quinta-feira, 7 de maio de 2026

Por que precisamos de Raimundo Pereira

 

Seus jornais vibraram com as lutas políticas e culturais que questionaram o Brasil nos anos 70, até derrotar a ditadura. O eco de suas criações estará presente quando o país perceber que deve resgatar o jornalismo. Em textos, três vivas ao seu legado.


Em 1971, aos 30 anos, Raimundo Pereira coordenou a edição épica da revista Realidade sobre a Amazônia. Eram tempos de fartura e paixão. Uma equipe de 12 jornalistas e fotógrafos brilhantes instalou-se na região por 6 meses, percorreu 148 mil quilômetros e produziu (depois de mais três meses de edição) 328 páginas legendárias. Levaram o Esso, então o prêmio mais importante e disputado na imprensa, e são até hoje objeto de estudo obrigatório nos cursos de jornalismo. Foi por meio delas (e dos 300 mil exemplares vendidos, num país de população 2,5 vezes menor que a atual) que, por exemplo, os Yanomami tornaram-se um assunto do debate nacional.

Três décadas depois, Raimundo comandava, numa sala na Rua Fidalga, zona oeste de São Paulo, a revista Reportagem — de escassa visibilidade e notável empolgação. Temas contemporâneos cruciais, como a perda de soberania energética ou o entrelaçamento do Minha Casa, Minha Vida com a especulação imobiliária, foram tratados pioneiramente lá, relata Leandro Saraiva. O trabalho diário de pesquisa era aberto, entre as 6h e as 10h, com uma prática denominada “desmonte do jornal burguês”, que não é possível descrever neste espaço. Mas apesar da ambição invicta, a equipe fixa do projeto era formada basicamente por estagiários. As tiragens eram exíguas; as agruras financeiras, constantes.


No intervalo entre Realidade e Reportagem, Raimundo conduziu as duas publicações mais emblemáticas na luta contra a ditadura militar — Opinião (1972-75) e Movimento (1975-1981). Inventou, quatro décadas antes do crowdfunding, a cotização dos leitores para sustentar a imprensa de forma independente. Produziu edições especiais regulares de seus jornais, gratuitas e em linguagem mais popular, para circulação e debate entre operários. Sonhou, ao menos a partir de 1981, com um jornal diário que enfrentasse as deformações da mídia de mercado, expressasse os grandes problemas do país e do mundo e ajudasse a orientar os que lutam para superar o capitalismo. Mais do que todas as suas centenas de trabalhos brilhantes, talvez seja essa sua maior contribuição — e certamente é a mais viva e atual. Ele expressou como ninguém a efervescência política e cultural que marcou o jornalismo brasileiro a partir da década de 1960; a ligação deste movimento com o grande ascenso das lutas sociais que marca o período entre 1974 e 1989; e a possibilidade, por enquanto abortada, de esta confluência ser parte de um novo projeto de país.

* * *

A emergência de um jornalismo crítico, inovador e literariamente refinado, no pós-1964, é um fenômeno que merecia exame historiográfico mais profundo. Antecede as mídias alternativas e é uma de suas raízes. Os militares liquidaram a Última Hora, de Samuel Wainer, que defendia João Goulart e tentava empurrá-lo à esquerda. Mas não foi capaz de sufocar a geração que o sucedeu, na luta contra o conservadorismo midiático. Realidade, lançada por uma Editora Abril que não se opunha à ditadura, mas dialogava com os movimentos contestatórios dos anos 1960, foi o grande núcleo desta agitação (vale ler, sobre estes anos, Cicatriz de Reportagem, de Carlos Azevedo).

Mas ela estava presente em diversas redações (inclusive dos jornais diários), onde atuavam profissionais como Claudio Abramo e Vladimir Sachetta. Mesmo sob os generais-presidentes, a repressão e mais tarde a tortura, a hegemonia cultural era de esquerda — na literatura, na música, no teatro e cinema e também no jornalismo. Não era possível eleger o presidente. Mas a juventude ligava-se aos festivais de MPB, denunciava a guerra contra o Vietnã, contestava os tabus sexuais ou envolvia-se com a UNE, as passeatas de 1968 e as greves operárias históricas desse ano, em Osasco (SP) e Contagem (MG).

A primeira singularidade de Raimundo foi ter percebido que as publicações progressistas da mídia comercial não sustentariam sua posição, diante do fechamento do regime; e, mais que isso, ter ousado, em condições muito adversas, tramar a virada, numa saída pela esquerda. Em Opinião, ele aliou-se ao empresário Fernando Gasparian, que fora presidente da Confederação Nacional da Indústria, cassado em 1964. Em Movimento, apelou ao público leitor. Em 1974, quando começou o esforço pelo jornal, a fase mais dura do terror ditatorial não havia passado. A campanha de levantamento de fundos, por meio da venda de “ações” da Edição S.A., mobilizou milhares de pessoas, que viam no gesto de apoio ao jornal uma forma de agir contra o regime.

Movimento nasceu sob a brutalidade da censura prévia. Os censores chegaram chegando, no sobrado da rua Virgílio de Carvalho Pinto, em São Paulo, onde funcionaria a redação, antes mesmo do primeiro número. Mas, apesar de mutilado, o jornal abordou edição após edição o que as velhas mídias preferiam omitir. A repressão. A desigualdade, que se mantinha em meio à “modernização” do país. A submissão externa, a financeirização e o rentismo, que engatinhavam, então sob a forma de “dívida externa”. As primeiras tentativas de entrega da Amazônia. Os avanços e limites da oposição institucional, expressa no MDB. Mas também o feminismo, os movimentos negros, as dissidências sexuais e de gênero. Movimento realizou, em seu projeto editorial, a frente de todos os insurgentes contra o regime e o conservadorismo.

A hegemonia cultural da esquerda tinha uma expressão jornalística. Movimento acompanhou de perto todas as conquistas políticas do ascenso popular iniciado em meados dos anos 1970. Os protestos contra o assassinato de Vladimir Herzog. A ebulição do Movimento Contra a Carestia, nas periferias de São Paulo. As primeiras manifestações de rua dos estudantes, em 1977. As greves operárias que abalariam a ditadura e transformariam o país, a partir do ano seguinte. A anistia, que esvaziou as prisões políticas e trouxe de volta os exilados, a partir do final de 1979. A reorganização das correntes de esquerda banidas, nesse mesmo período. Os primeiros sinais de que a ditadura não se sustentaria.


