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sexta-feira, 14 de março de 2014

Especial comemora centenário da escritora Carolina de Jesus


Camila Maciel - Radioagência Nacional 14/03/2014
Especial comemora centenário da escritora Carolina de Jesus
Hoje o Brasil comemora o cem anos do nascimento de uma das maiores escritoras negras do país: Carolina Maria de Jesus. Moradora da favela do Canindé, São Paulo (SP), era catadora e registrava o cotidiano da comunidade em cadernos que encontrava no lixo. Seu livro "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada". 




Ouça a matéria acima com complementos, acesse o link abaixo..
http://radios.ebc.com.br/radios-ebc/edicao/2014-03/pais-lembra-centenario-de-carolina-de-jesus

Carolina de Jesus foi escritora que mais vendeu livros no país

Carolina de Jesus foi escritora que mais vendeu livros no país
O Viva Maria desta sexta-feira (14) omenageia a autora de Quarto de Despejo, traduzido para mais de 40 idiomas. A obra da escritora negra Carolina Maria de Jesus, publicada na década de 60, retrata o cotidiano de uma moradora de favela, e vendeu mais de um milhão de exemplares.

 


Ouça a matéria acima com complementos....
http://radios.ebc.com.br/radios-ebc/edicao/2014-03/pais-lembra-centenario-de-carolina-de-jesus

 

 

Carolina Maria de Jesus: 100 anos da autora do clássico “Quarto de Despejo” 

