geralmente, perigosas. No silêncio de sua intimidade planejam formas eficientes para a satisfação de seus interesses mesquinhos. Assim, demonstram quem realmente são: egoístas, individualistas, materialistas e, naturalmente, golpistas. Elas desconhecem o verdadeiro valor e sentido do amor, da solidariedade, do perdão, do encontro com o outro, da alegria e da reciprocidade. Interiormente, costumam ser angustiadas, ansiosas, ressentidas, rancorosas porque suas consciências não as deixam em paz. Elas sabem que estão equivocadas, que trilham um caminho que não traz paz de espírito nem salvação. 
Quando descobertas em suas tramas, geralmente, são abandonadas no seu isolamento e na sua falta de amor. Sofrem bastante, mas não o suficiente para renunciarem ao egoísmo que as tornam insensíveis. Para estas pessoas, os problemas do mundo não lhes interessam, pois estão preocupadas consigo mesmas, com o próprio bem-estar. “Não quero saber de nada nem de ninguém! O que quero é ser feliz!”: esta é a lógica que norteia suas vidas.  Nesta lógica não há espaço para o amor a Deus e ao próximo. Este é um dos fatores que explicam porque muitas amizades, namoros e casamentos não duram: as pessoas renunciam ao amor, aderindo à satisfação de seus próprios interesses, vivendo a cultura do descartável.

            Na economia de mercado capitalista, a pessoa valorizada é aquela que consome. Quem não consome não tem valor nenhum. As pessoas são tratadas como meros destinatários de serviços e produtos a serem consumidos. O mercado cria necessidades para seus destinatários. O lucro é a meta. Tudo é calculado ao infinito. Deve-se consumir, desenfreadamente. Tudo é produzido para durar pouco. Para não ser excluído é necessário estar na moda. Esta dita o figurino do momento. Aparece a ditadura do corpo perfeito. O mercado dita o que as pessoas devem comer, vestir, calçar etc. A ideologia de mercado ensina até a maneira de pensar e de ser. Direta e indiretamente, através da mídia, que veicula a propaganda, as pessoas são aliciadas a viverem da maneira como manda o mercado. Todos tendem a fazer e consumir as mesmas coisas. Isto gera uma falsa alegria, um gozo passageiro, que quando passa, dar lugar ao vazio.

            O mercado ensina que além das mercadorias, as pessoas também são coisas, objetos de consumo. Mulheres e homens podem ser comprados e vendidos para ser consumidos. Trata-se da sexualidade mercadológica. O corpo humano, principalmente o feminino, é utilizado para atrair e despertar o desejo dos consumidores. O mercado trabalha em função dos desejos das pessoas, manipulando-os, inteligentemente. As pessoas consomem ao sentir vontade e esta está ligada ao desejo. Dominada pelo desejo, a vontade perde seu controle. Explora-se, demasiadamente, os sentidos humanos, especialmente a visão e o paladar. Descontroladas, as pessoas se endividam, mas isto não lhes é motivo de preocupação porque o que importa é consumir. O mercado as convence de que viver endividado é normal, o anormal é não viver consumindo. Aqui não estamos nos referindo à satisfação das necessidades básicas, mas ao consumo do supérfluo, do desnecessário.

            Tudo o que o mercado produz atualmente tem curta durabilidade porque tudo é produzido para ser jogado no lixo em pouco tempo. Nunca se produziu tanto lixo na história da humanidade como em nossos dias. O meio ambiente não suporta mais tanto lixo! Isto tem provocado um desastroso desequilíbrio na natureza, mas, geralmente, as pessoas não estão preocupadas com isso. O discurso sobre a proteção ao meio ambiente costuma ser desprezado pela maioria. Esta pensa que a natureza é inesgotável, que suporta a sede insaciável do ser humano dominado pelo capitalismo selvagem. O cuidado pela natureza é descartado. Apesar da crise de escassez de água, atualmente vivida no Brasil, a maioria das pessoas não está dando a mínima atenção ao necessário cuidado para com a natureza, mãe e mestra da vida.

            Por fim, consideremos o tema da cultura do descartável na religião. Como estamos no Brasil, e a maioria do nosso povo se declara cristã, então nossas considerações se referem, especialmente, aos católicos e aos não-católicos, também conhecidos como “evangélicos”, terminologia não muito correta quando assistimos a determinados abusos em nome do Evangelho. Evangélica é a pessoa que vive de acordo com o Evangelho de Jesus. Por isso, considerar evangélicos todos os não-católicos é correr certo risco. Certamente, há entre muitos aqueles que, de fato, são evangélicos. Afinal de contas, como ocorre a cultura do descartável na religião? Neste quesito, sintam-se contemplados os demais crentes de outras religiões. Por incrível que pareça, este último quesito de nossas meditações é mais complexo do que os demais porque envolve o tema da fé e da transcendência. Portanto, por mais que queiramos esgotá-lo, ficará, como sempre, espaço para maiores desdobramentos.

            A função precípua da religião é a de religar o ser humano a Deus. No Cristianismo, este Deus se revelou na pessoa de Jesus de Nazaré. Não é um desconhecido, oculto nas alturas dos céus, mas é o Emanuel, Deus que permanece conosco. O seguimento de Jesus se encontra no centro da genuína espiritualidade cristã e, assim, a religião é chamada a oferecer às pessoas a oportunidade de fazerem uma experiência com Deus. Esta experiência não é algo ligado a um sentimento de bem-estar momentâneo. O Cristianismo propõe outra coisa, que é permanente: o seguimento de Jesus de Nazaré. Este seguimento constrói o Reino de Deus. Aqui está o que podemos chamar de núcleo fundamental da fé cristã e do Evangelho de Jesus. Trata-se do essencial.

            Ocultando o essencial, a religião tende a oferecer outras coisas, e não a proposta de Jesus. Com o surgimento do neopentecostalismo, salvo exceções, apareceu a Teologia da Prosperidade com suas promessas de sucesso e bem-estar. Criou-se a religião voltada para o bem-estar econômico e espiritual. Deus é tratado como fonte de bênçãos, curas e bens materiais. Prega-se a ideia de que aquele que crê recebe tudo de Deus. A fé é fonte de prosperidade. A religião é transformada numa agência de milagres. As pessoas acorrem à ela para encontrarem soluções eficazes para seus problemas materiais e espirituais. Não se estimula nem se promove um autêntico encontro com Deus. Não há conversão, mas um negócio com Deus. Quando encontram a “solução” para seus problemas, geralmente Deus é descartado porque é tratado como o “tapa-buracos”, o suporte, a fonte de bênçãos e de bens.

