LATINHA, LOUVOR E DESINFORMAÇÃO: O SURTO MORAL QUE NASCEU NO WHATSAPP DA DIREITA EVANGÉLICA
Por João Guató no Pasquim Cuiabano
A bateria mal tinha esfriado na avenida de Niterói e parte do meio evangélico já estava em plantão permanente nas redes sociais. O que se viu nos últimos dias foi a fabricação acelerada de narrativas sobre o desfile da escola de samba da cidade. Não se tratava apenas de discordância política, mas da construção deliberada de versões que não resistem a uma consulta básica aos fatos.
Circulou com força a afirmação de que a escola “é do Lula” e teria recebido um milhão de reais por favorecimento. A tese é sedutora para quem precisa de vilão pronto. O problema é que ela ignora como funcionam as políticas culturais no Brasil. Escolas de samba recebem recursos por meio de editais e subvenções municipais e estaduais, mecanismos que existem há décadas e seguem regras públicas. Não há vínculo societário com o presidente da República, nem linha orçamentária secreta batizada de “amizade presidencial”. O carnaval não nasceu em gabinete. Ele é financiado por políticas públicas estruturadas muito antes do atual governo.
Outra narrativa que ganhou corpo foi a acusação de crime eleitoral. Segundo os disseminadores da tese, o desfile configuraria ilícito envolvendo o presidente. A acusação, no entanto, carece de elemento jurídico mínimo. Crime eleitoral exige tipificação legal, prova concreta e demonstração de uso indevido de estrutura pública ou pedido explícito de voto. Alegoria artística não se enquadra automaticamente nessas categorias. Transformar metáfora carnavalesca em delito é exercício criativo, não interpretação jurídica. O Direito Eleitoral não funciona por indignação estética.
A terceira frente de indignação tratou a alegoria das latas de conserva como ataque à fé cristã.
A imagem foi interpretada como ofensa religiosa. A concepção artística, porém, apontava para crítica simbólica ao neoconservadorismo político e à hipocrisia pública, não a dogmas ou figuras centrais do cristianismo. Carnaval trabalha com alegoria, exagero e ironia. Confundir crítica ideológica com perseguição religiosa é estratégia conhecida de mobilização emocional.
Há uma diferença clara entre defender convicções e espalhar desinformação. O que se observou foi a circulação de conteúdos sem checagem, convertidos em correntes e trends, inclusive com latinhas estampando fotos de família como se o gesto performasse devoção. Fé não depende de boato para se sustentar. O próprio Jesus Cristo construiu sua mensagem denunciando hipocrisia, não fabricando versões convenientes.
A divergência política é legítima. A crítica artística também. O que fragiliza qualquer debate é a escolha consciente pela mentira como ferramenta de mobilização. Quando a defesa da verdade se apoia em inverdades, o argumento já nasce comprometido. E o testemunho que se diz proteger acaba sendo a primeira vítima.





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