Raimundo Pereira, o jornalista da contracorrente
Um dos principais nomes da imprensa alternativa no Brasil, Raimundo faleceu aos 85 anos, no Rio de Janeiro
por André Cintra Portal Vermelho
Publicado 02/05/2026 17:01 | Editado 02/05/2026 17:48
O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos principais nomes da imprensa alternativa no Brasil, faleceu na manhã deste sábado (2/5), aos 85 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado desde quinta-feira (30/4) e não resistiu às complicações de uma pneumonia. O corpo será cremado ainda nesta tarde.
Com sua morte, encerra-se uma trajetória que atravessa seis décadas de jornalismo, sempre em tensão com o poder e invariavelmente fora dos trilhos da grande mídia. Não por acaso, sua biografia, escrita em 2013 por Júlia Rabahie e Rafael Faustino, recebeu o título Contracorrente – A História de Raimundo Rodrigues Pereira.
“Das figuras que conheci e com quem convivi, nenhuma reunia simultaneamente doses tão imensas de inteligência, espírito empreendedor e resiliência quanto Raimundo Pereira”, afirma Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois, ligada ao PCdoB. “Raimundo pôs tudo isso a serviço do pensamento da esquerda progressista, nacional e democrática, de modo militante.”
Segundo o dirigente, “o jornalismo independente foi sua vida, seu partido político e sua paixão. Com sua obra em Realidade, Opinião, Movimento e Retratos do Brasil, ele foi protagonista em todos os acontecimentos marcantes do país por mais de 50 anos. Foi, sem dúvida, um dos maiores jornalistas da história brasileira”.
Raimundo nasceu em 8 de setembro de 1940, em Exu (PE) – a mesma cidade natal do “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga. Mas sua ligação com o Nordeste durou pouco. Em 1942, o pai, Joaquim, mascate de profissão, e a mãe, Lindanora, pegaram os filhos e partiram rumo ao interior de São Paulo, em busca de terras mais fartas. A família – incluindo a ama de leite Maria Pedro, que amamentou e ajudou a criar Raimundo – passou por Córrego dos Macacos e Monte Serrat antes de se fixar em Pacaembu, a Cidade Paraíso.
Foi em Pacaembu que Raimundo, apelidado de “Lorinho”, cresceu dividido entre a escola (onde tirava dez em matemática) e o futebol, sua “coisa incrível”, como ele mesmo definia. Na mesma cidade, descobriu o gosto pela comunicação, narrando, aos 12 anos, jogos do time infantil pelo sistema de alto-falantes da cidade.
Aos 19, passou no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos. Foi lá que o “Lorinho” comportado deu lugar a “Dana Key”, apelido inspirado no comediante norte-americano Danny Kaye. Raimundo fazia teatro de rua e escrevia artigos subversivos no jornal estudantil O Suplemento. Numa edição, simulou uma emenda constitucional propondo a extinção das Forças Armadas.
No ITA, Raimundo foi eleito para o Centro Acadêmico Santos Dumont e ajudou a articular a tentativa de filiação da escola à UNE (União Nacional dos Estudantes). Seus amigos da época, como Gilcio Martins e Ezequiel Dias, lembravam que o rapaz de pernas tortas e “jeito muito brincalhão” estava sempre dominando a cena.
O golpe militar de 1964 interrompeu seus planos. Em 8 de abril, Raimundo foi tirado da sala de aula, levado ao Dops em São Paulo e submetido a uma sessão de tortura psicológica. “Chegaram até a anunciar no jornal do sindicato que eu estava largando o jornalismo para fazer política”, contou Raimundo numa entrevista. Com a expulsão, deixaria o ITA para sempre, sem o diploma de engenheiro.
Na grande imprensa
A vida deu uma guinada. Em 1965, ainda se recuperando do trauma, Raimundo entrou na USP. Mudando de área, formou-se em Física e trabalhou como redator de revistas técnicas. Em 1968, foi chamado por Mino Carta para ser editor de Ciências da recém-lançada revista Veja.
