Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Dom Oscar Romero. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Dom Oscar Romero. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de março de 2026

São Romero da América mártir: há 45 anos, o ódio da extrema direita silenciava Dom Romero, mas sua voz se fez esperança que não cala.

 24 de março de 1980 não é apenas memória, é ferida aberta na história e semente plantada no coração do povo. Nesta data, o ódio da extrema direita salvadorenha assassinou um santo, Dom Óscar Arnulfo Romero y Galdámez, um arcebispo que enxertou-se entre os pobres, defendeu sua causa e sofreu a mesma sorte deles: a perseguição e o martírio. Óscar Romero tombou como tantos anônimos que, com a coragem de quem fez da fé um compromisso, elevou sua voz em favor dos injustiçados. Tentaram calar sua voz e acabaram multiplicando seu eco. Ele não sangrou em vão. Porque toda vez que a injustiça levanta a arma, toda vez que um justo cai, levanta-se um povo. Romero não foi vencido: tornou-se esperança. Que o sangue derramado no altar nos lembre: a fé que não incomoda os poderosos talvez ainda não tenha aprendido a amar os pequenos. Mártir Óscar Romero, rogai por nós.   RFinco

Romero, mártir da caminhada nas frestas da Cristandade

Por Marcelo Barros

"Nesse ano, a celebração da memória do martírio de Oscar Romero ocorre na semana anterior às celebrações pascais. Tanto a memória da Páscoa de Jesus, como a de Romero não pode limitar-se a ofícios litúrgicos e pregações bonitas. Precisamos revestir-nos da mesma profecia de Jesus e de Romero para defender os povos crucificados de nossos dias e colocar-nos como testemunhas da ressurreição, junto às vítimas das guerras e tragédias que o Capitalismo provoca no mundo inteiro"

Link para o artigo: https://ihu.unisinos.br/categorias/663688-vozes-de-emaus-romero-martir-da-caminhada-nas-frestas-da-cristandade-artigo-de-marcelo-barros

---------------------------------------//----------------------------------------

  Na primavera de 1979, o arcebispo de El Salvador, Oscar Arnulfo Romero, viajou para o Vaticano. Pediu, implorou uma audiência com o Papa João Paulo II, mas em vão.

Finalmente, colocando-se na fila dos fiéis que esperavam a bênção ao final da audiência geral, Romero surpreendeu Sua Santidade para roubar alguns minutos.

Ele tentou entregar-lhe um relatório volumoso, fotos, depoimentos, mas o Papa não aceitou. "Não tenho tempo para ler tanta coisa", respondeu.

Romero balbuciou que milhares de salvadorenhos haviam sido torturados e mortos pelo poder militar. Que ontem não mais, o exército havia baleado 25 diante dos portões da catedral.

O Santo Padre o parou: "Não exagere, senhor arcebispo!" E então exigiu, mandou, ordenou: "Vocês devem se entender com o governo. Um bom cristão não cria problemas para a autoridade. A Igreja quer paz e harmonia!"

Dez meses depois, o arcebispo Romero foi fulminado em El Salvador. As balas o levantaram no meio da missa, quando ele estava levantando a hóstia.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Tradução de Eric Nepomuceno. 1. ed. Porto Alegre: L&PM, 2009.


A recordação de São Óscar Romero constitui uma extraordinária oportunidade para lançar uma mensagem de paz e de reconciliação a todos os povos da América Latina. O povo amava D. Romero, o Povo de Deus gostava dele. E sabem por quê? Porque o Povo de Deus sabe intuir bem onde há santidade.”

Palavras do Papa Francisco a um grupo de peregrinos salvadorenhos que vieram a Roma para a sua canonização, em 14 de outubro de 2018.

Óscar Arnulfo Romero y Galdámez nasceu em Ciudad Barrios, em El Salvador, em 15 de agosto de 1917, em uma família modesta. Entrou para o seminário menor de São Miguel em 1930. Em 1943, recebeu sua licenciatura em teologia da Universidade Gregoriana. Ordenado sacerdote, voltou à sua pátria e se dedicou com paixão ao trabalho pastoral como pároco. Posteriormente, foi nomeado Diretor do Seminário de San Salvador e Secretário da Conferência Episcopal de San Salvador.

Em 1970, eleito bispo auxiliar de San Salvador, se dedicou à defesa dos pobres. Em 1974 tornou-se bispo de Santiago de Maria e em 1977 arcebispo de San Salvador, em meio à repressão social e política. Em 24 de março de 1980, foi morto enquanto celebrava a missa entre os doentes no hospital.

Dom Oscar Romero deixou as seguranças do mundo, incluindo a própria incolumidade, para consumir a vida – como pede o Evangelho – junto dos pobres e do seu povo, com o coração fascinado por Jesus e pelos irmãos. É por isso que também hoje se celebra o Dia de Oração e Jejum em memória dos missionários mártires.

🙏🏽 Dom Romero, rogai por nós!


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

AO PAPA LEÃO XIV COM CARINHO. Mensagem de Marcelo Barros como resposta a exortação apostólica “Dilexi te”, sobre o cuidado com os pobres..

 Muito obrigado, Papa Leão XIV

Muito obrigado pela bela e oportuna exortação Dilexi te sobre o cuidado com os pobres. Sua exortação ganha especial sentido no mundo atual, no qual, o Capitalismo perdeu todas as suas máscaras de sistema minimamente humanitário. Multidões de migrantes e continentes inteiros como a África se tornaram descartáveis. 

Marcelo Barros - 

🙏🏻 | Monge beneditino📝 | Escritor 🏳️ | Assessor de movimentos populares e no diálogo entre as religiões 📖 | Biblista 

Essa exortação é também urgente em uma Igreja na qual muitos grupos considerados católicos e a maioria da hierarquia e do clero se divide entre posições de direita e de extrema-direita, uns e outros aprisionados em uma visão de Igreja clerical, autorreferente e saudosa dos velhos tempos de Cristandade. Quem sabe, bispos e padres que não se preocuparam em ler as encíclicas do Papa Francisco, aceitem ler e levar a sério as suas exortações. 

A exortação também fará bem a outras Igrejas irmãs. Aqui no Brasil, nesses dias, uma Igreja evangélica conhecida pediu ao Banco Central para abrir um banco. E continua considerada Igreja cristã. 

A sua exortação é um bom resumo do que uma boa enciclopédia poderia trazer sobre a ajuda aos pobres nos textos bíblicos, nos documentos da Patrologia e de toda a tradição de vida religiosa na Igreja. 

Uma das bases da argumentação é a palavra de Jesus: “pobres,  sempre tereis entre vós” (Mt 26, 11). Na ceia de Betânia (casa dos pobres), Jesus cita o capítulo 15 do Deuteronômio que legisla sobre o ano sabático, a anistia das dívidas e a libertação dos escravos, para que não haja mais pobres na sociedade. No entanto, como a sociedade sempre encontra formas de manter as desigualdades injustas, é preciso ajudar os pobres, porque entre vós (e isso é uma acusação), sempre haverá gente empobrecida” (Dt 15, 11). 