Do blog Socialista Morena 


(Carolina e a primeira edição de seu livro)
Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.
Em 1958, o repórter Audálio Dantas estava na favela do Canindé, em São Paulo, preparando uma reportagem sobre um parque infantil para o extinto jornal Folha da Noite, quando se deparou com uma mulher negra de 43 anos que gritava: “Onde já se viu uma coisa dessas, uns homens grandes tomando brinquedo de criança! Deixe estar que eu vou botar vocês todos no meu livro!”  Curioso, como todo bom jornalista, Audálio foi atrás dela e descobriu uma escritora: Carolina Maria de Jesus, que ficaria conhecida mundialmente por Quarto de Despejo, um clássico de nossa literatura, traduzido em 13 idiomas.
Lançado em 1960, o livro venderia mais de 80 mil exemplares no Brasil, um best seller até para os padrões de leitura de hoje em dia. Nele, Carolina fazia um diário de sua vida desde que deixara Sacramento, em Minas, aos 17 anos, para ir morar em São Paulo, onde trabalhou como empregada doméstica e, quando Audálio a encontrou, como catadora de papel. O título veio de uma frase de Carolina: “A favela é o quarto de despejo da cidade”. A escritora favelada é, de certa forma, precursora de nomes recentes de nossa literatura que vieram da periferia das grandes cidades, como Paulo Lins (Cidade de Deus) e Ferréz (Capão Pecado).
“Carolina é uma escritora fundamental para entender a literatura brasileira, que é feita, em sua grande maioria, de autores brancos de classe média que dominavam a língua formal. Ela mostra a outra face dessa história, que passa a ser vista do ponto de vista dela, de baixo”, diz a professora da Universidade de Brasília Germana Henriques Pereira, autora de O Estranho Diário de Uma Escritora Vira-Lata, um dos poucos trabalhos que analisam a obra de Carolina do ponto de vista da crítica literária. Depois do estrondoso sucesso, Carolina morreria pobre e praticamente esquecida, isolada num sítio, em fevereiro de 1977.
A literatura de Carolina Maria de Jesus só foi redescoberta na década de 1990, graças ao empenho do pesquisador brasileiro José Carlos Sebe Bom Meihy e do norte-americano Robert Levine, que juntos publicariam o livro Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (editora UFRJ, atualmente esgotado), e editariam duas coletâneas de inéditos da escritora (leia aqui um artigo de Melhy sobre Carolina). No exterior, porém, ela nunca deixou de ser lida e estudada, sobretudo nos EUA, onde Quarto de Despejo, traduzido como Child of the Dark, é utilizado nas escolas –ao contrário do que ocorre em sua terra natal.
Audálio Dantas, descobridor de Carolina Maria de Jesus, deu uma pequena entrevista ao blog sobre a escritora.
Socialista Morena – Por que Carolina, mesmo sendo reconhecida no exterior, ficou tanto tempo esquecida no Brasil?
Audálio Dantas – É que, como sempre, a moda passou rapidinho. A maioria “consumiu” Carolina como uma novidade, uma fruta estranha. Carolina, como objeto de consumo, passou, mas a importância de seu livro, um documento sobre os marginalizados, permanece.
SM – Neste meio tempo, não apareceram tantas mulheres faveladas ou empregadas domésticas escritoras. Por quê?
Audálio – Xi, foram dezenas ou centenas, Só eu recebi mais de vinte originais, Nenhum tinha a força do texto de Carolina.
SM – Ainda hoje existem catadores de papel… A vida nas favelas mudou pouco em relação à época da Carolina?
Audálio – Existem até mais, com a necessidade de reciclagem. A maioria, hoje, faz esse trabalho com carroças (aquelas sempre acompanhadas por um cachorro…). As favelas também mudaram. Não que seja bom e bonito viver nelas, mas em muitas já se observam os sinais da movimentação social dos últimos anos, quando milhões de brasileiros ascenderam à chamada nova classe C. Muitos desses brasileiros vivem nelas, com TV, internet, celular e outros objetos das novas tecnologias.
SM – Você acompanhou Carolina até o fim?
Audálio – Não. Carolina era uma pessoa de personalidade muito forte. Isso pode ser constatado no livro. Desentendeu-se comigo, me distanciei. Ela sempre buscou a glória, e quando esta se foi, se ressentiu. Morreu amarga.
Desiludida com o insucesso de suas obras posteriores, Carolina rompeu com o jornalista e chegou a criticá-lo no livro Casa de Alvenaria. “Eu queria ir para o rádio, cantar. Fiquei furiosa com a autoridade do Audálio, reprovando tudo. Dá impressão de que sou sua escrava”. Em 1961, chegou a gravar um disco, com canções compostas por ela mesma (uma raridade, ouça aqui). Mais tarde, perto do final da vida, a escritora mudou de opinião sobre seu descobridor. “O Audálio foi muito bom, muito correto comigo, eu sempre acreditei nele”, disse Carolina à Folha de S.Paulo em sua última entrevista, em 1976.
Na mesma reportagem, Audálio Dantas conta sua versão do rompimento. “Ela recebia convites de um Matarazzo, recebia convites para falar em faculdades, para visitar o Chile, para frequentar a sociedade e dezenas de propostas de casamento. Mas eu achava que ela não devia entrar neste esquema, porque não era uma coisa natural. Porque as pessoas a procuravam como uma pessoa de sucesso e a viam como um animal curioso”, disse o jornalista.
No enterro de Carolina, Audálio era uma das duas “autoridades” presentes além dos familiares – o outro era o prefeito de Embu-Guaçu. Um orador que não conhecera a escritora em vida improvisou o discurso de despedida. “Somente compareceram para lhe dar o último adeus as pessoas humildes, as pessoas que sempre a acompanharam em toda a sua vida”. E fez, ali, o epitáfio de Carolina: “Morreu como viveu: pobre”.
Frases de Carolina Maria de Jesus:
“O assassinato de Kennedy é descendente de Herodes e neto de Caim. Kennedy era o sol dos Estados Unidos. O sol que se apagou. Um homem que era digno de viver séculos e séculos.”
“Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário.”
“O maior espetáculo do pobre da atualidade é comer.”
“As crianças ricas brincam nos jardins com seus brinquedos prediletos. E as crianças pobres acompanham as mães a pedirem esmolas pelas ruas. Que desigualdades tragicas e que brincadeira do destino.”
“A amizade do analfabeto é sincera. E o ódio também.”
“Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito.”
“A favela é o deposito dos incultos que não sabem contar nem o dinheiro da esmola.”
“Quem inventou a fome são os que comem.”
“Quem não tem amigo mas tem um livro tem uma estrada.”
***
Breve biografia de Carolina interpretada pela grande atriz negra Ruth de Souza:





