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sexta-feira, 24 de março de 2023

São Romero da América e El Salvador em textos, livros, filmes e canções


O martírio prolongado e atual de Monsenhor Romero

Marcelo Barros

A versão oficial relata o martírio de Monsenhor Oscar Romero como ocorrido na tarde de 24 de março de 1980, quando este celebrava a Missa no hospitalito. De fato, naquela tarde, o seu sangue foi unido ao memorial da entrega pascal de Jesus. 

É verdade que aquela bala roubou a vida de um profeta. A morte matada é sempre violenta e, fisiologicamente, sem volta. No entanto, de acordo com os laudos médicos, Romero morreu, quase instantaneamente e sem sofrimento prolongado. O que Romero sofreu como martírio mais forte não foi a bala que o matou. Foi a imensa dor, vivida no dia a dia dos seus três anos de ministério como arcebispo de San Salvador, desde que, progressivamente, se inseriu na realidade do seu povo e passou a assumir a defesa dos pobres e tomar a defesa das pessoas ameaçadas pela ditadura militar e pelos lavradores e indígenas simplesmente vítimas de extermínio.  Ao entrar nessa inserção e tomar posição nessa luta pacífica em favor dos excluídos, dentro de pouco tempo, Romero viu muitas pessoas que, antes, eram amigas se afastarem e progressivamente o hostilizarem. Percebeu claramente que não contava mais nem com a amizade de quase nenhum dos seus irmãos, bispos de El Salvador. Principalmente, o Vaticano que o tinha colocado como arcebispo para representar os interesses eclesiásticos no país, passava a tê-lo como alguém estranho e considerado de esquerda.  

Para qualquer pessoa sensível, isso teria representado um grande sofrimento. No entanto, para Monsenhor Romero foi inesperado e, de certo modo, incompreensível. Ele era um homem de profundo amor à Igreja institucional. Por formação, nunca podia imaginar que o fato de assumir com coragem a defesa dos mais frágeis e acreditar profundamente nas comunidades eclesiais de base e na Igreja dos pobres o fizesse ser visto como alguém a ser evitado pelos próprios irmãos no episcopado e até por Roma. 

Esse foi o verdadeiro martírio de Romero; martírio, prolongado e oculto. Ele se sentia perseguido e podia apontar os militares que o ameaçavam. No entanto, não podia divulgar os maus entendidos, desfeitas e comentários malvados que sofria do episcopado e dos próprios católicos ricos da arquidiocese que o consideravam comunista. Isso o fazia perder noites de sono. Mesmo participar de encontros do episcopado era ocasião de desencontros e sofrimentos. Uma vez, em 1979, um amigo leigo o transportou ao local onde Monsenhor Romero ficou hospedado para participar de um encontro com os outros bispos do país. Dois dias depois foi buscá-lo e o encontrou com febre e dor estomacal. Estava consciente de ser resultado da tensão sofrida naquela reunião que deveria ser de diálogo entre irmãos, mesmo que pensassem de modo diferente. 

Sua consolação era quando estava cercado pelas pessoas mais pobres e podia ver florescer as comunidades da Igreja inserida. Esse era o único socorro para as pessoas perseguidas pela ditadura e pela elite que se apossava das terras indígenas. A bala que matou Romero não tinha como objetivo a pessoa individual do bispo. O alvo era a Igreja dos pobres a qual Romero dava toda força. Era esta que precisava ser neutralizada. 

Mataram Romero para acabar com a Igreja dos pobres. A boa notícia disso tudo é que, embora com toda a dor que o martírio de Romero provocou, a repressão que matou milhares de pessoas não conseguiu acabar com a minoria profética da Igreja pobre e dos pobres.

Depois de quase 40 anos, o papa Francisco forçou que o Vaticano levasse adiante o processo de canonização de Romero. Poucos anos antes, na Praça da Catedral em San Salvador, o cardeal romano que presidiu a cerimônia de beatificação afirmou que a Igreja reconhecia Romero como santo porque ele tinha profunda devoção ao Santíssimo Sacramento, era devoto de Nossa Senhora e amava o papa. Na direção contrária a essa folclorização da figura do santo,  o papa Francisco valorizou o martírio de Romero como martírio e pelo fato dele ter dado a vida por seu povo. 

Em termos sociais e políticos, para El Salvador, a canonização de Romero ajudou a causa da democratização do país. No entanto, ao se centrar nas virtudes pessoais de Romero, o processo de canonização não expressou claramente nenhum reconhecimento direto à causa pela qual Romero deu a vida. Não trouxe nenhuma valorização à inserção da Igreja no mundo dos pobres que foi o que verdadeiramente santificou Romero.  

Hoje, o que Romero nos pede é acreditarmos de novo no projeto da Igreja inserida nas bases e renovarmos o anúncio do anjo a Maria no sentido da revelação de que a Palavra Divina se faz carne na vida e nas causas dos povos crucificados no mundo atual. Para que o martírio de Monsenhor Romero seja valorizado, é preciso que testemunhemos o que, no Nordeste brasileiro, cantava o poeta popular e Dom Helder Camara espalhou: 

“Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece acreditar no menor”. 

PS: Uma sugestão de leitura sobre Romero é o livro editado pela Amerindia, com a participação de várias teólogas e teólogos da América Latina e Caribe, e, também da Europa, em memória das causas de Romero: 

 DONIZETE XAVIER Y EMERSON SBARDELOTTI - organizadores: San Romero de América. Montevideo: Amerindia, 2022. 