* * *

A segunda ousadia de Raimundo foi crer que a redemocratização abriria espaço para um projeto popular de país — e que um jornal alternativo diário seria parte do processo de formação de consciência e de mobilização contra a resistência das elites às mudanças. Em 1981, Movimento publica sua última edição, depois de sucumbir tanto a atentados a bomba praticados pela ultradireita quanto à fragmentação da frente que lhe dera vida. Mas o editorial do último número intitula-se “Movimento morreu. Viva Movimento”. E o texto é enfático: “Quanto mais combativa e decidida for a retirada, quanto melhor avaliarmos os resultados e tirarmos deles as consequências práticas necessárias, mais próximo estará um novo passo à frente”.

A partir de 1984, em meio à euforia da campanha pelas Diretas Já, Raimundo lança Retrato do Brasil, enciclopédia jornalística em fascículos que recupera o melhor da tradição de Opinião e Movimento e faz, a quente, um vasto balanço da ditadura. É, porém, apenas um passo transitório. O objetivo declarado é acumular forças para o jornal diário e a fase de grandes transformações e tensões que, imaginava-se, o Brasil viveria.

Nesse ponto, fracassaram tanto o projeto da publicação quanto o de país. Lançado em 1986, depois de enorme esforço financeiro, o Retrato do Brasil diário durou poucos meses. O impulso por um jornalismo transformador, que marcara os anos 1960 e 70, arrefecera. A redação do Retrato era uma sombra pálida dos ambientes de criação, debate e busca de profundidade que haviam marcado desde Realidade a Movimento. Os jornais comerciais, sempre vazios de conteúdo, enchiam-se de cores. A publicação de Raimundo, ao contrário, era composta em linotipo e impressa nas oficinas precárias e envelhecidas do Diário Popular. A falência sobreveio rápido.

No Brasil, o ciclo das grandes lutas sociais iniciado 15 anos antes começou a arrefecer no mesmo período. A Constituição de 1988, que é fruto deste ascenso e assegurou, no papel, conquistas sociais inéditas, foi atacada desde sua promulgação. A vitória apertadíssima de Fernando Collor sobre Lula e Brizola, um ano depois, abriu a noite neoliberal da qual o país ainda não despertou. O embrião de Estado Social estabelecido pela Carta foi sabotado pelo desfinanciamento permanente das políticas públicas e pela busca de “ajustes fiscais” favoráveis aos rentistas, que perduram.

* * *

De 1986 até pouco antes de falecer, Raimundo lutou e produziu em condições desfavoráveis. Incansável, lançou a Oficina da Informação (em 1995), a revista Reportagem (em 1988), uma nova série de fascículos de Retrato do Brasil — denominada “Da ditadura militar à ditadura financeira” (em 2005) e outra revista, com o mesmo nome da coleção, a partir desse ano. Ao mesmo tempo, colaborou com Carta Capital, Caros Amigos e Piauí, entre outras publicações.O velho sonho do diário alternativo nunca o abandonou. O desmonte do jornal burguês, que ele construía em teoria e executava na prática, dia após dia, era a semente de futuro que queria preservar.

A mídia comercial decaiu como nunca. O cerne de seu projeto — fazer da informação pública e do debate dos grandes temas mercadorias, em vez de um direito — naufragou tanto diante da democratização da internet quanto, mais tarde, da tirania do algoritmo e do oligopólio internacional das big techs.

A luta pela reconstrução do país em novas bases aguarda. Ela exigirá, por certo, além da soberania digital, um novo jornalismo. “Os trabalhadores precisam desvendar os grandes mistérios do país, do sistema que os oprime e até do universo”, dizia às vezes Raimundo, num rasgo iluminista radical e rebelde. Quando este projeto se tornar possível, sua memória e suas lições serão lembradas.

MAIS
Leia também Leia também o obituário escrito Leandro Saraiva e a apresentação de uma biografia, por Carlos Azevedo

terça-feira, 5 de maio de 2026

“Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB): Limites e Desafios da sua implementação”. Entrevista com a advogada e jurista, Carol Proner, professora da UFRJ, diretora do Instituto Joaquin Herrera Flores.

 


A cultura se constrói nos territórios e é lá que as políticas precisam acontecer.


Seminário Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB: limites e desafios de sua implementação nos dias 4 e 5 de maio

Serão dois dias de debate, no Teatro Casagrande, no Rio, organizados pelo IJHF-AL

Está fechada a programação do Seminário Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB: limites e desafios de sua implementação. Foram adicionados palestrantes ao programa inicialmente divulgado, aumentando a representatividade do evento (veja abaixo). Políticos, gestores da cultura, pesquisadores, profissionais da área estarão conosco realizando o debate sobre a política cultural no Brasil. "Nesse Seminário traremos deputados e deputadas federais e estaduais do Rio de Janeiro e secretários da Cultura dos municípios de Maricá, Niterói e Rio de Janeiro, já que são os municípios que promovem e implementam essas políticas de descentralização de recursos do governo federal", lembrou a diretora executiva do Instituto Joaquín Herrera Flores (IJHF-AL) Gisele Ricobom.

Vamos debater com os estudiosos do tema, com os fomentadores de cultura, com as deputadas que participaram tanto da construção da Lei quanto da relatoria, Jandira Feghali e Benedita da Silva, acompanhadas de tantas outras pessoas que estiveram no primeiro momento da Lei Aldir Blanc e agora da Política Nacional Aldir Blanc para fomento cultural", destacou a diretora do IJHF-AL, Carol Proner.

Veja a PROGRAMAÇÃO:


SEMINÁRIO "POLÍTICA NACIONAL ALDIR BLANC DE FOMENTO À CULTURA - PNAB: limites e desafios da sua implementação" - Termo de Fomento nº 967338/2023

  04 e 05 de maio de 2026 -  às 18h
 Teatro Casa Grande – Leblon, Rio de Janeiro (RJ)

**Inscrição gratuita

O Seminário Nacional sobre a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) convida você para um debate qualificado e necessário sobre o papel das políticas culturais na promoção da democracia, da diversidade e da participação social no Brasil.

Ao longo de dois dias, o encontro promoverá uma análise aprofundada dos resultados, impactos, aprendizados e desafios futuros da PNAB, afirmando-se como um espaço estratégico de escuta, reflexão crítica e construção coletiva.

O evento reunirá gestores públicos, pesquisadores, artistas e agentes culturais de todas as regiões do país, fortalecendo o intercâmbio de experiências, o diálogo interinstitucional e a articulação em torno do fortalecimento da cultura como política pública.

Na programação, você encontrará:

 Mesas de debate com especialistas e autoridades da área cultural

Momentos de convivência

Certificado de participação

 Participe, compartilhe experiências e contribua para os caminhos futuros da política cultural no Brasil.

