O 25 de Abril é uma data significativa para italianos, portugueses e para todos os que, ao redor do mundo, se dedicam à luta contra o fascismo. Mais do que uma efeméride europeia, essa data carrega conexões profundas também com o Brasil — seja por laços culturais, pela participação militar ou pelos debates contemporâneos sobre democracia e autoritarismo.
Portugal: a Revolução dos CravosEm Portugal, o 25 de Abril de 1974 ficou conhecido como a Revolução dos Cravos. Diferente de outros movimentos de ruptura política, essa revolução foi marcada por sua singularidade: ocorreu de forma quase pacífica, com os soldados colocando cravos vermelhos nos canos de seus fuzis e a população saindo às ruas em apoio. Os símbolos que ecoam até hoje são as flores e a canção "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso, que serviu de senha para deflagrar o levante e cujos versos falam em "terra da fraternidade" e "terra da liberdade". Essa data representou o fim do chamado Estado Novo, a longa ditadura salazarista que durou mais de quatro décadas.
Itália: a libertação do nazifascismo
Já na Itália, o 25 de Abril celebra a libertação do país do regime fascista de Benito Mussolini e da ocupação nazista, em 1945. Foi o dia da insurreição geral das forças de resistência — os partisans — que culminou na queda e na execução do ditador. Nesse contexto, um elemento frequentemente esquecido é a participação brasileira: cerca de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram enviados para lutar ao lado dos Aliados na Campanha da Itália. Muitos desses combatentes perderam a vida no campo de batalha, retornando em caixões ao Brasil ou voltaram com graves sequelas físicas e psicológicas.
Ainda assim, o 25 de Abril italiano é menos lembrado no Brasil do que o português. As razões são múltiplas: as relações históricas e culturais mais fortes com Portugal (a começar pela língua comum) e o contexto de 1974, quando tanto Portugal (ainda sob Salazar) quanto o Brasil (sob a ditadura militar de Geisel) viviam regimes autoritários. Essa proximidade tornou a Revolução dos Cravos mais familiar aos brasileiros, com artistas como Chico Buarque compondo canções emblemáticas como "Tanto Mar" em solidariedade à liberdade portuguesa.
A canção que une as memóriasPara resgatar a memória do 25 de Abril na Itália, uma canção se destacou: "Bella Ciao". Cantada pelos partisans durante a resistência, tornou-se um ícone mundial da luta antifascista. Recentemente, um vídeo que viralizou na internet mostrou bispos brasileiros cantando essa melodia em um encontro recreativo, o que reacendeu o debate sobre o papel da Igreja Católica diante do fascismo — tanto na Itália quanto no Brasil.
A Igreja Católica entre dois lados
Vale lembrar que a Igreja Católica não teve uma posição única e monolítica em relação aos regimes autoritários. Na Itália, houve católicos que apoiaram Mussolini, especialmente após os Pactos de Latrão de 1929, que concederam vantagens significativas à Igreja. Contudo, também houve padres, freiras e leigos que participaram ativamente da resistência, arriscando suas vidas para proteger judeus e perseguidos. Um exemplo disso pode ser encontrado no filme Roma Cidade Aberta de Roberto Rossellini, a sinopse afirma: "Entre os anos de 1943 e 1944, a cidade de Roma, ocupada pelos nazistas, é declarada cidade aberta, a fim de evitar bombardeios aéreos. Neste momento comunistas e católicos unem-se para combater os alemães e as tropas fascistas." Assista aqui.
No Brasil, durante a ditadura militar (1964-1985), setores da Igreja apoiaram o regime, vendo nele um baluarte contra o "perigo comunista". Outros, no entanto — particularmente aqueles vinculados à Teologia da Libertação —, opuseram-se corajosamente à repressão e defenderam os direitos humanos.
O caso recente do padre José Eduardo
Esse histórico torna ainda mais instigante um episódio recente. No Brasil, tivemos um padre diretamente envolvido nas investigações sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Trata-se do padre José Eduardo de Oliveira e Silva, da Diocese de Osasco (SP). Ele foi indiciado pela Polícia Federal em novembro de 2024 como suposto integrante do chamado "núcleo jurídico" do esquema que tentava elaborar uma minuta de decreto para instituir um regime de exceção e impedir a posse do governo eleito.
De acordo com as investigações, o padre teria participado de uma reunião no Palácio do Planalto em novembro de 2022, ao lado de Filipe Martins (ex-assessor de Bolsonaro) e do advogado Amauri Feres Saad, apontado como mentor intelectual da chamada "minuta do golpe". Além disso, a PF encontrou mensagens enviadas por ele pedindo que fiéis por meio de Frei Gilson, entre outros padres, fizessem uma "oração do golpe" — uma corrente de preces direcionada a generais de quatro estrelas e ao então ministro da Defesa, para que tivessem "coragem de salvar o Brasil".
A "oração" enviada, datada de novembro de 2023, pedia a católicos e evangélicos que incluíssem em suas preces os nomes do então ministro da Defesa e de outros 16 generais. O texto solicitava a Deus que desse a eles "coragem para salvar o Brasil, ajudasse-os a vencer a covardia e os estimulasse a agir com consciência histórica e não apenas como funcionários públicos de farda".
No entanto, embora indiciado pela PF, o padre nunca foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Em fevereiro de 2026, a PGR decidiu não oferecer denúncia contra ele, por considerar que não havia elementos suficientes para sustentar uma acusação formal.
Conclusão
Dessa forma, o 25 de Abril revela-se uma data de memória multifacetada que conecta Portugal, Itália e Brasil por diferentes fios históricos: em Portugal, a Revolução dos Cravos de 1974 marcou o fim pacífico de uma longa ditadura com seus símbolos de flores e canção; na Itália, a libertação de 1945 do nazifascismo, exemplificada pela resistência dos partisans e pelo hino "Bella Ciao", contou com a participação decisiva de 25 mil soldados brasileiros da FEB; no Brasil, embora a data italiana seja menos lembrada por razões culturais e políticas, o país se vê novamente confrontado com o debate sobre autoritarismo e o papel da Igreja Católica — que, tanto na Europa quanto aqui, jamais teve uma posição monolítica, dividindo-se entre apoiadores de regimes opressores e corajosos defensores da democracia. como no exemplo de bispos como Dom José Cabral Luciano Duarte (in memorian) na época da ditadura militar em Aracaju e Padre José Eduardo, em tempos mais recentes e no segundo caso Dom Hélder , Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldaliga, entre outros no passado. No presente destacamos Padre Júlio Lancellotti, Dom Orlando Brandes (emérito de Aparecida), Dom José Ionilton (Marajó), Dom Leonardo Steiner (cardeal arcebispo de Manaus), entre outros.
Dedico o artigo acima a uma colega professora sergipana, descendente de italianos, Isabela Chizolini, que me lembra o legado anarquista, socialista e comunista pela sua indignação, coragem e prontidão para a luta, trazido pelos imigrantes anticapitalistas e antifascistas da peninsula itálica que chegaram ao Brasil no inicio do século XX
P.S.: De Sergipe tivemos a presença no momento musical com Bella Ciao, do bispo Dom Genivaldo, de Estância.
O 25 de Abril português aqui no blog


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