Pode ser baixado gratuitamente no site: 

https://amerindiaenlared.org/contenido/21490/san-romero-de-america-martirio-esperanza-liberacion-/

https://www.youtube.com/watch?v=CSPdJ76PIEQ



HOJE, 24 de março - Sexta

live sobre Dom Oscar Romero. Assassinado em El Salvador por paramilitares de direita e apoiados pelo serviço secreto dos EUA em 1980. 

as 18h. no Instagram romerojunior4503

https://www.youtube.com/watch?v=QpVBTjVcjfU&t=614s


https://www.youtube.com/watch?v=uMjQLxNoQG4


“Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve os clamores das injustiças não é a verdadeira igreja de nosso Divino Redentor.” (04/12/1977).

Dom Oscar Romero. Discípulo de Jesus em El Salvador. Mártir & Santo.

“É ridículo dizer que a Igreja se tornou marxista. Porém há um “ateísmo” mais próximo e mais perigoso para nossa igreja: o ateísmo do capitalismo, quando os bens materiais se tornam ídolos e substituem Deus.” (15/09/1978)

Dom Oscar Romero. Discípulo de Jesus em El Salvador



quarta-feira, 20 de maio de 2015

Playlist - São Romero da América "nosso amado dom da justiça, dom da paz, dom da libertação"......

Esperados 250 mil para beatificação de Dom Romero

 

Beatificação acontecerá no próximo sábado - REUTERS
19/05/2015 10:39
Cidade do Vaticano (RV) – Após a sua beatificação, em São Salvador, sábado, 23 de maio, Dom Óscar A. Romero continuará a ter sua festividade litúrgica em 24 de março, dia de seu assassinato em 1980. Havia dúvidas em relação à viabilidade de manter a data devido à sua sobreposição frequente com as celebrações da Semana Santa e da Páscoa.

   São Salvador agora se prepara para receber pelo menos 250 mil pessoas na Praça das Américas e seus arredores, fiéis e devotos do primeiro beato salvadorenho. A cerimônia está programada para as 10h da manhã e atualmente está sendo construído o pequeno templo ao ar livre.
Nesta segunda-feira (18/05), numa coletiva de imprensa no local da beatificação foram dadas informações adicionais sobre o evento. Os organizadores informaram que:
A Igreja concederá indulgência plenária aos peregrinos que participarem da beatificação e cumpram com os demais requisitos para esta graça;
O Vice-Postulador Mons. Rafael Urrutia informou que a Igreja salvadorenha está investigando mais de 500 outros possíveis casos de martírio para propô-los para canonização, incluindo o Pe. Rutilio Grande, cuja causa já está em andamento;
A cerimônia será transmitida em cadeia nacional de TV em El Salvador e por 14 emissoras internacionais;
Estão previstos detalhes comoventes: quando os dons eucarísticos serão levados ao altar, o ofertório incluirá um livro contendo os Acordos de Paz de El Salvador, que puseram fim à guerra civil de 1980 a 1992 no país centro-americano;
O Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, que presidirá a cerimônia, publicou o livro “Beato Oscar Romero”, o que demonstra a grande importância para a Igreja da beatificação de Dom Romero;
Ao longo de todas as avenidas que confluem na Praça das Américas serão instalados telões gigantes para que os fiéis possam acompanhar a cerimônia;
Espera-se a participação de pelo menos 12 Chefes de Estado, além dos vice-Presidentes de Cuba e Costa Rica. Aguardam-se delegações de Brasil, Colômbia, Chile, Estados Unidos, Itália, México, Nicarágua, Uruguai e membros da Organização dos Estados Americanos (OEA);
O governo assegurou um aparato de segurança com 45 mil pessoas entre grupos de socorro, bombeiros e corpos da polícia;
No âmbito das atividades programadas, consta uma peregrinação até a Catedral Metropolitana, onde descansam os restos do Arcebispo mártir;
No dia da beatificação, mais de 1.100 sacerdotes se prepararão para a cerimônia no Seminário San José de La Montaña e também irão até a Praça em procissão. O lugar teve significado especial na vida de Dom Romero porque boa parte de sua formação sacerdotal foi feita ali, onde também conheceu o sacerdote jesuíta Rutilio Grande, que se tornou um dos seus mais próximos amigos;
Pe. Grande também foi assassinado, três anos antes que Romero, em 12 de março de 1977. Muitos asseguram que este crime causou uma importante mudança na vida de Dom Romero. Muitos de seus escritos realizados em décadas anteriores já relatavam sua preocupação com a injustiça social, sobretudo no interior do país.
(CM)





 

Cutumay Camones

Cutumay Camones - Red Latinoamericana de Historia Oral

 

A beatificação de D. Romero. Uma vitória para o Papa Francisco


A beatificação no dia de hoje, 23 de maio, de D. Oscar Romero, é uma demonstração da natureza radical da revolução que o Papa Francisco está realizando", afirma Paul Vallely, em comentário publicado no jornal The New York Times, 22-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Paul Vallely é professor de ética pública na University of Chester, na Inglaterra, e autor da biografia “Pope Francis: The Struggle for the Soul of Catholicism”, a ser publicado em breve. Ele também é autor de uma biografia muito comentada do Papa Francisco. Trata-se do livro Pope Francis: Untying the Knots. London: Bloomsbury, 2013.