 
 PROGRAMAÇÃO PRELIMINAR

04 de maio de 2026

Abertura: Jandira Feghali – Deputada Federal

Mesa 1

Tema 1: Quais foram os resultados e efeitos gerados pela Política Nacional de Cultura nos últimos quatro anos?

Tema 2: Quais lições foram aprendidas com a experiência da Política Nacional de Cultura?

Participantes:

• Márcio Tavares – Secretário-Executivo do Ministério da Cultura

• Lucas Wosgrau Padilha – Secretário de Cultura do Rio de Janeiro

 
• Júlia Pacheco – Secretária das Culturas de Niterói 

• Sady Bianchin – Secretário de Cultura de Maricá

• Gisele Ricobom – Diretora Executiva do Instituto Joaquín Herrera Flores – América Latina

 Mediação: Carol Proner - Profª. UFRJ e Diretora Financeira do Instituto Joaquín Herrera Flores – América Latina

Encerramento: Benedita da Silva – Deputada Federal


05 de maio de 2026

Mesa 2

Tema 3: Quais são os desafios futuros para o fortalecimento de uma Política Nacional de Cultura que atenda à democracia e aos direitos humanos no país?

Participantes:

• Dani Balbi – Deputada Estadual, professora e roteirista

• Sinara Rúbia – Diretora do Museu da História e da Cultura Afro-brasileira

• Tuca Moraes – Atriz e produtora cultural

• Elias Jabbour – Geógrafo, professor e Presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos

• Alexandre Santini – Presidente da Casa Rui Barbosa

Mediação: Manuel Gándara Carballido - Prof. PPGD/UFRJ e Diretor de comunicação do Instituto Joaquín Herrera Flores – América Latina

**

CERTIFICADO 

Ao final do evento, será emitido certificado de participação com carga horária de 6 horas (horas complementares).

Instituto Joaquín Herrera Flores - América Latina (IJHF)

O Instituto Joaquín Herrera Flores (IJHF) tem por objetivo precípuo o desenvolvimento cultural, intelectual, social, comunitário e acadêmico da agenda de Democracia e Direitos Humanos e suas transversalidades. Executa projetos de formação e capacitação em direitos humanos para produtores culturais, docentes, ativistas de direitos humanos, servidores públicos, bem como tem organizado Fóruns e Seminários sobre temática diversas dentro do campo de Direitos Humanos.

Quem foi Herrera Flores? AQUI, AQUI


* Esta obra é financiada com recursos do “Politica Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB: limites e desafios de sua implementação”, Termo de Fomento nº  967338/2023, celebrado entre Instituto Joaquín Herrera Flores – América Latina e Ministério da Cultura.



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Projeto liderado por Padre Zé Alves prepara alunos da rede pública de Umbaúba para a universidade

 Iniciativa da ASDRECRAC, em parceria com a Rede Nacional de Cursinhos Populares e apoio do MEC, busca ampliar o acesso de jovens vulneráveis ao ensino superior

A Associação Sergipana de Desenvolvimento Comunitário e Resgate da Cidadania (ASDRECRAC), sob a liderança do Padre Zé Alves, reafirma seu compromisso com a transformação social ao lançar uma iniciativa estratégica para democratizar o acesso ao ensino superior. Em parceria com a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPoP) e com o apoio do Ministério da Educação (MEC), o projeto tem como foco preparar estudantes da rede pública de Umbaúba para ingressarem em instituições como a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e os Institutos Federais (IFs).

A ação nasce de uma preocupação urgente da ASDRECRAC: o baixo índice de jovens de famílias trabalhadoras, em situação de vulnerabilidade social e autodeclarados pretos e pardos que conseguem chegar à universidade pública no município. Para o Padre Zé Alves, romper essa barreira é uma questão de justiça social.

“O cursinho oferece não apenas conteúdo acadêmico, mas uma rede de apoio para que o aluno da escola pública ocupe espaços de excelência, transformando a realidade local por meio do conhecimento”, destaca o líder do projeto.

Sobre a ASDRECRAC:

A Associação Sergipana de Desenvolvimento Comunitário e Resgate da Cidadania (ASDRECRAC) é uma organização social dedicada a promover a cidadania, a inclusão e o desenvolvimento comunitário em Sergipe, com atuação focada em populações em situação de vulnerabilidade. Mais... AQUI

Sobre a Rede Nacional de Cursinhos Populares

CPOP (Rede Nacional de Cursinhos Populares) é uma política pública brasileira criada e implementada pelo Ministério da Educação (MEC), através da SECADI (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão), com o objetivo de fortalecer cursinhos pré-vestibulares populares e comunitários em todo o país, oferecendo apoio técnico e financeiro a essas iniciativas para ampliar o acesso de estudantes socialmente desfavorecidos ao ensino superior público, especialmente por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).  Mais... AQUI

Informações para a imprensa:

[José Alves - Telefone para contato: (79) 996852294 E-mail: asdecrac.asdecrac@gmail.com  ]

#EducaçãoParaTodos #CursinhoPopular #ASDRECRAC #PadreZéAlves #Umbaúba #UFS #IFS #JustiçaSocial #AçãoCultural



E agora Brasil? O que será o amanhã, como vai ser nosso destino. A leitura do cenário por Luis Felipe Miguel, Chico Alencar, Rudá Ricci e Luiz Fernando Horta


 Depois das derrotas da semana passada, uma conclusão se impõe: no último ano de seu terceiro mandato, Lula se encontra em situação similar a Dilma Rousseff no começo do segundo mandato dela, aquele que foi interrompido pelo golpe em 2016. Ele se defronta com um Congresso no qual tem sustentação muito minoritária e que não se dispõe mais a vender (ou melhor, alugar) seu apoio em troca de cargos e verbas. Enfrenta a má vontade da imprensa corporativa e dos donos do capital em geral, que veem com simpatia crescente a possibilidade de alçar ao poder uma direita pura e dura.

Nesse cenário, de pouca margem para a conciliação de classes, evidencia-se aquilo que muitos analistas da conjuntura brasileira estamos dizendo há anos: esgotaram-se as potencialidades do lulismo como forma de fazer política. Baseado na evasão do confronto e na ausência de um projeto de desenvolvimento nacional e popular, o lulismo optava por buscar brechas que permitissem políticas pontuais em favor dos mais pobres e contava com dois fatores indispensáveis para que o nível de atrito permanecesse sob controle, uma elite política disposta a se leiloar pela melhor oferta e uma classe dominante que achava que valia a pena pagar o preço da paz social, desde que fosse baixo.