            Assim como no mercado financeiro, o mercado religioso lida com o imediatismo. Deus tem que se submeter aos desejos das pessoas e tem que socorrê-las no exato momento que elas querem. Geralmente, elas não procuram conhecer e viver a vontade de Deus, mas impõem a própria vontade. Deus não é livre nem libertador. Ele não tem escolha. A única alternativa que lhe resta é operar o milagre sem demora. Prega-se que o tamanho da graça está ligado à quantidade financeira da oferta dada às Igrejas. A generosidade divina está condicionada à oferta. Quanto maior a oferta, maior a graça! Promove-se chantagens de toda ordem para incutir essa ideologia na cabeça das pessoas e tudo é feito com tanta emoção que elas passam a acreditar que realmente Deus age dessa forma.
A manipulação de inúmeras passagens bíblicas ajuda os pastores mercenários a terem êxito no seu negócio. Milhões de pessoas não esclarecidas caem nesse tipo de golpe em nome da fé. Na relação entre povo e pastores, e entre Deus e o povo acontece a cultura do descartável. Neste falso Cristianismo não há comunidade nem povo de Deus, mas investimento financeiro em vista do sucesso. As pessoas entram nos templos religiosos como se estivessem entrando no shopping: querem consumir, comprar bênçãos, fazer um negócio com Deus, satisfazer seus desejos.

Não adoram o Deus e Pai de Jesus, mas criam um ídolo, praticando, assim, o gravíssimo pecado da idolatria. Demônios e dinheiro são as duas palavras que mais aparecem na pregação dos pastores. Não há nada de divino, tudo é profanamente pensado e realizado, em vista da grandiosa arrecadação financeira. O mercado religioso faz circular muito dinheiro. Este é abundante, enquanto que a caridade praticamente não existe, salvo louváveis exceções. Este não é um problema exclusivo de inúmeras denominações religiosas neopentecostais, mas também de alguns segmentos das Igrejas cristãs tradicionais.

Para concluir, um pensamento para resumir estas breves considerações: enquanto cristãos, precisamos redescobrir a centralidade do Evangelho de Jesus, que é o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Amar como Jesus amou: na gratuidade, na generosidade, na alegria e na liberdade. Somente assim a cultura do descartável poderá ser vencida. O amor vence o egoísmo e a indiferença. Amar de verdade é cuidar do outro, assumir a responsabilidade para com ele.

Na cultura do descartável ninguém cuida de ninguém e ninguém é responsável por nada. Relega-se ao destino, à má sorte e ao acaso os males que afetam a humanidade. Precisamos recuperar o encontro com o rosto do outro, rosto que interpela, que revela, que convida para o amor. Somente assim, aprenderemos a sermos mais tolerantes e pacientes diante das falhas do outro, mais humildes e atentos às necessidades que surgem. Enfim, descobriremos que outro mundo é possível quando aprendermos, de fato, a sermos fraternos. O amor nos faz irmãos e liberta-nos de todo mal, nos humaniza e nos salva.

Tiago de França

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Juca Ferreira: Alguma coisa acontece no meu coração

10.2.2015 - 10:51
Dias atrás realizei meu último ato como secretário municipal de Cultura de São Paulo. Já ministro da Cultura, estive com o prefeito Fernando Haddad e com o secretário Estadual de Cultura, Marcelo Araújo, no lançamento da SP Cine, a empresa de audiovisual que criamos articulando as três esferas da República.
Ao sair da cerimônia, cruzei a esquina da avenida Ipiranga com a São João e me pus a pensar nos dois anos que aqui passei. São Paulo me proporcionou um ótimo período, no qual aprofundei a compreensão sobre o desafio global das grandes cidades. Sou grato ao prefeito, a quem servi convicto de integrar o mais importante processo de renovação institucional da esquerda brasileira.
Haddad é um político contemporâneo que se dedica a mudar o padrão civilizatório da cidade. São Paulo precisa - e muito- dessa ousadia, para se reconstruir depois de décadas de equívocos urbanísticos.
Superar esse modelo excludente é um imperativo e isso só ocorrerá com a afirmação da cultura como elemento central. Esse foi o mantra que entoei. Sinto que ele reverberou. Cheguei e permaneço convicto de que uma política cultural abrangente é um essencial instrumento de construção de uma nova cultura política, que promova o convívio humano e a colaboração.
Muito foi feito. E ainda falta um longo caminho a percorrer. A chegada de Nabil Bonduki é garantia de que seguiremos avançando. No próximo ciclo, a SP Cine injetará recursos vultosos na produção cultural audiovisual e se construirá uma rede pública de cinemas, ampliando, assim, o acesso nas regiões mais carentes da cidade.
No cinema, também reabrimos o Belas Artes, um patrimônio que a especulação imobiliária havia emparedado. No teatro e na dança, os recursos de fomento foram ampliados e diversificados e avançamos para constituir editais para outras importantes linguagens, como o circo e a literatura.
Na cultura digital, realizamos com as secretarias de Direitos Humanos e de Serviços o maior edital dessa modalidade, em uma ação que permitirá uma ocupação cultural avançada das praças digitais, dos telecentros e dos Pontos de Cultura.
Dois anos atrás, vale lembrar, São Paulo não tinha rede municipal de Pontos de Cultura e hoje tem a maior do país, com 75 projetos apoiados financeiramente, sendo a maioria nas regiões sul, norte e leste.
Essa rede compõe uma política de cidadania cultural que vem reorganizando a relação da secretaria com a periferia. Um trabalho também composto pelos programas VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) e VAI 2, pelo Agente Comunitário de Cultura, que premia cidadãos, e pelo programa Aldeias, voltado aos indígenas do município.
As periferias da capital foram uma de nossas prioridades e, por isso, insisti tanto na retomada da gestão das Casas de Cultura, na co-gestão das áreas culturais dos CEUs (Centros Educacionais Unificados) e em um novo modelo de gestão para o Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes.
Tudo isso é realidade hoje e assim conseguimos estender a rede de equipamentos culturais para as regiões mais afastadas do centro onde a presença do poder público é mais diluída.
Investimos também na excelência da programação do Theatro Municipal, conformando um modelo de gestão que tem se mostrado vitorioso. Essa gestão está resolvendo passivos trabalhistas e investindo em qualidade. Também administra a Praça das Artes, um complexo cultural maravilhoso que tem recebido exposições concorridíssimas.
Haveria mais por enumerar. Mas paro por aqui. Fernando Haddad e Nabil Bonduki sabem que têm em mim um parceiro. E São Paulo que tem em mim mais um baiano que lhe curte numa boa.
JUCA FERREIRA, 66, é ministro da Cultura, cargo que já ocupou entre 2008 e 2010. Foi secretário municipal da cultura de São Paulo.
Fonte: Artigo publicado em 10.2.2015 no jornal Folha de S.Paulo

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Play list: Musica de Sergipe para exportação

 Sergipe's Finest - Music From Sergipe (CD1)

by Disco de Barro

 Ouça AQUI

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Serigy All​-​Stars

by Vários

Ouça AQUI

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Sergipe's Finest - Music From Sergipe (CD2)

by Disco de Barro

Ouça AQUI

O Portal do Som (3) - Sergipe para exportação

blog o nordeste .com - divulgação
Vista aérea de Aracaju

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE
29/8/2010 
MÚSICA SERGIPANA TIPO EXPORTAÇÃO
Mais uma noite de puro deleite estético/musical em 2010, vivida por mim, juntamente com muita gente “bonita” como disse uma das pessoas que nos acompanhou na Cantoria, organizada pelo grupo de forró Casaca de Couro no restaurante O Paiol em uma noite de sexta-feira (20/08).