Segundo ele, "a beatificação de Oscar Romero é, pois, motivo para um regozijo duplo. Ela honra um homem cujo amor pela justiça e o foco nos pobres eram uma manifestação direta de sua fé. Mas ela também revela que, com a chegada do Papa Francisco, algumas das forças das trevas que se esconderam no Vaticano nas décadas recentes foram, finalmente, derrotadas".

Eis o comentário.

O arcebispo assassinado Oscar Arnulfo Romero está na reta final de um caminho tortuoso para a santidade com a realização de sua beatificação neste sábado. Esta ocasião fez se realizarem celebrações da mais alta ordem em El Salvador, sua terra natal. Porém o evento envolve um regozijo muito mais amplo – pois revela uma vitória contra algumas influências malignas de dentro da Igreja e dá provas da natureza radical da revolução que o Papa Francisco está forjando em Roma.

Dom Romero foi atingido e morto no altar enquanto celebrava missa em San Salvador no ano de 1980. O seu assassino fazia parte de um dos esquadrões da morte que davam sustentação a uma aliança pecaminosa entre proprietários de terras, o exército e segmentos da Igreja Católica no momento em que o país se movia em direção a uma guerra civil. O crime do arcebispo havia sido ordenar que os soldados parassem de matar civis inocentes. A elite de extrema-direita viu-o como um apologista da revolução marxista – uma difamação que indivíduos da alta hierarquia vaticana alimentaram durante três décadas e que, agora, o Papa Francisco finalmente silenciou.

A principal preocupação de tais críticos era que esta sua canonização acabasse sendo um endosso eficaz para Teologia da Libertação; muitos temiam que ela iria permitir a infiltração do comunismo na América Latina. Tal pensamento era uma caricatura intencional do movimento que sustentava a ideia segundo a qual os Evangelhos carregam uma “opção preferencial pelos pobres” e insistia que a Igreja tinha o dever de trabalhar pela libertação social e econômica dos oprimidos bem como pelo seu bem-estar espiritual. Esta representação equivocada alcançou o seu ápice nas calúnias grosseiras perpetradas contra o arcebispo, tanto durante a sua vida quanto depois da sua morte.

Quando se tornou arcebispo de San Salvador, a oligarquia do país esperava que o Dom Romero fosse um prelado de confiança. A sua formação era a de um religioso conservador e a sua espiritualidade baseava-se naquela do Opus Dei, grupo de sacerdotes e leigos profundamente tradicionais. Porém ele ficou indignado com a violência crescente contra os pobres e contra os que os defendiam.

Dentro de algumas semanas depois da sua instalação como arcebispo, um de seus sacerdotes – um amigo próximo, o padre Rutilio Grande – foi assassinado por apoiar alguns camponeses que protestavam pela reforma agrária e por melhores salários. Vários sacerdotes foram mortos depois disso, embora em 1979 estes formavam somente uma pequena parcela das 3 mil pessoas, em princípio, assassinadas todos os meses no país. Quando um jornalista perguntou sobre o que fez na qualidade de arcebispo, Romero respondeu: “Eu recolhi os corpos”.

Na medida em que a violência piorava, Dom Romero se tornava mais crítico em seus sermões, os quais eram transmitidos em rede nacional. Neles, o religioso condenava a opressão e dizia às pessoas que Deus estava com elas.

Ainda que Dom Romero não fosse um teórico da libertação, Dom Vincenzo Paglia, o principal defensor da causa da canonização, chamou-o de “mártir da Igreja do Concílio Vaticano II” porque a sua decisão de “viver com os pobres e defendê-los da opressão” advinha diretamente dos documentos do Vaticano II.

Tampouco era ele um teórico marxista. Em um sermão de 1978, disse: “Uma Igreja marxista não seria só autodestrutiva, mas também sem sentido”, pois “o materialismo destrói o significado transcendente da Igreja”.

Este era, porém, um ambiente no qual qualquer um que levantasse a voz em nome da justiça acabava sendo rotulado como comunista.

As elites sociais, militares e eclesiásticas de El Salvador estavam profundamente infelizes com o arcebispo. As 14 famílias que controlavam a economia e que faziam grandes doações à Igreja enviavam um fluxo constante de queixas a Roma. Elas acusavam Dom Romero de se intrometer na política, ratificando o terrorismo e abandonando a missão espiritual da Igreja de salvar almas. Quatro bispos, preocupados que o arcebispo estava questionando os laços deles com a oligarquia, começaram a se manifestar, com virulência, contra ele.

Os diários copiosos de Dom Romero desmentem todas as afirmações feitas pelos seus críticos. O mesmo fez o dossiê que ele deu ao Papa Paulo VI em uma audiência privada, que terminou com o pontífice instando-o: “Coragem! Ânimo. Tu és o responsável”.

No entanto, Dom Romero percebeu uma mensagem muito diferente quando foi chamado a Roma pelo Cardeal Sebastiano Baggio, então prefeito da Congregação para os Bispos. Este cardeal falou que ele estava com um volume sem precedentes de queixas contra Dom Romero. O despacho de acusação estava cheio de alegações ferozes e distorções perniciosas, e Dom Romero ficou angustiado porque o cardeal tinha claramente acreditado nelas. De novo, ele foi até o papa, que novamente o instou: “procede com coragem”.