Quando a publicação amargava baixas vendagens, usou sua formação científica para produzir uma série de reportagens sobre a corrida espacial. O homem chegou à Lua e ajudou a impulsionar a circulação da revista. O jornalista descrevia o lançamento do foguete Saturno V como uma aventura: “O Saturno V tremeu, amarrado ao solo por imensas braçadeiras que agarravam suas 3.000 toneladas, seus 121 metros de altura”.
No auge do prestígio, comandou a histórica edição especial “Amazônia” da revista Realidade, que lhe rendeu o Prêmio Esso em 1971. Mas algo o incomodava: a grande imprensa havia se acomodado à ditadura. Conforme escreveu mais tarde, na edição zero do jornal Movimento, as grandes empresas jornalísticas estavam “aferradas a grandes interesses econômicos”.
Era hora de fazer um jornal sem patrão. Ou melhor, de romper com a lógica da grande imprensa e mergulhar no que viria a ser sua marca definitiva: o jornalismo independente, crítico e militante. Raimundo queria ser dono do próprio instrumento de trabalho. A partir dos anos 1970, ele passa a criar praticamente todos os projetos em que atua, financiando-os com enorme dificuldade, mas preservando autonomia editorial.
Opinião e Movimento
Raimundo desconfiava da homogeneização da grande mídia e via no jornalismo uma ferramenta de interpretação da realidade a serviço da sociedade, especialmente dos trabalhadores. Essa escolha teve custos: projetos interrompidos, circulação irregular e dificuldades financeiras constantes. Mas também produziu um legado singular: uma obra vasta, construída fora das estruturas tradicionais.
É como lembra o jornalista Carlos Azevedo, ao comentar sua trajetória: “São montanhas de textos, jornais, livros, revistas que ele produziu ou comandou. Inacreditável como, além disso, autofinanciou seus projetos durante toda a jornada. Sempre na contracorrente, sempre vitorioso!”
Em 1972, Raimundo aceitou o convite do empresário Fernando Gasparian para dirigir o recém-lançado semanário Opinião. O jornal rapidamente se tornou um fenômeno, vendendo 38 mil exemplares e servindo de tribuna para nomes como Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado e Chico Buarque.
A relação com o patrão era tensa. Raimundo, de bermuda, enfrentava Gasparian, de terno. A gota d’água veio quando Gasparian se aliou à abertura política do governo Ernesto Geisel, e a redação, não. Em 1975, o jornalista foi demitido.
Sua resposta foi imediata: ao lado de parte da equipe, fundou Movimento, o “jornal dos jornalistas”. Financiado por cotas e apoiado por uma rede de colaboradores que ia do seringueiro Chico Mendes ao sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, o jornal se tornou uma das mais importantes trincheiras da imprensa de oposição.
O preço foi alto. Movimento foi censurado desde o primeiro número. Depois que a censura prévia caiu, em 1978, bancas de jornal foram incendiadas para impedir sua circulação. Raimundo reagia com denúncias e processos, além de uma cobertura incansável das greves do ABC, que ele próprio reportava de dentro das fábricas, burlando a proibição. Sua máxima era simples: “informar para conscientizar”.
A vida pessoal
Nem tudo, porém, era política. Contracorrente dedica um capítulo inteiro a um dos episódios mais dramáticos da vida de Raimundo: o relacionamento de sua irmã, Leonora, com Sérgio Paranhos Fleury, o delegado do Dops conhecido como um dos torturadores mais temidos do regime. Raimundo rompeu com a irmã quando soube do caso – e só voltou a vê-la no leito de morte dela, em 2002.
O livro também revela facetas bem-humoradas. Raimundo, que durante a ditadura dormia sobre uma mesa de trabalho com uma folha de papel no rosto (furada para respirar), também era um pai presente que ensinava as quatro filhas a separar fato de interpretação nas notícias. As meninas retribuíam com um jornal feito à mão, O Olhudo, que o pai relia orgulhoso.