Aliás, o vocabulário bíblico tem três termos hebraicos para designar o pobre. Na maioria dos textos, anaw ou anawin se traduz melhor por empobrecido do que por pobre. Os livros sapienciais falam dos anawin de Jahwé. É a categoria social e política do povo oprimido. O termo ebion tem o sentido de carente, enquanto dal designa a pessoa estruturalmente necessitada de cuidados especiais. 

Essa exortação papal me fez recordar da palavra do querido e saudoso Dom Helder Camara, que, uma vez, o Papa Francisco citou: “Quando eu ajudo os pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, dizem que sou comunista”. Do tempo de Dom Helder para cá, o mundo piorou tanto que, quem sabe, mesmo essa exortação que trata mais do cuidado com os pobres e apenas alude às causas estruturais da pobreza, possa ser acusada de comunista. 

Muito obrigado, Papa Leão, pela menção honrosa aos movimentos populares e ao seu manifesto desejo de que a Igreja se coloque na solidariedade concreta e na luta pacífica para vencer as causas estruturais da pobreza. 

Por falar nisso, a sua carta traz uma longa lista de coisas boas que, em toda a história, a Igreja Católica fez para os pobres. Recordou a proposta evangélica e franciscana de uma Igreja dos pobres e para os pobres. No entanto, todos nós sabemos que, embora todos esses textos sejam verdadeiros e importantes, no que diz respeito à prática concreta, a hierarquia eclesiástica nem sempre agiu de acordo com esses princípios. Durante a história, os representantes da Igreja se uniram aos impérios colonizadores e legitimaram a violência da conquista, da escravidão e, portanto, da origem da pobreza estrutural da maioria de nossos povos. O Papa João Paulo II pediu perdão pelos pecados de alguns filhos da Igreja, mas todos nós sabemos que aqueles eclesiásticos agiram como representantes da Igreja e endossados por documentos oficiais, que até os tempos do Papa Leão XIII, condenavam todos os movimentos sociais, sindicatos e quaisquer organizações de trabalhadores. 

Infelizmente, essa indiferença social e política com a manifestação do reinado divino no mundo continua ainda no DNA de muitos eclesiásticos e espero que a sua exortação provoque verdadeira conversão estrutural e comunitária. A mim, me interpela não apenas a ajudar os pobres e ser solidário, mas a denunciar as causas estruturais da pobreza e a lutar contra as estruturas que, diariamente, a produzem e a multiplicam. 

Leia também:

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-10/dilexi-te-eu-te-amei-primeira-exortacao-apostolica-papa-leao-xiv.html

---------------------------------------

RESUMO

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA - DILEXI TE

DO SANTO PADRE LEÃO XIV

SOBRE O AMOR PARA COM OS POBRES

A Exortação Apostólica Dilexi te do Santo Padre Leão XIV, que assume e acrescenta reflexões ao projeto do seu amado predecessor, Papa Francisco, trata do amor para com os pobres, sublinhando que este amor está intrinsecamente ligado ao amor de Cristo e é essencial para a missão e santificação da Igreja.

PRINCIPAIS CONCEITOS E IDEIAS CENTRAIS

1. Declaração de Amor de Cristo: A Exortação baseia-se na passagem bíblica «EU TE AMEI» (Ap 3, 9), dirigida a uma comunidade cristã com pouca força. Jesus se identifica «com os últimos da sociedade» e o contato com os que não têm poder é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história (Revelação).

2. Opção Preferencial de Deus e da Igreja pelos Pobres: Trata-se de um conceito teológico que sublinha a ação de Deus que, por compaixão, se dirige à fraqueza humana e tem particularmente a peito aqueles que são discriminados e oprimidos. Esta opção está implícita na fé cristológica e impele a Igreja a uma posição decidida e radical em favor dos mais fracos.

3. A Pobreza como Clamor e Fenômeno Multifacetado: A condição dos pobres representa um grito que interpela a vida, as sociedades e a Igreja. A pobreza não é uma condição única, mas manifesta-se em múltiplas formas, incluindo falta de bens materiais, marginalização social, pobreza moral, espiritual e cultural, e ausência de direitos ou liberdade.

4. Inseparabilidade do Amor a Deus e ao Próximo: O amor ao próximo (especialmente ao pobre) é a prova tangível da autenticidade do amor a Deus. Não se pode amar a Deus sem estender o amor aos pobres. Qualquer ação de amor pelo próximo é um reflexo da caridade divina.

5. Denúncia das Estruturas de Pecado: A pobreza é frequentemente causada por estruturas sociais e estruturais e ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. O pecado social manifesta-se como uma "mentalidade dominante que considera normal ou racional o que não passa de egoísmo e indiferença", definida como alienação social.

6. Os Pobres como Sujeitos e Evangelizadores: Os pobres não são meros objetos de beneficência, mas sujeitos capazes de criar cultura própria, mestres silenciosos e uma fonte de sabedoria, ensinando a simplicidade e humildade. A Igreja precisa de se deixar evangelizar por eles.

“CAPÍTULOS E/OU SEÇÕES” MAIS RELEVANTES

Os capítulos e seções da Exortação organizam o tema da seguinte forma:

● CAPÍTULO II – DEUS ESCOLHE OS POBRES: Este capítulo estabelece o alicerce teológico da opção pelos pobres, detalhando a pobreza radical de Jesus, que se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza, e que é o Messias dos pobres e para os pobres.

● A Misericórdia Para Com Os Pobres Na Bíblia: Destaca a centralidade da caridade como mandamento inseparável do amor a Deus, e apresenta a parábola do juízo final (Mt 25, 31-46) como a regra de comportamento pela qual seremos julgados.

● CAPÍTULO III – UMA IGREJA PARA OS POBRES: Oferece um vasto panorama histórico do compromisso eclesial, desde o serviço (diakonía) dos primeiros diáconos e os Padres da Igreja (como São João Crisóstomo, que via os pobres como os verdadeiros tesouros da Igreja), até às Ordens Mendicantes (São Francisco), e as obras de educação e cuidado dos migrantes e enfermos.

● CAPÍTULO IV – UMA HISTÓRIA QUE CONTINUA: Foca-se no Magistério moderno e contemporâneo (Doutrina Social da Igreja). É crucial a citação do Concílio Vaticano II, que afirmou que o mistério de Cristo na Igreja é o mistério de Cristo presente nos pobres. Esta seção aborda a necessidade de lutar contra as estruturas de injustiça e enfatiza os pobres como sujeitos.

● NOVAMENTE O BOM SAMARITANO: Utiliza esta parábola para desafiar a indiferença moderna, questionando com quem nos identificamos, e exorta a “Vai e faz tu também o mesmo”.

● O CUIDADO COM OS ENFERMOS e A IGREJA E A INSTRUÇÃO DOS POBRES: Estas secções sublinham que a compaixão cristã se traduz em ações concretas de promoção humana integral, dignificando o ser humano através do cuidado da saúde e da educação.

PERSONAGENS, TEORIAS E/OU MÉTODOS APLICÁVEIS

Personagens (Pessoas de Destaque)

A Exortação enfatiza a vida de santos e líderes que encarnaram o amor aos pobres:

● Leão XIV: Autor, que assume a herança do projeto.

