domingo, 19 de julho de 2026

José Tolentino de Mendonça, a cultura como lugar da fé: por que sua presença na Flip 2026 interessa à Igreja e ao Brasil

Em um momento em que a Igreja Católica procura aprofundar o diálogo com os grandes desafios culturais do século XXI, poucas figuras possuem tanta relevância quanto o cardeal português José Tolentino de Mendonça. Poeta, ensaísta, teólogo e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano, Tolentino tornou-se uma das principais vozes da Igreja contemporânea na defesa da cultura, da literatura e das artes como espaços privilegiados de encontro entre a experiência humana e a experiência religiosa.



Sua presença na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre os dias 22 e 26 de julho de 2026, representa mais do que a participação de um cardeal em um dos maiores festivais literários da América Latina. Ela simboliza uma mudança de paradigma na forma como a Igreja compreende sua relação com a cultura contemporânea.

Uma voz singular da Igreja portuguesa

Antes de assumir responsabilidades no Vaticano, José Tolentino de Mendonça já era reconhecido como um dos intelectuais mais influentes da Igreja Católica em Portugal. Sua trajetória sempre transitou entre a teologia, a poesia, a crítica literária e o ensino universitário.

Ao contrário de uma tradição eclesial marcada, muitas vezes, por um discurso predominantemente apologético, Tolentino propõe uma Igreja capaz de escutar a cultura antes de falar a ela. Em seus livros e conferências, dialoga com escritores como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol e Rainer Maria Rilke, demonstrando que a literatura não é apenas objeto de apreciação estética, mas também um espaço onde as grandes perguntas da existência continuam sendo formuladas.

Para o cardeal português, a arte não serve apenas para ilustrar a fé. Ela possui autonomia, densidade própria e capacidade de revelar aspectos profundos da condição humana. Essa compreensão aproxima a Igreja dos artistas, escritores e intelectuais, abrindo possibilidades de diálogo que ultrapassam as fronteiras confessionais.

A cultura no centro da missão da Igreja

Desde que assumiu o Dicastério para a Cultura e a Educação, Tolentino tem contribuído para consolidar uma das intuições centrais do pontificado do Papa Francisco: a evangelização passa necessariamente pelo encontro com a cultura.

Essa perspectiva encontra inspiração direta no Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que convida a Igreja a compartilhar "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias" da humanidade.

Na prática, isso significa reconhecer que a literatura, o cinema, a música, as artes visuais, a filosofia, a universidade, as ciências humanas e até mesmo os desafios da cultura digital constituem espaços onde a Igreja pode aprender, dialogar e discernir.

Mais do que utilizar a cultura como instrumento pastoral, Tolentino propõe que ela seja reconhecida como um verdadeiro lugar teológico, isto é, um espaço onde Deus continua a falar através da história, da beleza, da criatividade e das inquietações humanas.



Os dilemas do homem contemporâneo

Talvez uma das razões para o reconhecimento internacional de José Tolentino de Mendonça esteja em sua capacidade de abordar as questões contemporâneas sem reduzi-las a debates exclusivamente morais.

Em seus livros, homilias e ensaios aparecem temas como:

  • a solidão;

  • a aceleração do tempo;

  • a crise da atenção;

  • o excesso de informação;

  • o silêncio;

  • a contemplação;

  • a vulnerabilidade humana;

  • a hospitalidade;

  • a busca de sentido;

  • a beleza como caminho espiritual.

Sua escrita combina densidade teológica e linguagem poética, tornando-se acessível tanto ao público religioso quanto aos leitores interessados em filosofia, literatura e espiritualidade.

A Flip 2026 e um encontro histórico

A presença de José Tolentino de Mendonça na 24ª Flip, realizada em Paraty entre 22 e 26 de julho de 2026, confirma essa vocação de diálogo.

Sua participação acontece na quinta-feira, 23 de julho, às 10 horas, na mesa "Saber de cor o silêncio", ao lado do escritor e poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com mediação da jornalista Sofia Mariutti.

A escolha do tema não poderia ser mais coerente com sua obra. O encontro propõe uma reflexão sobre poesia, linguagem, silêncio e identidade, reunindo dois autores cuja produção literária se caracteriza pela atenção à memória, à experiência humana e à força transformadora da palavra.