O time bem escalado para aquela noite, foi composto de quatro violeiros sergipanos: Muskito, Sena, Joaquim Ferreira e Nino Karvan, participaram também o poeta popular João Brasileiro, o percussionista Tom Toy e os violeiros convidados Josino Medina (Vale do Jequitinhonha), Dinho Oliveira (Vitória da Conquista) e Paulinho de Jequié.

Uma apresentação que me chamou a atenção foi a do cantador do vale do Jequitinhonha, Josino Medina, que traz um som de viola, de dupla matiz sonora, do nordeste e do sudeste, fruto da localização do vale do Jequitinhonha e a de Nino Karvan, que trouxe um toque urbano, agregando novidade ao estilo. Momento emocionante foi todos juntos cantados clássicos como Romaria (Renato Teixeira) e Cio da Terra (Chico Buarque e Milton Nascimento).

No final, para dançar, o autêntico forró do grupo Casaca de Couro, o qual não ficou nada a dever as noites em que o grupo se apresentou no Complexo Cultural “O Gonzagão” nos anos de 2007, 2008 e 2009. Considerado, conforme pesquisa junto ao público presente, como um dos três melhores pé de serra da programação organizada quando estivemos a frente daquela tradicional casa de forró.

Tenho ótimas lembranças sonoras de outras noites em 2010. Noites nas quais aconteceram quando estivemos presentes ao show da Patricia Polayne em duas ocasiões, em uma concha acústica da UFS e no pub Capitão Cook, “o que é bom é para ser visto e revisto”.

E para completar, também estivemos presente no surpreendente show de lançamento do CD de Pantera e em uma noite de apresentação do Maria Scombona antecedendo a entrada da Fernanda Takai no Festival de Verão.

Outra noite memóravel foi aquela da gravação do DVD da dupla Chico Queiroga & Antônio Rogério Mesmo não estando presente, pude captar através do DVD as boas energias, ou as “vibrações positivas” repetindo o bordão de um empresário e politico sergipano ligado ao segmento da cultura de massa baiana.

Uma característica que me empolgou em todas elas, daí o titulo deste artigo, foi o alto grau da qualidade da produção, tanto da parte dos artistas e músicos, como da área técnica, em especial quanto ao som e iluminação.

Também gosto do estilo das composições da Patricia, do Chico&Rogério, do Edelson Pantera e do grupo Maria Scombona pelo fato de serem músicas de gente daqui, mas que sabe incorporar outras matizes sonores. E através disso compor uma interação estética bastante criativa de elementos locais com outras vertentes da musicalidade nordestina, brasileira e universal.

Ao contrário, as músicas de cantoria, também me atraem pela aproximação que esse estilo de música guarda com relação às raízes populares, notadamente do interior nos proporcionando manter conexões bem profundas com o sertão que está dentro de nós e que está em toda parte, como disse Guimarães Rosa.

E é bom que seja assim, é bom poder apreciar música sergipana de alto nivel e cujo sonoridade, ritmos e letras trate das nossas questões, em sintonia com o que circula pelas antenas por sobre as nossas cabeças.

Como também aquelas que nos sintoniza com as antenas que estão dentro da gente, em especial com aquilo que nos vincula a terra, as águas, aos animais, as plantas, aos mitos , aos modo de pensar e viver dos nossos antepassados que viveram ou que ainda vivem no campo.

A esse propósito, o restaurante O Paiol em funcão de estar em um espaço cujo verde é um componente bem presente, além da terra e a circulação do ar, proporcionada pelo fato da área coberta não ocupar todo o terreno. Isso me pareceu um elemento muito importante para a composição do cenário e do clima.

Algo que me lembrou a contribuição que o mar proporcionava ao sucesso da casa de forró Candeeiro que, durante alguns anos funcionou sob as areias e circundadas pelos coqueiros da Praia de Aruana.

CADA SOM PUXA UMA LEMBRANÇA
No show da Patricia Polayne realizada em uma concha acústica rodeada por grama e árvores dentro da UFS também senti a natureza como uma parceira importante para o sucesso da noite. O elemento cênico em termos de figurino e adereços, a percussão, bem como os movimentos corporais e faciais da cantora foram muito importantes para o sucesso do show.

Muito bom e evidente perceber nas composições e nos arranjos, referências do movimento musical conhecido como Mangue Beat .

Quanto ao show do Pantera a minha surpresa foi assistir ao show de um artista sergipano, com um sonoridade que em alguns momentos me transportou para um tempo e um lugar diferente de onde eu estava, cidades velhas, gente simples, bairros antigos, com crianças brincando, pessoas na calçada, árvores no quintal, frutas colhidas no pé.

Sensações iguais quando ouço algumas músicas do Chico Buarque, do Ivan Lins, de Caetano e Gil, do Boca Livre, e principalmente do Milton e de seus companheiros do clube da esquina ou das composições instrumentais do Wagner Tiso e do Egberto Gismonti.

E sobre a influência do som do Clube da Esquina na obra de Pantera: foi a surpresa mais agradável daquela noite. A produção, em matéria de arranjos, ficou a cargo de Toninho Horta que também se fez presente como músico, tendo sido homenageado por Pantera em uma composição totalmente dedicada ao Toninho.

IMPACTOS POSITIVOS
Percebi no material de divulgação dos shows, Cds e Dvds da Patricia Polayne e do Chico & Rogério a marca do Governo Federal através do Projeto Pixinguinha. Isto possibilitou a melhoria do padrão de qualidade técnica e artística, no caso dos arranjos e da qualidade da gravação, tanto em aúdio com em video, bem perceptível para quem esteve presente aos shows e/ou que adquiriram o material gravado.

Este fato, aliado aos outros programas de fomento e incentivo a cultura demonstra o impacto positivo que isso está proporcionando para a cadeia produtiva da música.