Carolina de Jesus, Maria Tereza
Fonte: Revista Fórum

Por Allan da Rosa,

Em 2008 fizemos um programa de rádio, pela série ‘ Nas Ruas da Literatura’, com textos de Carolina versados por Maria Tereza. Pode ser ouvido aqui. Ali eu apresentava traços da biografia e dos contextos de criação de Carolina, e minha mana Tereza recitava trechos de livros distintos: ‘ Quarto de Despejo’, ‘ Casa de Alvenaria’, Diário de Bitita ( suas memórias de infância mineira em Sacramento, escritas já adulta. Texto quente e saboroso, onde destaca seu avô, o ‘Sócrates Negro’) e também poemas e canções.
É centenário de Carolina nesse 2014. Relembrada com paixão em muitos saraus e coletâneas desde a virada do século em qualquer quebrada paulistana, considerada avó, madrinha ou pilar maior da gama de escritores das beiradinhas. Organizamos cursos e seminários pra aprender e refletir sobre seu percurso e seu estilo, sua radiação e suas lacunas, seus elos com a obra e o passo de outras mulheres negras migrantes pra São Paulo ou Rio, que afiaram a caneta e o pensamento ocupando o casulo macho da caneta, do universo da escrita, como por exemplo Lélia Gonzalez e Beatriz do Nascimento. Juntamos dezenas de cabeças pra desfrutar o doce e o amargo das suas linhas, os poros e a casca grossa de seus textos, e sempre saímos das aulas com a alma cheia mas uma sensação de oco no peito, diante das farpas e também ternura que sua obra deixa no vento.
Carolina por muito tempo foi a autora mais traduzida do Brasil. Seu sucesso de ‘ Quarto de Despejo’, retratando e filosofando as entranhas da favela do Canindé e de seu barraco com seus filhos, jamais foi alcançado por seus outros livros. Já parecia não agradar tanto quando caminhava por onde nao parecia exótico, por onde nao coubesse no cocho do estereótipo reservado. A esquerda de outrora (só de antes?), cega às miudezas e a amplitude das pautas e tretas do racismo, tentava lhe encaixar na gaveta, percebendo a negra como alguém a se integrar no esquema da luta de classes e talvez nada mais. A direita não encontrava ali alguém pra facilmente digerir, nem pelos textos nem pelas outras falas e intervenções de Carolina. Momento em que espetáculos cantavam que ‘daqui do morro eu nao saio não’, quando se exportava romanticamente uma placidez simpática entre os barracos de pau, idealizando a alegria e um bem viver na favela que só agradava quem nao pisava no lameiro, Carolina trouxe sua revolta, dramática às vezes satírica do cotidiano no Canindé. A fome, as crianças e seus roncos precários, a comunidade escorraçada, a coleta de papelão, as pequenas infinitas dívidas na venda, a falta de tudo… Até hoje o texto e a figura de Carolina não cabe em moldura de nenhum movimento ou instituição que realmente a leia e contemple suas contradições, ela tão citada em fragmentos com a foto louvada mas nem sempre com o parágrafo lido e conversado. Suas linhas sobre as relações raciais em São Paulo não convém facilmente nem mesmo aos discursos convencionais do Movimento Negro, seja quando aborda a (des)organização comunitária ou quando aponta quem é o marido ideal para si e sua menina.
Seja por inveja de seu sucesso ou porque ela abriu detalhes escabrosos da própria vizinhança da favela no seu diário ( a sua vingança elaborada, como dizia com o dedo em riste), Carolina saiu xingada e apedrejada do Canindé. Por seu centenário, em vários cantos Carolina é especialmente recordada em 2014. Já aconteceram algumas rodas e prosas e elas seguem de norte a sul do Brasil. E é claro que elas não vão acontecer nas salas ou livrarias dos barões ( e se ali vogar, desconfiemos das abordagens). O selo Ciclo Continuo, organizado por Marciano Ventura, que publica há alguns anos livros primorosos de escritores negros jovens, como Fabio Mandingo e Marcio Folha, ou reedita e compila obras de mais velhos, como Abelardo Rodrigues e Carlos Assumpção, organizou pra 22 de março um seminário fera sobre a escritora, recebendo pesquisadoras e poetas pra trocar idéia sobre significados, gostos e vertigens dos textos de Carolina, os generos variados que sua caneta desenrolou do confessional à composicao de marchinhas e sambas, do testemunhal à poesia e à ficção. Será na Biblioteca Municipal Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros, em SP, finalizando com cenas da já clássica montagem de ‘ Ensaio sobre Carolina’ , da Companhia Os Crespos de teatro.
