“Havia muitos jornais independentes reformistas, em farsi, e aí o governo fechava, eles reabriam, certamente eles ainda existem até hoje, mas são ainda mais perseguidos em momentos de crise. A maior parte das informações que temos vem de ONGs, de iranianos fora do país – os da diáspora – que têm acesso às redes, e de alguns correspondentes internacionais. Não é fácil conseguir um visto de jornalista para o Irã, por isso a maioria deles são britânicos-iranianos, americanos-iranianos, que trabalham para agências e jornais ocidentais, mas não é fácil obter informação do regime mesmo estando lá. Isso dificulta, mas por si só não impede a circulação de informações sobre o país – ontem mesmo eu estava conversando com uma iraniana”, conta Adriana Carranca.
“Esses protestos mais recentes foram diferentes dos anteriores porque reuniram muito mais gente do interior, de comerciantes, é uma população mais heterogênea do que aquela formada principalmente por mulheres e jovens urbanos que protestaram pela morte de Mahsa. Tem um componente econômico forte, e não apenas pelo bloqueio ao Irã, mas também pelas decisões do próprio regime, por suas falhas, por seu investimento em áreas não prioritárias para os iranianos, que estão sofrendo com o custo de vida, com os apagões, com a deterioração da infraestrutura. O regime está corroído por dentro, falta aparecer uma liderança capaz de se apresentar como uma alternativa política, porque os protestos ainda são muito descentralizados”, explica.
Pergunto para ela se uma intervenção dos Estados Unidos não complicaria ainda mais a vida da oposição iraniana. “Certamente, porque quando há uma ameaça externa, os protestos param. Os iranianos são nacionalistas, eles acabam apoiando o governo nesses casos, como a gente viu durante os bombardeios de junho passado. Uma forma que os Estados Unidos poderiam ajudar é promovendo, investindo financeiramente nos grupos iranianos de direitos humanos, de monitoramento, não como uma intervenção externa. Os iranianos querem e podem reconstruir sua democracia, sem paternalismo”.
Volto ao Instagram das jovens mulheres do “Feminists4Jina” e anoto a parte final daquele impactante discurso em Berlim. “Ninguém nos perguntou nada por quase 5 décadas, levante após levante, enquanto as pessoas amadas por nós eram executadas, presas, ou baleadas pelo país, seus corpos desaparecidos ou vendidos para as famílias. Ninguém perguntou como o estupro e o assassinato se tornaram tão baratos e fáceis. Ninguém nos perguntou nada porque nossas vidas só importam quando se tornam relevantes para os países ocidentais ou para as audiências ocidentais”.
“Nós exigimos vida, nós exigimos dignidade, nós exigimos liberdade”, essa é a voz do Irã. Para começar a ouvi-la é bom desconfiar dos porta-vozes ocidentais – de direita ou esquerda, da imprensa ou de governos.
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