Para que isto se amplie e se consolide espero que as universidades invistam em estudos e pesquisas sobre os impactos culturais, econômicos e sociais e certamente com o estimulo financeiro dos governos estaduais e federal, através dos bancos oficiais e com recursos diretos do Ministério da Cultura, muito mais poderá ser realizado neste campo.

Outro aspecto urgente em termos políticos é a democratização do acesso. E uma forma de realizar essa democratização é possibilitar a mais universidades públicas e entidades da sociedade a concessões de canais de rádio e tvs.

Aqui em Sergipe a entrada no ar da Rádio UFS, bem como a reformulação da programação da Rádio Aperipê e Aperipê TV , com a chegada dos novos gestores que assumiram em função da vitória do governador Marcelo Deda (PT) no ano de 2006, está possibilitando um ganho muito promissor para artistas sergipanos, cujas músicas dispunham de pouco espaço para chegar ao público.

Para concluir, é muito importante mais investimento na circulação de espetáculos artísticos e oficinas culturais na rede de escolas e universidades públicas.

Essa medida é imprescindível para ajudar tanto na formação de platéia, como para ajudar a tornar a escola um espaço mais completo em termos educativos. Afinal, como sabemos, nos tempo atuais uma escola que não interaja com a cultura brasileira, não atende completamente aos saberes e fazeres necessários para a educação do futuro.

Do contrário, ruim para a cultura, cujo lixo cultural continuará ganhando cada vez mais corações e mentes. E pior ainda para a escola que continuará sendo um local, cujo interesse e satisfação será cada vez menor em relação aquele proporcionado pela televisão e pela internet.

Como estamos em época de eleições, eleger ou reeleger governos e parlamentares comprometidos com estas bandeiras é tarefa de todos nós. Disso depende a viabilização de condições para que muito mais brasileiros possam se deleitar de prazer em termos estéticos/culturais, com reflexos positivos para a educação, para a economia, para a saúde e para a segurança pública.

P.S: (1)Na última viagem que realizei a Belém do Pará, em julho, pela primeira vez levei CDs de música sergjpana para presentar aos organizadores de um congresso internacional de arte-educação e para parentes que moram na região. No primeiro caso utilizamos CDs doados, além de livros, folhetos sobre turismo e cultura de Sergipe. No segundo caso, custeamos as despesas de aquisição, favorecido pelo preço acessível proporcionado pela apoio do Projeto Pixinguinha a tiragem do trabalho do Chico&Rogério e da Patricia Polayne. O que nos motivou, entre outras razões, está descrito no titulo e em toda a argumentação

(2) Clique abaixo para conferir experiências exitosas da parceria escola e grupos/linguagens artísticas.


Circuito Escolar Maria Scombona

Projeto Estatuto da Criança e do Adolescente com Arte.


Infelizmente muito aquém do que necessitamos. O que fazer para que o MEC e o MINC,bem como as respectivas secretarias de educação e cultura dos estados e municípios dialoguem para que isto seja ampliado dentro do universo escolar? Que tal Pontos de Cultura Itinerantes voltados para a promoção de oficinas/seminários para professores e alunos e a circulação de espetáculos no seio das escolas?

Caso você seja um participante ou conhecedor de iniciativas que façam interagir escolas com grupos/linguagens artísticas, disponibilize o link em "comentários" .

(3) - Confira um exemplo da repercussão de um show da Patricia Polayne no dia 24/08 em Sampa.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Play list - Odair José "legítimo representante da MPC - música que o povo canta."

  

    

Facebook -  https://www.facebook.com/odairjosemusical

 https://www.facebook.com/odairjoseoficial

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 A carreira do cantor e compositor que no auge do sucesso dividiu palco com Caetano Veloso.

Eduardo Weber 11/09/13 17:23 - Atualizado em 11/09/13 17:35

Detalhe da capa do LP "Odair José" (1989). (Reprodução)
Odair José nasceu em Morrinhos no interior de Goiás, mas foi no Rio de Janeiro que, nos anos 70, se tornou um legítimo representante da MPC – música que o povo canta. Dono de hits que deixaram a censura de cabelo em pé, ele ficou conhecido, entre outros títulos, como o Bob Dylan da Central do Brasil. Mas sempre derrubando preconceitos.

Odair José de Araújo, seu nome de batismo, foi um dos compositores mais visados pela censura federal durante o regime de 1964. Não por razões políticas, mas o motivo era por questões comportamentais, caso da música “Uma vida só”, popularmente conhecida pelo refrão: “Para de tomar a pílula, porque ela não deixa nosso filho nascer”.

A música de Odair José que tanto sucesso fazia no rádio, também incomodou a Igreja, chegando a ser excomungado pela canção “O filho de José e Maria”.

O Estúdio F focaliza a carreira do cantor e compositor que no auge do sucesso dividiu palco com Caetano Veloso, a pedido desse, e anos depois teria suas músicas gravadas por bandas alternativas, como a Vexame, e mais recentemente regravações produzidas por Zeca Baleiro.

No repertório do programa estão “Essa noite você vai te que ser minha”, “Viagem”, “Minhas coisas” e “Eu vou tirar você desse lugar”.

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Estúdio F
Odair José

Apresentado na Rádio Cultura Brasil em 24 de agosto de 2013
Apresentação: Paulo César Soares
Produção: Rádio Nacional - Rio de Janeiro

Ouça AQUI 

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Lei cultura viva, comissão estadual dos Pontos de Cultura, as recentes nomeações dos cargos de secretário e ministro da cultura. No Programa Rua da Cultura deste sábado.


Programa Rua da Cultura

Programa Rua da Cultura acontece na Aperipê 104,9 fm todos os sábados, das 17h às 19h. Com muitas entrevistas, humor, diversão e entretenimento.
Acesse o programa pela internet... http://www.aperipe.com.br/
O programa deste sábado (07/02) estará tratando do programa Cultura Viva, agora transformado em politica de estado com a aprovação da Lei Cultura Viva pelo Congresso Nacional, a Comissão Estadual dos Pontos de Cultura, nomeação do novo secretário e do novo ministro da cultura, a  realidade dos Pontos de Cultura em Sergipe e outras questões afins, como a aprovação da Lei que cria o marco legal das organizações da sociedade civil e a campanha pela iniciativa popular da lei da midia democrática. Para falar sobre o assunto estará presente, Zezito de Oliveira, professor, produtor cultural,  blogueiro e integrante da nova comissão estadual dos Pontos de Cultura de Sergipe, eleita m 2014.
.  "Cadê os fogos de artifício, cadê as buzinas dos automóveis ecoando pelos labirintos da cidade, as pessoas conversando na padaria que o Projeto Cultura Viva foi aprovado? A cultura da participação política e engajamento nas questões que versam para todos é importante quanto comemorar os gols do Brasil. Pois a Lei Cultura Viva é uma Taça tão concreta quanto a do Hexa.
Depois de muita luta e pressão dos Pontos de Cultura, bem como de vários setores da Sociedade, a Lei Cultura Viva foi aprovada."
  
