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domingo, 5 de abril de 2026

Malhação do Judas em 2026. Em Aracaju, como resiste a tradição? E pais afora?

 

Foto- Ras de Sá

O Velhinho de Taubaté e as tradições que se perdem no tempo

Por Mário Jéfferson Leite Melo (o velhinho de Taubaté, em construção) - São Paulo.

O Velhinho acordou naquele sábado com um silêncio diferente… não era só o silêncio do mundo — era o silêncio da memória pedindo licença pra falar. Porque, veja bem… no tempo do Velhinho, sábado depois da Sexta-feira da Paixão não era só mais um dia. Era o Sábado de Aleluia, e o nome já vinha carregado de promessa, igual nuvem preta que a gente sabe que vai virar chuva boa.

De manhã, parecia que até o vento andava de cabeça baixa. As igrejas quietas, os sinos calados, como se o tempo tivesse tirado o chapéu em respeito. Diziam os antigos — e o Velhinho acredita até hoje — que aquele era o dia em que o céu cochichava baixinho, pra não acordar a dor de Maria.

Mas bastava o sol esquentar um tiquinho… e pronto! A molecada virava o mundo do avesso.

Era um corre-corre danado pelas ruas de terra, batendo de porta em porta, numa espécie de procissão ao contrário — não de penitência, mas de travessura autorizada por Deus (ou pelo menos tolerada, que santo também tem senso de humor).

— “Ô de casa!”

E lá vinha o coro, afinado na marra da alegria: — “Deus te pague! Deus te ajude!”. Quando caía balas, moedas, qualquer coisinha que tilintasse ou adoçasse o dente, era como se o céu abrisse uma frestinha só pra sorrir.

Agora… se não vinha nada… ah, meu amigo… aí o julgamento era rápido, direto e sem recurso: — “Pão duro miserável! Pão duro miserável!”. E lá se ia a turma, rindo, porque até a maldade ali era leve, dessas que não machucam — só cutucam o orgulho.

O Velhinho, com os olhos meio marejados e meio risonhos, lembrou também de Silveiras, ali pertinho, onde existia a lendária PR Cabrito… uma rádio que não precisava de antena, nem de licença, nem de verdade — porque vivia na frequência da imaginação. Era ela que “transmitia” a Malhação de Judas. E depois vinha o grande espetáculo: a leitura do testamento. Meu Deus do céu… O Judas, que já tinha sido malhado, ainda tinha que dividir seus “bens” — que nunca eram bens — com os figurões da cidade. Fulano herdava uma dentadura sem dente, sicrano ganhava um chapéu furado, e assim ia… uma justiça poética que nem juiz nenhum dava conta de assinar.

Era o povo rindo de si mesmo, das autoridades, da vida… Era a sabedoria vestida de piada. Porque o Velhinho aprendeu cedo que tradição é isso: não mora em livro, mora na boca do povo. Não vive em decreto, vive na repetição. E quando para de ser contada… vira saudade.

Hoje, ele olha em volta e vê que muitas dessas coisas foram se perdendo, como reza esquecida no fundo da gaveta ou fotografia que desbota sem ninguém perceber. As crianças já não batem nas portas — batem em telas.

O “Deus te pague” virou notificação silenciosa. E o “pão duro miserável” … ah, esse foi aposentado pela indiferença, que é pior, porque não grita — só apaga. 

O Velhinho coça o queixo, ajeita o chapéu imaginário e solta, meio rindo, meio sério: — “O mundo hoje tem pressa demais pra lembrar… e pressa demais também pra esquecer.Mas ele ainda acredita — teimoso como só — que tradição é igual brasa de fogão a lenha: pode parecer apagada…, mas se alguém sopra com carinho… ela volta.

E talvez — só talvez — ainda tenha uma criança em algum canto batendo numa porta qualquer, esperando não só uma bala…, mas um motivo pra continuar dizendo, em coro: — “Deus te pague, Deus te ajude…” 

Porque enquanto alguém disser isso de coração… o tempo não leva tudo, não.

Aqui em Aracaju, no bairro Getúlio Vargas , nesse ano da graça de 2026, a queima do Judas está sendo retomada, depois de vinte anos sem ser realizada depois do falecimento de Maroaldo, o líder da iniciativa tradicional por aqui. Nesse segundo ano da retomada , os Judas queimados foram conceituais, o racismo e a homofobia.

Foto- Ras de Sá



No vídeo acima e AQUI, do bairro Novo Horizonte, municipio de Socorro,  o protesto contra o governador de Sergipe, com destaque para o problema da crise no abastecimento de água.. 

A cobertura do Blog da Cultura em outros anos... AQUI


A origem da Malhação do Judas está ligada à punição simbólica do apóstolo que traiu Jesus, uma tradição que os colonizadores portugueses e espanhóis trouxeram para o Brasil. Com o tempo, ela se transformou, ganhando contornos de crítica social e se tornando uma festa popular que, embora menos comum hoje, ainda resiste em muitas comunidades .

