Quem vai descer de Aracaju para o Rosa Elze, em São Cristóvão, neste sábado à tarde, para participar de uma roda de conversa com DJ Dolores?
Enquanto o III Festival Na Lama transforma o Rosa Elze, em São Cristóvão, em território de música, memória, justiça ambiental e participação cidadã, a experiência do Coletivo Inferninho coloca uma pergunta incômoda para a política cultural do município: é possível fazer um festival que trate a cultura, ao mesmo tempo, como dimensão simbólica, econômica e cidadã? A resposta está sendo dada na prática por uma iniciativa que também reacende o debate sobre a descentralização do FASC, a criação de equipamentos culturais nos bairros e o papel de São Cristóvão na construção de uma política cultural verdadeiramente territorial.
O Coletivo Inferninho é certificado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, e vem se inserindo na Rede Cultura Viva de Sergipe a partir de uma atuação que articula juventude, música, cultura periférica, território e participação comunitária. O festival assume, assim, uma dimensão que ultrapassa a programação artística e coloca o Rosa Elze no mapa das iniciativas culturais que ajudam a pensar o presente e o futuro de São Cristóvão.
Resistência, memória e justiça ambiental
A programação começou na sexta-feira (11/09), ocupando a Biblioteca Municipal Prof. Luiz Alberto como espaço de reflexão, encontro e valorização da cultura local.
Um dos destaques da abertura foi a mesa “Mangue: fonte de vida, cultura e resistência”, que contou com a participação de Givanildo Santana, do Instituto Piabinhas, trazendo para o debate questões relacionadas à identidade, à preservação ambiental e à sobrevivência das comunidades que mantêm relações históricas com os ecossistemas de mangue.
A construção desse debate também contou com a participação de Isabela Santana, do Institut0 Piabinhas, fortalecendo a dimensão ambiental e comunitária do festival.
A programação do festival ganha ainda uma dimensão de ancestralidade com a apresentação do Maculelê Mirim, ação cultural realizada pelo referido Instituto. Ao som dos atabaques e do bater dos bastões, crianças e jovens reafirmam que cultura popular não é peça de museu: é experiência viva, transmitida entre gerações e reinventada pelas novas gerações.
É justamente essa combinação entre tradição e contemporaneidade que parece orientar o Festival Na Lama.
Rosa Elze: território, juventude e cultura
Realizar um festival como esse no Rosa Elze também tem um significado político e cultural. O chamado Grande Rosa Elze é uma das áreas de maior concentração populacional e de expansão urbana de São Cristóvão, marcada, ao mesmo tempo, pela presença da Universidade Federal de Sergipe e por fortes desigualdades socioespaciais.
Por isso, quando um coletivo cultural ocupa uma rua, uma praça, uma biblioteca ou outro equipamento público para discutir arte, meio ambiente e território, está fazendo também uma espécie de intervenção cidadã. A cultura passa a funcionar como instrumento para que os moradores possam olhar para o lugar onde vivem não apenas como espaço de passagem ou periferia, mas como território produtor de memória, conhecimento, arte e identidade.
A cultura em três dimensões
Um aspecto que chama particularmente a atenção no Festival Na Lama é o modo tridimensional e diversificado como ele trata a cultura. O festival parece considerar, com semelhante grau de importância, pelo menos três dimensões fundamentais: a cultura como dimensão simbólica, como dimensão econômica e como dimensão cidadã.
A dimensão simbólica está presente na música, na cultura popular, na memória, na ancestralidade e nas diferentes linguagens artísticas. A dimensão econômica aparece quando a produção cultural é entendida também como trabalho, geração de renda, circulação de recursos e valorização dos trabalhadores da cultura. E a dimensão cidadã surge quando a cultura deixa de ser apenas espetáculo e passa a produzir participação, consciência crítica, pertencimento, direito à cidade e capacidade de intervenção social.
Essa perspectiva deveria ser observada com mais atenção pela Prefeitura de São Cristóvão na realização do Festival de Arte de São Cristóvão (FASC). O FASC possui enorme importância simbólica e econômica para a cidade e para Sergipe, mas ainda deixa a desejar justamente na sua dimensão cidadã, aquela que poderia fazer do festival um espaço mais permanente de diálogo entre artistas, comunidades, público e poder público.