Seria injusto negar os avanços importantes que Lula obteve com essa estratégia. Para quem está com a vida assegurada, é fácil recusar como secundários, reformistas, irrelevantes, ganhos como a garantia das condições mínimas de vida, por meio dos programas de transferência de renda. Mas, para a imensa maioria dos brasileiros, foram e continuam sendo políticas essenciais, que transformam a vida e abrem horizontes.

O processo de construção do golpe de 2016 mostrou que o cenário estava modificado. Dilma entregava cada vez mais verbas e cargos para obter um apoio cada vez mais precário e vacilante. A moeda de troca da presidência estava desvalorizada. E isso se institucionalizou, por assim dizer, com o sequestro do orçamento público pelo Congresso Nacional, na forma das emendas parlamentares impositivas. É o que vemos desde o primeiro dia deste mandato de Lula. Partidos como PSD, PP e MDB ou chefes políticos, começando pelo próprio Davi Alcolumbre, indicam ocupantes de ministérios e outros cargos importantes, controlam agências estatais com dinheiro e poder, exigem que o governo federal se queime para blindá-los de suas maracutaias – e depois votam com a oposição.

As derrotas da semana passada já estavam todas anunciadas. O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para o Supremo. O Congresso derrubou o veto à (mal) disfarçada anistia para Bolsonaro. E, para completar, o Banco Central diminuiu a taxa de juros, mas de forma quase simbólica e indicando que vai mantê-la na estratosfera no futuro próximo.

Não vou me alongar sobre cada uma delas, que têm sido extensamente debatidas nos últimos dias. Mas é importante destacar alguns pontos essenciais:

- A derrota de Messias é a culminação lógica do longo processo de desmoralização da indicação dos ministros do Supremo, para qual Lula também contribuiu. O presidente escolhe com base na lealdade pessoal, acima de qualquer outro atributo. O indicado se dedica a puxar o saco dos senadores. O governo libera verbas para comprar votos. Com a votação secreta, que é um absurdo do ponto de vista da representação política, já que torna o representante irresponsável por seus atos diante de seus constituintes, os senadores estão livres para não entregar aquilo que venderam.

- O vexame é maior porque Messias não apenas cumpriu todo o ritual como fez um papelão na sabatina, aderindo servilmente a teses ultrarreacionárias na esperança vã de ganhar a simpatia dos senadores da extrema direita.

- Quem leu o perfil, escrito por Camille Lichotti e Allan de Abreu e publicado na revista Piauí do mês passado, sabe que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é perfeitamente descrito pela expressão “gângster bonachão”. Distribui abraços, sorrisos e presentes, para pavimentar o caminho de suas muitas falcatruas – e é inclemente com qualquer um que se coloque à sua frente. Lula sustentou a relação com ele, como com Hugo Mota, com Arthur Lira, com essa gente toda, sabendo disso tudo, movendo-se para enterrar os inquéritos contra eles, na ilusão de que era capaz de controlá-los, o que mostra, uma vez mais, sua incapacidade de mudar o curso de ação em vista da mudança das circunstâncias.

- Restam poucas dúvidas de que Alexandre de Moraes, que temia que Messias se aliasse a Facchin na proposta de regulação ética do comportamento dos ministros do Supremo e que é próximo de Alcolumbre, trabalhou contra a indicação. Os indícios mostram um acordo com a direita, com o objetivo de abafar as investigações do escândalo do Banco Master. Talvez isso contribua para que Lula reveja sua postura de (salvo ressalvas menores) defendê-lo a todo custo.

- O caso do Master ajuda a explicar não apenas a posição de Moraes, mas também de Jaques Wagner, o líder do governo no Senado, que se congraçou com Alcolumbre e pareceu encarar a derrota de Messias com tranquilidade, quando não alívio. Principal nome do PT envolvido no escândalo, Wagner também não agiu adequadamente na oposição à “dosimetria”, alimentando a suspeita de participação no “grande acordo nacional” para impedir que as investigações avancem.

Ao aprovar a “dosimetria”, despreocupando-se até mesmo com o fato de que contraria o seu alardeado punitivismo penal, já que a medida pode beneficiar até 200 mil condenados por diversos crimes, a elite parlamentar brasileira não faz apenas um gesto em direção ao clã Bolsonaro. Mostra sua absoluta despreocupação com a preservação da democracia. Aqueles que votaram pela liberação dos golpistas são os mesmos que estiveram prontos a destituir Dilma Rousseff em 2016. Que aplaudiriam o golpe de 1º de abril, se estivessem em 1964. Que teriam referendado a deposição de Lula, caso os ataques do 8 de janeiro tivessem obtido êxito. É uma elite política que está disposta a se acomodar a qualquer ditadura, caso receba garantias de que poderá continuar a parasitar o Estado brasileiro. Ao optar sempre por compactuar com essa gente, a nunca enfrentá-la, por um cálculo de curtíssimo prazo., mesmo depois que sua natureza foi novamente demonstrada, o lulismo simplesmente alimentou o escorpião que fatalmente iria picá-lo.

O que é possível fazer agora? O governo ainda está debatendo medidas óbvias, como demitir os indicados por Alcolumbre e por outros parlamentares que votam com a oposição. Algo que já devia ter sido feito desde o princípio do governo e que mesmo agora, depois que a bigorna já caiu sobre a cabeça, ainda enfrenta a resistência da turma do deixa-disso.

Não vou me alongar sobre cada uma delas, que têm sido extensamente debatidas nos últimos dias. Mas é importante destacar alguns pontos essenciais:

A derrota de Messias é a culminação lógica do longo processo de desmoralização da indicação dos ministros do Supremo, para qual Lula também contribuiu. O presidente escolhe com base na lealdade pessoal, acima de qualquer outro atributo. O indicado se dedica a puxar o saco dos senadores. O governo libera verbas para comprar votos. Com a votação secreta, que é um absurdo do ponto de vista da representação política, já que torna o representante irresponsável por seus atos diante de seus constituintes, os senadores estão livres para não entregar aquilo que venderam.

O vexame é maior porque Messias não apenas cumpriu todo o ritual como fez um papelão na sabatina, aderindo servilmente a teses ultrarreacionárias na esperança vã de ganhar a simpatia dos senadores da extrema direita.

Quem leu o perfil, escrito por Camille Lichotti e Allan de Abreu e publicado na revista Piauí do mês passado, sabe que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é perfeitamente descrito pela expressão “gângster bonachão”. Distribui abraços, sorrisos e presentes, para pavimentar o caminho de suas muitas falcatruas – e é inclemente com qualquer um que se coloque à sua frente. Lula sustentou a relação com ele, como com Hugo Mota, com Arthur Lira, com essa gente toda, sabendo disso tudo, movendo-se para enterrar os inquéritos contra eles, na ilusão de que era capaz de controlá-los, o que mostra, uma vez mais, sua incapacidade de mudar o curso de ação em vista da mudança das circunstâncias.