(Tihago Santana - Integrante da nova comissão estadual de Pontos de Cultura-SE).

Para saber sobre a Lei Cultura Viva e sobre a Teia Nacional dos Pontos de Cultura, clique AQUI

Sobre o Projeto de Lei que avança no novo Marco Regulatório para as OSCs, clique AQUI

PLAY LIST: PONTOS DE CULTURA 'CHEGOU A HORA DESSA GENTE BRONZEADA  MOSTRAR O SEU VALOR".























terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Nabil Bonduki na Cultura. Excelente escolha do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.


Entrevista

Nabil Bonduki quer uma nova cultura urbana para São Paulo: 'Melhorar sem excluir'

Urbanista que substitui Juca Ferreira na Secretaria Municipal de Cultura foi bem aceito por coletivos culturais da periferia, especialmente pela criação do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais, o VAI
por Gisele Brito, para a RBA publicado 25/01/2015 09:56
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Divulgação
Nabil Bonduki
'O VAI é um projeto fundamental para a cidadania cultural, especialmente para jovens e produtores de fora do circuito'
São Paulo – Urbanista, autor de diversos livros sobre moradia e relator dos últimos dois planos diretores da maior cidade do país, Nabil Bonduki, de 59 anos, foi escalado para assumir a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Ele substitui Juca Ferreira, que reassumiu o Ministério da Cultura.
Apesar de Bonduki não ter proximidade com grupos de ativismo cultural, como o antecessor, sua nomeação foi recebida com tranquilidade por diversos setores. As ponderações se deram mais em função de sua saída da Câmara dos Vereadores de São Paulo, onde era considerado referência em temas de planejamento urbano.
Eleito pela primeira vez em 2000, não conseguiu se reeleger em 2004, o que deixou um vácuo na capacidade do Legislativo da cidade na área de política urbana durante as gestões José Serra (PSDB, 2005/2006) e Gilberto Kassab (2006/2012, ex-DEM, atual PSD). Em 2014, no entanto, sua eleição foi encarada como fundamental por movimentos de moradia e setores universitários, que se empenharam para elegê-lo.
Nabil deixa a casa depois de conduzir a reformulação do Plano Diretor Estratégico (PDE), considerado progressista. E já estará fora quando vierem votações importantes, como a do Código de Obras e da Lei de Zoneamento, que têm potencial para consolidar ou descaracterizar o plano. “Toda escolha produz perdas e ganhos”, resigna-se. Mas diz que continuará nos debates.
Os possíveis ganhos podem vir das qualificações do urbanista, que não cai de paraquedas na pauta cultural. Nabil teve influência nas negociações pela reabertura do Cine Belas Artes, no ano passado, depois que o espaço alugado perdeu o patrocínio de um banco e quase foi substituído por uma loja de departamentos.
Temos circuito cultural, carnaval, São João, manifestações da igualdade racial, Dia do Samba. Tudo isso faz com que não haja concentração. A Virada não é evento único. É um entre vários
Em seu primeiro mandato, também conseguiu aprovar a lei que criou o Programa de Valorização de Iniciativas Culturais, o VAI, um dos mais sólidos e bem-sucedidos programas de fomento a grupos culturais e artísticos de jovens que vivem na periferia. O VAI, expandido no ano passado graças a outra lei também de sua autoria, é apontado como um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da efervescência das quebradas.
A distribuição dos recursos da Cultura por territórios vulneráveis, o incentivo a um circuito não comercial de arte, o estímulo à juventude de baixa renda a buscar oportunidades na chamada “economia criativa”, como produtores de música, dança, teatro e outras expressões artísticas estão entre os desafios postos ao novo secretário. Bonduki fala em mudar a “cultura urbana”, algo que ele já vê em curso com a criação da zona rural na cidade e com a priorização do transporte coletivo e de bicicletas pela administração do prefeito Fernando Haddad (PT).
No ambiente do aniversário de 461 anos de São Paulo, Nabil Bonduki concedeu entrevista exclusiva à RBA e à Rádio Brasil Atual. Falou sobre a nova função e as complexidades da cidade e as expectativas para o futuro. Apesar das esperanças de que a capital paulista possa melhorar na esteira das mudanças propostas pelo Plano Diretor, o urbanista teme o cenário que pode vir a tomar conta da cidade, em função da falta de água.
Segundo ele, o sistema de abastecimento se "estressou demais" (por falta de investimentos). “Nós estamos próximos de viver uma situação que nós nunca vivemos. Nunca tivemos uma catástrofe no Brasil, como vulcão, tsunami. Tivemos problemas localizados. E em São Paulo, 20 milhões de pessoas sem água é catástrofe.”
Leia trechos das conversas abaixo e ouça aqui a íntegra do programa especial que foi ao ar na sexta-feira (23).
Para o senhor, que é urbanista com vasta experiência e bibliografia na área de planejamento e habitação, como é assumir a Secretaria de Cultura?
Tenho experiência de gestão pública, o que permite trabalhar em várias frentes, e tenho trabalhado muito na área de cultura em vários aspectos, por exemplo, patrimônio. Sou, inclusive, autor de um livro sobre o assunto (Intervenções Urbanas na Recuperação de Centros Históricos, editado pelo Instituto do Patrimônio Histórico). Existe uma relação muito forte entre cultura e cidade. Não é uma coisa distante das minhas preocupações. Além disso, ajudei a desenvolver várias políticas em cidadania cultural. Como a lei de incentivo ao cinema de rua, ao teatro, o programa VAI 1 e 2. Temos toda uma discussão sobre a cultura na cidade, artistas de rua, relação entre cultura e espaço público. Me sinto muito confortável nessa área para pensar de forma transversal, como estamos fazendo desde o Plano Diretor, a busca de uma nova cultura urbana.
Coletivos culturais da periferia se mostraram otimistas com a sua nomeação, especialmente pela sua relação com o VAI. Pode haver uma inversão da lógica de investimentos nas políticas culturais na cidade?
Temos de trabalhar com a ideia de melhorar sem excluir. Se melhorar significa alguma valorização, temos de evitar que gere gentrificação. E também de evitar a valorização expulse atividades culturais que já existem
Acho que não significa uma inversão. O VAI é um projeto fundamental para a cidadania cultural, principalmente para os jovens e produtores que estão fora do circuito. Por outro lado, isso não significa que temos de abandonar a cultura dita mais erudita. Ou seja, poder ter o espaço para o teatro municipal, as grandes produções líricas. As duas coisas são válidas.
No início da gestão Juca Ferreira houve grande demanda para que as casas de cultura, espaços presentes em vários bairros periféricos, voltassem a estar sob gestão da Cultura e não da Secretaria das Subprefeituras. Isso já ocorreu?
Elas foram passadas para a Cultura, mas ainda vai ser necessário fazer uma análise. Elas estão muito precárias para ser postas em uso, tanto em termos de estrutura como de corpo artístico. É preciso fazer uma análise para recuperar isso. A ideia é que elas façam parte do sistema de cultura. Elas podem compor a rede de cinemas de rua que iremos criar, por exemplo. Pode ser que o que é uma casa de cultura hoje se torne um grande centro cultural.
Também persiste a crítica da concentração de eventos durante a Virada Cultural. Isso muda?
A gente pode garantir eventos de cultura espalhados pela cidade toda, ao longo do ano todo. E acho que já está em curso isso. Temos um circuito cultural, o carnaval, o São João, novembro, com as manifestações da igualdade racial, o Dia do Samba (2 de dezembro). Tudo isso faz com que não haja concentração apenas na Virada. Ela não é um evento único. É um entre vários que a secretaria promove. Acho que essa parte é bastante importante, garantir que a coisa avance além do que foi no passado. Isso já começou a mudar com a gestão do Juca.
A cultura usada como artifício de valorização de determinados lugares provoca a expulsão dos antigos moradores; e a gentrificação foi muito debatida no Plano Diretor. Essa é uma preocupação da sua gestão?
A gente não pode trabalhar com a lógica de que não se pode melhorar a cidade para que não haja valorização. Temos de trabalhar com a ideia de que é possível melhorar, sem excluir. Se não, estaremos mal. Trabalhar para melhorar. Se isso significa algum tipo de valorização, temos de evitar que isso gere gentrificação.
Precisamos compatibilizar os eventos e a vida na cidade. Carnaval é manifestação popular. Não podemos reprimir. Seria um crime. Mas precisamos garantir condições para quem não quer participar
É nessa linha que eu quero atuar. Agora, o que temos de evitar ao máximo é que o contrário ocorra: que a valorização de um determinado lugar expulse as atividades culturais que já existem. Isso tem ocorrido hoje, principalmente com os teatros. Para isso, o plano diretor criou as Zonas Especiais de Preservação Cultural (Zepec) e as Áreas de Preservação Cultural, que protegem as atividades culturais e artísticas. Um dos meus objetivos principais é regulamentar esses dois mecanismos ainda neste ano.
A Virada e o carnaval de rua cresceram muito e agora provocam críticas de quem mora nos bairros onde ocorrem os shows e desfiles de blocos...
Precisamos garantir e compatibilizar os eventos culturais e a vida na cidade. O carnaval é uma manifestação cultural do povo. Não podemos matá-lo ou reprimi-lo. Seria um crime. Mas precisamos garantir condições para quem não quer participar. Isso não é uma questão só nossa. Rio, Recife, Salvador têm carnaval. Mas acho que ter infraestrutura é fundamental, ter trajetos, garantir que não se prolongue a festa fora dos horários estipulados.
Mas levá-lo para locais fechados é uma opção?
O carnaval de rua é muito mais espontâneo. Não é adequada a exploração comercial. Acho que é importante que se mantenha sendo algo ligado à cidadania cultural, e não aos negócios.