Mas o papa seguinte, João Paulo II, tinha pouco conhecimento sobre a América Central e confiou no conselho de autoridades curais hostis ao arcebispo. O Cardeal Baggio enviou um inspetor vaticano a El Salvador, que recomendou destituir Romero de suas funções. O arcebispo apelou a João Paulo II, que pediu que seus críticos moderassem em suas atitudes para com o prelado.

Após o assassinato, os seus inimigos deram início a três décadas de manobras que buscavam evitar que ele fosse declarado oficialmente santo. Uma série de táticas foram postas em prática para impedir que isso acontecesse, tudo liderado pela mesma pessoa que havia recebido a tarefa de defender a causa [de beatificação] de Dom Romero: o Cardeal Alfonso López Trujillo, religioso colombiano profundamente avesso à Teologia da Libertação. Anos se passaram enquanto as autoridades vaticanas examinavam os escritos de Dom Romero em busca de erros doutrinais. Quando nada encontraram aqui, os críticos mudaram de posição para argumentar que ele – Dom Romero – não havia sido morto por sua fé, mas por suas “declarações políticas”.

Os que apoiavam Dom Romero culpavam os papas conservadores, que seriam contrários à Teologia da Libertação, mas isso não é justo. Em 1997, João Paulo II condecorou Romero com o título de Servo de Deus e, em 2003, disse a um grupo de bispos salvadorenhos que o prelado centro-americano era um mártir.

Em 2007, Bento XVI chamou-o de “um homem de grande virtude cristã”. E acrescentou: “Que Romero como pessoa merece a beatificação, eu não tenho dúvida”. (Esta última frase foi estranhamente cortada da transcrição disponível no sítio do Vaticano.) Um mês antes de renunciar, Bento XVI deu ordens para que o processo de canonização de Dom Romero fosse desbloqueado.

Foi a chegada do Papa Francisco – que prontamente engendrou uma reaproximação entre o Vaticano e a Teologia da Libertação – o que finalmente fez as coisas andarem. A causa de Dom Romero, disse ele aos jornalistas, estava “bloqueada na Congregação para a Doutrina da Fé ‘por prudência’”. Mas acrescentou: “Para mim, Romero é um homem de Deus”.

Nesse sentido, o organismo competente dos teólogos declarou, universalmente, que Dom Romero não havia sido morto por motivos políticos, mas tinha de fato morrido por causa do odium fidei – ódio à fé. Francisco prontamente o declarou mártir, e o caminho para a santidade estava aberto.

Para o Papa Francisco, esta ação era algo evidente. Ele disse, em seu segundo dia de como papa, que queria uma “Igreja pobre para os pobres”. E escreveu, em seu documento Evangelii Gaudium: “Há que afirmar, sem rodeios, que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”.

A beatificação de Oscar Romero é, pois, motivo para um regozijo duplo. Ela honra um homem cujo amor pela justiça e o foco nos pobres eram uma manifestação direta de sua fé. Mas ela também revela que, com a chegada do Papa Francisco, algumas das forças das trevas que se esconderam no Vaticano nas décadas recentes foram, finalmente, derrotadas.

 

segunda-feira, 24 de março de 2025

São Romero da América Latina & 45 anos do martírio de Óscar Romero e uma Igreja em libertação & Mensagem libertadora de Dom Oscar Romero, mártir e santo

 Publicado em março-abril de 2025 - ano 66 - número 362 - pp. 26-33 - Revista Vida Pastoral.

São Romero da América Latina

Por Emerson Sbardelotti*

O artigo pretende apresentar, reapresentar e homenagear São Romero da América, na comemoração de 45 anos de seu martírio, em San Salvador, capital de El Salvador, em 24 de março de 1980; a força espiritual de sua palavra em defesa da vida, em nome da esperança, da justiça e da libertação.

1. MEMÓRIA E COMPROMISSO

“Por que se mata? Mata-se porque atrapalha. Pra mim, são verdadeiros mártires no sentido popular. Naturalmente, não estou entrando no sentido canônico, no qual ser mártir supõe um processo de autoridade suprema da Igreja, que o proclama mártir perante a Igreja universal. Respeito essa lei e nunca direi que os nossos padres assassinados foram martirizados, ainda não canonizados. Mas eles são mártires no sentido popular. São homens que pregaram precisamente esta encarnação da pobreza” (Romero, in Gonzalo, 2022, p. 28).

No dia 24 de março de 2025, comemoram-se 45 anos do martírio de São Romero da América, pastor e mártir nosso! Dom Oscar Arnulfo Romero y Galdámez foi o quarto arcebispo metropolitano de San Salvador, capital de El Salvador. Nasceu em Ciudad Barrios, distrito de San Miguel, em 15 de agosto de 1917, numa família pobre. Em 1930 entrou no seminário de San Miguel. Seus superiores mandaram-no a Roma, para estudar e doutorar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foi ordenado padre em 4 de abril de 1942. Em 25 de abril de 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador e, em 15 de outubro de 1974, bispo de Santiago de Maria. Em 3 de fevereiro de 1977, foi nomeado arcebispo de San Salvador. Escolhido como arcebispo por seu aparente conservadorismo, uma vez nomeado, aderiu aos ideais da não violência, posição que o levou a ser comparado a Mahatma Gandhi e a Martin Luther King.

