Plebe Rude, Herbert Vianna, Jaques Morelenbaum - Até Quando Esperar – 40 Anos
Não é nossa culpa
Nascemos já com uma bênção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Até quando esperar?
E cadê a esmola
Que nós damos sem perceber?
Que aquele abençoado
Poderia ter sido você
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar
Esperando a ajuda de Deus?
Até quando esperar a plebe ajoelhar
Esperando a ajuda de Deus
Posso
Vigiar teu carro?
Te pedir trocados?
Engraxar seus sapatos?
Posso?
Vigiar teu carro?
Te pedir trocados?
Engraxar seus sapatos?
Sei, não é nossa culpa
Nascemos já com uma bênção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição
Tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar?
Esperando a ajuda de Deus
Até quando esperar a plebe ajoelhar?
Esperando a ajuda do divino Deus
Fonte: Musixmatch
Compositores: Carlos Augusto Woortmann / Andre Philippe De Seabra / Andre Pinheiro Machado Mueller
Quatro
décadas depois, esse manifesto sonoro continua assustadoramente atual. O
diálogo entre a arte da Plebe Rude, as investigações do jornalismo independente
e a criação de novas políticas públicas revela que a disputa pelo orçamento da
cultura ainda é um dos campos de batalha mais intensos do Brasil contemporâneo.
O Banquete dos Megashows: O Dossiê "Farras" e a Má
Distribuição
O portal De
Olho nos Ruralistas publicou uma investigação contundente: o Dossiê
Farras. O relatório revelou um cenário alarmante onde apenas 40 artistas de
grande apelo comercial (majoritariamente ligados ao circuito do agronegócio e
das feiras de rodeio) concentraram mais de R$ 3 bilhões em verbas
municipais e estaduais de cultura.
Enquanto
municípios inteiros decretavam estado de calamidade pública ou sofriam com a
falta de saneamento básico e postos de saúde, prefeituras injetavam cachês
milionários em apresentações únicas. A "má distribuição" denunciada
pela Plebe Rude ganhou números, gráficos e nomes próprios. O dinheiro que
deveria irrigar a identidade e a subsistência de comunidades locais acabou
capturado por oligopólios do entretenimento corporativo.
O Combustível do Sistema: Orçamento Secreto e Emendas Pix
Como essa
engrenagem bilionária se sustenta? A resposta está nas mutações do orçamento
federal. Nos últimos anos, mecanismos como as Emendas de Relator (o
Orçamento Secreto) e as Emendas Pix (Transferências Especiais)
transformaram a forma como o dinheiro chega aos municípios.
- Falta de Rastreabilidade: Nas
"Emendas Pix", o recurso federal cai diretamente na conta
corrente da prefeitura. Sem a necessidade de aprovar um projeto técnico
prévio em ministérios, o dinheiro perde a destinação específica.
- O Atalho da Inexigibilidade: Com o
caixa cheio, prefeitos utilizam brechas da Lei de Licitações (alegando a
"inviabilidade de competição") para contratar megashows com
empresários exclusivos por dispensa. Sem concorrência, os preços inflam e
o dinheiro público vira plataforma de palanque político em anos
eleitorais.
É o retrato
perfeito do verso: "E cadê a esmola que nós damos sem perceber?"
— o imposto do cidadão transformado em festa clientelista.
A Resposta Estrutural: Como a Lei Aldir Blanc (PNAB) Blinda a Cultura
É contra
essa lógica de "esmola" e apadrinhamento político que surge a Política
Nacional Aldir Blanca de Fomento à Cultura . Instituída como uma política
permanente e descentralizada, a Lei Aldir Blanc foi desenhada justamente para que a
"plebe" não precise mais se ajoelhar para acessar o direito
constitucional à cultura.
Ao
contrário do fluxo livre e obscuro das emendas parlamentares, a Lei Aldir Blanc
possui travas institucionais rígidas que impedem o financiamento de megashows
corporativos:
1. Verba Carimbada (O PAAR)
Os
municípios não podem gastar o dinheiro da Lei Aldir Blanc como querem. Eles devem submeter
um Plano de Aplicação dos Recursos (PAR) ao Ministério da
Cultura. Se o recurso foi destinado a pontos de cultura ou periferias, ele é
blindado e não pode pagar o cachê de uma grande estrela sertaneja.
2. Obrigatoriedade de Editais Públicos
A lei
proíbe a contratação direta para a execução de suas metas. O dinheiro é
distribuído obrigatoriamente por Chamamentos Públicos, Prêmios e Editais.
Qualquer trabalhador da cultura precisa submeter um projeto, que será avaliado
por comissões técnicas independentes, pulverizando os recursos na base.
3. Tetos e Cotas de Inclusão
Os editais
limitam o valor máximo por projeto, inviabilizando cifras milionárias. Além
disso, as cotas obrigatórias (para negros, indígenas e territórios periféricos)
garantem que a verba chegue a quem constrói a cultura viva no dia a dia, e não
aos mesmos oligopólios de sempre.
4. Controle Social e Conselhos de Cultura
O prefeito
não decide sozinho. A Lei Aldir Blanc exige a realização de escutas públicas com a
sociedade civil e a validação dos Conselhos Municipais de Cultura,
tirando o caráter secreto da gestão do dinheiro.
Conclusão: Da Resistência à Gestão
A denúncia
da Plebe Rude em 1985 ecoa no jornalismo investigativo do Dossiê Farras,
mostrando que a estrutura coronelista de desvio de prioridades públicas ainda
resiste. No entanto, ferramentas democráticas como a Lei Aldir Blanc
provam que é possível desenhar um Estado onde a cultura seja tratada como
direito e soberania, e não como barganha política.
A lição que
fica é clara: para que a má distribuição acabe, o orçamento não pode ser
secreto. Ele precisa ser público, transparente, disputado e, acima de tudo,
popular.
💬 E na sua cidade? Você tem acompanhado
como os recursos da Lei Aldir Blanc estão sendo aplicados pelos editais locais?
Deixe seu comentário abaixo e vamos debater!
Se você
gostou deste artigo e quer acompanhar mais debates sobre políticas públicas e o
ecossistema cultural do Brasil, informe-nos quais outros temas ou análises
você gostaria de ver por aqui:
- O papel dos Pontos de Cultura na
resistência comunitária.
- Como fiscalizar o orçamento do seu
município através dos portais de transparência.
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