Num ano de eleições nacionais e estaduais, é hora de transformar a pauta cultural — sempre tratada como ornamento — em compromisso concreto de governo, com carreira, descentralização real e fortalecimento dos órgãos regionais.
Fachada da estação: pichações, sujeira e ferrugem no prédio tombado pelo patrimônio - Foto: Brenno Carvalho / Agência O GloboPor Rafael Azevedo -11 de janeiro de 2026
2026 será um ano eleitoral decisivo — com eleições gerais em 4 de outubro (e eventual segundo turno em 25 de outubro) — e, como quase sempre ocorre em ciclos de quatro anos, a pauta da cultura e do patrimônio corre o risco de entrar no debate público apenas como enfeite discursivo: uma menção protocolar aqui, uma promessa vaga ali, e nada que se converta em programa sério de Estado.
E talvez o mais grave não seja só o oportunismo de parte da classe política, mas a falta de mobilização orgânica do próprio campo cultural antes do período eleitoral. De modo geral, não há — salvo raras exceções — uma articulação prévia, minimamente coesa, entre interessados, ativistas, consumidores, diletantes, pesquisadores, servidores e produtores para definir prioridades, pactuar pleitos e cobrar compromissos objetivos. O setor chega atrasado ao jogo. Chega disperso. Chega, muitas vezes, desinformado sobre seus próprios instrumentos.
Isso se agrava porque cultura e patrimônio são áreas estruturalmente submetidas a dois flagelos simultâneos: a carência crônica de recursos financeiros e a carência (não raro dramática) de recursos humanos. É um campo com disputas internas por protagonismos — algumas legítimas, outras meramente performáticas — e com enorme dificuldade de construir unidade em torno de um mínimo denominador comum. Falta, sobretudo, o que chamo aqui de “consciência de classe” num sentido não ideológico, mas corporativo e institucional: o tipo de organização pragmática que médicos e advogados exercitam com muito mais competência, criando pressão pública, defendendo carreiras, pautando o legislativo, blindando estruturas e corrigindo fragilidades.
O resultado é um panorama amorfo, desigual e injusto: ilhas de prosperidade margeadas por vastas regiões abandonadas, sem ações consistentes, sem investimentos duradouros, com equipamentos culturais em precariedade e com a fruição da memória reduzida a quase nada. E o mais afetado por isso é justamente quem menos aparece na discussão: a população. O povo, que deveria ter acesso cotidiano a bens civilizatórios — patrimônio, memória, teatro, poesia, música — acaba sem repertório e sem ferramentas para apresentar demandas de forma organizada. Soma-se a isso o desentendimento generalizado sobre captação, editais, mecanismos de fomento e prestação de contas, transformando oportunidades em labirintos e direitos em “favores”.
É nesse cenário, antigo e persistente, que exorto uma união mais franca e madura entre os diversos atores desse ecossistema — produtores e consumidores, servidores e gestores, diletantes e técnicos, pesquisadores e comunidades — para que 2026 seja o ano em que a pauta da cultura deixe de ser uma nuvem lírica e se torne agenda política com metas, prazos e medidas verificáveis.
E, para isso, três pontos deveriam estar no centro de qualquer programa sério de mandato — e, portanto, no centro do olhar de quem vota.
O primeiro é uma obviedade que o Brasil insiste em adiar: o plano de carreira do Ministério da Cultura. Plano de carreira não é capricho corporativo; é o esqueleto administrativo sem o qual nada se sustenta. Ele organiza ingresso, remuneração, progressão, formação continuada e atribuições. Sem isso, não há estabilidade técnica, não há retenção de quadros qualificados, não há memória institucional — e tudo vira improviso, rotatividade, dependência do “gênio de ocasião” ou do abnegado que segura a máquina no braço. O próximo ciclo de mandatos (2027–2030) não avançará em nada estrutural se continuar tratando o corpo técnico como detalhe secundário. A cultura não se realiza apenas com editais: ela se realiza com gente competente, formada, valorizada e em número suficiente para fazer o Estado funcionar na ponta.