📜 Origens e Significado Religioso
A tradição tem suas raízes na narrativa bíblica da Páscoa:

Base bíblica: A prática é uma alusão à história de Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus Cristo em troca de 30 moedas de prata. De acordo com o relato bíblico, tomado pelo desespero, Judas teria se enforcado .

Punição simbólica: "Malhar o Judas" representa, portanto, a rejeição coletiva à traição. O ato de surrar, enforcar ou queimar o boneco é uma forma simbólica de punir o ato que, segundo a fé cristã, levou à crucificação de Jesus .

Data da celebração: O ritual acontece sempre no Sábado de Aleluia, o dia que antecede o Domingo de Páscoa. Do ponto de vista litúrgico católico, este é um dia de silêncio e reflexão, o que torna a malhação uma manifestação da cultura popular, e não um rito oficial da Igreja .

🇧🇷 Como a Tradição se Estabeleceu no Brasil
A tradição chegou ao Brasil ainda no período colonial, trazida por portugueses e espanhóis, e se enraizou de forma única na cultura nacional .

Registros históricos: A prática já era tão comum no século XIX que foi documentada por importantes artistas e escritores. O francês Jean-Baptiste Debret retratou a cena em uma pintura de 1823, e o dramaturgo Martins Pena a mencionou em uma peça de 1840 .

Adaptação brasileira: No Brasil, o boneco de Judas tradicionalmente ganha um "testamento", uma lista satírica ou cartazes com os nomes de políticos, técnicos de futebol e outras personalidades que se tornaram alvo de insatisfação popular . Essa é a principal característica que distingue a tradição brasileira, transformando o ritual em um termômetro da opinião pública e uma forma de protesto bem-humorado .

Variações regionais: A forma de celebrar varia em todo o país. A versão mais comum é a confecção do boneco, que é pendurado em um poste, espancado e depois queimado. No entanto, há variações únicas, como o famoso "Estouro do Judas" na cidade de Itu (SP), onde o boneco é literalmente detonado com bombas em um espetáculo pirotécnico .

🤔 Uma Prática em Transformação
Embora ainda presente em muitos bairros e cidades, especialmente no interior e nos subúrbios de grandes centros como o Rio de Janeiro, a tradição tem se tornado mais rara. Entre os motivos estão a crescente urbanização e a preocupação dos pais com a violência do ato de espancar e queimar um boneco na frente das crianças . Apesar disso, ela persiste como um momento de união comunitária, onde famílias e vizinhos se reúnem para confeccionar o boneco e manter viva a memória cultural .

Em resumo, a Malhação do Judas no Brasil é uma tradição que nasceu de um simbolismo religioso medieval, foi adaptada com o humor e a irreverência brasileiros e se consolidou como um fenômeno de crítica social e cultural.

Tradição e política: quem você queimaria como “Judas”?, pergunta o jornalista Narcizo Machado no facebook. AQUI

Resposta do editor do blog. Zezito de Oliveira
Flávio Bolsonaro e familicia.
Com base no que afirma o jornalista Bernardo Mello Franco no Globo de hoje, 05/04/2026

"Flávio Bolsonaro quer convencer o governo americano a interferir na eleição brasileira a seu favor. E a vassalagem não para na oferta de minerais críticos a Trump." Prossegue o jornalista citado.

E para quem tem uma mente e um coração de verdadeiro cristão, Feliz Páscoa!!!





sábado, 11 de abril de 2020

Malhando os presidentes Judas. Ontem Collor. Hoje Bolsonaro.









O presidente Jair Messias Bolsonaro é o próprio “Judas” dos tempos modernos. O Judas dos tempos do Coronavírus.
Ele traiu a nação com as reformas neoliberais –ao lado de Paulo Guedes– e ao contrariar o fim do isolamento social como medida para evitar contágio pelo coronavírus.
Bolsonaro é o “Anjo da Morte”. Defende a necropolítica, a política da morte, para se sustentar no poder.
Leitores de diversas partes do Brasil encaminham imagens ao Blog do Esmael de malhação ao Judas neste “Sábado de Aleluia”.
Motivos não faltam para que o boneco de Bolsonaro seja malhado pela população: perigo de infecção pela Covid-19, recessão econômica, desemprego, salários aviltados, fome, privilégios aos bancos, dentre outras maldades.
Bolsonaro é malhado hoje, com razão, em todo o País.
Sobre a tradicional malhação de Judas
A Malhação de Judas é uma festa popular que representa a morte de Judas Iscariotes, o discípulo que traiu Jesus Cristo.
No Brasil, por exemplo, a comemoração da Malhação de Judas é feita a partir da confecção de bonecos de pano (ou de outros materiais), com as feições de personalidades que desagradam a população por seus atos incorretos.
Logo a seguir, as pessoas se reúnem para “malhar o Judas”, ou seja, “torturar” o boneco das mais diversas formas, seja pendurando enforcado em árvores ou queimando em grandes fogueiras.
Este ato é visto como uma “vingança popular” contra a traição feita por Judas a Jesus Cristo.