● Papa Francisco: Predecessor, que iniciou o projeto Dilexi te e cuja Encíclica Dilexit nos aprofundou o amor do Coração de Jesus.

● Jesus Cristo: A figura central, que se fez pobre e é a revelação do privilegium pauperum.

● São Francisco de Assis: Ícone da primavera espiritual. Escolheu imitar Cristo pobre, vendo nos pobres irmãos e imagens vivas do Senhor.

● São João Crisóstomo: Pregador ardoroso da justiça social que alertava que não dar aos pobres é roubá-los.

● São Lourenço: Diácono mártir que apresentou os pobres como "os tesouros da Igreja".

● Santa Teresa de Calcutá e Santa Dulce dos Pobres: Ícones modernos da caridade nos mais indigentes, que viam o serviço como fruto da oração e do amor total a Cristo.

● São José de Calasanz e São João Batista de La Salle: Fundadores de congregações para a educação popular e gratuita dos jovens mais pobres.

● São Oscar Romero: Arcebispo e mártir que centrou a sua opção pastoral no drama dos seus fiéis pobres.

TEORIAS E/OU MÉTODOS APLICÁVEIS

● Doutrina Social da Igreja (DSI): Um tesouro de ensinamentos que se desenvolveu a partir dos desafios modernos, começando com a Rerum novarum (Leão XIII). A DSI estabelece a destinação universal dos bens da terra e a função social da propriedade.

● Obras de Misericórdia: Recomendadas como um sinal da autenticidade do culto e para nos abrir à transformação que o Espírito pode realizar.

● Partilha e Misericórdia (Modelo do Bom Samaritano): O método prático para combater a indiferença, que implica parar, olhar, tocar e partilhar.

● A Caridade Intelectual: Conceito enfatizado pelo Beato António Rosmini, segundo o qual o conhecimento e a formação são dimensões indispensáveis para o desenvolvimento integral da pessoa.

● Método Preventivo (São João Bosco): Baseado nos princípios de razão, religião e amabilidade, aplicado na educação de jovens.

LIÇÕES OU INSIGHTS PRÁTICOS

Os pontos mais significativos que podem ser aplicados ou refletidos são:

Lição/Insight Prático

Significado e Aplicação

A Pobreza como "Questão Familiar"

O cristão não deve ver os pobres apenas como um problema social ou objeto de um departamento eclesial, mas como parte do seu povo, da sua "carne". Isso exige dedicar-lhes tempo, escuta e atenção amável.

Combate às Ideologias Mundanas

É essencial rejeitar preconceitos ideológicos, como a falsa visão de meritocracia, e denunciar a cultura que descarta os outros com indiferença. O bem-estar pode tornar-nos cegos.

A Necessidade de um Duplo Compromisso

O compromisso com os pobres deve ser duplo: estrutural (lutar pela erradicação das causas sociais e estruturais da pobreza) e pessoal/prático (gestos concretos de amor e caridade). Planos de assistência são respostas provisórias; a falta de equidade é a raiz dos males sociais.

A Esmola como Encontro e Toque

Embora não substitua a luta pela justiça, a esmola continua a ser um momento necessário de contato, encontro e identificação com a condição do outro. É um gesto que purifica o coração e permite tocar a carne sofredora dos pobres.

Prioridade do Cuidado Espiritual

A pior discriminação que os pobres sofrem é a falta de cuidado espiritual. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se primariamente numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária.

Libertação em Todas as Formas de Cativeiro

A missão da Igreja é proclamar a libertação, atuando contra as escravidões modernas (tráfico, trabalho forçado). A liberdade de Cristo manifesta-se como amor que cuida e liberta de todas as amarras.

A Igreja deve ser "em saída"

A comunidade que se limita a subsistir tranquila, sem se ocupar criativamente com a dignidade dos pobres, corre o risco de dissolução e de ser submersa pelo mundanismo espiritual.

Reconhecer o Pobre como Mestre

Devemos receber a "misteriosa sabedoria" que Deus quer comunicar através dos pobres. Eles revelam a precariedade da vida aparentemente segura e convidam a simplificar a nossa própria vida.

O amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus conosco e irrompe do próprio coração da Igreja como um apelo contínuo ao coração dos cristãos. Quando a Igreja se ajoelha diante dum leproso, criança desnutrida ou moribundo anónimo, ela realiza a sua vocação mais profunda: amar o Senhor onde Ele está mais desfigurado.

--------------------------------------

Abaixo, acréscimos do editor da postagem para linkar/somar com a mensagem do Papa Leão XIV

Oração Civil - Coração Civil




sexta-feira, 29 de agosto de 2025

É o modo de ser Igreja que define a missão



Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor | Foto arquivo pessoal

Em meados de agosto deste 2025, no Brasil, alguns canais de comunicação, ligados a grupos católicos tradicionalistas, celebraram o fato de que o Papa Leão XIV escreveu aos bispos católicos da Amazônia que a missão da Igreja é anunciar Jesus Cristo e teria também aludido de que não devem adorar a Mãe-Terra. De fato, por ocasião de um encontro dos bispos da região amazônica em Bogotá (de 17 a 22 de agosto), o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, dirigiu ao cardeal Pedro Barreto Jimeno, presidente da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), um telegrama,  no qual o Papa Leão XIV agradece aos bispos por "seus esforços para promover o bem maior da Igreja para os fiéis do amado território amazônico". Nessa mensagem, o papa afirma: “É necessário que Jesus Cristo, em quem se recapitulam todas as coisas, seja anunciado com clareza e imensa caridade entre os habitantes da Amazônia". 

O papa também elenca quais devem ser os três elementos ou dimensões da missão da Igreja: 

1 - o anúncio do evangelho,

 2 -  a solidariedade aos povos da região    

 3 - o cuidado com a Casa Comum. 

Ainda acrescenta: “O cuidado com a terra e a natureza se baseia no fato de que toda criação é feita para louvar ao Criador " .

As mesmas redes sociais que festejaram esse telegrama do papa também aplaudiam o fato de que, no site da CNBB, Dom João Santos Cardoso, arcebispo de Natal, publicou uma síntese que pareceria elogiosa do livro A Crise da Igreja Católica e a Teologia da Libertação, do frei Clodovis Boff e do padre Leandro Adorno. Em seu ensaio, o arcebispo ressalta que, ao examinar o “declínio atual da Igreja Católica, a obra de Clodovis Boff e Leandro Adorno apresenta um diagnóstico que integra dimensões espirituais, pastorais e teológicas. A questão central seria, sobretudo, a perda de vitalidade espiritual e a inversão de prioridades quanto à missão e à identidade eclesial”. (...) “Segundo os autores, a Igreja perde fiéis porque, em muitos contextos, deixou de comunicar de forma viva o mistério de Deus, oferecendo respostas mais sociológicas que espirituais. (...)“A gravidade está no deslocamento do centro da Igreja de Cristo para o mundo, priorizando demandas sociais em detrimento da experiência teologal” .