O significado desse convite ultrapassa o ambiente literário. É raro que um cardeal em exercício na Cúria Romana participe da programação principal de um festival internacional de literatura. Sua presença evidencia o reconhecimento de que José Tolentino de Mendonça ocupa hoje um lugar relevante não apenas na Igreja Católica, mas também no pensamento cultural contemporâneo.

O que essa visita pode significar para a Igreja no Brasil?

Embora a participação de Tolentino na Flip não tenha caráter institucional junto à Igreja brasileira, sua presença pode exercer influência significativa sobre o debate pastoral e cultural.

Historicamente, a Igreja no Brasil desenvolveu uma sólida tradição de reflexão sobre justiça social, pobreza, direitos humanos, democracia e cuidado com a criação. Essas prioridades permanecem fundamentais.

Entretanto, a contribuição de Tolentino sugere uma ampliação desse horizonte. Cultura, arte e literatura deixam de ser compreendidas como temas periféricos para se tornarem dimensões essenciais da própria evangelização.

Essa perspectiva pode estimular dioceses, universidades católicas, centros culturais e instituições de formação a estabelecer um diálogo mais intenso com escritores, artistas, cineastas, músicos e pesquisadores.

A Campanha da Fraternidade e uma nova sensibilidade cultural

É importante destacar que a escolha dos temas da Campanha da Fraternidade pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), resultado de um processo colegiado de discernimento pastoral.

Não seria correto afirmar que a visita de José Tolentino de Mendonça levará diretamente à escolha de um tema voltado à arte ou à cultura.

Contudo, sua reflexão pode fortalecer uma percepção cada vez mais presente na Igreja: a de que muitos dos desafios sociais possuem também uma dimensão cultural.

Nesse sentido, futuras campanhas poderiam incorporar temas relacionados à cultura do encontro, à educação para a sensibilidade, à formação estética, ao patrimônio cultural, à cultura digital, à leitura, à preservação da memória e ao papel das artes na construção da dignidade humana.

Mais do que uma campanha "sobre arte", seria uma compreensão da cultura como dimensão transversal da vida cristã e da missão da Igreja.

Uma Igreja que aprende a escutar

Talvez a maior contribuição de José Tolentino de Mendonça seja deslocar uma pergunta tradicional.

Durante muito tempo, a preocupação predominante foi saber como a Igreja poderia utilizar a cultura para transmitir sua mensagem.

Tolentino propõe outra questão: como a Igreja pode escutar aquilo que a cultura contemporânea tem a dizer sobre o ser humano, suas esperanças, suas angústias e sua busca por sentido?

Essa inversão de perspectiva representa uma das mudanças mais profundas do pensamento católico contemporâneo. Ela não relativiza a fé, mas amplia sua capacidade de diálogo.

Num mundo marcado por polarizações, crises de sentido e profundas transformações culturais, a presença de José Tolentino de Mendonça na Flip 2026 sinaliza que literatura, poesia, arte e espiritualidade continuam sendo caminhos privilegiados para compreender a condição humana. E talvez seja justamente nesse encontro entre beleza, cultura e transcendência que a Igreja encontre novas formas de anunciar o Evangelho às gerações do século XXI.

Acesse flip.org.br para mais informações.

https://ihu.unisinos.br/categorias/641628-conheca-o-poeta-do-papa-francisco-no-vaticano-cardeal-jose-tolentino-de-mendonca

POETA, CARDEAL NO VATICANO E ATRAÇÃO DA FLIP, PORTUGUÊS JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA VAI REZAR MISSA EM PARATY E LANÇA ANTOLOGIA EM QUE CONVOCA ‘DISSIDENTES’, COMO PASOLINI E PATTI SMITH, PARA PENSAR A ESPIRITUALIDADE


SEGUNDO CADERNO

O PADRE QUE QUER SER POEMA

RUAN DE SOUSA GABRIEL

ruandesousagabriel@...com.br
O GLOBO

O primeiro poema escrito pelo português José Tolentino Mendonça já traçava um mapa do que viria a ser sua obra. Todas as suas preocupações literárias (e espirituais) já se anunciavam nos versos de “A infância de Herberto Helder”, publicado em 1990. O título presta homenagem ao autor nascido na Ilha da Madeira (assim como Tolentino) que se firmou como o maior nome da chamada Poesia Experimental Portuguesa. Os primeiros versos do poema juntam o Antigo e o Novo Testamento, o relato da Criação e a abertura do Evangelho de João.

