domingo, 19 de julho de 2026

Terceira Turma, Novos Olhares: O Audiovisual com Celular e a IA em Debate


INTRODUÇÃO

O primeiro módulo da terceira turma de audiovisual com celular - cinema na palma da mão foi, de fato, marcante. E não poderia ser diferente. Assim como nas duas primeiras edições, esta iniciativa do coletivo cultural Ação Cultural (Ponto de Cultura certificado pelo Ministério da Cultura) carrega consigo a essência da novidade. No entanto, desta vez, o fator "novo" veio acompanhado de desafios que vão além da simples adaptação logística.

Esta edição ocorreu em uma sala adaptada no Aracaju Parque Shopping, localizado no bairro industrial, nos dias 17 e 18 do corrente e, nesta edição, em dois finais de semana. As duas primeiras oficinas ocorreram no espaço de convivência da Igreja São Pedro Pescador, sendo a primeira no turno da tarde e a segunda no turno da noite durante os dias úteis.

Mudaram os dias, os horários e os locais. Essa alteração, que à primeira vista pode parecer burocrática, revelou-se uma virada de chave fundamental: ela sinaliza uma mudança de público e, por que não dizer, de perspectiva. E é exatamente aí que a metodologia, embora consagrada, precisa ser revisitada.

A METODOLOGIA E O PÚBLICO

A base do curso é a mesma: uma metodologia pioneira e inovadora, aplicada pelo ministrante Marcel Magalhães, que ancora o aprendizado em duas tecnologias fundamentais: o celular e a Inteligência Artificial.

Porém, como bem observou nosso facilitador, a metodologia é viva. Ela se transforma a depender do público. Nesta nova turma, as discussões e abordagens sobre o "olhar" cinematográfico e a escolha das temáticas para os minidocumentários já apontam para um caminho distinto. A perspectiva dos novos alunos influencia diretamente a escolha dos personagens e das histórias a serem contadas, exigindo uma sensibilidade apurada do ministrante para conduzir o grupo sem perder a essência do aprendizado técnico.

O DEBATE ACALORADO: OS LIMITES E POSSIBILIDADES DA IA

Se a mudança de público já era um ponto de atenção, a discussão sobre a Inteligência Artificial elevou o nível do debate. E com razão.

Um dos participantes trouxe à tona questões urgentes e pertinentes que vão muito além do "como usar a IA generativa". Foram levantados pontos críticos que ecoam no cenário global:

  1. O Problema Ambiental: A construção e manutenção dos data centers, essenciais para o funcionamento da IA, demandam um consumo altíssimo de água e energia. Até que ponto estamos dispostos a ir para alimentar essa tecnologia?

  2. A Estagnação Criativa: A IA é alimentada por dados e informações do passado. Existe o risco real de uma repetição infinita de padrões, que pode levar à acomodação e ao embotamento da nossa capacidade de inovação humana.

  3. A Apropriação Cultural e Intelectual: O uso de trabalhos de artistas, intelectuais e criadores de conteúdo para "treinar" as IAs, muitas vezes sem consentimento ou compensação, é uma ferida aberta que precisa ser discutida.

A RESPOSTA DO FACILITADOR: FERRAMENTA, NÃO FIM

As preocupações eram muitas, mas a resposta de Marcel Magalhães foi cirúrgica e equilibrada. Ele reconheceu a gravidade dos problemas, especialmente o ambiental, mas trouxe um contraponto lúcido:

"É uma ferramenta e, como tal, deve ser usada como meio e não como um fim."

Essa frase ecoou na sala. Marcel reforçou que a IA deve ser utilizada de forma parcial e sempre sob o comando de quem cria. Para extrair o melhor que a tecnologia pode oferecer, o criador precisa possuir uma base sólida de conhecimento técnico, estético e intelectual. Caso contrário, a IA não passa de uma muleta, ou pior, de um limitador.

Sobre a questão ambiental, a visão é de esperança cautelosa. É esperado que os avanços tecnológicos futuros ditem novos rumos para diminuir o forte impacto negativo dos data centers, mas a consciência sobre o problema agora é parte integrante do processo criativo e politico socioambiental.

A DEMOCRATIZAÇÃO DO AUDIOVISUAL

Apesar dos pesares, a mensagem final foi de empoderamento. Marcel trouxe o debate de volta ao chão da oficina: o celular e a IA, juntos, representam a democratização da produção audiovisual.

Há alguns anos, produzir um filme ou documentário exigia milhões de dólares ou reais em equipamentos e equipes técnicas. Hoje, com dezenas ou centenas de reais (incluindo um bom smartphone), é possível criar conteúdo de alta qualidade. A tecnologia que preocupa é a mesma que coloca o poder da narrativa nas mãos do povo, da comunidade.

CONCLUSÃO

O primeiro dia da terceira turma não foi apenas uma aula; foi um termômetro do nosso tempo. Ao mesmo tempo em que celebramos a acessibilidade e a inovação, somos forçados a encarar os dilemas éticos, ambientais e sociais que essas ferramentas carregam.

Neste novo ciclo da oficina, fica claro que o aprendizado vai além do manuseio do celular ou do prompt de IA. A verdadeira lição está em aprender a usar a tecnologia com consciência, responsabilidade e, acima de tudo, com um olhar crítico e humano.

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.












Fotos: Raoni Smith

O OLHAR DOS PARTICIPANTES
"O primeiro módulo da oficina Audiovisual com celular aconteceu nos dias 17 e 18 de julho e possibilitou aos participantes entrar em contato com o universo teórico-reflexivo e metodológico da construção de roteiro para documentário. O professor Marcel trouxe neste módulo toda a sua vivência, escuta e reflexão de anos para que os participantes pudessem ter uma experiência de criação consciente a partir do método ensinado.
A metodologia aplicada do professor Marcel buscou abarcar todas as realidades coexistentes no grupo que compõe a oficina.
Este primeiro módulo afirma-se como um caminho de acesso democrático e possibilidade acessível para a realização de um excelente roteiro e trabalho no caminho do audiovisual."

Lúcio Ananda Nataraja

"A oficina me proporcionou uma introdução aos fundamentos da produção do audiovisual como linguagem, enquadramento além da importância da construção de histórias e narrativas. A experiência estimula a criatividade o trabalho em equipe e o desenvolvimento de um olhar mais crítico para a produção de conteúdos."

Jacqueline

"Quando comecei o curso de Audiovisual, estava com muita expectativa de aprender e me desenvolver em relação as edições dos vídeos. Sempre tive interesse em conhecer mais sobre edição, roteiro e a construção de narrativas, e esse curso tem sido uma oportunidade muito importante para mim.
Nas primeiras aulas, foi apresentado o quanto o audiovisual é complexo. Isso despertou ainda mais minha vontade de aprender e evoluir. Outra coisa que tem me marcado é conhecer melhor o Bairro Industrial. O curso tem me feito enxergar a comunidade de uma forma diferente, valorizando sua história, sua cultura e as pessoas que vivem ali.
Estou gostando muito dessa experiência e tenho certeza de que ela vai contribuir bastante para o meu crescimento, tanto pessoal quanto profissional."

Vanessa Nascimento de Melo

"Nos dias 17 e 18 de julho eu participei de uma oficina audiovisual e gostei de certa forma( aprendemos a utilizar o chatgpt como um assistente para criação de roteiro) foi bem útil e obter essa ajuda foi bem legal. Nos dias 25 e 26 de julho (neste final de semana)  teremos outro encontro,  estou bem animado para saber o que faremos dessa vez. Gostei do professor,  ele conseguiu explicar direito, eu tive um pouco de dificuldade para entender,  mas depois foi fácil, gostei da oficina. 

Eduardo 

Leia também: Para aprofundar a discussão sobre IA e limites éticos-humanitários..

Inteligência artificial e criatividade: o que está em jogo?

Livro “Tecnologias da Invenção”, de Giselle Beiguelman e Dora Kaufman, discute como a IA transforma os processos criativos e questiona os impactos dessa tecnologia na arte e na cultura

https://jornal.usp.br/radio-usp/inteligencia-artificial-e-criatividade-o-que-esta-em-jogo/

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