Clodovis Boff e o padre Adorno descrevem e criticam a proposta de Igreja que nas décadas de 1970 e 1980, bispos como Oscar Romero em El Salvador, Leónidas Proaño em Riobamba, no Equador e aqui no Brasil, Helder Camara, Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno e outros pastores profetas seguiam e propunham. De acordo com o que diz o livro de Clodovis Boff e Adorno, esses bispos e outros cristãos e cristãs, mártires da fé, são os os responsáveis ou mesmo culpados por esse desvio fundamental na missão da Igreja. 

Na realidade, esses bispos profetas e pastores que consagraram a sua vida à causa dos pobres, assim como padres, irmãs e leigos que deram a vida pela causa do reino atuaram e guiaram a nossa Igreja nesse caminho, agora denunciado como desvio do que seria a natureza da Igreja. De fato, em sua época, eles já eram acusados exatamente com os mesmos argumentos que agora esse livro usa contra a caminhada da Igreja da libertação.  

No fundo, em 2025, essa discussão retoma conflitos que, no começo dos anos 1970, existiam nos ambientes de Igreja com relação a algumas pastorais sociais e à organização missionária da Igreja. Motivados pela conferência eclesial de Medellín e de suas conclusões (1968),  um grupo de missionários da Amazônia cria o Conselho Indigenista Missionário (1972). A orientação é que as missões indígenas nas aldeias não teriam mais como objetivo “anunciar Jesus Cristo” às comunidades indígenas, ou seja, converter as comunidades indígenas à Igreja Católica. A partir daquele momento, inspirados pela conferência episcopal de Medellín, a missão da Igreja era, concretamente, testemunhar o amor de Jesus e a sua proposta do reinado divino, ao se inserir amorosamente e apoiar a caminhada dos povos indígenas na reconquista de suas terras, na revalorização de suas culturas e no direito de viverem suas espiritualidades originárias. Três anos depois, a assembleia de bispos e missionários da Amazônia que fundou a Comissão Pastoral da Terra (CPT) propunha trocar o modelo de missão da Pastoral Rural que visava o que se chamava de “evangelização do homem do campo” pela inserção amorosa e apoio às causas do povo do campo: Reforma Agrária, agricultura ecológica, etc

É claro que, naquela época, muitos bispos e padres diziam que a CPT não era religiosa e sim social e política. Ao olhar a ação da CPT , muitos se perguntavam: Onde está o P da Pastoral da Terra? Para eles, só seria pastoral se fosse religiosa e eclesiástica. Nem o martírio de pessoas como o Padre Josimo Tavares, Margarida Alves, Ezequiel Ramín e a Irmã Dorothy Stang, todos ligados à Pastoral da Terra, nem o martírio do irmão jesuíta Vicente Canas, da Irmã Adelaide Molinari, de Marçal Guarani e de outros e outras irmãs ligados ao CIMI os convenciam de que o sangue desses irmãos e irmãs provavam a veracidade do caminho e era preciso sermos irmãos e companheiros no testemunho de Jesus e nas aflições por causa do reino (Ap 1, 9). Como disse Jesus no evangelho: “Se em Sodoma e Gomorra, tivessem sido feitos os sinais que foram feitos no meio de vós, essas cidades teriam se convertido” (Mt 10, 15- 23). 

Ao mesmo tempo que muitas Igrejas locais e muitos pastores se deixaram comover, outros mais eclesiásticos invalidavam a herança de nossos mártires pela sua forma de propor uma volta à Cristandade que, de certa forma, “legitima” o sistema que os matou e não reconhece o sangue deles como misturado ao sangue de Jesus na cruz. 

Em San Salvador, logo depois do martírio de Oscar Romero, o Vaticano nomeou como arcebispo alguém ligado aos militares que mataram Romero. Em toda a América Latina, muitos dos nossos irmãos e irmãs mártires foram torturados e mortos por governos e instituições que se proclamavam cristãos. No Chile, o núncio papal era amigo pessoal do General Augusto Pinochet e foi através dele que, quando o papa João Paulo II foi ao Chile, visitou o ditador na residência presidencial e ali celebrou uma missa privada para o Ditador e a sua família. Na Argentina da ditadura militar, bispos católicos foram acusados de entregar aos algozes padres e leigos considerados comunistas. Era a ditadura que os representantes do Vaticano consideravam como aliada da Igreja e não os irmãos e irmãs que viviam a missão em um modelo de Igreja ligado à Teologia da Libertação. 

Ainda hoje, muitos desses irmãos que defendem a Cristandade propõem orar pelos cristãos perseguidos e esquecem de orar pelas vítimas ,quando são os que se dizem cristãos que os perseguem. 

O problema concreto desse livro é que os autores terão muita dificuldade de apontar onde, na Igreja Católica, esse modelo continua. Perguntem a eles em quais dioceses e Igrejas locais, atualmente, se mantém ainda esse modo de ser Igreja que, como dizia o 1º Encontro intereclesial de CEBs: nasce do povo sob a força do Espírito. 

Parece que, atualmente, a maioria das paróquias católicas no Brasil e em outros países tenta reproduzir um Catolicismo devocional, da época das nossas avós. Em paróquias e dioceses, nas quais, há algumas décadas, se realizavam encontros de comunidades eclesiais de base e círculos bíblicos, atualmente, só se fazem novenas de santos e santas, sucedidas por terço dos homens e adoração ao Santíssimo Sacramento. Muitos padres, na maioria, jovens, dão mais importância a vestes litúrgicas romanas do que ao serviço do povo. Para celebrar missa, precisam da corte de dez ou doze coroinhas, paramentados com túnicas vermelhas.  Também no mundo evangélico, o devocionismo toma conta das Igrejas. Mas, isso, os autores do livro e a resenha do bispo não percebem nem estranham. Talvez porque para eles, isso significa “anunciar Jesus Cristo”. 

O que parece estar por trás do livro e da resenha do bispo, assim como do telegrama do Papa Leão é: Precisamos retomar o modelo de Igreja cuja missão é autorreferencial e tem em vista a religião institucional. Como era a Igreja Católica ligada ao Estado: religião civil de Cristandade. 

É claro que, hoje, seria impossível propor uma volta aos tempos em que a Igreja inspirava a Política estatal e o Papa impunha a coroa aos reis. No entanto, no modo de organizar a Igreja e de conceber a missão, essa teologia e essa espiritualidade ainda continua acreditada e desejada por pastores e, pelo que parece, pelo próprio papa atual. Sem negar a necessidade do trabalho social em favor do povo mais carente e sem descuidar da ecologia ambiental, de forma amorosa, portanto, nova, esses textos parecem propor novamente separar Deus e o mundo, o espiritual e o social, o Cristo e os pobres. 