Na versão de Tolentino, o princípio não era o Verbo, mas “a ilha”. E “o Espírito de Deus/ abraçava as águas”, como no Gênesis. Nas estrofes seguintes, o eu lírico recorda um tempo ancestral, quando olhava as estrelas e não pensava que houvesse perigo naqueles “corpos de fogo”; espanta-se com a natureza da poesia (“não sabia que todo o poema/ é um tumulto/ que pode abalar/ a ordem do universo”) e termina por descobrir o divino para além de toda racionalidade: “Nesse tempo/ ainda era possível/ encontrar Deus/ pelos baldios/ isto foi antes/ de aprender a álgebra”.

O mistério que é intrínseco ao fazer poético, e que pode nos colocar em contato com o sagrado, sempre foi a maior das obsessões de Tolentino.

— Acredito muito no que disse o poeta catalão Joan Brossa: “O poeta não quer fazer poesia; quer ser poema” — diz o simpático escritor de 60 anos, que parece fazer poesia enquanto fala. — A reflexão sobre o trabalho poético é, no fundo, uma busca sobre o que significa habitar o mundo poeticamente. Se eu tivesse de dizer qual era a grande invenção humana, não diria a roda, mas a palavra. O homem viu na palavra a possibilidade de transporte da própria consciência, de conhecimento de si e de encontro com o outro.

COM O PAPA FRANCISCO

“A infância de Herberto Helder” abre “Os enigmas singulares”, a primeira antologia de Tolentino publicada no Brasil. Ele vem lançá-la na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa na próxima quarta-feira e homenageia a poeta Orides Fontela. Na quinta, às 10h, o português conversa com o brasileiro Edimilson de Almeida Pereira sobre os enigmas da poesia.

Mas Tolentino não estará em Paraty apenas como poeta. Na quarta, às 18h30, antes da abertura oficial da Flip, ele rezará uma missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, no centro histórico da cidade.

Sim, Tolentino é padre. Ou melhor: cardeal. Foi nomeado em 2019 pelo Papa Francisco e atualmente é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria Romana. É responsável por supervisionar a educação católica no mundo todo, proteger o patrimônio artístico da Igreja e liderar os diálogos com o setor cultural. O cardeal já deu aula em instituições católicas no Brasil e teve livros de teologia editados por aqui. Mas sempre quis mesmo é que sua poesia chegasse ao país.

— Sou devedor da tradição literária brasileira. Sei que, para o público da Flip, a poesia não é disciplina universitária, material para teses de doutorado, mas é instrumento humano, pão de cada dia, que ajuda a construir a cidade e mapear a vida — diz Tolentino, que falou ao GLOBO por vídeo do Vaticano, embora tivesse “Portugal nas costas”, como destacou (atrás dele, impunha-se o quadro “Biblioteca em fogo”, da franco-portuguesa Maria Helena Vieira da Silva).

POESIA NÃO DEVOCIONAL

Tolentino se tornou sacerdote em 1990, mesmo ano em que lançou seu primeiro livro, “Os dias contados”. Sua poesia, no entanto, não é devocional nem está preocupada em reafirmar dogmas, mas investiga, de peito aberto, as diferentes dimensões da espiritualidade. Um bom exemplo é o poema “Grafito”, que traz uma epígrafe do filósofo francês Emmanuel Levinas (“O poema é o ato espiritual por excelência”) e, em seguida, lista tudo o que “o poema pode conter”. Para espanto do leitor, o que cabe nesse “ato espiritual” é tudo aquilo que, à primeira vista, nada tem de divino, mas é banal e às vezes terrível: “venenos”, “excursões campestres”, “uma bicicleta caída junto às primeiras paixões sombrias”, “uma guerra civil”, “um disco dos Smiths”.