Com a morte do amigo e padre jesuíta Rutilio Grande, em 12 de março de 1977, D. Oscar Romero passou a denunciar, em suas homilias dominicais, as numerosas violações aos direitos humanos em El Salvador e manifestou publicamente sua solidariedade com as vítimas da violência política, no contexto da guerra civil no país. Defendia a opção pelos pobres. Dom Romero afirmou que foi o exemplo do padre Rutilio Grande e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres, dos esquecidos, dos perseguidos e dos injustiçados salvadorenhos. Depois da morte do amigo, ele passou a acusar frontalmente os capitalistas, os governantes, os militares e os ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país.

No dia 24 de março de 1980, às 18 horas, o arcebispo de San Salvador celebrava missa na capela do Hospitalito,[1] hospital de religiosas que cuidavam de doentes com câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite, escondido atrás da porta traseira da capela, atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente. Selou, assim, seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida: foi o selo coerente desta. Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E D. Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, ao qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem.

Em 23 de maio de 2015, foi declarado beato. O primeiro papa latino-americano reconheceu Romero como “mártir da Igreja”, pois havia sido assassinado por “ódio à fé”. Em 14 de outubro de 2018, foi canonizado. Sobre São Romero, disse o papa Francisco:

São Oscar Romero soube encarnar, com perfeição, a imagem do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. Por isso, agora e, sobretudo, desde a sua canonização, vocês podem encontrar nele “exemplo e estímulo” no ministério que lhes foi confiado: exemplo de predileção, para os mais necessitados da misericórdia de Deus; estímulo para testemunhar o amor de Cristo e a solicitude pela Igreja. Que o santo bispo Romero os ajude a ser, para todos, sinais da unidade na pluralidade, que caracteriza o santo povo de Deus.

São Oscar Romero concebia o sacerdote entre dois grandes abismos: o da infinita misericórdia de Deus e o da infinita miséria dos homens. Queridos irmãos, esforcem-se, sem cessar, para realizar este infinito anseio de Deus de perdoar os homens, que se arrependem de suas misérias, e abrir os corações de seus irmãos à ternura do amor de Deus, também mediante a denúncia profética dos males do mundo.

Ele repetia, com vigor, que todo católico deve ser mártir, porque mártir significa dar testemunho da mensagem de Deus aos homens. Deus quer estar presente em nossas vidas e nos convida a anunciar a sua mensagem de liberdade para toda a humanidade. Somente nele podemos ser livres do pecado, do mal, do ódio em nossos corações; livres para amar e acolher o Senhor e nossos irmãos e irmãs. Esta verdadeira liberdade, aqui na terra, passa pela preocupação com o homem concreto, para despertar em cada coração a esperança da salvação.

São Oscar Romero dizia que, sem Deus e sem o ministério da Igreja, isso não é possível. Certa vez, referiu-se à crisma como o “sacramento dos mártires”: sem a força do Espírito Santo, os primeiros cristãos não teriam resistido às provações da perseguição, não teriam morrido por Cristo.

A memória de São Oscar Romero é uma oportunidade excepcional para enviar uma mensagem de paz e reconciliação a todos os povos da América Latina (Papa […], 2018).

Para o povo de El Salvador e de toda a América Latina e Caribe, ele já era e é, há muito tempo, o nosso santo, pastor e mártir.

2. MÁRTIR DA ESPERANÇA, DA JUSTIÇA E DA LIBERTAÇÃO

“Cristo está dizendo para cada um de nós: se você quer que a sua vida e a sua missão sejam produtivas como a minha, faça como eu. Converta-se em uma semente que se deixa ser enterrada. Deixe que o matem. Não tenha medo. Aqueles que evitam o sofrimento permanecerão sozinhos. Ninguém é mais solitário do que a pessoa egoísta. Mas se você der a sua vida por amor aos outros, como eu dou a minha por todos, você obterá uma grande colheita. Você sentirá uma profunda satisfação. Não tema a morte ou ameaças” (Romero, in Wright, 2011, p. 86).

Nosso mártir primeiro é Jesus de Nazaré, e com sangue de mártir não se pode brincar. Mártir é palavra forte, inquieta e inquietante. A palavra grega mártys significa “testemunha”. O/A mártir é a testemunha da fé, que seguiu, por toda sua vida, os passos de Jesus de Nazaré, até as últimas consequências.

Romero sabia que seu comportamento alimentava a esperança de uma vida mais livre, mais humana, e agia assim levado por sua missão de cristão e bispo; sabia que isso poderia conduzi-lo à morte. Pelas virtudes de sua vida, podemos defini-lo como mártir da esperança (Vitali, 2015, p. 10).

Esperança é todo sentimento que leva o ser humano a olhar para o futuro, para o incerto, sabendo que colheu bons frutos do passado, aprendeu com os erros e experimenta, no presente, o amparo nos desafios cotidianos desta vida.

Romero percebia que suas atitudes eram de um profeta comprometido com o cotidiano e a dignidade do povo, com a justiça feita ao povo:

Com a linguagem da justiça, estamos outra vez ante um tema central na Bíblia. Nela, o termo justiça remete à justiça social, ao reconhecimento dos direitos das pessoas, com um acento na condição dos mais pobres.

A linguagem profética tem em conta o dia a dia das injustiças, prosternações, maus-tratos, mortes, lucros, sofrimentos, alegrias que se dão na história. É uma linguagem que denuncia o que vai contra a mensagem do Reino e que anuncia sua presença na história. A respeito disso, e por experiência, Romero rechaçava: “Uma palavra muito espiritualista, sem compromisso com a história, que pode soar em qualquer parte do mundo porque não é de nenhuma parte, não cria problemas, nem conflitos” (Homilia, 10 dez. 1977). Espiritualista, não espiritual. Era consciente de que sua palavra clara, precisa e próxima à situação que atravessava seu povo lhe atrairia dificuldades e hostilidade, mas não pronunciá-la seria trair o Evangelho.