Graças a Deus, nas brechas e frestas dessa tentativa de manter viva a Cristandade ou estilos de neocristandade, as comunidades eclesiais de base e os grupos ligados às pastorais sociais prosseguem a caminhada da libertação. Em 1994, depois da 2ª Semana Social Brasileira, a Conferência dos Bispos Católicos do Brasil (CNBB), através das pastorais sociais, instituiu o que se chama: “Grito dos Excluídos e Excluídas”. Consiste em fazer manifestação popular no dia 7 de setembro, festa que celebra a independência do Brasil (1822). Nesse dia, por todo o Brasil, de norte a sul, os movimentos populares ganham as praças e promovem uma caminhada da multidão dos pobres e seus aliados pelas ruas de todas as cidades brasileiras 

Para esse 7 de setembro de 2025, estamos preparando o 31º Grito com o tema: “Cuidar da Casa Comum e da Democracia  é luta de todo dia”. Assim os irmãos e irmãs recordam os dez anos da publicação da encíclica Laudato Si e tomam posição diante de todas as ameaças que a nossa frágil democracia ainda sofre diariamente. 

Esperamos que os bispos católicos do Brasil que, em 1994, provocaram a criação do Grito dos Excluídos continuem apoiando essas manifestações populares e, em espírito sinodal, escutem a voz e o grito de tantos irmãos e irmãs, inseridos na caminhada das comunidades eclesiais de base e das pastoris sociais. 

Hoje, muitos irmãos e irmãs continuam dando a vida e são mártires da causa do reinado divino nesse mundo cruel. Escrevem com o seu sangue o pedido para que possamos superar esse modelo de Igreja Cristandade no qual, de vez em quando, mesmo nós ainda nos movemos. Precisamos perceber que não se trata apenas de debate intelectual ou mesmo teológico. As comunidades afrodescendentes e os grupos de espiritualidades indígenas nos confirmam: há uma questão de humanidade por trás dessa discussão. Não nos deixemos seduzir por políticas de ódio ou de indiferença, disfarçadas em discursos espirituais e, pior ainda, em nome de Jesus Cristo, nosso irmão maior e mártir primeiro da fila das testemunhas (mártires) de nossa fé. A Vida em primeiro lugar. Cristandade, nunca mais!


Peregrinos De Esperança

Texto de Pierangelo Sequeri

Texto versão portuguesa: António Cartageno


 Chama viva da minha esperança,

este canto suba para Ti!

Seio eterno de infinita vida,

no caminho eu confio em Ti!

Toda a língua, povo e nação

tua luz encontra na Palavra.

Os teus filhos, frágeis e dispersos

se reúnem no teu Filho amado.

Chama viva da minha esperança,

este canto suba para Ti!

Seio eterno de infinita vida,

no caminho eu confio em Ti!

Deus nos olha, terno e paciente:

nasce a aurora de um futuro novo.

Novos Céus, Terra feita nova:

passa os muros, ‘Spirito de vida.

Chama viva da minha esperança,

este canto suba para Ti!

Seio eterno de infinita vida,

no caminho eu confio em Ti!

Ergue os olhos, move-te com o vento,

não te atrases: chega Deus, no tempo.

Jesus Cristo por ti se fez Homem:

aos milhares seguem o Caminho.

Chama viva da minha esperança,

este canto suba para Ti!

Seio eterno de infinita vida,

no caminho eu confio em Ti!

segunda-feira, 24 de março de 2025

São Romero da América Latina & 45 anos do martírio de Óscar Romero e uma Igreja em libertação & Mensagem libertadora de Dom Oscar Romero, mártir e santo

 Publicado em março-abril de 2025 - ano 66 - número 362 - pp. 26-33 - Revista Vida Pastoral.

São Romero da América Latina

Por Emerson Sbardelotti*

O artigo pretende apresentar, reapresentar e homenagear São Romero da América, na comemoração de 45 anos de seu martírio, em San Salvador, capital de El Salvador, em 24 de março de 1980; a força espiritual de sua palavra em defesa da vida, em nome da esperança, da justiça e da libertação.

1. MEMÓRIA E COMPROMISSO

“Por que se mata? Mata-se porque atrapalha. Pra mim, são verdadeiros mártires no sentido popular. Naturalmente, não estou entrando no sentido canônico, no qual ser mártir supõe um processo de autoridade suprema da Igreja, que o proclama mártir perante a Igreja universal. Respeito essa lei e nunca direi que os nossos padres assassinados foram martirizados, ainda não canonizados. Mas eles são mártires no sentido popular. São homens que pregaram precisamente esta encarnação da pobreza” (Romero, in Gonzalo, 2022, p. 28).

No dia 24 de março de 2025, comemoram-se 45 anos do martírio de São Romero da América, pastor e mártir nosso! Dom Oscar Arnulfo Romero y Galdámez foi o quarto arcebispo metropolitano de San Salvador, capital de El Salvador. Nasceu em Ciudad Barrios, distrito de San Miguel, em 15 de agosto de 1917, numa família pobre. Em 1930 entrou no seminário de San Miguel. Seus superiores mandaram-no a Roma, para estudar e doutorar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foi ordenado padre em 4 de abril de 1942. Em 25 de abril de 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador e, em 15 de outubro de 1974, bispo de Santiago de Maria. Em 3 de fevereiro de 1977, foi nomeado arcebispo de San Salvador. Escolhido como arcebispo por seu aparente conservadorismo, uma vez nomeado, aderiu aos ideais da não violência, posição que o levou a ser comparado a Mahatma Gandhi e a Martin Luther King.

Com a morte do amigo e padre jesuíta Rutilio Grande, em 12 de março de 1977, D. Oscar Romero passou a denunciar, em suas homilias dominicais, as numerosas violações aos direitos humanos em El Salvador e manifestou publicamente sua solidariedade com as vítimas da violência política, no contexto da guerra civil no país. Defendia a opção pelos pobres. Dom Romero afirmou que foi o exemplo do padre Rutilio Grande e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres, dos esquecidos, dos perseguidos e dos injustiçados salvadorenhos. Depois da morte do amigo, ele passou a acusar frontalmente os capitalistas, os governantes, os militares e os ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país.

No dia 24 de março de 1980, às 18 horas, o arcebispo de San Salvador celebrava missa na capela do Hospitalito,[1] hospital de religiosas que cuidavam de doentes com câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite, escondido atrás da porta traseira da capela, atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente. Selou, assim, seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida: foi o selo coerente desta. Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E D. Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, ao qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem.

Em 23 de maio de 2015, foi declarado beato. O primeiro papa latino-americano reconheceu Romero como “mártir da Igreja”, pois havia sido assassinado por “ódio à fé”. Em 14 de outubro de 2018, foi canonizado. Sobre São Romero, disse o papa Francisco:

São Oscar Romero soube encarnar, com perfeição, a imagem do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. Por isso, agora e, sobretudo, desde a sua canonização, vocês podem encontrar nele “exemplo e estímulo” no ministério que lhes foi confiado: exemplo de predileção, para os mais necessitados da misericórdia de Deus; estímulo para testemunhar o amor de Cristo e a solicitude pela Igreja. Que o santo bispo Romero os ajude a ser, para todos, sinais da unidade na pluralidade, que caracteriza o santo povo de Deus.

São Oscar Romero concebia o sacerdote entre dois grandes abismos: o da infinita misericórdia de Deus e o da infinita miséria dos homens. Queridos irmãos, esforcem-se, sem cessar, para realizar este infinito anseio de Deus de perdoar os homens, que se arrependem de suas misérias, e abrir os corações de seus irmãos à ternura do amor de Deus, também mediante a denúncia profética dos males do mundo.