Restam poucas dúvidas de que Alexandre de Moraes, que temia que Messias se aliasse a Facchin na proposta de regulação ética do comportamento dos ministros do Supremo e que é próximo de Alcolumbre, trabalhou contra a indicação. Os indícios mostram um acordo com a direita, com o objetivo de abafar as investigações do escândalo do Banco Master. Talvez isso contribua para que Lula reveja sua postura de (salvo ressalvas menores) defendê-lo a todo custo.

O caso do Master ajuda a explicar não apenas a posição de Moraes, mas também de Jaques Wagner, o líder do governo no Senado, que se congraçou com Alcolumbre e pareceu encarar a derrota de Messias com tranquilidade, quando não alívio. Principal nome do PT envolvido no escândalo, Wagner também não agiu adequadamente na oposição à “dosimetria”, alimentando a suspeita de participação no “grande acordo nacional” para impedir que as investigações avancem.

Jaques comemora com Davi.

https://lfmiguel.substack.com/p/contagem-regressiva-22


P.S.:

1 

ABRAÇO "MASTER", DO ABAFA

As tais "derrotas acachapantes" de Lula no Congresso - que a mídia grande e a direita trombeteiam - expuseram, na verdade, alianças espúrias e a podridão do sistema. 

O conluio Alcolumbre+Flávio Bolsonaro+PL golpista+Centrão fisiológico (e, diz-se, até alguns ministros do STF) escancarou o intuito de impedir ao máximo a investigação da fraude "master" de Vorcaro.

Os falsos moralistas querem que a apuração não avance, pois ela pegará deputados, senadores, diretores do BC, ricaços da Faria Lima, pastores e financiadores de campanhas de Bolsonaro e Tarcísio - e pode chegar a elos com togados. 

A mesma casta que é contra o fim da jornada 6x1, rende culto a Trump, despreza a soberania nacional e explora a boa fé do povo.

Agora fizeram esse acordão: rejeição a Messias e aval ao golpismo pelo engavetamento da CPI do caso Master. 

A corrupção é o cupim da República. Vamos derrotar esses podres poderes!

Governo de coalizão com o Centrão, Lula, é pasto pra traição! É cruzamento de cavalo com vaca: não dá leite nem puxa carroça!

Governar em minoria no Parlamento impõe se aproximar mais e mais da rua, da soberania popular. É viver sob tensão, mas, ainda assim (e só assim), avançar!

P.S.:

2 



Acrescentado em 06/05

Entenda porque Messias pode ter salvado a reeleição de Lula






Documentários produzidos pelos aprendizes da oficina "Cinema na Palma da Mão" terão lançamento neste sábado, 09/05, às 16h30, na Paróquia São Pedro Pescador.


Sinopse - 7:58 - O Peso da Batina nos mostra o Padre José Soares, 61 anos de idade e 34 de sacerdócio, que ao longo do tempo soube transformar o cansaço próprio da missão em maturidade espiritual.

Equipe do filme - Grazielle Mesquita, Eric Gabriel da Silva e Isabelle Silva Santos


Sinopse - Brasinha- 12:16
“O som que não envelhece” - Antônio Vieira, 68 anos, músico resiliente, nos conta como reinterpretar a própria história permite encontrar dignidade mesmo na perda e na mudança.
Equipe de realização do filme - Iasmin Feitosa, Jaci Alves, Ras de Sá. 

Sinopse: A Música da Fé - 10:56 -  Rafael  Santana, um músico de 40 anos que une a arte com a fé, mostrando que a  vida religiosa fica mais interessante com a música.

Equipe de realização do filme  - Patrícia d. S. Cardoso, Analyce Guimarães, Ana Sophya Guimarães, Maria Vitória Dezideria, Julia Silva Santos

A semente plantada em março de 2026 já dá frutos. Neste sábado, 09 de maio,  às 16h30, na Paróquia São Pedro Pescador (Av. João Rodrigues, Bairro Industrial, Aracaju-SE), será realizada a sessão pública de lançamento dos minidocumentários produzidos pelos aprendizes da primeira turma da oficina "Audiovisual com Celular: Cinema na Palma da Mão".

A exibição, que também acontecerá no SAME – Lar de Idosos, coroa um processo formativo que uniu gerações, técnicas apreendidas na prática e o uso inovador de inteligência artificial, tudo sob a mediação do professor Marcel Magalhães — o mesmo profissional que conduziu a primeira oficina de audiovisual da Ação Cultural, lá em 2012.

O caminho percorrido

A primeira turma começou no dia 24 de março com 21 inscritos — número que superou a meta inicial. Em encontros realizados nas terças e quintas-feiras, os participantes mergulharam em roteiro, captação de imagem, entrevista, luz natural e edição. A diversidade geracional, longe de ser um entrave, mostrou-se um dos pontos altos, como registrou a assistente de produção Iasmin Feitosa:

“A variação entre as idades, que em qualquer outro caso poderia haver conflito de geração, na oficina foi algo complementar. Acredito que todos nós iremos aprender muito uns com os outros.”

Os três grupos de aprendizes desenvolveram minidocumentários de até dez minutos, colocando em prática o princípio do “aprender fazendo” — referência direta ao pensamento de John Dewey e Ana Mae Barbosa, que orienta a metodologia da Osc Ação Cultural.

O que dizem os participantes

O entusiasmo tomou conta das aulas, especialmente nos dias de gravação. Jaci Farias descreveu o processo de preparação para a entrevista com o artista Antônio Vieira (o Brasinha): “O professor nos orientou sobre a elaboração de perguntas, a importância do comportamento do entrevistador e a busca pelo cenário ideal.”

Para Grazy, que acompanhou as filmagens com o músico Rafael e o Padre José Soares, a experiência foi reveladora: “Nada se compara ao natural, ao orgânico! Não tem IA que consiga reproduzir o brilho, a luz, o viço de uma cena feita naturalmente.”

Patrícia, Anne e tantos outros nomes que ajudaram a construir essa história agora veem seu trabalho na tela — um momento de realeza, como canta Luiz Caldas na canção que embalou o retorno das atividades após a Semana Santa.

Por que esse retorno é histórico

A oficina “Cinema na Palma da Mão” não é apenas mais um curso. Ela representa a retomada de uma ação pioneira da Ação Cultural, iniciada em 2012 com câmeras semiprofissionais e agora revitalizada com celulares e inteligência artificial. Foram dez anos de interrupção forçada — primeiro pela crise que extinguiu o Ministério da Cultura, depois pela pandemia.