Em outro poema, “Para ler aos noviços”, ele afirma que “Deus não aparece no poema/ apenas escutamos a sua voz de cinza” e indica o “modo verdadeiro de rezar”: “Estende o teu corpo longo do barco/ que desce silencioso o canal/ e deixa que as folhas mortas dos bosques/ te cubram”. “Rezar deve ser como essas coisas/ que dizemos a alguém que dorme/ temos e não temos esperança alguma”, confunde-nos o cardeal-poeta em “O esterco do mundo”.

Em suas investigações sobre o divino, Tolentino percorre a sabedoria de pensadores e artistas que chama de dissidentes, como o cineasta soviético Andrei Tarkóvski, o italiano Pier Paolo Pasolini e a americana Patti Smith. São personalidades com aspirações espirituais, mas não se submeteram a ortodoxias e apontam uma relação questionadora e livre com a religião e o sagrado.

— Esses artistas são mestres inesperados da vida espiritual, que me ajudaram a perceber a fé como dissidência. De fato, a fé é uma dissidência do visível. Ter fé é dizer que o que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta. Na Bíblia, Jacó sai mancando do seu encontro com Deus — diz Tolentino, autor do poema “Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos”, o livro poético (e erótico) do Rei Salomão que está na Bíblia. — O que uma artista com o percurso de Patti Smith tem a dizer certamente interessa a quem crê.


O cardeal é pop

José Tolentino Mendonça, que cita “um disco dos Smiths” num de seus escritos, fala sobre nomes como Tarkóvski: “Esses artistas são mestres inesperados da vida espiritual”, diz. “A fé é uma dissidência do visível. Ter fé é dizer que o que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta”.

‘Os enigmas singulares’
Autor: José Tolentino Mendonça.
Editora: Assírio & Alvim / Grupo Porto Editora.
Páginas: 216.
Preço: R$ 99,90.

‘PASOLINI PERCEBEU QUE A RELIGIÃO É NECESSÁRIA’, NA PÁGINA 2


ADMIRAÇÃO POR PASOLINI E ROSALÍA E CURIOSIDADE PELA TECNOLOGIA

Se com Patti Smith o cardeal entendeu o Cântico dos Cânticos, com Pasolini ele aprendeu “sobre a blasfêmia/ que a santidade tem de ser”, conforme lemos no poema “Retrato de Pasolini em Nova York”, um dos poemas mais bonitos do livro. No posfácio a “Os enigmas singulares”, o organizador do volume, Marcio Cappelli, afirma que o escritor português elegeu o italiano como “uma espécie de artistas-modelo”. Marxista, homossexual e um dos intelectuais mais interessantes do século XX, Pasolini admirava o cristianismo e o papel da religião popular na cultura.

— Num tempo em que a religião era uma espécie de endereço ilegítimo para a razão, Pasolini percebeu que a religião é necessária para entender o humano, que está ligada a um mundo primordial, selvagem — afirma Tolentino. — Ele foi um visionário, que estabeleceu um corte na modernidade. Sua lucidez áspera nos oferece uma gramática para entender o mundo.

SONÂMBULOS RUMO À IA

Outra artista que o cardeal admira é Rosalía, que se apresenta no Rio mês que vem. Ano passado, quando a espanhola lançou “Lux”, disco que pergunta como amar a Deus e ao mundo como se fossem um só e a mesma coisa, Tolentino declarou que ela havia captado “uma profunda necessidade na cultura contemporânea de se aproximar de razões espirituais, de cultivar uma vida interior, de valorizar a experiência religiosa”. O escritor percebe que os meios intelectuais e artísticos já não têm tanta aversão ou desconfiança da religião como no passado.

— Onde há 20 anos havia preconceito, suspeitas e distanciamento, há uma curiosidade sábia — diz ele, acrescentando que, no início de sua carreira, seus fiéis não sabiam que ele era poeta e seus leitores ignoravam que fosse padre. — Hoje sou apresentado como as duas coisas. Ambas me pedem tudo. A poesia pede que eu seja poeta e a vida religiosa pede que eu seja religioso. Cada uma me pede uma inteireza.

Como sacerdote e poeta, Tolentino celebrou a encíclica “Magnifica Humanitas”, publicada em maio, na qual Leão XIV pede pela preservação da dignidade e da autonomia humanas em meio ao avanço da inteligência artificial. O cardeal afirma que a mensagem do papa fomenta o debate e combate a desinformação e o “sonambulismo cultural que nos faz avançar em fila para um destino desconhecido em vez de pensar, negociar e construir o futuro em liberdade”. Ele não descarta eventuais colaborações poéticas com a tecnologia, mas faz questão de sublinhar os limites da máquina.

