domingo, 26 de julho de 2026

Quando se encontram arte, tecnologia e pessoas que acreditam que o mundo pode ser um bom lugar para viver, algo profundamente transformador acontece.

Em um mundo onde a tecnologia é frequentemente associada a drones de guerra e destruição, o projeto "Cinema na Palma da Mão" prova que ela também pode ser ferramenta de afeto e cidadania. Realizada pelo Ponto de Cultura Ação Cultural Juventude e Cidadania, a oficina de audiovisual com celular – que em outro formato já levou jovens da periferia de Aracaju a festivais de cinema no Rio de Janeiro – retoma suas atividades em um novo território, agora em um bairro comercial de origem têxtil na capital. Mais do que ensinar técnicas de filmagem, a proposta ressurge como ato de resistência política e reconstrução comunitária, colocando a empatia, a escuta ativa e a autoria coletiva no centro do processo criativo.

É verdade que, ao lembrarmos do uso da tecnologia, o imaginário coletivo costuma evocar, de imediato, seus aspectos negativos e até nefastos. Vemos isso nos conflitos geopolíticos, como a recente escalada de tensões entre EUA e Irã, onde drones e mísseis de precisão dominam o noticiário. Por outro lado, também é inegável o conforto e o bem-estar proporcionados por ela – basta lembrarmos das milhões de vidas salvas pela medicina nuclear, dos verdadeiros milagres realizados por cirurgias a laser ou por procedimentos robóticos de alta precisão. No campo da arte e da produção cultural, a tecnologia costuma ser lembrada em grandes espetáculos musicais ou nos efeitos especiais do cinema.

Contudo, é quando a tecnologia se torna acessível – seja pela facilidade de manuseio, pela queda vertiginosa dos preços ou pela relação custo-benefício que entrega qualidade técnica antes inimaginável – que presenciamos seu encontro mais sublime com o espírito humano. É nesse ponto que ela passa a ser ferramenta de afirmação do que temos de melhor: a criação artística genuína, a produção cultural democrática e, sobretudo, o cuidado com o outro. No cotidiano, isso se traduz em empatia, solidariedade, alteridade, sororidade e respeito às diferenças.

Na oficina de audiovisual com celular – "Cinema na Palma da Mão" – o ensino-aprendizagem da tecnologia tem proporcionado exatamente isso a dezenas de pessoas de diferentes idades, de maneira integrada e simultânea. Embora não tenhamos reservado um momento específico para debater formalmente as dimensões antropológicas, sociológicas, políticas, econômicas e filosóficas do projeto Ação Cultural Juventude e Cidadania, é no fazer, no "colocar a mão na massa", que esses conceitos são vivenciados na prática. Cada participante traz consigo a bagagem única de suas experiências pessoais – afinal, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", como bem cantou Caetano Veloso. Essa subjetividade transparece nas relações construídas ao longo dos poucos dias de oficina, mas também gera aprendizados e amadurecimento.

É claro que, nesse percurso de construção e desconstrução em que todos estamos imersos, surgem conflitos, contradições e incoerências – e na oficina de audiovisual não poderia ser diferente. No entanto, a direção que escolhemos dar é a de afirmar aquilo que nos torna melhores como pessoas, para que possamos colaborar mais e melhor com a edificação de uma sociedade mais justa, fraterna e democrática. Isso só é possível quando saímos de nossas casas, rompemos nossos casulos, abandonamos a zona de conforto e estouramos nossas bolhas para nos lançarmos ao encontro do diferente, do novo, do desconhecido, mesmo que nem tudo seja completamente isso.

O grande diferencial da nossa oficina, entretanto, está no solo histórico e político de onde ela brota. Ela é realizada por um Ponto de Cultura que teve como base principal de sua ação comunitária, durante quase toda a primeira década dos anos 2000, o Conjunto Jardim, um bairro periférico e afastado do centro de Aracaju, localizado na região metropolitana de Socorro. Este território, historicamente marcado pela ausência crônica do poder público e pelo estigma social, sempre foi alvo de forte discriminação. Apesar disso, desde os anos 1990, o bairro fervilhava com uma produção artístico-cultural intensa, especialmente protagonizada por grupos juvenis de dança.

Esse rico caldo cultural, no entanto, foi travado, enfraquecido e, em muitos momentos, abortado pelas forças políticas locais (tanto do bairro quanto do município). O cenário se agravou drasticamente com o golpe parlamentar e jurídico que destituiu a presidenta Dilma Rousseff em 2016, seguido pelos dois governos subsequentes, que promoveram o desmonte sistemático das políticas públicas de cultura, cortaram verbas e desmobilizaram redes de incentivo. Foi nesse contexto anterior a esta realidade adversa que o Ponto de Cultura atuou como um catalisador, resgatando e potencializando a efervescência cultural que existia desde os anos 1990, mas que sofria para se manter viva.

Primeiro, veio a oficina de dança moderna, realizada durante vários anos (de 2002 a 2016), que já mantinha a chama acesa. Depois, com a criação da oficina de audiovisual (2012 a 2016), demos um salto qualitativo impressionante. Ampliamos a presença de pré-adolescentes, adolescentes e jovens do Conjunto Jardim e arredores para palcos, cinemas, museus e universidades. Expandimos o alcance para o centro de Aracaju, onde realizamos a primeira oficina de audiovisual com jovens de diversos bairros da capital e da região metropolitana. Esse movimento culminou com a participação em dois festivais de cinema no Rio de Janeiro e em dois festivais de cinema em Sergipe (2015 e 2016), neste caso com a participação de egressos do Ponto de Cultura na oficina do projeto Inventar com a Diferença, colocando as narrativas periféricas sergipanas em diálogo com o circuito estadual e nacional.

Retomando, agora, o fio condutor do nosso artigo: o processo atual de organização da oficina "Cinema na Palma da Mão".

Passados os percalços e os anos de obscurantismo político, a oficina ressurge hoje com uma nova roupagem e uma energia ainda mais potente. O processo atual de organização não se limita a ensinar técnicas de roteiro,  filmagem ou edição; ele é, antes de tudo, um ato de resistência e de reconstrução de laços comunitários, mesmo em outro bairro. Este, localizado em Aracaju, enfrenta uma grande crise de identidade: é periferia, mas está bem próximo ao centro, onde se localiza a sede administrativa da Ação Cultural. Atualmente, o bairro é essencialmente comercial e carrega no nome a memória do setor econômico que construiu sua identidade por longos anos – as indústrias têxteis. Estamos estruturando um ciclo formativo contínuo, que integra o uso de aplicativos gratuitos de edição, a linguagem cinematográfica adaptada à tela do celular e, principalmente, a escuta ativa das histórias que cada participante deseja contar.

A metodologia atual privilegia a coprodução e a autoria coletiva, onde jovens e adultos trocam papéis de diretor, roteirista e operador de câmera, exercitando diariamente a paciência, a escuta e a negociação de pontos de vista. Além disso, estamos planejando mostras itinerantes dentro do próprio bairro e em espaços culturais do centro, para que os filmes produzidos retornem à comunidade e gerem debates sobre a realidade local.

Dessa forma, o "Cinema na Palma da Mão" se firma não apenas como uma oficina técnica, mas como um laboratório de afetos e cidadania. Em tempos de extremismos e retrocessos, colocar um celular nas mãos de um jovem da periferia e ensiná-lo a transformar seu olhar em arte é reafirmar que a tecnologia, quando guiada pela empatia e pela solidariedade, continua sendo uma poderosa ferramenta para sonhar e construir um mundo melhor – bem ali, na palma da nossa mão.

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.


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