Ele repetia, com vigor, que todo católico deve ser mártir, porque mártir significa dar testemunho da mensagem de Deus aos homens. Deus quer estar presente em nossas vidas e nos convida a anunciar a sua mensagem de liberdade para toda a humanidade. Somente nele podemos ser livres do pecado, do mal, do ódio em nossos corações; livres para amar e acolher o Senhor e nossos irmãos e irmãs. Esta verdadeira liberdade, aqui na terra, passa pela preocupação com o homem concreto, para despertar em cada coração a esperança da salvação.

São Oscar Romero dizia que, sem Deus e sem o ministério da Igreja, isso não é possível. Certa vez, referiu-se à crisma como o “sacramento dos mártires”: sem a força do Espírito Santo, os primeiros cristãos não teriam resistido às provações da perseguição, não teriam morrido por Cristo.

A memória de São Oscar Romero é uma oportunidade excepcional para enviar uma mensagem de paz e reconciliação a todos os povos da América Latina (Papa […], 2018).

Para o povo de El Salvador e de toda a América Latina e Caribe, ele já era e é, há muito tempo, o nosso santo, pastor e mártir.

2. MÁRTIR DA ESPERANÇA, DA JUSTIÇA E DA LIBERTAÇÃO

“Cristo está dizendo para cada um de nós: se você quer que a sua vida e a sua missão sejam produtivas como a minha, faça como eu. Converta-se em uma semente que se deixa ser enterrada. Deixe que o matem. Não tenha medo. Aqueles que evitam o sofrimento permanecerão sozinhos. Ninguém é mais solitário do que a pessoa egoísta. Mas se você der a sua vida por amor aos outros, como eu dou a minha por todos, você obterá uma grande colheita. Você sentirá uma profunda satisfação. Não tema a morte ou ameaças” (Romero, in Wright, 2011, p. 86).

Nosso mártir primeiro é Jesus de Nazaré, e com sangue de mártir não se pode brincar. Mártir é palavra forte, inquieta e inquietante. A palavra grega mártys significa “testemunha”. O/A mártir é a testemunha da fé, que seguiu, por toda sua vida, os passos de Jesus de Nazaré, até as últimas consequências.

Romero sabia que seu comportamento alimentava a esperança de uma vida mais livre, mais humana, e agia assim levado por sua missão de cristão e bispo; sabia que isso poderia conduzi-lo à morte. Pelas virtudes de sua vida, podemos defini-lo como mártir da esperança (Vitali, 2015, p. 10).

Esperança é todo sentimento que leva o ser humano a olhar para o futuro, para o incerto, sabendo que colheu bons frutos do passado, aprendeu com os erros e experimenta, no presente, o amparo nos desafios cotidianos desta vida.

Romero percebia que suas atitudes eram de um profeta comprometido com o cotidiano e a dignidade do povo, com a justiça feita ao povo:

Com a linguagem da justiça, estamos outra vez ante um tema central na Bíblia. Nela, o termo justiça remete à justiça social, ao reconhecimento dos direitos das pessoas, com um acento na condição dos mais pobres.

A linguagem profética tem em conta o dia a dia das injustiças, prosternações, maus-tratos, mortes, lucros, sofrimentos, alegrias que se dão na história. É uma linguagem que denuncia o que vai contra a mensagem do Reino e que anuncia sua presença na história. A respeito disso, e por experiência, Romero rechaçava: “Uma palavra muito espiritualista, sem compromisso com a história, que pode soar em qualquer parte do mundo porque não é de nenhuma parte, não cria problemas, nem conflitos” (Homilia, 10 dez. 1977). Espiritualista, não espiritual. Era consciente de que sua palavra clara, precisa e próxima à situação que atravessava seu povo lhe atrairia dificuldades e hostilidade, mas não pronunciá-la seria trair o Evangelho.

[…] A linguagem da gratuidade dá horizonte à justiça, coloca-a no marco do amor gratuito de Deus, do Deus amor. Deus não é amor porque ama, mas, sim, ama porque é amor. Não é justo porque faz justiça, mas, sim, faz justiça porque é justo. Por sua vez, a linguagem da justiça dá concreção histórica à da gratuidade e contemplativa e contribui para inseri-la na história de pessoas e povos (Gutierrez, in Bingemer, 2012, p. 49-50).

Justiça é uma virtude moral que inspira o respeito e o cumprimento dos direitos e deveres do ser humano, representando uma maneira de amenizar e erradicar os efeitos das desigualdades sociais na sociedade em que se vive.

Romero entendia que a libertação é fruto da união de todo o povo de Deus. Entendia que a libertação engloba toda a natureza:

A libertação que a Igreja espera é uma libertação cósmica. A Igreja sente, em si mesma, que é toda a natureza que está gemendo sob o jugo do pecado. Que belos cafezais, que belos riachos, que lindas plantações de algodão, que fazendas, que terras que Deus nos tem dado! Que natureza bela! Entretanto, quando a vemos gemer sob a opressão, sob a iniquidade, sob a injustiça, sob a agressão, isso faz a Igreja sofrer e a faz esperar uma libertação. Libertação que não seja só o bem-estar material, mas que seja o poder de um Deus que livrará das mãos pecadoras dos seres humanos uma natureza que, com a humanidade redimida, vá cantar a felicidade no Deus libertador (Romero, in Richard, 2005, p. 15-16).

Libertação é a ação de pôr-se em liberdade ou de conceder a liberdade a alguém. Implica o ser humano desenvolver uma ação segundo a sua própria vontade. A liberdade está relacionada com outras virtudes, como a justiça, a fraternidade e a igualdade.

Romero era uma pessoa simples, aberta, perspicaz, de grande sensibilidade para com as crianças, de gestos proféticos e compromisso. Soube acolher as pessoas com amor e atenção, conseguiu manter viva a esperança fiel do povo salvadorenho, soube sentir o cheiro das ovelhas. Em sintonia com o Evangelho, fez da sua Igreja local uma Igreja em saída, como pede o papa Francisco (Xavier; Sbardelotti, 2022, p. 180).

3. FORA DOS POBRES NÃO HÁ SALVAÇÃO!

A situação de nosso país é muito difícil, mas a figura de Cristo transfigurado, em plena Quaresma, está nos mostrando o caminho a seguir. O caminho da transformação de nosso povo não está longe. É o caminho que a Palavra de Deus nos aponta hoje: o caminho da cruz, do sacrifício, do sangue e da dor, mas com o olhar cheio de esperança na glória de Cristo, que é o Filho eleito pelo Pai para salvar o mundo. Ouçamos a voz de Cristo! Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso (Romero, in Souza; Boff; Casaldáliga, 1980, p. 179).

Jon Sobrino nos diz que a fórmula extra pauperes nulla salus (“fora dos pobres não há salvação”) é uma novidade, um escândalo e, certamente, algo contracultural. Trata-se de sacudida para levar absolutamente a sério a prostração de nosso mundo e o que há de salvação debaixo da história, que tantas vezes se ignora, não se compreende e se despreza (Sobrino, 2008, p. 14).