E mesmo a dimensão simbólica merece uma observação mais cuidadosa. Olhe lá, e olhe lá, porque a primazia da linguagem musical no FASC é evidente, inclusive quando se observa a distribuição dos cachês. Não se trata de negar a importância da música — que é enorme —, mas de questionar se um festival de artes precisa reproduzir uma hierarquia tão acentuada entre as linguagens e entre os próprios trabalhadores da cultura.
Em um contexto de guerra cultural, essa dimensão cidadã se torna ainda mais importante. A disputa cultural contemporânea não ocorre somente pelo controle dos recursos públicos ou pela presença de determinados artistas nos palcos. Ela também ocorre pela capacidade de formar consciência, disputar valores, fortalecer vínculos comunitários, combater preconceitos, reconhecer diferenças e criar espaços onde as pessoas possam se perceber como sujeitos de direitos.
O Festival Na Lama mostra como fazer
E aqui está talvez o aspecto mais importante.
Ao realizar o Festival Na Lama da maneira como vem fazendo, o Coletivo Inferninho não fica apenas na constatação ou na crítica construtiva. Ele mostra, na prática, como é possível fazer cultura nas três dimensões — simbólica, econômica e cidadã — juntas e misturadas.
O festival não separa a arte do território, a música da reflexão, a cultura popular da juventude, o entretenimento da questão ambiental ou o artista do cidadão. É justamente essa combinação que lhe confere força.
E há ainda outro detalhe que não deveria passar despercebido: o festival acontece no Rosa Elze.
Há anos venho defendendo que a Prefeitura de São Cristóvão precisa pensar na descentralização do FASC, levando parte de sua programação para a região que compreende os bairros Rosa Elze e Eduardo Gomes. Não se trata de abandonar o Centro Histórico — que continuará sendo fundamental para a identidade e para a própria dimensão patrimonial do festival —, mas de reconhecer que São Cristóvão é muito maior do que seu centro histórico.
O Festival Na Lama demonstra que essa descentralização não é apenas uma ideia possível. Ela já está acontecendo pela iniciativa da sociedade civil.
Do Pró-FASC ao FASC: a memória de uma luta
Falar de cultura em São Cristóvão também significa lembrar uma história que antecede a atual política cultural do município: a mobilização da sociedade civil pela retomada do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC).
O FASC nasceu em 1972 e se transformou, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, em um dos mais importantes encontros de arte e cultura do Nordeste. Depois de sucessivas interrupções, o festival chegou a um longo período de descontinuidade. O último FASC antes da retomada havia acontecido em 2005.
Em 2011, foi criado o Movimento Pró-FASC, reunindo agentes culturais, artistas, educadores, moradores e pessoas comprometidas com a recuperação do festival. O movimento produziu manifesto, promoveu reuniões, buscou apoio institucional e realizou mobilizações públicas em defesa da retomada do evento.
Entre os participantes desse movimento estava Marcos Santana, então agente cultural, economista e gestor público. Sua participação nessa história é importante porque demonstra que a retomada do FASC não nasceu simplesmente de uma decisão administrativa posterior. Existiu antes uma mobilização da sociedade civil que ajudou a manter viva a memória e a reivindicação pelo retorno do festival.
Marcos Santana assumiu pela primeira vez a Prefeitura de São Cristóvão em janeiro de 2017. Naquele mesmo ano, o FASC foi retomado, depois de 12 anos de interrupção, chegando à sua 34ª edição. A partir daí, o festival passou a ter continuidade, transformando novamente São Cristóvão em um importante polo da cultura sergipana.
É justo, portanto, reconhecer o papel de Marcos Santana na retomada e na continuidade do FASC. Mas também é importante preservar a memória do movimento que o antecedeu. A história é mais rica quando reconhecemos as duas coisas: a pressão e a mobilização da sociedade civil e a decisão política que tornou possível a retomada institucional.