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Prefeitura de São Paulo incentiva a cidadania cultural

Nabil Bonduki, arquiteto, urbanista, ex-vereador e novo secretário municipal de cultura, em entrevista exclusiva ao jornalista Oswaldo Luiz Colibri Vitta, fala sobre o plano diretor, a crise hídrica e seu amor pela cidade que comemora 461 anos de sua fundação. Além disso, ele fala dos desafios à frente da pasta. (Na foto: Nabil Bonduki)

Ouça AQUI

Juca se despede da Secretaria de Cultura de São Paulo

A cerimônia de transmissão de cargo teve participação do prefeito Fernando Haddad; do secretário interino da Cultura, Guilherme Varella; do presidente da Câmara de vereadores de São Paulo, Antônio Donatto; da vice prefeita da cidade, Nadia Campeão; do secretário de Governo municipal, Chico Macena; e do secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Marcelo Araújo. (Foto de Thaís Mallon)
3.2.2015 - 15:40
O ministro da Cultura, Juca Ferreira, participou na manhã da terça-feira (3/2) da cerimônia de posse de Nabil Bonduki, seu sucessor na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Foi uma oportunidade para Ferreira agradecer seus colaboradores dos últimos dois anos e fazer um balanço de ações em sua passagem pela maior cidade brasileira.
Uma das principais iniciativas de Juca Ferreira foi o canal de diálogo com a sociedade, aberto em sua gestão a partir de 2013: "Fui a lugares que dificilmente um Secretário de Cultura vai. Consegui dialogar com todos os seguimentos. Tive muito carinho pela cultura que se faz nas periferias da cidade".
A secretaria realizou, por exemplo, o #ExisteDiálogoEmSP, uma série de encontros gerais, setoriais e territoriais com movimentos culturais de toda a cidade para mapear demandas e propor um rumo para as políticas públicas. Agora de volta ao ministério, Juca Ferreira realiza as Rodas de Conversa, como a que ocorreu no dia de sua posse, em 12 de janeiro.
Na cerimônia desta terça, Juca Ferreira fez uma breve fala de agradecimento a todos que estiveram ao seu lado na secretaria. O agradecimento mais especial se destinou à população de São Paulo: "Quero agradecer a cidade. Fui muito bem recebido. Trabalhei intensamente, tratei a população com respeito e fui muito bem acolhido".
O ministro da cultura ainda exaltou a confiança e todo o apoio que recebeu do prefeito paulistano Fernando Haddad. Também agradeceu os funcionários e dirigentes da secretaria municipal de Cultura. A Câmara de Vereadores, segundo ele, teve muita sensibilidade para questões e movimentos culturais da cidade.

Avanços

Entre algumas ações marcantes da gestão de Juca Ferreira em SP, estão o tombamento do Samba Paulista; a descriminalização do funk e das festas onde é tocado este gênero musical; o estímulo a artes como o grafite; a criação da Spcine; a reativação do tradicional Cine Belas Artes; a legalização e organização do carnaval de rua paulistano; o investimento na programação do Theatro Municipal da cidade, as parcerias com outras secretarias da prefeitura como na realização dos editais Redes e Ruas para a ocupação de espaços públicos da cidade com cultura digital.
Juca ressaltou o conhecimento amplo que Nabil Bonduki tem da cidade, a capacidade de trabalho e a proximidade com a cultura. "Tenho confiança em Nabil".
O novo secretário retribuiu as palavras. "No período em que Juca esteve na secretaria, conseguimos avançar muito. Quero que estes avanços se consolidem e que possamos fazer o que ainda está por fazer".
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, disse que convidou Ferreira para a Secretaria de Cultura de São Paulo porque queria uma "mudança de mentalidade, comportamental" na cidade. Segundo ele, para isso acontecer "a cultura tem que ter transversalidade com todas as ações da prefeitura".
Haddad afirmou que a trajetória de Juca Ferreira ao lado do então ministro Gilberto Gil foi decisiva no momento em que ele escolheu o responsável pelas políticas culturais na cidade.
A posse de secretário foi acompanhada por um grande número de representantes políticos e de movimentos culturais. Ao lado de Ferreira e Bonduki, estiveram na cerimônia o prefeito Haddad; o secretário interino da Cultura, Guilherme Varella; o presidente da Câmara de vereadores de São Paulo, Antônio Donatto; a vice prefeita da cidade, Nadia Campeão; o secretário de Governo municipal, Chico Macena; e o secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Marcelo Araújo.
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura

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Nota de esclarecimento

31.1.2015 - 11:14
A mais recente edição da IstoÉ (n. 2357) traz uma longa entrevista com o ministro da Cultura, Juca Ferreira, na qual estão inseridas algumas palavras não ditas pelo ministro na conversa que teve com a jornalista da revista, no dia 23/01.
Uma das frases publicadas resultou no título da entrevista e criou uma afirmação inverídica do ministro em relação à sua antecessora no ministério. Fiel ao seu princípio de discutir ideais e não pessoas, em nenhum momento da entrevista o ministro Juca Ferreira adjetivou a pessoa da ex-ministra.
A revista publicou o seguinte trecho em resposta à terceira pergunta:
"O 'Canal 100', um marco do filme reportagem, que tem uma linguagem de cobertura do futebol de importância histórica reconhecida, é também questionado ali pela falta de licitação na sua aquisição pela Cinemateca. Que uma pessoa ligada a um órgão de proteção do Estado questione uma aquisição do tipo é kafkiano, mas compreende-se. Agora, que uma ministra da Cultura respalde isso para atacar outra pessoa, eu acho um escândalo. O resto a CGU vai mostrar que são ajustes de procedimento. Não se contribui para elevar o nível da política pública brasileira com acusações infundadas. Marta Suplicy é uma irresponsável."
Na verdade, no encerramento da fala original, conforme registrado na gravação da entrevista, o ministro diz o seguinte: 
"... É isso, então, quer dizer, não se contribui para elevar o nível da política brasileira e do ambiente público com acusações irresponsáveis."
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura
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Juca Ferreira - Entrevista a revista Isto É

"Marta Suplicy é uma irresponsável"
Alvo de ataques da ex-ministra da Cultura, o sociólogo baiano reassume a pasta decidido a aumentar o seu orçamento, que considera esquálido, reformar as leis de direitos autorais e investir em arte popular e na geração digital
por Ana Weiss (ana.weiss@istoe.com.br)

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RETOMADA
O ministro da Cultura, Juca Ferreira, volta ao
cargo que ocupou no segundo mandato de Lula 


Juca Ferreira (PT), 65 anos, comandou o Ministério da Cultura por dois anos e meio, de 2008 a 2010, no segundo mandato de Lula. Cinco anos antes, atuou como secretário-executivo, no MinC, na gestão de Gilberto Gil. Convidado no fim do ano passado pela presidente Dilma Rousseff para retomar a função, cruzou a mira de Marta Suplicy. A senadora apresentou documentos à Controladoria-Geral da União que apontam irregularidades na Cinemateca Brasileira, órgão do MinC, na primeira gestão de Ferreira como ministro.“O processo nos acusa, por exemplo, de comprar a obra de Glauber Rocha sem licitação. Ela deveria saber que não existem dois ‘Glaubers’ para se fazer comparação de preço”, diz o sociólogo baiano. Para voltar ao ministério, Juca Ferreira deixou a Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, agora ocupada pelo arquiteto Nabil Bonduke, também do Partido dos Trabalhadores.

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"Sinto-me agredido. Ela (a senadora Marta Suplicy) tem todo o direito
de desistir do partido no qual ela milita e sair para o debate,
mas em sua desistência não pode bulir com a honra alheia"


Conhecido por suas críticas às leis de incentivo fiscal no fomento à cultura e pela defesa da flexibilização da regulação de direitos autorais, Ferreira pretende ampliar a atuação do ministério nos municípios e incrementar o apoio às manifestações populares e socioeducativas em detrimento do cinema, que considera uma área provida de investimentos “robustos”. À ISTOÉ, ele afirma que, apesar dos ajustes orçamentários, conta com a ampliação da participação do Ministério da Cultura no orçamento da União para 2%. Em 2014, a parte do bolo foi de R$ 3,28 bilhões, o correspondente a 0,13%. Há duas semanas no cargo, tem em andamento o projeto que celebrará nos próximos sete anos o centenário da Semana de Arte Moderna de São Paulo e um novo nome no comando da Funarte, o filósofo Francisco Bosco, filho de João Bosco.
ENTRE-03-IE.jpg
"Vou solicitar ao Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires)
a tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, durante a programação
nacional em torno da Semana de Arte Moderna de 22"


