Foto- Ras de Sá
O Velhinho de Taubaté e as tradições que se perdem no tempo
Por Mário Jéfferson Leite Melo (o velhinho de Taubaté, em construção) - São Paulo.
O Velhinho acordou naquele sábado com um silêncio diferente… não era só o silêncio do mundo — era o silêncio da memória pedindo licença pra falar. Porque, veja bem… no tempo do Velhinho, sábado depois da Sexta-feira da Paixão não era só mais um dia. Era o Sábado de Aleluia, e o nome já vinha carregado de promessa, igual nuvem preta que a gente sabe que vai virar chuva boa.
De manhã, parecia que até o vento andava de cabeça baixa. As igrejas quietas, os sinos calados, como se o tempo tivesse tirado o chapéu em respeito. Diziam os antigos — e o Velhinho acredita até hoje — que aquele era o dia em que o céu cochichava baixinho, pra não acordar a dor de Maria.
Mas bastava o sol esquentar um tiquinho… e pronto! A molecada virava o mundo do avesso.
Era um corre-corre danado pelas ruas de terra, batendo de porta em porta, numa espécie de procissão ao contrário — não de penitência, mas de travessura autorizada por Deus (ou pelo menos tolerada, que santo também tem senso de humor).
— “Ô de casa!”
E lá vinha o coro, afinado na marra da alegria: — “Deus te pague! Deus te ajude!”. Quando caía balas, moedas, qualquer coisinha que tilintasse ou adoçasse o dente, era como se o céu abrisse uma frestinha só pra sorrir.
Agora… se não vinha nada… ah, meu amigo… aí o julgamento era rápido, direto e sem recurso: — “Pão duro miserável! Pão duro miserável!”. E lá se ia a turma, rindo, porque até a maldade ali era leve, dessas que não machucam — só cutucam o orgulho.
O Velhinho, com os olhos meio marejados e meio risonhos, lembrou também de Silveiras, ali pertinho, onde existia a lendária PR Cabrito… uma rádio que não precisava de antena, nem de licença, nem de verdade — porque vivia na frequência da imaginação. Era ela que “transmitia” a Malhação de Judas. E depois vinha o grande espetáculo: a leitura do testamento. Meu Deus do céu… O Judas, que já tinha sido malhado, ainda tinha que dividir seus “bens” — que nunca eram bens — com os figurões da cidade. Fulano herdava uma dentadura sem dente, sicrano ganhava um chapéu furado, e assim ia… uma justiça poética que nem juiz nenhum dava conta de assinar.
Era o povo rindo de si mesmo, das autoridades, da vida… Era a sabedoria vestida de piada. Porque o Velhinho aprendeu cedo que tradição é isso: não mora em livro, mora na boca do povo. Não vive em decreto, vive na repetição. E quando para de ser contada… vira saudade.
Hoje, ele olha em volta e vê que muitas dessas coisas foram se perdendo, como reza esquecida no fundo da gaveta ou fotografia que desbota sem ninguém perceber. As crianças já não batem nas portas — batem em telas.
O “Deus te pague” virou notificação silenciosa. E o “pão duro miserável” … ah, esse foi aposentado pela indiferença, que é pior, porque não grita — só apaga.
O Velhinho coça o queixo, ajeita o chapéu imaginário e solta, meio rindo, meio sério: — “O mundo hoje tem pressa demais pra lembrar… e pressa demais também pra esquecer.” Mas ele ainda acredita — teimoso como só — que tradição é igual brasa de fogão a lenha: pode parecer apagada…, mas se alguém sopra com carinho… ela volta.
E talvez — só talvez — ainda tenha uma criança em algum canto batendo numa porta qualquer, esperando não só uma bala…, mas um motivo pra continuar dizendo, em coro: — “Deus te pague, Deus te ajude…”
Porque enquanto alguém disser isso de coração… o tempo não leva tudo, não.
Aqui em Aracaju, no bairro Getúlio Vargas , nesse ano da graça de 2026, a queima do Judas está sendo retomada, depois de vinte anos sem ser realizada depois do falecimento de Maroaldo, o líder da iniciativa tradicional por aqui. Nesse segundo ano da retomada , os Judas queimados foram conceituais, o racismo e a homofobia.