[…] A linguagem da gratuidade dá horizonte à justiça, coloca-a no marco do amor gratuito de Deus, do Deus amor. Deus não é amor porque ama, mas, sim, ama porque é amor. Não é justo porque faz justiça, mas, sim, faz justiça porque é justo. Por sua vez, a linguagem da justiça dá concreção histórica à da gratuidade e contemplativa e contribui para inseri-la na história de pessoas e povos (Gutierrez, in Bingemer, 2012, p. 49-50).

Justiça é uma virtude moral que inspira o respeito e o cumprimento dos direitos e deveres do ser humano, representando uma maneira de amenizar e erradicar os efeitos das desigualdades sociais na sociedade em que se vive.

Romero entendia que a libertação é fruto da união de todo o povo de Deus. Entendia que a libertação engloba toda a natureza:

A libertação que a Igreja espera é uma libertação cósmica. A Igreja sente, em si mesma, que é toda a natureza que está gemendo sob o jugo do pecado. Que belos cafezais, que belos riachos, que lindas plantações de algodão, que fazendas, que terras que Deus nos tem dado! Que natureza bela! Entretanto, quando a vemos gemer sob a opressão, sob a iniquidade, sob a injustiça, sob a agressão, isso faz a Igreja sofrer e a faz esperar uma libertação. Libertação que não seja só o bem-estar material, mas que seja o poder de um Deus que livrará das mãos pecadoras dos seres humanos uma natureza que, com a humanidade redimida, vá cantar a felicidade no Deus libertador (Romero, in Richard, 2005, p. 15-16).

Libertação é a ação de pôr-se em liberdade ou de conceder a liberdade a alguém. Implica o ser humano desenvolver uma ação segundo a sua própria vontade. A liberdade está relacionada com outras virtudes, como a justiça, a fraternidade e a igualdade.

Romero era uma pessoa simples, aberta, perspicaz, de grande sensibilidade para com as crianças, de gestos proféticos e compromisso. Soube acolher as pessoas com amor e atenção, conseguiu manter viva a esperança fiel do povo salvadorenho, soube sentir o cheiro das ovelhas. Em sintonia com o Evangelho, fez da sua Igreja local uma Igreja em saída, como pede o papa Francisco (Xavier; Sbardelotti, 2022, p. 180).

3. FORA DOS POBRES NÃO HÁ SALVAÇÃO!

A situação de nosso país é muito difícil, mas a figura de Cristo transfigurado, em plena Quaresma, está nos mostrando o caminho a seguir. O caminho da transformação de nosso povo não está longe. É o caminho que a Palavra de Deus nos aponta hoje: o caminho da cruz, do sacrifício, do sangue e da dor, mas com o olhar cheio de esperança na glória de Cristo, que é o Filho eleito pelo Pai para salvar o mundo. Ouçamos a voz de Cristo! Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso (Romero, in Souza; Boff; Casaldáliga, 1980, p. 179).

Jon Sobrino nos diz que a fórmula extra pauperes nulla salus (“fora dos pobres não há salvação”) é uma novidade, um escândalo e, certamente, algo contracultural. Trata-se de sacudida para levar absolutamente a sério a prostração de nosso mundo e o que há de salvação debaixo da história, que tantas vezes se ignora, não se compreende e se despreza (Sobrino, 2008, p. 14).

O teólogo espanhol relembra uma frase dita a ele por Romero: “Gloria Dei vivens pauper” (“A glória de Deus é o pobre que vive”). É a partir dos pobres que se reformula o mistério de Deus. Os pobres deste mundo são o lugar teológico (locus theologicus) do encontro com o Deus da vida, com o Deus libertador. Desse lugar teológico provém a salvação:

O camponês entendeu bem a opção de Monsenhor Romero pelos pobres: “Ele nos defendeu como pobres”. Monsenhor defendeu os pobres e oprimidos do país. Ele não optou apenas por eles. Esta defesa significou promover a organização popular e a assistência jurídica para defender os camponeses e as vítimas daqueles que os oprimiram e reprimiram. […] E certamente, semana após semana, ele defendeu os pobres e as vítimas com a verdade que proclamava publicamente nas suas homilias. Fica claro, então, que Monsenhor defendeu os oprimidos.

Mas você também precisa entender o que significa defender. Defender significa enfrentar e, quando necessário, lutar contra aqueles que atacam, empobrecem, perseguem, oprimem e reprimem. Para defender os pobres, Monsenhor confrontou aqueles que mentem e assassinam, sejam pessoas, instituições ou estruturas – e aceitou o preço a pagar. E a sua defesa foi primária, que foi muito além do que se convencionou entender por “defender um caso” com o objetivo, ainda, de “ganhar um caso”, como frequentemente aparece nos programas de televisão. Ganhar um caso nunca foi a perspectiva do Monsenhor, obviamente. Trabalhou e lutou para que a realidade maltratada, a justiça e a verdade vencessem. Mais a fundo, trabalhou e lutou para que algum dia os habituais não perdessem.

Monsenhor foi um defensor dos pobres com tudo o que era e tinha (Sobrino, in Xavier; Sbardelotti, 2022, p. 36).