Aqui tem outro programa de rádio que fizemos em 2011, também lendo e refletindo Carolina de Jesus. Uma hora de prosa com a professora Flávia Rios, que estará na biblioteca em Pinheiros: Na Bahia, a poeta e atriz Vera Lopes, mais a grande ativista Vilma Reis e uma banca de responsa puxam o Coletivo Carolinas questionando os espinhos e sonhos, as unhas o fedor que impulsionavam Carolina a mergulhar em seu diário. Ainda em SP, radicada nas quebradas do Parque Bristol, Jardim Clímax e do fundão do Ipiranga, onde pulsa há varias primaveras o movimento florescente de luta por moradia, de escrita e de Hip Hop desde os tempos da Posse Poder e Revolução, do Maloca Espaço Cultural até hoje com o Sarau Perifatividade, a poeta Dinha e a pesquisadora Rafaella Fernandez chamam o povo pra colaborar com uma vaquinha. Intenção é publicarem pelo selo Me Parió escritos inéditos e trancafiados que Rafaella recentemente sequestrou na França. Pra variar, como no caso da chamada literatura de cordel e como já se demonstra com a literatura periférica e a escrita negra brasileira, pra bem e pra mal pesquisadores estrangeiros se dedicam e compõem seus acervos, organizam seminários e vão dichavando os revides e os ninhos que raramente o sistema editorial nacional se propõe a publicar ou debater. Pra firmar uma publicação distribuída na humildade e com garra e fundamento, (se tu puder cola aqui pra somar).
tereza
Maria Tereza, pela pintura de Rodrigo Bueno
Bem, citei Maria Tereza no título mas o texto ficou grande por agora, só com Carolina de Jesus. Na próxima quem sabe venço minha relutância em falar sobre Tereza, supero o medo de arranhar com minhas mágoas essa ciranda, às vezes hipócrita que tanto voga sobre sua memória, e escrevo sobre essa singular escritora, pensadora e minha grande irmã de convívio e espírito, que fez sua passagem em 2010. Escrever sobre o convívio real de quintal, ônibus, biblioteca e cozinha com Tereza, suas traquinagens e místicas, nossos passos vira-latas editando seu ‘ Negrices em Flor’ em 2007, espoletando como Porta-bandeira e Mestre- Sala em 2008 com o Teatro Solano Trindade, no Embu, onde nos conhecemos e varamos noites com Dona Raquel Trindade assistindo filmes. Sobre as caixas que me deixou quando já sabia que era chegada sua hora de partir, amparada por pouca mas muito valorosa gente ( Salve Celso Sim, Mafalda Pequenino, Beth Belli, Rodrigo Bueno, Paula Pretta e outras mais que sabem de quem falo). Tudo isso pra não prevalecer a memória de sua dor massacrante, da enigmática poliradiculoneurite que lhe acometeu ainda tão jovem, da síndrome do pânico e das ligações madrugueiras desesperadas, das visitas ao Hospital das Clínicas quando sorria e chorava ao mesmo tempo quando eu lhe massageava os dedos inchados daquele pé que tanto doía e de quem ela tanto escrevia. Necessidade de lembrar Tereza chegando cedinho no Taboão pra recitar poesia a dois, pirando em estilos e temas. Tereza homenageada em blogs e microfones após sua morte, a que murmurava me perguntando por que nenhuma ‘amiga’ mais lhe telefonava, porque quase ninguém lhe visitava em vida sabendo da sua situação ( ‘- Você deu mesmo meu número de telefone certo pra elas, Allão?’), mas recordar Tereza pela nobreza moleca que bailava com os postes da rua e lia na mesma tarde, horas na biblioteca ou no ponto de ônibus, no banheiro ou no pé da porta de casa, a coleção Vagalume e Marise Condé, Stella do Patrocínio, Pablo Neruda e revista Planeta, seus livros e cadernos de fotocópias tão lambuzados de frutas, tatuados por mangas e caquis.








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