sexta-feira, 24 de abril de 2026

NA CASA QUE FALTA PÃO, TODO MUNDO GRITA E NINGUÉM TEM RAZÃO. Velhinho de Taubaté por Mário Jéfferson Leite Melo


O Velhinho, curioso como só ele, resolveu dar um passeio pelos grupos de zap — esse novo coliseu onde gladiador não usa espada, usa áudio de três minutos e textão com dedo nervoso. E bastou abrir a porta digital pra perceber: o pão sumiu da mesa, mas o barulho continua farto. É gente discutindo como se estivesse decidindo o destino do mundo, quando na verdade mal consegue decidir quem leva o café e quem lava a xícara.

E lá estavam eles, companheiros de trincheira, se engalfinhando com palavras afiadas, confundindo divergência com guerra santa, e transformando reunião em ringue. Cada um com sua verdade no bolso, mas ninguém com paciência no coração. Porque no zap, meu amigo, todo mundo é general — o problema é que falta soldado disposto a ouvir ordem que não seja a própria.

O Velhinho coçou o queixo e pensou: “Uai… tão brigando por quê mesmo?” E quanto mais lia, menos entendia. Era reunião que não foi reunião, convite que não era convite, representação que representava ninguém e todo mundo ao mesmo tempo. Um tal de “eu fui”, “eu não fui”, “você disse”, “eu não disse”... e no meio disso tudo, a tal da cultura, coitada, sentada no canto, esperando alguém lembrar que ela existe pra além do ego ferido.

Porque enquanto uns discutem se a cadeira é de madeira ou de plástico, ninguém percebe que a mesa está quebrada.

E o mais curioso — ou trágico — é que todos ali estão do mesmo lado. Ou deveriam estar. Mas o tal do “fogo amigo” virou esporte oficial. Um atira no outro achando que está acertando o inimigo, quando na verdade está só abrindo mais buraco no próprio barco. E barco furado, meu filho, não afunda só um — afunda todo mundo junto, com direito a discurso inflamado até o último gole d’água.

O Velhinho lembrou então de um causo antigo: dois irmãos brigavam pela herança de uma casa que ainda nem tinham terminado de construir. Enquanto discutiam quem ficaria com a sala, o teto caiu. E ficaram os dois sem sala, sem teto e com a razão — cada um segurando a sua, como quem segura um troféu inútil.

É disso que se trata.

Debate é coisa bonita. Divergência é motor. Mas quando o respeito sai pela porta, a inteligência pula pela janela. E o que sobra? Vaidade, ruído e uma coleção de certezas que não constroem nada. Como já dizia aquele sopro lúcido de Eduardo Galeano, o mundo moderno anda transformando o que é prazer em obrigação — e talvez a cultura esteja sendo empurrada pro mesmo abismo: deixando de ser encontro pra virar disputa de território.

E enquanto isso, lá fora, quem realmente não quer política pública de verdade agradece. Porque nada é mais eficiente do que um grupo desunido tentando provar quem tem mais razão enquanto perde o essencial: o sentido coletivo.

O Velhinho então bateu o cajado no chão — não pra fazer barulho, mas pra ver se alguém escutava — e soltou:

“Briga de irmão não se vence, se aparta. E quanto mais demora, mais caro fica o conserto.”

No fim das contas, quem grita mais alto não ganha — só cansa primeiro.

Quem fala sozinho não lidera — só ecoa no vazio.

E quem esquece o coletivo… vira plateia da própria derrota.

Porque onde falta pão, o grito pode até ser alto…

mas nunca será solução.

sábado, 11 de abril de 2026

Nenhum comentário: