domingo, 9 de agosto de 2026

Sessões lotadas, memórias compartilhadas: o cinema de arte que resiste e a política cultural que precisamos defender

 Ontem, sábado, 08/08/2026,  estive no Cinema do Centro com a expectativa de assistir a um bom filme com casa cheia. Fui levado a isso pelo burburinho positivo que rolou nas redes sobre "Fechar os Olhos" — um filme incrível que vou procurar assistir novamente no streaming.

Antes de chegar, encontrei uma bocada de gente na saída e perguntei a Rosângela, diretora do cinema do centro: "Quanta gente é essa?" Ela, com um sorriso, respondeu que era o público de "A Professora de Piano". Então, disse a ela: "Vamos celebrar também estes momentos de cinema de arte com casa cheia!"


E não precisamos falar somente das sessões vazias. "Fechar os Olhos", do mestre espanhol Víctor Erice, é uma obra-prima sobre memória e cinema que levou mais de 30 anos para chegar — e chegou emocionando plateias com sua beleza melancólica. "A Professora de Piano", de Michael Haneke, completa 25 anos em 2026 e voltou em versão restaurada, provando que o cinema de autor continua vivo, perturbador e, sim, lotando salas. Dois filmes, duas plateias cheias. O cinema de arte respira — e a gente celebra.

Ao chegar à sessão, encontrei quatro cinéfilos queridos: Rás, Isabel, Wellington e Silvia. Wellington — que, diga-se de passagem, é um cinéfilo que "arrasou" com uma fala comprometida e qualificada baseado em sua formação e experiência sobre produção e gestão de um cinema de arte como este, o único que temos em Aracaju, durante uma escuta pública sobre o Cinema do Centro. Nesse momento, Wellington revelou a experiência e o conhecimento sobre o métier — ele que já é conhecido e admirado por ser um exímio professor de francês na UFS, assim como Isabel, além de tradutor de obras de Jean Cocteau para a nossa língua, e aqui. 

Para concluir esse breve relato, não posso deixar de fazer menção e ligação com a letra da canção "Lua Cheia", do grupo paulista 5 a Seco. A música fala de insegurança, de muros que construímos, de esperança que cansa — mas também de um convite para olhar para cima, para a lua cheia, para as estrelas, para lembrar/contar histórias, falar de coisa boa e elogiar pessoas.

E foi exatamente isso que vivemos ontem. Num tempo em que a insegurança e os muros parecem dominar, estar no Cinema do Centro, rodeado de amigos que compartilham a mesma paixão pela sétima arte, assistindo a dois filmes que emocionam e provocam, é um ato de resistência e de amor. É construir memórias juntos, é elogiar quem faz a cultura acontecer — como Wellington, Isabel, Rás e Silvia, além de Rosângela e Deyse, diretoras do cinema do centro, que com suas trajetórias  lembram que o cinema de arte não é um luxo, mas uma necessidade.

Como diz a canção:

"Vem cá, a lua tá cheia

Vamos contar histórias

Falar de coisa boa

Vem cá, olhar para as estrelas

Vamos criar memórias

Elogiar pessoas"

Que venham mais noites de lua cheia, com sessões lotadas, histórias compartilhadas e pessoas celebradas. O cinema de arte em Aracaju está vivo — e a prova está na fila, na conversa na calçada e no brilho nos olhos de quem saiu do Cinema do Centro ontem à noite.

P.S. — Navegando pelas redes, encontrei o comentário de uma moradora do Centro em uma publicação do portal Fan sobre a programação da Mostra do Cinema Espanhol (da qual "Fechar os Olhos" faz parte). Na seção de comentários, ela escreveu: "Moro no Centro de Aracaju e a noite no Centro de Aracaju dá medo — e vocês não mostram a insegurança à noite no Centro de Aracaju." Uma reclamação que faz todo sentido e que também foi manifestada por diversas pessoas presentes à escuta pública sobre o Cinema do Centro, mencionada acima. A sugestão foi respondida por Paulo Corrêa, secretário municipal de Cultura, que se comprometeu  reforçar uma solicitação já feita por ele ao comando da Guarda Civil Municipal (GCM) para a intensificação das rondas durante a noite. Fica o registro: celebrar o cinema lotado é lindo, mas não podemos ignorar que o direito à cultura também passa pelo direito de ir e vir com segurança. 

Como medida estruturante e sistêmica, o que inclui a área da segurança pública, reiteramos a demanda pela revitalização do centro histórico de Aracaju, como uma ação que deve  partir dos três entes federados, municipio, governo estadual e união, como pode ser verificado em posts anteriores aqui no blog. AQUI. AQUI, AQUI, AQUI, AQUI


A versão original da canção em estúdio. AQUI

"A gente anda inseguro / Construindo muros no chão" O momento político e social que vivemos, no período em que a canção foi lançada (2018) ,  com ataques à cultura e ao cinema de arte.

"Mas frases de ódio não vão vingar / Chega pra cá pra falar de amor" A resistência cultural é um ato de amor — o cinema de arte lotado é a prova.

"Vem cá, a lua tá cheia / Vamos contar histórias" O cinema é, acima de tudo, contar histórias — e ontem tivemos duas histórias potentes sendo contadas e celebradas.

🎬🌕






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