Foto- Ras de Sá
No vídeo acima e AQUI, do bairro Novo Horizonte, municipio de Socorro, o protesto contra o governador de Sergipe, com destaque para o problema da crise no abastecimento de água..
A cobertura do Blog da Cultura em outros anos... AQUI
A origem da Malhação do Judas está ligada à punição simbólica do apóstolo que traiu Jesus, uma tradição que os colonizadores portugueses e espanhóis trouxeram para o Brasil. Com o tempo, ela se transformou, ganhando contornos de crítica social e se tornando uma festa popular que, embora menos comum hoje, ainda resiste em muitas comunidades .
📜 Origens e Significado Religioso
A tradição tem suas raízes na narrativa bíblica da Páscoa:
Base bíblica: A prática é uma alusão à história de Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus Cristo em troca de 30 moedas de prata. De acordo com o relato bíblico, tomado pelo desespero, Judas teria se enforcado .
Punição simbólica: "Malhar o Judas" representa, portanto, a rejeição coletiva à traição. O ato de surrar, enforcar ou queimar o boneco é uma forma simbólica de punir o ato que, segundo a fé cristã, levou à crucificação de Jesus .
Data da celebração: O ritual acontece sempre no Sábado de Aleluia, o dia que antecede o Domingo de Páscoa. Do ponto de vista litúrgico católico, este é um dia de silêncio e reflexão, o que torna a malhação uma manifestação da cultura popular, e não um rito oficial da Igreja .
🇧🇷 Como a Tradição se Estabeleceu no Brasil
A tradição chegou ao Brasil ainda no período colonial, trazida por portugueses e espanhóis, e se enraizou de forma única na cultura nacional .
Registros históricos: A prática já era tão comum no século XIX que foi documentada por importantes artistas e escritores. O francês Jean-Baptiste Debret retratou a cena em uma pintura de 1823, e o dramaturgo Martins Pena a mencionou em uma peça de 1840 .
Adaptação brasileira: No Brasil, o boneco de Judas tradicionalmente ganha um "testamento", uma lista satírica ou cartazes com os nomes de políticos, técnicos de futebol e outras personalidades que se tornaram alvo de insatisfação popular . Essa é a principal característica que distingue a tradição brasileira, transformando o ritual em um termômetro da opinião pública e uma forma de protesto bem-humorado .
Variações regionais: A forma de celebrar varia em todo o país. A versão mais comum é a confecção do boneco, que é pendurado em um poste, espancado e depois queimado. No entanto, há variações únicas, como o famoso "Estouro do Judas" na cidade de Itu (SP), onde o boneco é literalmente detonado com bombas em um espetáculo pirotécnico .
🤔 Uma Prática em Transformação
Embora ainda presente em muitos bairros e cidades, especialmente no interior e nos subúrbios de grandes centros como o Rio de Janeiro, a tradição tem se tornado mais rara. Entre os motivos estão a crescente urbanização e a preocupação dos pais com a violência do ato de espancar e queimar um boneco na frente das crianças . Apesar disso, ela persiste como um momento de união comunitária, onde famílias e vizinhos se reúnem para confeccionar o boneco e manter viva a memória cultural .
Em resumo, a Malhação do Judas no Brasil é uma tradição que nasceu de um simbolismo religioso medieval, foi adaptada com o humor e a irreverência brasileiros e se consolidou como um fenômeno de crítica social e cultural.
Tradição e política: quem você queimaria como “Judas”?, pergunta o jornalista Narcizo Machado no facebook. AQUI
Resposta do editor do blog. Zezito de Oliveira
Flávio Bolsonaro e familicia.
Com base no que afirma o jornalista Bernardo Mello Franco no Globo de hoje, 05/04/2026
"Flávio Bolsonaro quer convencer o governo americano a interferir na eleição brasileira a seu favor. E a vassalagem não para na oferta de minerais críticos a Trump." Prossegue o jornalista citado.
E para quem tem uma mente e um coração de verdadeiro cristão, Feliz Páscoa!!!
Nenhum comentário:
Postar um comentário