Fonte https://www.esmaelmorais.com.br/2020/04/bolsonaro-o-judas-e-malhado-em-todo-o-pais/?fbclid=IwAR34Z68x_bJNb9uPFTQ5eCjP6iO9YWUH4Ty2b26d41fnJW0kIACnmyG4l






O judas abaixo faz parte do mural facebook da professora e artista plástica Cláudia Ném.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

A malhação dos Judas brasileiros em debate

 


Requerimento do deputado André Fernandes (PL-CE) pediu uma interpelação junto à PGR, em nome da Comissão de Educação da Câmara, contra o movimento Levante Popular, formado principalmente por estudantes. Ante à estranheza com relação ao requerimento inusitado, o presidente da Comissão, Nikolas Ferreira (PL-MG) pediu licença da mesa e falou em nome da liderança da oposição. Recebeu como resposta uma aula da decana da Casa, a deputada Lídice da Mata (PSB-BA), que foi inclusive constituinte na década de 1980. No fim, o vexame: o requisito acabou retirado da pauta pelo próprio autor.



sábado, 11 de abril de 2020

Malhando os presidentes Judas. Ontem Collor. Hoje Bolsonaro.


Por Ariane Marques, g1 — Cabo Frio

 

Tradição de 'malhar o  Judas' permanece viva em diversos estados

Tom político marcou ritual no Sábado de Aleluia

sexta-feira, 24 de abril de 2026

NA CASA QUE FALTA PÃO, TODO MUNDO GRITA E NINGUÉM TEM RAZÃO. Velhinho de Taubaté por Mário Jéfferson Leite Melo


O Velhinho, curioso como só ele, resolveu dar um passeio pelos grupos de zap — esse novo coliseu onde gladiador não usa espada, usa áudio de três minutos e textão com dedo nervoso. E bastou abrir a porta digital pra perceber: o pão sumiu da mesa, mas o barulho continua farto. É gente discutindo como se estivesse decidindo o destino do mundo, quando na verdade mal consegue decidir quem leva o café e quem lava a xícara.

E lá estavam eles, companheiros de trincheira, se engalfinhando com palavras afiadas, confundindo divergência com guerra santa, e transformando reunião em ringue. Cada um com sua verdade no bolso, mas ninguém com paciência no coração. Porque no zap, meu amigo, todo mundo é general — o problema é que falta soldado disposto a ouvir ordem que não seja a própria.

O Velhinho coçou o queixo e pensou: “Uai… tão brigando por quê mesmo?” E quanto mais lia, menos entendia. Era reunião que não foi reunião, convite que não era convite, representação que representava ninguém e todo mundo ao mesmo tempo. Um tal de “eu fui”, “eu não fui”, “você disse”, “eu não disse”... e no meio disso tudo, a tal da cultura, coitada, sentada no canto, esperando alguém lembrar que ela existe pra além do ego ferido.

Porque enquanto uns discutem se a cadeira é de madeira ou de plástico, ninguém percebe que a mesa está quebrada.

E o mais curioso — ou trágico — é que todos ali estão do mesmo lado. Ou deveriam estar. Mas o tal do “fogo amigo” virou esporte oficial. Um atira no outro achando que está acertando o inimigo, quando na verdade está só abrindo mais buraco no próprio barco. E barco furado, meu filho, não afunda só um — afunda todo mundo junto, com direito a discurso inflamado até o último gole d’água.

O Velhinho lembrou então de um causo antigo: dois irmãos brigavam pela herança de uma casa que ainda nem tinham terminado de construir. Enquanto discutiam quem ficaria com a sala, o teto caiu. E ficaram os dois sem sala, sem teto e com a razão — cada um segurando a sua, como quem segura um troféu inútil.

É disso que se trata.

Debate é coisa bonita. Divergência é motor. Mas quando o respeito sai pela porta, a inteligência pula pela janela. E o que sobra? Vaidade, ruído e uma coleção de certezas que não constroem nada. Como já dizia aquele sopro lúcido de Eduardo Galeano, o mundo moderno anda transformando o que é prazer em obrigação — e talvez a cultura esteja sendo empurrada pro mesmo abismo: deixando de ser encontro pra virar disputa de território.

E enquanto isso, lá fora, quem realmente não quer política pública de verdade agradece. Porque nada é mais eficiente do que um grupo desunido tentando provar quem tem mais razão enquanto perde o essencial: o sentido coletivo.

O Velhinho então bateu o cajado no chão — não pra fazer barulho, mas pra ver se alguém escutava — e soltou:

“Briga de irmão não se vence, se aparta. E quanto mais demora, mais caro fica o conserto.”

No fim das contas, quem grita mais alto não ganha — só cansa primeiro.

Quem fala sozinho não lidera — só ecoa no vazio.

E quem esquece o coletivo… vira plateia da própria derrota.

Porque onde falta pão, o grito pode até ser alto…

mas nunca será solução.

sábado, 11 de abril de 2026