Romero concebia e fazia questão de orientar, em sua atuação pastoral e profética, uma volta ao mundo dos pobres, um mundo real e concreto, assumindo quatro pontos importantes: 1) encarnação no mundo dos pobres; 2) anúncio da Boa-nova aos pobres; 3) compromisso com a defesa dos pobres; 4) Igreja perseguida por servir os pobres.

Encarnação no mundo dos pobres. A aproximação com o mundo dos pobres, entendida como encarnação e conversão para fora da Igreja.

O anúncio da Boa-nova aos pobres. O encontro com os pobres revelou a verdade central do Evangelho:  “Felizes os pobres no Espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). À luz da Palavra de Deus, a esperança e a ação segundo os valores do Reino.

Compromisso com a defesa dos pobres. A Igreja deve pôr-se sempre ao lado dos pobres e assumir, sem dúvida, a sua defesa.

Igreja perseguida por servir os pobres. A perseguição faz a Igreja testemunhar com maior garra a opção feita por Jesus de Nazaré em defesa dos pobres. A perseguição e ataques sempre estão e estarão ligados à defesa dos pobres.

Em sintonia com o pensamento de Romero e pedindo sua ajuda na caminhada, com alegria e esperança, cantemos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BINGEMER, M. C. (org.). Dom Oscar Romero: mártir da libertação. Rio de Janeiro: PUC-Rio; Aparecida: Santuário, 2012.

GONZALO, L. A. São Romero dos direitos humanos: lições éticas, desafio educacional. São Paulo: Paulus, 2022.

IRMANDADE DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA. Celebrações martiriais: tríduo e celebração da festa de São Romero da América, pastor e mártir nosso! Goiânia: América, 2015.

NOVA Bíblia Pastoral. São Paulo: Paulus, 2018.

PAPA: São Oscar Romero, exemplo e estímulo para os povos da América Latina. Vatican News, Vaticano, 15 out. 2018. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-10/papa-francisco-canonizacao-monsenhor-romero.html. Acesso em: 3 out. 2024.

RICHARD, P. A força espiritual da palavra de Dom Romero. São Paulo: Paulinas, 2005.

SOBRINO, J. Fora dos pobres não há salvação: pequenos ensaios utópico-proféticos. São Paulo: Paulinas, 2008.

SOUZA, L. A. G. de. BOFF, L.; CASALDÁLIGA, P. (org.). D. Oscar Romero, bispo e mártir: homilias. Petrópolis: Vozes, 1980.

VITALI, A. Oscar Romero: mártir da esperança. São Paulo: Paulinas, 2015.

WRIGHT, S. Oscar Romero e a comunhão dos santos. São Paulo: Paulus, 2011.

XAVIER, D. J.; SBARDELOTTI, E. (org.). San Romero de América: martirio, esperanza, liberación. Montevideo: Ameríndia, 2022.

[1]  Nome carinhoso como era conhecido o Hospital da Divina Providência pelo povo salvadorenho.

Emerson Sbardelotti*

*é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Agente de pastoral leigo da paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Cobilândia, Vila Velha, arquidiocese de Vitória-ES. Membro do Grupo de Pesquisa Literatura, Religião e Teologia (Lerte). Membro da equipe de formação do Cebi-ES. Membro da equipe de formação do CNLB Regional Leste 3. E-mail: sbardelottiemerson@gmail.com

 Comemoramos 45 anos do martírio de São Óscar Arnulfo Romero 🌟

📅 Data: Segunda-feira, 24 de março de 2025

⏰ Horário:

16h (Brasília)

14h (Colômbia)

15h (Manaus)

13h (El Salvador)

19h (Reino Unido)

Junte-se ao conversatório:

“Defendendo os direitos humanos e a Igreja Latino-americana: São Óscar Romero e seu legado”

Uma iniciativa do @Celam e @CAFOD, com o apoio de organizações como @CaritasLAC, @INSPyRE, @Remam e @RadioProgreso.

📌 Temas destacados:

O legado de São Romero na defesa dos direitos humanos.

A campanha continental “A vida pende de um fio”, visibilizando líderes assassinados por defender a casa comum.

 Transmissão ao vivo:

Em espanhol:



#SãoRomero #DefensoresDaVida #IgrejaLatinoAmericana #LegadoDeFé

45 anos do martírio de Óscar Romero e uma Igreja em libertação. Artigo de Gabriel Vilardi

Ao canonizar Dom Óscar Romero, o Papa Francisco indicou para toda a Igreja o exemplo e o testemunho deste mártir latino-americano, brutalmente assassinado há 45 anos, em 24-03-1980. A despeito das estruturas clericais que tendem sempre a controlar e a “domesticar” tantas figuras radicais no seguimento de Jesus, São Romero não pode se tornar apenas mais uma festa litúrgica no calendário romano.

O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, bacharel em Direito pela PUC-SP e bacharel em Filosofia pela FAJE. É mestrando no PPG em Direito da Unisinos e integra a equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Eis o artigo.  AQUI


Santo Oscar Romero no blog da cultura (textos, imagens e canções)

aqui

MENSAGEM LIBERTADORA DE DOM OSCAR ROMERO, mártir e santo. Por Frei Gilvander Luís Moreira[1]

Dia 24 de março de 2025 celebramos 45 anos de martírio de dom Oscar Romero, arcebispo da arquidiocese de San Salvador, capital de El Salvador. Nomeado bispo por ser considerado conservador, passou por um processo de profunda conversão e assumiu a causa dos pobres. Sentiu profundamente o assassinato do padre Rutílio Grande, seu secretário, e de milhares de lideranças camponesas, de Comunidades Eclesiais de Base, que se levantavam contra a ditadura militar imposta sobre El Salvador.