Fotos: Pedro França/MinC; André Borges/Folhapress 
Istoé - Nos documentos que a senadora Marta Suplicy enviou à Controladoria-Geral da União, apontam-se irregularidades em licitações da Cinemateca Brasileira durante a sua primeira passagem à frente do MinC. Qual é a sua defesa?
Juca Ferreira -
Não se ataca a honra de uma pessoa íntegra que tem 47 anos de vida pública sem um deslize sequer. Sinto-me agredido. Ela tem todo o direito de desistir do partido no qual ela milita e sair para o debate, mas em sua desistência não pode bulir com a honra alheia. 
Istoé - Mas em relação às acusações em si, o que o sr. diz?
Juca Ferreira -
O processo enviado À CGU nos acusa por exemplo de comprar a obra de Glauber Rocha sem licitação. Queria conhecer uma cinemateca no mundo que se furtasse a adquirir, para preservar e disponibilizar para o público, os filmes de seu maior cineasta. Gastamos R$ 3 milhões neste tesouro. É muito menos do que custa produzir muitas dessas comédias que estamos fazendo hoje no Brasil. Não existem outros Glaubers Rochas para que pudéssemos fazer essa licitação a que a senadora se refere. Proponho um exercício: experimentemos, só para que possamos ter dados de comparação, a venda da obra de Glauber para outras cinematecas do mundo para saber quanto pagariam. A CGU ainda está em processo de investigação e em breve ficará claro que não houve nem há nenhum dolo na gestão da Cinemateca. Coloco minha mão no fogo por todas as pessoas da equipe envolvidas nas acusações.
Istoé - O sr. contesta mais algum ponto do documento enviado pela senadora à CGU?
Juca Ferreira -
O “Canal 100”, um marco do filme reportagem, que tem uma linguagem de cobertura do futebol de importância histórica reconhecida, é também questionado ali pela falta de licitação na sua aquisição pela Cinemateca. Que uma pessoa ligada a um órgão de proteção do Estado questione uma aquisição do tipo é kafkiano, mas compreende-se. Agora, que uma ministra da Cultura respalde isso para atacar outra pessoa, eu acho um escândalo. O resto a CGU vai mostrar que são ajustes de procedimento. Não se contribui para elevar o nível da política pública brasileira com acusações infundadas. Marta Suplicy é uma irresponsável.
Istoé - Como o sr. pretente aprovar a PEC da Cultura, que elevaria para 2% a participação do MinC no Orçamento da União, em um momento em que o governo fala em enxugamentos?
Juca Ferreira -
A nossa proposta é uma redistribuição das verbas públicas. Ministérios mais frágeis e que têm um orçamento muito aquém da necessidade não podem sofrer o mesmo índice de corte de outros que são bem dotados de orçamentos e até têm gorduras que podem perder. O Ministério da Cultura, sob o ponto de vista orçamentário, é esquálido. A presidente sabe disso. Precisamos de condições para atender a toda a demanda.
Istoé - O sr. acredita então que o MinC será poupado nos cortes?
Juca Ferreira -
Acredito e vou lutar por isso. Pouco mais de 0,1% do Orçamento é muito pouco para a Cultura. A PEC prevê 2% e vamos chegar a esse patamar. Acho que podemos pensar em um aumento progressivo em quatro ou até mais anos. Essa proporcionalidade que herdamos era fruto de outro conceito de governo. Um governo inovador tem de abolir as antigas proporcionalidades. No governo Lula fizemos uma reforma que agora precisa ser revista.
Istoé - Na véspera da sua posse, corriam boatos de que o sr. estaria contratando integrantes do coletivo Fora do Eixo (rede independente de artistas e produtores que tem como principal plataforma as redes sociais) para sua equipe. Sua equipe está definida?
Juca Ferreira -
Pretendo anunciar minha equipe assim que terminar o Carnaval. Tendo dito isso, não tenho preconceito de trabalhar com redes e coletivos. Vivemos o fim de um ciclo da nossa democracia e essa juventude representa e é parte dessa renovação.
Istoé - Algum convite que já tenha sido aceito?
Juca Ferreira -
Sim, para a presidência da Funarte. A Fundação Nacional de Artes será um dos focos mais fortes desta gestão. Sua presidência estará a cargo de um jovem intelectual chamado Francisco Bosco (filósofo e escritor, filho de João Bosco).
Istoé - O que mudará na Funarte?
Juca Ferreira -
Vou me concentrar nas políticas para as artes em geral. E de maneira descentralizadora, para que uma região não concentre as atividades culturais e outra míngue. A Funarte pode ajudar nesse caminho. Pecisamos ter um órgão à altura da arte brasileira. O único setor da cultura que está hoje com as necessidades satisfeitas é o cinema. Políticas públicas para as linguagens artísticas não podem se resumir a fomento via repasse de verba pública. A cultura não pode ficar unicamente à mercê dos departamentos de marketing das empresas patrocinadoras em troca de descontos fiscais. 
Istoé - Então o cinema não é uma prioridade do ministério?
Juca Ferreira -
Não há necessidade. O cinema brasileiro hoje caminha bem. O MinC vai se envolver mais com a criação artística e as áreas do pensamento e da produção intelectual no Brasil. Em parceria com as universidades, pretendemos abrir processos de reflexão pública, como grandes seminários e programas de formação.
Istoé - Algum projeto em andamento?
Juca Ferreira -
Pretendo criar uma comissão nacional junto com São Paulo para a celebração do centenário da Semana de Arte Moderna. Vai ser um grande movimento nacional de resgate e reflexão sobre a construção de identidade. A Prefeitura de São Paulo tem interesse em criar uma comissão com a finalidade de começar os preparativos para esse importante marco em breve. Vou me associar a essa comissão e abrir isso o máximo.
Istoé -  Como isso chegaria à população?
Juca Ferreira -
Será tudo um processo aberto, do ponto de vista urbano e também digital. Com o suporte digital envolveremos milhões de pessoas, dentro e fora do Brasil.
Istoé - A Comissão de Constituição e Justiça do Senado adiou em dezembro a votação de projeto de lei que permite a publicação de biografias não autorizadas no País – a restrição é algo que só ocorre hoje em nações não democráticas. Qual a posição do ministério em relação a essa discussão em que se confrontam artistas como Roberto Carlos e Caetano Veloso e biógrafos?
Juca Ferreira -
Sou contra a necessidade de autorização prévia. A legislação já prevê punição para calúnia e difamação. Autorização prévia é algo muito próximo da censura. Acredito que em uma sociedade democrática essa exigência não deveria existir. Essa é minha opinião ­pessoal. Os biógrafos devem ter seus direitos de expressão garantidos como os autores de literatura. 
Istoé - Em seu discurso de posse o sr. disse que implementará a lei que prevê a supervisão do Estado sobre a gestão coletiva de direitos autorais. Como isso vai ocorrer?
Juca Ferreira -
É algo que já está em curso. Desenvolvemos um processo de quase seis anos, envolvendo diretamente mais de 60 mil pessoas, entre técnicos e especialistas, inclusive estrangeiros, e todos os setores interessados – o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), organizações de artistas, de fomentadores e de empresários da cultura. Foi uma discussão que visou valorizar a Cultura. Metade do que deixamos tramitando no Congresso já foi aprovada, a partir da CPI do Senado que investigou a questão da arrecadação e distribuição dos recursos. A outra metade é tão somente ligada à atualização ­tecnológica. Os avanços digitais enfraqueceram a indústria fonográfica. O trabalho agora é garantir que o direito autoral possa ser efetivo dentro do ambiente digital. A lei brasileira é de antes do videoteipe. Então, muitos criadores que têm as novas mídias como suporte têm sua criação desprotegida. Todos os autores no Brasil precisam ter sua remuneração por direito autoral garantida. Isso será feito.