O teólogo espanhol relembra uma frase dita a ele por Romero: “Gloria Dei vivens pauper” (“A glória de Deus é o pobre que vive”). É a partir dos pobres que se reformula o mistério de Deus. Os pobres deste mundo são o lugar teológico (locus theologicus) do encontro com o Deus da vida, com o Deus libertador. Desse lugar teológico provém a salvação:

O camponês entendeu bem a opção de Monsenhor Romero pelos pobres: “Ele nos defendeu como pobres”. Monsenhor defendeu os pobres e oprimidos do país. Ele não optou apenas por eles. Esta defesa significou promover a organização popular e a assistência jurídica para defender os camponeses e as vítimas daqueles que os oprimiram e reprimiram. […] E certamente, semana após semana, ele defendeu os pobres e as vítimas com a verdade que proclamava publicamente nas suas homilias. Fica claro, então, que Monsenhor defendeu os oprimidos.

Mas você também precisa entender o que significa defender. Defender significa enfrentar e, quando necessário, lutar contra aqueles que atacam, empobrecem, perseguem, oprimem e reprimem. Para defender os pobres, Monsenhor confrontou aqueles que mentem e assassinam, sejam pessoas, instituições ou estruturas – e aceitou o preço a pagar. E a sua defesa foi primária, que foi muito além do que se convencionou entender por “defender um caso” com o objetivo, ainda, de “ganhar um caso”, como frequentemente aparece nos programas de televisão. Ganhar um caso nunca foi a perspectiva do Monsenhor, obviamente. Trabalhou e lutou para que a realidade maltratada, a justiça e a verdade vencessem. Mais a fundo, trabalhou e lutou para que algum dia os habituais não perdessem.

Monsenhor foi um defensor dos pobres com tudo o que era e tinha (Sobrino, in Xavier; Sbardelotti, 2022, p. 36).

Romero concebia e fazia questão de orientar, em sua atuação pastoral e profética, uma volta ao mundo dos pobres, um mundo real e concreto, assumindo quatro pontos importantes: 1) encarnação no mundo dos pobres; 2) anúncio da Boa-nova aos pobres; 3) compromisso com a defesa dos pobres; 4) Igreja perseguida por servir os pobres.

Encarnação no mundo dos pobres. A aproximação com o mundo dos pobres, entendida como encarnação e conversão para fora da Igreja.

O anúncio da Boa-nova aos pobres. O encontro com os pobres revelou a verdade central do Evangelho:  “Felizes os pobres no Espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). À luz da Palavra de Deus, a esperança e a ação segundo os valores do Reino.

Compromisso com a defesa dos pobres. A Igreja deve pôr-se sempre ao lado dos pobres e assumir, sem dúvida, a sua defesa.

Igreja perseguida por servir os pobres. A perseguição faz a Igreja testemunhar com maior garra a opção feita por Jesus de Nazaré em defesa dos pobres. A perseguição e ataques sempre estão e estarão ligados à defesa dos pobres.

Em sintonia com o pensamento de Romero e pedindo sua ajuda na caminhada, com alegria e esperança, cantemos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BINGEMER, M. C. (org.). Dom Oscar Romero: mártir da libertação. Rio de Janeiro: PUC-Rio; Aparecida: Santuário, 2012.

GONZALO, L. A. São Romero dos direitos humanos: lições éticas, desafio educacional. São Paulo: Paulus, 2022.

IRMANDADE DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA. Celebrações martiriais: tríduo e celebração da festa de São Romero da América, pastor e mártir nosso! Goiânia: América, 2015.

NOVA Bíblia Pastoral. São Paulo: Paulus, 2018.

PAPA: São Oscar Romero, exemplo e estímulo para os povos da América Latina. Vatican News, Vaticano, 15 out. 2018. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-10/papa-francisco-canonizacao-monsenhor-romero.html. Acesso em: 3 out. 2024.

RICHARD, P. A força espiritual da palavra de Dom Romero. São Paulo: Paulinas, 2005.

SOBRINO, J. Fora dos pobres não há salvação: pequenos ensaios utópico-proféticos. São Paulo: Paulinas, 2008.

SOUZA, L. A. G. de. BOFF, L.; CASALDÁLIGA, P. (org.). D. Oscar Romero, bispo e mártir: homilias. Petrópolis: Vozes, 1980.

VITALI, A. Oscar Romero: mártir da esperança. São Paulo: Paulinas, 2015.

WRIGHT, S. Oscar Romero e a comunhão dos santos. São Paulo: Paulus, 2011.

XAVIER, D. J.; SBARDELOTTI, E. (org.). San Romero de América: martirio, esperanza, liberación. Montevideo: Ameríndia, 2022.

[1]  Nome carinhoso como era conhecido o Hospital da Divina Providência pelo povo salvadorenho.

Emerson Sbardelotti*

*é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Agente de pastoral leigo da paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Cobilândia, Vila Velha, arquidiocese de Vitória-ES. Membro do Grupo de Pesquisa Literatura, Religião e Teologia (Lerte). Membro da equipe de formação do Cebi-ES. Membro da equipe de formação do CNLB Regional Leste 3. E-mail: sbardelottiemerson@gmail.com

 Comemoramos 45 anos do martírio de São Óscar Arnulfo Romero 🌟

📅 Data: Segunda-feira, 24 de março de 2025

⏰ Horário:

16h (Brasília)

14h (Colômbia)

15h (Manaus)

13h (El Salvador)

19h (Reino Unido)

Junte-se ao conversatório:

“Defendendo os direitos humanos e a Igreja Latino-americana: São Óscar Romero e seu legado”

Uma iniciativa do @Celam e @CAFOD, com o apoio de organizações como @CaritasLAC, @INSPyRE, @Remam e @RadioProgreso.

📌 Temas destacados:

O legado de São Romero na defesa dos direitos humanos.

A campanha continental “A vida pende de um fio”, visibilizando líderes assassinados por defender a casa comum.

 Transmissão ao vivo:

Em espanhol:



#SãoRomero #DefensoresDaVida #IgrejaLatinoAmericana #LegadoDeFé

45 anos do martírio de Óscar Romero e uma Igreja em libertação. Artigo de Gabriel Vilardi

Ao canonizar Dom Óscar Romero, o Papa Francisco indicou para toda a Igreja o exemplo e o testemunho deste mártir latino-americano, brutalmente assassinado há 45 anos, em 24-03-1980. A despeito das estruturas clericais que tendem sempre a controlar e a “domesticar” tantas figuras radicais no seguimento de Jesus, São Romero não pode se tornar apenas mais uma festa litúrgica no calendário romano.