Com a reestruturação das políticas públicas — em especial a Lei Aldir Blanc e a retomada do Programa Cultura Viva —, tornou-se possível reeditar essa formação com o mesmo professor Marcel Magalhães e o mesmo assessor pedagógico, Zezito de Oliveira. O projeto foi contemplado pelo Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, com participação da Funcaju e da Prefeitura, Ministério da Cultura e Governo Federal.

“Rapadura é doce, mas não é mole!” — a frase da aprendiz Grazi, que deu o tom da aula sobre roteiro, continua valendo. Fazer cultura em território periférico é um ato político e pedagógico. É transformar o “dar acesso à cultura” em “dar acesso ao poder de fazer cultura”.

Atenção: segunda turma está chegando!

Diante do sucesso da primeira experiência — comprovado pela qualidade dos documentários e pelo engajamento da comunidade, sob a liderança do Padre José Soares —, a Ação Cultural anuncia a abertura da segunda turma da oficina “Cinema na Palma da Mão”.

Modalidade: noturno

Inscrições em:  

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSe57SNeRgzRndNOsXbbKJXR721ASBGNpQMI9Wyg5iC78peUaA/viewform?usp=dialog

Também será divulgada em breve a abertura da oficina de teatro popular. Fique ligado!

Apoio e parceria

A Oficina de Audiovisual com Celular é uma das ações culturais e educativas do projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

Serviço – Lançamento dos minidocumentários

📅 Sábado, 09 de maio de 2026

🕓 16h30

📍 Paróquia São Pedro Pescador – Av. João Rodrigues, Bairro Industrial, Aracaju (SE)

🎬 Entrada gratuita

“É tão bom quando a gente se entrega à beleza. Quando cicatriza uma ferida, abrindo as portas da vida.”

Que venha a segunda turma.

domingo, 3 de maio de 2026

O ENTRETENIMENTO E A EDUCAÇÃO POLÍTICA. Por Renato Janine Ribeiro



 Vamos dizer algo atrevido: pode ser que o entretenimento de qualidade esteja promovendo uma educação política maior do que os políticos progressistas.

Senão, vejamos: Luana Piovani detona o machismo e o preconceito, com suas falas, é verdade que controversas (penso que ela atacar os evangélicos como um todo – mesmo sendo ela própria evangélica – é algo que os afasta das pautas progressistas). Mas, no todo, é uma mulher inteligente e com valores importantes.
Hoje, teremos Shakira em Copacabana. Segue-se a Madona e Lady Gaga. Somemos a elas o maior sucesso brasileiro, Anitta. Alguma dúvida do que elas pensam em matéria política?

Ainda: Três Graças, que está chegando à reta final. Sei que ainda há gente que procura acumular capital simbólico dizendo que despreza novelas. Sei também que a mudança nos apartamentos, mais apertados hoje, fez desaparecer muito corredor – isso eliminou o comentário usual dos anos 80 e 90, que era o intelectual dizer que “estava passando no corredor quando vi”, e seguia-se uma cena icônica da novela da época. A fantasia de intelectual incluía, claro, nunca ver produtos da indústria cultural! Então, hoje, gabar-se de não ver novelas não tem mais aquela ressalva de, por enorme coincidência!, ter visto as cenas mais importantes das mesmas.

Mas a verdade é que Três Graças gabarita, no repertório progressista. Denuncia os crimes dos ricos. Proclama a vitória do amor sobre o preconceito – os dois filhos do bandidão Ferete se casam fora da caixinha, a filha com outra mulher, o filho com uma mulher trans. Estende a mão mais aberta que já vi dos católicos (as duas fiéis de Santa Rita de Cássia) aos evangélicos.

E finalmente o BBB. Quem ganhou foi Ana Paula Renault, que explicou aos colegas de confinamento e a milhões de brasileiros uma série de pautas progressistas, inclusive as que dizem respeito ao trabalho, como a escala 5x2 (não, eu não vi – ou só em reels no Instagram).

Ah, a 5x2. O governo, imerso na defesa de Jorge Messias ao STF, descuidou dessa pauta. Ontem sim, dia 1.o de maio, participou de eventos defendendo-a. Mas não preparou. Deveria ter preparado. Ainda há tempo, claro.
Mas meu ponto, aqui, era dizer que o entretenimento está sendo mais firme no progressismo do que muitos políticos de esquerda.


'Copacabana coroou Shakira': o que a imprensa internacional disse sobre show no RJ

Leia mais     AQUI

Muito além dos palcos: as causas sociais defendidas por Shakira

Em Copacabana, artista lembrou que Brasil possui mais de 20 milhões de mulheres solo, que têm que lutar a cada dia para sustentar suas famílias.


Leia mais AQUI


Shakira fez um pedido pessoal: queria conhecer os assentamentos do MST antes de subir ao palco em Copacabana.
Então, ela veio com a gente pra Campos dos Goytacazes!
Dep. Marina do MST (PT- RJ) no facebook



A Shakira apareceu na madrugada desta segunda-feira (4) depois do show histórico em Copacabana e soltou um desabafo carregado de emoção. Disse que não conseguiu dormir, que o que viveu no Rio foi “inesquecível e arrepiante” e destacou o tamanho absurdo do público, com cerca de 2,5 milhões de pessoas. No meio da mensagem, ainda trouxe um tom mais reflexivo, falando que mesmo sendo um dia difícil pra muita gente, a noite foi sobre celebrar a vida como ela é, com acertos e imperfeições. E foi além, exaltando a própria essência do Rio, falando de mar, praia, montanha, sol e aquela sensação de estar presente no momento, como se a cidade lembrasse o que realmente importa.


Ela também deixou claro que o evento teve um peso maior, dizendo que a mensagem que saiu dali pra América Latina e pro mundo foi simples: é possível ser feliz com o básico. Em seguida, fez uma sequência de agradecimentos pesados, citando Anitta, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Ivete Sangalo, a Unidos da Tijuca e o grupo Dance Maré, além de toda a equipe de produção, patrocinadores e autoridades envolvidas no evento. Reforçou o esforço gigantesco de quem trabalhou nos bastidores e destacou os fãs que viajaram de vários lugares pra estar ali, fechando com a ideia de que aquelas milhões de pessoas viraram uma família pra ela naquela noite.


Antes disso tudo, o show já tinha começado com tensão nos bastidores. A apresentação, que estava prevista para 21h45, só começou por volta de 23h05 depois de um atraso de mais de uma hora causado por um problema pessoal. A informação inicial foi divulgada pela TV Globo, e depois veio o detalhe de que o pai da cantora, William Mebarak Chadid, de 94 anos, teve um mal-estar pouco antes dela subir ao palco. Mesmo com esse cenário, o evento seguiu e entregou um espetáculo completo, incluindo o show de drones que abriu a noite com imagens marcantes e a frase “te amo, Brasil” no céu de Copacabana.