Com a redemocratização, Raimundo tentou emplacar um jornal diário, Retrato do Brasil. Fracassou em três meses. “São tentativas desesperadas”, disse Mino Carta, fundador da Veja e parceiro de longa data de Raimundo, em depoimento ao livro. Para Carta, o jornal diário “é um absorvedor de dinheiro, uma coisa infernal”.
Mesmo assim, Raimundo não desistiu. Em 1997, fundou a Editora Manifesto e, nos anos seguintes, lançou a revista Reportagem e a segunda versão de Retrato do Brasil. Passou a sobreviver com contratos de publicidade de empresas estatais e com a ajuda de amigos. Cobriu o mensalão – e sustentou a tese de que o julgamento foi parcial. Defendeu Daniel Dantas contra o que considerava uma “conspiração da mídia”, o que lhe rendeu uma ruptura dolorosa com Mino Carta.
“A ditadura que nós vivemos de 1964 a 1985 era simples de ver. A ditadura sob a qual nós vivemos hoje, na imprensa, que é a ditadura do grande capital, é difícil de ver”, declarou Raimundo ao receber o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 2013.
Relação com o PCdoB
Raimundo nunca se filiou a nenhum partido, apesar de ter ensaiado uma entrada no PCdoB no início dos anos 1990. Questionado certa vez pelo ex-ministro José Dirceu se tinha interesse em aderir a alguma legenda, respondeu com bom humor: “Todo mundo fala que eu sou do PCdoB, mas eu não gozo das vantagens de ser do PCdoB. Preciso resolver esse grande problema”.
Esteve sempre por perto, ajudando campanhas e formulando ideias. Raimundo apoiou inúmeras candidaturas comunistas, como as de Benedito Cintra, Jamil Murad e Orlando Silva. Em 1976, criou o slogan da campanha a vereador de Cintra, uma jovem liderança da região da Freguesia do Ó: “Sem direitos, sem feijão, é hora de oposição.” A frase sintetiza meio século de trabalho: olho na carestia, olho na liberdade, sem nunca perder o senso de oportunidade.
“O Raimundo Pereira morou por muito tempo na Freguesia do Ó e teve uma relação profícua com os movimentos políticos e sociais da região. Contribuiu muito com a luta democrática e popular de resistência à ditadura”, lembra Nivaldo Santana, secretário Sindical do PCdoB, que conheceu Raimundo na década de 1970.
“O jornal Movimento era distribuído em larga escala entre a militância. Além do jornal, vale destacar que um importante colaborador do semanário, Duarte Pereira, realizava cursos de formação marxista e deu valiosa contribuição para forjar uma legião de quadros políticos na região”, agrega Nivaldo.
Legado
Raimundo Rodrigues Pereira deixa quatro filhas, quatro netos e uma obra espalhada por dezenas de publicações, que compõem um dos retratos mais completos do Brasil da segunda metade do século 20. Fica a pergunta que ele próprio cultivava: o que leva um físico, expulso do ITA e prestes a se tornar uma estrela da grande imprensa, a largar tudo para fazer jornalismo de oposição “passando o chapéu”?
Para Raimundo, “jornalismo não é tecnologia”. A seu ver, a imprensa popular se faz “sem medo da verdade e sem omitir fatos relevantes”. Ele desenvolveu um método próprio, quase científico, de tratar a informação com precisão e desconfiança em relação aos enquadramentos dominantes. Carregou ao longo da vida o reconhecimento – inclusive de adversários – de ser “um dos mais competentes jornalistas brasileiros em toda a história”.
Mais do que seus textos, Raimundo deixa uma escola prática. Quem trabalhou com ele aprendeu um modo de fazer jornalismo. Vida e profissão se misturaram a ponto de se tornarem indistinguíveis. Ele pertence a uma geração que enfrentou a ditadura com papel, tinta e coragem, mas seu legado não se limita àquele período: atravessa a redemocratização e chega ao século 21 insistindo no jornalismo como ferramenta de compreensão do mundo.
Raimundo se foi. Mas o jornalismo que ele praticou – rigoroso, independente e desconfiado do poder – segue como necessidade. Em tempos de velocidade e superficialidade, talvez mais do que nunca.


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