"O Movimento Fé e Política possui caráter plural. Em seus encontros se reúnem participantes de diversas denominações cristãs, além de representantes de outras tradições religiosas e pessoas sem filiação religiosa institucional, mas comprometidas com valores humanistas inspirados pelos grandes mestres da espiritualidade. Essa diversidade favorece o diálogo, combate o sectarismo e amplia horizontes. Em tempos de polarização e intolerância, a simples experiência de escuta mútua e convivência respeitosa já se torna, por si só, um testemunho político relevante".
O artigo é de Frei Betto e Claudio de Oliveira Ribeiro.
Frei Betto é escritor, autor do romance sobre a Amazônia “Tom Vermelho do Verde” (Rocco), entre outros títulos. Livraria virtual: freibetto.org
Claudio de Oliveira Ribeiro, pastor metodista e professor de Ciência da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Frei Betto e Claudio de Oliveira Ribeiro (Foto: MST e Arquivo pessoal)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Eis o artigo.
“Fortalecer a democracia , o esperançar e o bem viver”. Esse foi o tema central do 13º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, que reuniu, em São Bernardo do Campo (SP), entre os dias 24 e 26 de abril, lideranças e grupos militantes de todo o país. Vale ressaltar que tais encontros constituem, há décadas, um espaço singular de convergência entre espiritualidade, compromisso social e reflexão crítica sobre a realidade brasileira. Mais do que simples eventos, eles funcionam como verdadeiros laboratórios de cidadania, onde diferentes tradições religiosas, movimentos pastorais, populares, sindicais e militantes partidários se reúnem para pensar caminhos concretos de transformação social à luz de valores éticos e espirituais.
Em um país como o Brasil, marcado por profundas desigualdades, os encontros cumprem um papel fundamental ao reafirmar que a fé não pode ser reduzida à esfera privada. Ao contrário, possui implicações públicas e políticas, especialmente quando inspirada por princípios como justiça, solidariedade e dignidade humana. Nesse sentido, o Movimento Fé e Política ajuda a resgatar uma compreensão mais ampla da espiritualidade, conectando-a às lutas por direitos, à defesa da democracia e à construção de uma sociedade mais justa.
O Movimento Fé e Política possui caráter plural. Em seus encontros se reúnem participantes de diversas denominações cristãs, além de representantes de outras tradições religiosas e pessoas sem filiação religiosa institucional, mas comprometidas com valores humanistas inspirados pelos grandes mestres da espiritualidade. Essa diversidade favorece o diálogo, combate o sectarismo e amplia horizontes. Em tempos de polarização e intolerância, a simples experiência de escuta mútua e convivência respeitosa já se torna, por si só, um testemunho político relevante.
Além do diálogo inter-religioso, os encontros locais, regionais e nacionais também promovem a articulação entre fé e prática social. Oficinas, mesas de debate e celebrações permitem que experiências concretas — como atuação em periferias urbanas, defesa de povos ancestrais, economia solidária e direitos humanos —, sejam compartilhadas e fortalecidas. Isso contribui para a formação de redes e o surgimento de novas iniciativas comprometidas com a defesa da democracia e a transformação social.
A dimensão formativa é outro pilar importante. Ao reunir lideranças populares e agentes de base, pastoralistas, teólogos e teólogas, cientistas sociais, lideranças populares e agentes de base, os encontros oferecem subsídios teóricos e espirituais para uma atuação política mais consciente e qualificada. Trata-se de um espaço no qual se aprofunda a compreensão das estruturas sociais, sem perder de vista a dimensão ética e simbólica que sustenta o engajamento. Assim, o Movimento Fé e Política não apenas mobiliza, mas também forma sujeitos críticos e comprometidos.
O encontro foi marcado por quatro grandes objetivos, como indica a Carta-Compromisso assumida ao final:
“1) Enfrentar a extrema direita no Brasil e no mundo fortalecendo a Democracia, por meio de candidaturas progressistas em 2026 que se comprometam com as lutas sociais, o esperançar e o bem viver;
2) Fortalecer os trabalhos de base, contribuindo com a construção de um projeto de país orientado para o Socialismo, o Bem-viver e o Reino de Deus;
3) Manter vivas as memórias e ampliar as lutas sociais e políticas, em especial das mulheres, movimentos negros, povos originários e comunidades tradicionais;
4) Realçar o papel das artes, das culturas e das juventudes para novos protagonismos na luta social e política nas periferias”.