— A literatura do futuro vai ser fazer em diálogo com essa ferramenta — diz o português. — A IA pode gerar literatura, mas sempre como resultado da interlocução com o ser humano. Porque a IA não chora, não reza, não pede perdão e, sozinha, também não faz poesia. Ela só imita pensamento e emoção. E o poeta, como esclareceu Fernando Pessoa de uma vez por todas, não imita, ele finge. Essa será sempre a diferença entre o humano e a máquina. (Ruan de Sousa Gabriel)


CARDEAL-POETA AFIRMA QUE A CULTURA HOJE TEM UMA ‘CURIOSIDADE SADIA’ EM RELAÇÃO À RELIGIÃO E CELEBRA ENCÍCLICA DE LEÃO XIV SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL


‘A infância de Herberto Helder’

“No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude
das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar a ordem do
universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isto foi antes
de aprender a álgebra”



Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos

Patti Smith no Chelsea Hotel — fotografia de David Gahr

Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor
José Tolentino Mendonça

Comentários

  1. Reflexos de poesia!

    "Às escondidas

    Os primeiros chuviscos restituem-nos

    o incrível cheiro da terra

    mas nós estaremos quem sabe longe

    do que tem significado

    Preenchemos a inscrição numa piscina municipal

    não sabemos bem o motivo ou não dizemos a ninguém

    como os dias nos pedem a dureza

    ofegante,instintiva

    que têm para os nadadores as braçadas

    Uma sombra nos acalma

    Uma claridade nos dói

    Cedo receamos a felicidade daquelas imagens

    que reencontramos dentro de nós

    e não se ligam a nada"

    de Igual Para Igual(2001)
    José Tolentino Mendonça


Por meio de um poema escrito pelo próprio Tolentino intitulado “Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos”. Ele imagina a artista punk interpretando o texto bíblico. Aqui está o contexto completo:

1. O que é o Cântico dos Cânticos (O contexto bíblico)
É o livro mais poético, sensual e erótico do Antigo Testamento. Ele descreve o desejo, o corpo e o amor entre um amado e uma amada. Na tradição católica, ele é lido como uma alegoria do amor entre Deus e a alma humana. Tolentino resgata essa dualidade: o amor humano e o amor divino não se opõem, eles se encontram.

2. Quem é Patti Smith para Tolentino (O contexto artístico)
Patti Smith é a "poetisa do punk", visceral, crua e profundamente espiritual. Na infância, foi criada católica, e isso transborda em obras como o disco Easter e o livro Just Kids. Para Tolentino, ela representa a "dissidente" perfeita: alguém que vive a espiritualidade com paixão, mas sem se submeter a dogmas ou a moralismos rígidos.

3. O conceito dos "mestres inesperados" (O contexto teológico)
No artigo do jornal, Tolentino diz que “esses artistas são mestres inesperados da vida espiritual”. Ele acredita que a fé não é uma certeza, mas uma luta (como a de Jacó com o anjo). Para ele, Deus não fala apenas dentro das igrejas; Ele fala através da arte que é autêntica, inquieta e que ousa perguntar.

4. A explicação poética (O encontro entre o sagrado e o profano)
Quando Tolentino escreve um poema onde Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos, ele está dizendo o seguinte: "Se você quer entender a paixão divina descrita na Bíblia, não procure apenas os teólogos. Procure uma artista que entende de desejo, de amor, de dor e de poesia bruta".

Na visão do cardeal, a artista punk é capaz de traduzir para a linguagem do século XXI aquilo que o texto milenar da Bíblia já dizia: que o sagrado não é algo frio ou distante, mas algo que arde, que pulsa e que está profundamente enraizado na experiência humana.

Em resumo: O contexto é a defesa de que a arte (mesmo a mais profana, como o punk rock de Patti Smith) tem autoridade espiritual para falar sobre Deus. Tolentino usa Patti Smith como uma ponte para mostrar que a Igreja precisa escutar a cultura contemporânea, e não apenas ensiná-la.


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