O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, bacharel em Direito pela PUC-SP e bacharel em Filosofia pela FAJE. É mestrando no PPG em Direito da Unisinos e integra a equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Eis o artigo.  AQUI


Santo Oscar Romero no blog da cultura (textos, imagens e canções)

aqui

MENSAGEM LIBERTADORA DE DOM OSCAR ROMERO, mártir e santo. Por Frei Gilvander Luís Moreira[1]

Dia 24 de março de 2025 celebramos 45 anos de martírio de dom Oscar Romero, arcebispo da arquidiocese de San Salvador, capital de El Salvador. Nomeado bispo por ser considerado conservador, passou por um processo de profunda conversão e assumiu a causa dos pobres. Sentiu profundamente o assassinato do padre Rutílio Grande, seu secretário, e de milhares de lideranças camponesas, de Comunidades Eclesiais de Base, que se levantavam contra a ditadura militar imposta sobre El Salvador.

Eis, abaixo, 17 anúncios e denúncias que ecoaram a partir da boca de Romero nas suas homilias. Através da Rádio a mensagem de Romero encontrou acolhida nos corações de tanta gente que segue vivendo se inspirando no ensinamento e testemunho libertador de Romero.

AQUI

sábado, 6 de julho de 2024

O impactante filme "O Sequestro do Papa" no Festival do Cinema Italiano

Rapito

de Marco Bellocchio

8½ Festa do Cinema Italiano

Itália, França, Alemanha, 2023, 125', Legendas PT, drama

com Paolo Pierobon, Fausto Russo Alesi, Enea Sala, Barbara Ronchi, Filippo Timi, Fabrizio Gifuni

Com O Sequestro do Papa, Bellocchio constrói uma obra íntima e política. Um filme de terror que tem como plano de fundo a "caridade" católica, que abala todas as noções preconcebidas.

Apresentado na competição oficial no Festival de Cannes e vencedor do Globo de Ouro italiano de melhor filme, Bellocchio nos presenteia com um olhar rigoroso sobre a complexidade das relações entre o Estado e a Igreja.

A história centra-se no caso verídico de Edgardo Mortara, uma criança judia de 6 anos que, em 1858, é levada da casa de sua família pelas autoridades do papa Pio IX. Edgardo foi batizado em segredo pela sua babá quando ainda era um bebê, fazendo com que ele fosse obrigado a receber uma educação católica. O Sequestro do Papa é um filme de violência não gráfica, mas hedionda, tornada ainda mais grotesca pelo sentido do direito moralista que está no centro de toda a opressão. Uma reconstrução perfeita da época, rica em detalhes, que nos faz mergulhar em um mundo controlado por um poder temporal onipresente.

Classificação indicativa: M/14

(...) É um episódio que mancha o Vaticano há 160 anos: um menino judeu de 6 anos foi tirado de sua família pela polícia papal e levado a Roma para ser criado como católico depois que autoridades da igreja descobriram que sua governanta o havia batizado secretamente.(...)

(...)Embora tais sequestros, como eram conhecidos, não fossem inéditos, o sequestro se tornou um escândalo internacional e contribuiu para o sentimento anticlerical que varreu a Europa. Na Itália, a causa encorajou as forças liberalizantes do Risorgimento que unificaram o país e provocaram o colapso dos estados papais por meio dos quais o papa controlava uma faixa da Itália central. (...)

https://www.sltrib.com/religion/2018/04/20/memoir-of-secretly-baptized-jewish-boy-under-new-scrutiny/



Papa é questionado por 'silêncio da Igreja' sobre rapto de judeu

Caso de Edgardo Mortara foi contado pelo diretor Marco Bellocchi
Leia mais aqui
Apontamentos sobre a primeira sessão do filme "O Sequestro do Papa" no Cine Vitória em Aracaju.
Ontem, 05/07/2024 fui assistir ao filme “O SEQUESTRO DO PAPA” com grande expectativa, até por conta da temática e pela recomendação de um especialista em história contemporânea da igreja, em especial da disputa teológica e filosófica que grassam nestes tempos nervosos e que culminou nesta semana com a excomunhão  do cardeal Viganó.
A seguir trago alguns apontamentos, sem maiores pretensões de critica, apenas primeiras impressões mesmo.
1 – A fotografia e reconstituição de época são exuberantes. Com roteiro bem construído e interpretação de atores bem convincente.  A preparação   dos intérpretes, incluindo as do personagem infantil foi feita a contento. A caracterização psicológica  de um dos personagens mais  importantes do centro da trama, o Papa Pio IX, foi realizado sem caricatura, não apresentando somente o aspecto da insensibilidade, mas um personagem com traços de afetividade. Esta maneira de condução me lembrou o verso da  icônica canção do Chico César “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa e da bondade da pessoa ruím.”
2 – Um clima de tensão e indignação permanece  até o desfecho final da história.
3 – Para quem leu textos de autores socialistas, incluindo anarquistas e comunistas,  dos séculos XIX em diante, fica claro entender as raízes do anti-clericalismo no campo das esquerdas europeias. Embora após o Concilio Vaticano II,  e mesmo antes com o movimento dos padres operários,  isso tenha ficado atenuado, a ponto de na América Latina a partir da década de 1960,  milhares de cristãos terem  sido presos, torturados e assassinados por estarem lutando ombro a ombro com marxistas no enfrentamento aos nossos ditadores ou perversos tiranos, estes também formados e sustentados com a cobertura ideológica e moral  da “santa madre igreja”. 
Durante o filme,  lembrei em contraste com a figura do Papa Pio IX e seus auxiliares próximos da alta cúpula da igreja da época, as figuras contemporâneas de Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo Arns,  Dom Adriano Hipólito, Dom José Vicente Távora, Dom José Brandão de Castro, Dom Oscar Romero,  Papa Francisco, entre outros.
Neste último,  caso o contraste do atual Papa com o Papa Pio IX  é tão grande, que um dos grandes amigos do Cardeal Bergoglio quando arcebispo em  Buenos Aires,  foi/é o Rabino   Abraham Skorka. 
Logicamente que isso tem a ver com o contexto de época, embora dentro da igreja a disputa interna também tem essa questão de época como pano de fundo, havendo os que desejam  e trabalham  para prevalecer um modelo de  igreja com inspiração na velha cristandade da europa medieval, do qual o episódio relatado no filme "O Sequestro do Papa" é continuidade,  em contraposição com os promotores e defensores das  reformas iniciadas a partir do Concilio Vaticano II, iniciado em 1962 e concluído em 1965,  as quais buscam colocar a igreja católica em abertura e diálogo com o mundo contemporâneo.
O rapto do menino judeu também me lembrou a separação das crianças indigenas de suas familias no periodo colonial, afim de  compor  missões ou aldeamentos religiosos para fins de catequização e formação de um outro modo de pensar e de viver.
Por último, o Cine Vitória estava com um público bem aquém do esperado, fico imaginando o tanto que poderia aprender professores e alunos da graduação e do ensino médio com um filme assim, além do momento de diversão, a despeito da tragédia apresentada na tela.
Zezito de Oliveira  

A segunda e última sessão acontece nesta segunda-feira, 08 de julho.
E depois de assistir o filme leia  critica especializada... 
https://www.papodecinema.com.br/filmes/o-sequestro-do-papa/

Sequestro do Papa traz a tona um debate arriscado sobre a cultura do Vaticano

https://ofolhetimcultural.com.br/sequestro-do-papa-traz-a-tona-um-debate-arriscado-sobre-a-cultura-do-vaticano/