O segundo ponto é o mais mal compreendido: descentralização. E aqui é preciso ser direto: não basta descentralização financeira. É necessário descentralizar também a máquina pública — e não por “modernidade administrativa”, mas porque a cultura acontece no território, e o patrimônio vive no território. Museus federais, por exemplo, são polos irradiadores da memória brasileira: guardiães de tesouros nacionais, intérpretes da nossa história, estruturas vivas do Estado brasileiro. E, no entanto, ainda são geridos por um corpo burocrático muitas vezes distante, estagnado, ausente — quando não exaurido por acúmulo de funções e carência de pessoal.
Façamos uma comparação simples com um equipamento que todos conhecem — e que também é cultura: o Maracanã. Faria sentido o Maracanã, mesmo que fosse um equipamento federal, ser administrado por um corpo burocrático em Brasília, sem presença local robusta, sem governança de campo, sem gente vivendo o cotidiano do estádio? Claro que não. Então por que naturalizamos essa distância quando falamos de museus, patrimônio material, bens ferroviários, arqueologia, patrimônio imaterial?
E aqui a provocação é necessária: lembram do sucesso recente de celebrações populares no Centro do Rio — como a Folia de Reis? Faz sentido coordenadores, gerentes e diretores cuidarem de coisas tão estratégicas a quilômetros de distância, correndo o risco de desconhecer a pauta com profundidade? Falta engajamento com o mundo real. Falta mais povo na rua fazendo a coisa acontecer e menos gente encastelada, por vezes sem a vivência mínima das necessidades que brotam das pontas. Não se trata de desprezar o planejamento central — ele é indispensável —, mas de reconhecer que a cultura e o patrimônio morrem quando se tornam administração sem chão.
O terceiro ponto diz respeito ao fortalecimento dos órgãos regionais. No Rio de Janeiro, temos o brioso Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, o INEPAC — primeiro órgão estadual de patrimônio do Brasil, hoje vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. E aqui quero ser muito claro: não se trata de uma crítica aos gestores atuais. Ao contrário: o diretor geral Kiko Brando e a secretária de Estado Danielle Barros vêm realizando um trabalho de requalificação e aprimoramento que merece reconhecimento, sobretudo diante das limitações patentes.
O problema é estrutural — e, portanto, político-legislativo: o INEPAC não possui dotação própria robusta, não possui um quadro estável de servidores concursados compatível com seu tamanho, não possui autonomia administrativa na medida necessária para o cumprimento pleno de sua missão pública. E aqui cabe um recado direto ao legislativo estadual que será reconfigurado a partir do próximo ano: deputado estadual que representa cidade metropolitana ou do interior — territórios repletos de comunidades que emanam cultura, memória e identidade — você não acha que deve isso ao seu eleitor? Um projeto de lei que fortaleça o INEPAC, os museus estaduais e outros equipamentos culturais regionais não consumiria sequer 1% do erário estadual — que supera a casa das centenas de bilhões — e entregaria retorno civilizatório imensurável: dignidade, pertencimento, turismo cultural, economia criativa, educação patrimonial e preservação de legado.
Sim, fica a dica.Porque, no fim, o que está em jogo em 2026 não é apenas eleição: é a escolha do tipo de país que queremos preservar e transmitir. Sem carreira forte no Ministério da Cultura, tudo seguirá refém do improviso. Sem descentralização real — do dinheiro e da máquina — seguiremos administrando cultura como quem administra um arquivo morto. Sem fortalecimento dos órgãos regionais, continuaremos condenando territórios inteiros à invisibilidade cultural, como se o Brasil fosse apenas meia dúzia de vitrines.
Se a introdução deste texto descreve um campo amorfo, desigual e desorganizado, a conclusão não pode repetir o lamento: ela precisa insistir na solução. Em 2026, eleitores e políticos devem se atentar a essas três obviedades estruturais — carreira, descentralização e fortalecimento regional — para que intenções de voto e programas de mandato se compatibilizem com um projeto sério, capaz de entregar melhoria real para cultura e patrimônio no Brasil.
Sem isso, a história se repete: promessas ao vento, editais pontuais, fotos em inaugurações e — depois — abandono. E já passou da hora de tratarmos cultura e patrimônio como o que são: bens públicos civilizatórios, condição de futuro, e não adereço de campanha.

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