Os encontros também têm função de memória e continuidade. Ao revisitar trajetórias históricas de resistência e compromisso social, ajudam a preservar uma tradição que muitas vezes é invisibilizada. Ao mesmo tempo, abrem espaço para novas gerações, garantindo renovação e atualização das pautas. Essa combinação entre memória e novidade é essencial para manter vivo o horizonte libertador que anima o movimento.
Nesse sentido, um grande desafio se mantém, sobretudo para as pessoas de “cabelos brancos” – expressão que se tornou conhecida em nosso meio. É a sensibilização em abrir caminhos de maior participação das juventudes. Na Carta-Compromisso do encontro está indicado que é preciso:
“1) Dar espaços reais de escuta e diálogo com as juventudes, reativando mecanismos permanentes de participação e garantir presença juvenil qualificada nos processos de decisão, com coordenação compartilhada e paridade em todos os espaços, como já iniciado no 13o ENFP.
2) Superar resistências adultocêntricas nas organizações e incentivar coletivos, pastorais e lideranças a se colocarem ao lado das juventudes, escutando com humildade, partilhando responsabilidades e reconhecendo seu protagonismo.
3) Assumir a pauta climática como prioridade juvenil e inserir a justiça socioambiental nas ações e formações, compreendendo que a crise climática afeta diretamente a vida, os territórios, o presente e o futuro das juventudes.
4) Renovar metodologias de trabalho com juventudes para gerar maior interesse, repensando linguagens, encontros e processos formativos, adotando métodos mais participativos, criativos, digitais e conectados com a realidade juvenil. Essa renovação deve ser feita a partir de um processo de escuta ativa das juventudes e de suas reais necessidades.
5) Valorizar o testemunho das diversas gerações e a conexão com a prática, fortalecendo lideranças coerentes, próximas e capazes de dialogar a partir da experiência concreta”.
Por fim, os encontros nacionais do Movimento Fé e Política reafirmam a esperança como força política. Ela se faz esperançar, na feliz expressão de Paulo Freire. Em contextos de crise, descrença e retrocessos, reunir pessoas em torno de um projeto comum, inspirado por valores éticos, evangélicos, espirituais, é um ato profundamente contestador. Não se trata de um otimismo ingênuo, mas de uma esperança ativa, que se traduz em compromisso concreto com a justiça e a dignidade.
Mais uma vez, a Carta-Compromisso nos interpela: “O momento que vivemos, numa ótica global, é por demais complexo e desafiador. De maneira particular, o Continente Latino Americano e Caribenho, fragmentado social e politicamente, está com os sinais de alerta ativados contra as tendências fascistas que o querem manter como quintal de potências estrangeiras. A partir do nosso Continente, emergiu neste encontro o sonho por uma reformulação global, onde os países se respeitem mutuamente, para que a soberania de cada um seja o ideal da convivência pacífica, fundada na justiça entre os povos. Trata-se do foco na multipolaridade, com forte impacto no Sul Global, onde países como o Brasil, soberanamente, precisam ter influência decisiva nas políticas globais. Reafirmamos aqui em especial o grito por Palestina Livre, do rio ao mar! Basta. Não aceitaremos o genocídio do povo palestino e a invasão de tantos territórios soberanos no Oriente Médio e no mundo”.
E a Carta-Compromisso, entre variados, urgentes e significativos desafios, também reforça as lutas das mulheres, das pessoas com deficiências e neurodivergentes, da população LGBTQIA+ e dos grupos que lutam pelo direito à terra, moradia e pela reforma agrária.
A importância desses encontros do Movimento Fé e Política reside na sua capacidade de articular fé, reflexão e ação, promovendo um diálogo plural e comprometido com a transformação social e a defesa da democracia. Em um mundo fragmentado, marcado pela violência e a ascensão do neofascismo, eles oferecem um raro espaço de encontro e comunhão, onde diferenças não se fazem divergências, mas são colocadas a serviço de um projeto comum de humanidade e de conquista da paz como fruto da justiça.
Paz e Bem #2724 - 13º Encontro do Movimento Fé e Política, impasses e busca -Mauro Lopes e Marcelo Barros
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