Eis, abaixo, 17 anúncios e denúncias que ecoaram a partir da boca de Romero nas suas homilias. Através da Rádio a mensagem de Romero encontrou acolhida nos corações de tanta gente que segue vivendo se inspirando no ensinamento e testemunho libertador de Romero.

AQUI

terça-feira, 24 de março de 2026

São Romero da América mártir: há 45 anos, o ódio da extrema direita silenciava Dom Romero, mas sua voz se fez esperança que não cala.

 24 de março de 1980 não é apenas memória, é ferida aberta na história e semente plantada no coração do povo. Nesta data, o ódio da extrema direita salvadorenha assassinou um santo, Dom Óscar Arnulfo Romero y Galdámez, um arcebispo que enxertou-se entre os pobres, defendeu sua causa e sofreu a mesma sorte deles: a perseguição e o martírio. Óscar Romero tombou como tantos anônimos que, com a coragem de quem fez da fé um compromisso, elevou sua voz em favor dos injustiçados. Tentaram calar sua voz e acabaram multiplicando seu eco. Ele não sangrou em vão. Porque toda vez que a injustiça levanta a arma, toda vez que um justo cai, levanta-se um povo. Romero não foi vencido: tornou-se esperança. Que o sangue derramado no altar nos lembre: a fé que não incomoda os poderosos talvez ainda não tenha aprendido a amar os pequenos. Mártir Óscar Romero, rogai por nós.   RFinco

Romero, mártir da caminhada nas frestas da Cristandade

Por Marcelo Barros

"Nesse ano, a celebração da memória do martírio de Oscar Romero ocorre na semana anterior às celebrações pascais. Tanto a memória da Páscoa de Jesus, como a de Romero não pode limitar-se a ofícios litúrgicos e pregações bonitas. Precisamos revestir-nos da mesma profecia de Jesus e de Romero para defender os povos crucificados de nossos dias e colocar-nos como testemunhas da ressurreição, junto às vítimas das guerras e tragédias que o Capitalismo provoca no mundo inteiro"

Link para o artigo: https://ihu.unisinos.br/categorias/663688-vozes-de-emaus-romero-martir-da-caminhada-nas-frestas-da-cristandade-artigo-de-marcelo-barros

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  Na primavera de 1979, o arcebispo de El Salvador, Oscar Arnulfo Romero, viajou para o Vaticano. Pediu, implorou uma audiência com o Papa João Paulo II, mas em vão.

Finalmente, colocando-se na fila dos fiéis que esperavam a bênção ao final da audiência geral, Romero surpreendeu Sua Santidade para roubar alguns minutos.

Ele tentou entregar-lhe um relatório volumoso, fotos, depoimentos, mas o Papa não aceitou. "Não tenho tempo para ler tanta coisa", respondeu.

Romero balbuciou que milhares de salvadorenhos haviam sido torturados e mortos pelo poder militar. Que ontem não mais, o exército havia baleado 25 diante dos portões da catedral.

O Santo Padre o parou: "Não exagere, senhor arcebispo!" E então exigiu, mandou, ordenou: "Vocês devem se entender com o governo. Um bom cristão não cria problemas para a autoridade. A Igreja quer paz e harmonia!"

Dez meses depois, o arcebispo Romero foi fulminado em El Salvador. As balas o levantaram no meio da missa, quando ele estava levantando a hóstia.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Tradução de Eric Nepomuceno. 1. ed. Porto Alegre: L&PM, 2009.


A recordação de São Óscar Romero constitui uma extraordinária oportunidade para lançar uma mensagem de paz e de reconciliação a todos os povos da América Latina. O povo amava D. Romero, o Povo de Deus gostava dele. E sabem por quê? Porque o Povo de Deus sabe intuir bem onde há santidade.”

Palavras do Papa Francisco a um grupo de peregrinos salvadorenhos que vieram a Roma para a sua canonização, em 14 de outubro de 2018.

Óscar Arnulfo Romero y Galdámez nasceu em Ciudad Barrios, em El Salvador, em 15 de agosto de 1917, em uma família modesta. Entrou para o seminário menor de São Miguel em 1930. Em 1943, recebeu sua licenciatura em teologia da Universidade Gregoriana. Ordenado sacerdote, voltou à sua pátria e se dedicou com paixão ao trabalho pastoral como pároco. Posteriormente, foi nomeado Diretor do Seminário de San Salvador e Secretário da Conferência Episcopal de San Salvador.

Em 1970, eleito bispo auxiliar de San Salvador, se dedicou à defesa dos pobres. Em 1974 tornou-se bispo de Santiago de Maria e em 1977 arcebispo de San Salvador, em meio à repressão social e política. Em 24 de março de 1980, foi morto enquanto celebrava a missa entre os doentes no hospital.

Dom Oscar Romero deixou as seguranças do mundo, incluindo a própria incolumidade, para consumir a vida – como pede o Evangelho – junto dos pobres e do seu povo, com o coração fascinado por Jesus e pelos irmãos. É por isso que também hoje se celebra o Dia de Oração e Jejum em memória dos missionários mártires.

🙏🏽 Dom Romero, rogai por nós!