Quando finalmente começou, o show trouxe a turnê “Las Mujeres Ya No Lloran” com um setlist forte, incluindo músicas como “Antologia”, “Inevitable”, “She Wolf”, “Soltera”, “Estoy Aquí” e as sessões com Bizarrap. Teve também momento inédito com Anitta na música “Choka Choka”, além das participações de Caetano, Bethânia e Ivete no palco. Durante a apresentação, ela ainda puxou mensagens voltadas ao público feminino, falando sobre a força das mulheres e destacando a realidade de mais de 20 milhões de mães solo no Brasil. No fim, mesmo com tudo que rolou nos bastidores, o que ficou foi a dimensão do evento e o impacto direto que aquela noite teve em quem estava ali.

acima, post da página Cariocasemfiltro

Morre aos 85 anos, Raimundo Pereira, um dos mais importantes jornalistas da imprensa alternativa e democrática do Brasil e deixa um legado incomensurável.


 Raimundo Pereira, o jornalista da contracorrente

Um dos principais nomes da imprensa alternativa no Brasil, Raimundo faleceu aos 85 anos, no Rio de Janeiro

por André Cintra   Portal Vermelho

Publicado 02/05/2026 17:01 | Editado 02/05/2026 17:48

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos principais nomes da imprensa alternativa no Brasil, faleceu na manhã deste sábado (2/5), aos 85 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado desde quinta-feira (30/4) e não resistiu às complicações de uma pneumonia. O corpo será cremado ainda nesta tarde.

Com sua morte, encerra-se uma trajetória que atravessa seis décadas de jornalismo, sempre em tensão com o poder e invariavelmente fora dos trilhos da grande mídia. Não por acaso, sua biografia, escrita em 2013 por Júlia Rabahie e Rafael Faustino, recebeu o título Contracorrente – A História de Raimundo Rodrigues Pereira.

“Das figuras que conheci e com quem convivi, nenhuma reunia simultaneamente doses tão imensas de inteligência, espírito empreendedor e resiliência quanto Raimundo Pereira”, afirma Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois, ligada ao PCdoB. “Raimundo pôs tudo isso a serviço do pensamento da esquerda progressista, nacional e democrática, de modo militante.”

Segundo o dirigente, “o jornalismo independente foi sua vida, seu partido político e sua paixão. Com sua obra em Realidade, Opinião, Movimento e Retratos do Brasil, ele foi protagonista em todos os acontecimentos marcantes do país por mais de 50 anos. Foi, sem dúvida, um dos maiores jornalistas da história brasileira”.

Raimundo nasceu em 8 de setembro de 1940, em Exu (PE) – a mesma cidade natal do “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga. Mas sua ligação com o Nordeste durou pouco. Em 1942, o pai, Joaquim, mascate de profissão, e a mãe, Lindanora, pegaram os filhos e partiram rumo ao interior de São Paulo, em busca de terras mais fartas. A família – incluindo a ama de leite Maria Pedro, que amamentou e ajudou a criar Raimundo – passou por Córrego dos Macacos e Monte Serrat antes de se fixar em Pacaembu, a Cidade Paraíso.

Foi em Pacaembu que Raimundo, apelidado de “Lorinho”, cresceu dividido entre a escola (onde tirava dez em matemática) e o futebol, sua “coisa incrível”, como ele mesmo definia. Na mesma cidade, descobriu o gosto pela comunicação, narrando, aos 12 anos, jogos do time infantil pelo sistema de alto-falantes da cidade.

Aos 19, passou no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos. Foi lá que o “Lorinho” comportado deu lugar a “Dana Key”, apelido inspirado no comediante norte-americano Danny Kaye. Raimundo fazia teatro de rua e escrevia artigos subversivos no jornal estudantil O Suplemento. Numa edição, simulou uma emenda constitucional propondo a extinção das Forças Armadas.

No ITA, Raimundo foi eleito para o Centro Acadêmico Santos Dumont e ajudou a articular a tentativa de filiação da escola à UNE (União Nacional dos Estudantes). Seus amigos da época, como Gilcio Martins e Ezequiel Dias, lembravam que o rapaz de pernas tortas e “jeito muito brincalhão” estava sempre dominando a cena.

O golpe militar de 1964 interrompeu seus planos. Em 8 de abril, Raimundo foi tirado da sala de aula, levado ao Dops em São Paulo e submetido a uma sessão de tortura psicológica. “Chegaram até a anunciar no jornal do sindicato que eu estava largando o jornalismo para fazer política”, contou Raimundo numa entrevista. Com a expulsão, deixaria o ITA para sempre, sem o diploma de engenheiro.

Na grande imprensa

A vida deu uma guinada. Em 1965, ainda se recuperando do trauma, Raimundo entrou na USP. Mudando de área, formou-se em Física e trabalhou como redator de revistas técnicas. Em 1968, foi chamado por Mino Carta para ser editor de Ciências da recém-lançada revista Veja.

Quando a publicação amargava baixas vendagens, usou sua formação científica para produzir uma série de reportagens sobre a corrida espacial. O homem chegou à Lua e ajudou a impulsionar a circulação da revista. O jornalista descrevia o lançamento do foguete Saturno V como uma aventura: “O Saturno V tremeu, amarrado ao solo por imensas braçadeiras que agarravam suas 3.000 toneladas, seus 121 metros de altura”.

No auge do prestígio, comandou a histórica edição especial “Amazônia” da revista Realidade, que lhe rendeu o Prêmio Esso em 1971. Mas algo o incomodava: a grande imprensa havia se acomodado à ditadura. Conforme escreveu mais tarde, na edição zero do jornal Movimento, as grandes empresas jornalísticas estavam “aferradas a grandes interesses econômicos”.

Era hora de fazer um jornal sem patrão. Ou melhor, de romper com a lógica da grande imprensa e mergulhar no que viria a ser sua marca definitiva: o jornalismo independente, crítico e militante. Raimundo queria ser dono do próprio instrumento de trabalho. A partir dos anos 1970, ele passa a criar praticamente todos os projetos em que atua, financiando-os com enorme dificuldade, mas preservando autonomia editorial.

Opinião e Movimento

Raimundo desconfiava da homogeneização da grande mídia e via no jornalismo uma ferramenta de interpretação da realidade a serviço da sociedade, especialmente dos trabalhadores. Essa escolha teve custos: projetos interrompidos, circulação irregular e dificuldades financeiras constantes. Mas também produziu um legado singular: uma obra vasta, construída fora das estruturas tradicionais.