CEUs: cultura como direito e presença permanente no território
É nesse ponto que volta a fazer sentido falar dos Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs). Mais do que equipamentos físicos, os CEUs representam uma concepção de política pública que procura levar cultura, esporte, lazer, convivência comunitária e cidadania para dentro dos territórios populares.
Um CEU instalado na Grande Rosa Elze, por exemplo, poderia funcionar como uma infraestrutura permanente de cultura e cidadania, oferecendo espaço para grupos culturais, Pontos de Cultura, juventudes, artistas, educadores, atividades esportivas, formação, produção audiovisual, música, dança, teatro e diversas outras manifestações.
Por isso, uma das demandas que considero importante para um eventual mandato de Marcos Santana como deputado federal é justamente a destinação de um CEU para a Grande Rosa Elze, além da implantação de equipamentos semelhantes em outros municípios sergipanos que apresentem indicadores de vulnerabilidade social, econômica e cidadã.
Não se trata apenas de construir prédios. Trata-se de criar presença permanente do Estado e das políticas culturais nos territórios onde vivem as populações que historicamente tiveram menos acesso aos bens e serviços culturais.
Um voto pela cultura
E, como estamos em período eleitoral, vale registrar uma posição política.
O ex-prefeito de São Cristóvão Marcos Santana, que participou do movimento pela retomada do FASC e, posteriormente, como prefeito, foi responsável pela retomada e pela continuidade do festival, é o destinatário do meu voto para deputado federal nestas eleições.
Faço essa escolha também por uma razão política mais ampla: acredito que Sergipe precisa ampliar sua representação no Congresso Nacional com parlamentares capazes de compreender a cultura não como ornamento, entretenimento ou gasto público, mas como direito, trabalho, economia, identidade, participação social e instrumento de transformação.
E faço uma aposta ainda maior: que Marcos Santana possa se constituir, no Congresso, como um deputado sergipano da cultura, atuando em sintonia com o presidente Lula, cujo governo recolocou a cultura no centro das políticas públicas federais e promoveu, neste período, uma das maiores ampliações de investimentos públicos no setor desde a redemocratização.
É uma expectativa que vem acompanhada de demandas concretas: entre elas, a defesa de políticas permanentes de cultura, o fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura, dos Pontos e Pontões de Cultura, dos equipamentos culturais de base territorial e, particularmente, a implantação de CEUs em áreas de vulnerabilidade social, econômica e cidadã de Sergipe.
A cultura não cabe apenas no Centro Histórico
É por isso que o III Festival Na Lama merece atenção.
Ao ocupar o Rosa Elze com música, debate, cultura popular, juventude e discussão ambiental, o festival ajuda a ampliar o próprio conceito de cultura em São Cristóvão. A cidade não é apenas seu extraordinário Centro Histórico, a Praça São Francisco, os museus, as igrejas e o FASC. São Cristóvão também é Rosa Elze, Eduardo Gomes, Tijuquinha, Madre Paulina, Rosa Maria e tantos outros territórios onde a vida cultural acontece cotidianamente.
O desafio agora é fazer com que essa cultura viva seja reconhecida como parte permanente da política cultural do município.
Neste sábado, portanto, quem sair de Aracaju em direção ao Rosa Elze não estará apenas indo assistir a uma roda de conversa com um importante nome da música brasileira. Estará participando de uma experiência que coloca em diálogo Sergipe e Pernambuco, mangue e território, tradição e música eletrônica, cultura popular e juventude, arte e justiça ambiental.
E talvez seja justamente essa a maior provocação do Festival Na Lama: mostrar que a cultura pode ser, ao mesmo tempo, símbolo, trabalho e cidadania.
Quando a cultura encontra o território, a lama também pode virar memória, música, resistência e futuro.
Zezito de Oliveira com apoio da IA Gemini e Chat GPT em pesquisas de dados e informações complementares..
Secretária de Cultura reafirma apoio a retorno do Fasc
https://infonet.com.br/noticias/cultura/secretaria-de-cultura-reafirma-apoio-a-retorno-do-fasc/

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