É como lembra o jornalista Carlos Azevedo, ao comentar sua trajetória: “São montanhas de textos, jornais, livros, revistas que ele produziu ou comandou. Inacreditável como, além disso, autofinanciou seus projetos durante toda a jornada. Sempre na contracorrente, sempre vitorioso!”

Em 1972, Raimundo aceitou o convite do empresário Fernando Gasparian para dirigir o recém-lançado semanário Opinião. O jornal rapidamente se tornou um fenômeno, vendendo 38 mil exemplares e servindo de tribuna para nomes como Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado e Chico Buarque.

A relação com o patrão era tensa. Raimundo, de bermuda, enfrentava Gasparian, de terno. A gota d’água veio quando Gasparian se aliou à abertura política do governo Ernesto Geisel, e a redação, não. Em 1975, o jornalista foi demitido.

Sua resposta foi imediata: ao lado de parte da equipe, fundou Movimento, o “jornal dos jornalistas”. Financiado por cotas e apoiado por uma rede de colaboradores que ia do seringueiro Chico Mendes ao sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, o jornal se tornou uma das mais importantes trincheiras da imprensa de oposição.

O preço foi alto. Movimento foi censurado desde o primeiro número. Depois que a censura prévia caiu, em 1978, bancas de jornal foram incendiadas para impedir sua circulação. Raimundo reagia com denúncias e processos, além de uma cobertura incansável das greves do ABC, que ele próprio reportava de dentro das fábricas, burlando a proibição. Sua máxima era simples: “informar para conscientizar”.

A vida pessoal

Nem tudo, porém, era política. Contracorrente dedica um capítulo inteiro a um dos episódios mais dramáticos da vida de Raimundo: o relacionamento de sua irmã, Leonora, com Sérgio Paranhos Fleury, o delegado do Dops conhecido como um dos torturadores mais temidos do regime. Raimundo rompeu com a irmã quando soube do caso – e só voltou a vê-la no leito de morte dela, em 2002.

O livro também revela facetas bem-humoradas. Raimundo, que durante a ditadura dormia sobre uma mesa de trabalho com uma folha de papel no rosto (furada para respirar), também era um pai presente que ensinava as quatro filhas a separar fato de interpretação nas notícias. As meninas retribuíam com um jornal feito à mão, O Olhudo, que o pai relia orgulhoso.

Com a redemocratização, Raimundo tentou emplacar um jornal diário, Retrato do Brasil. Fracassou em três meses. “São tentativas desesperadas”, disse Mino Carta, fundador da Veja e parceiro de longa data de Raimundo, em depoimento ao livro. Para Carta, o jornal diário “é um absorvedor de dinheiro, uma coisa infernal”.

Mesmo assim, Raimundo não desistiu. Em 1997, fundou a Editora Manifesto e, nos anos seguintes, lançou a revista Reportagem e a segunda versão de Retrato do Brasil. Passou a sobreviver com contratos de publicidade de empresas estatais e com a ajuda de amigos. Cobriu o mensalão – e sustentou a tese de que o julgamento foi parcial. Defendeu Daniel Dantas contra o que considerava uma “conspiração da mídia”, o que lhe rendeu uma ruptura dolorosa com Mino Carta.

“A ditadura que nós vivemos de 1964 a 1985 era simples de ver. A ditadura sob a qual nós vivemos hoje, na imprensa, que é a ditadura do grande capital, é difícil de ver”, declarou Raimundo ao receber o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 2013.

Relação com o PCdoB

Raimundo nunca se filiou a nenhum partido, apesar de ter ensaiado uma entrada no PCdoB no início dos anos 1990. Questionado certa vez pelo ex-ministro José Dirceu se tinha interesse em aderir a alguma legenda, respondeu com bom humor: “Todo mundo fala que eu sou do PCdoB, mas eu não gozo das vantagens de ser do PCdoB. Preciso resolver esse grande problema”.

Esteve sempre por perto, ajudando campanhas e formulando ideias. Raimundo apoiou inúmeras candidaturas comunistas, como as de Benedito Cintra, Jamil Murad e Orlando Silva. Em 1976, criou o slogan da campanha a vereador de Cintra, uma jovem liderança da região da Freguesia do Ó: “Sem direitos, sem feijão, é hora de oposição.” A frase sintetiza meio século de trabalho: olho na carestia, olho na liberdade, sem nunca perder o senso de oportunidade.

“O Raimundo Pereira morou por muito tempo na Freguesia do Ó e teve uma relação profícua com os movimentos políticos e sociais da região. Contribuiu muito com a luta democrática e popular de resistência à ditadura”, lembra Nivaldo Santana, secretário Sindical do PCdoB, que conheceu Raimundo na década de 1970.

“O jornal Movimento era distribuído em larga escala entre a militância. Além do jornal, vale destacar que um importante colaborador do semanário, Duarte Pereira, realizava cursos de formação marxista e deu valiosa contribuição para forjar uma legião de quadros políticos na região”, agrega Nivaldo.

Legado

Raimundo Rodrigues Pereira deixa quatro filhas, quatro netos e uma obra espalhada por dezenas de publicações, que compõem um dos retratos mais completos do Brasil da segunda metade do século 20. Fica a pergunta que ele próprio cultivava: o que leva um físico, expulso do ITA e prestes a se tornar uma estrela da grande imprensa, a largar tudo para fazer jornalismo de oposição “passando o chapéu”?

Para Raimundo, “jornalismo não é tecnologia”. A seu ver, a imprensa popular se faz “sem medo da verdade e sem omitir fatos relevantes”. Ele desenvolveu um método próprio, quase científico, de tratar a informação com precisão e desconfiança em relação aos enquadramentos dominantes. Carregou ao longo da vida o reconhecimento – inclusive de adversários – de ser “um dos mais competentes jornalistas brasileiros em toda a história”.

Mais do que seus textos, Raimundo deixa uma escola prática. Quem trabalhou com ele aprendeu um modo de fazer jornalismo. Vida e profissão se misturaram a ponto de se tornarem indistinguíveis. Ele pertence a uma geração que enfrentou a ditadura com papel, tinta e coragem, mas seu legado não se limita àquele período: atravessa a redemocratização e chega ao século 21 insistindo no jornalismo como ferramenta de compreensão do mundo.

Raimundo se foi. Mas o jornalismo que ele praticou – rigoroso, independente e desconfiado do poder – segue como necessidade. Em tempos de velocidade e superficialidade, talvez mais do que nunca.