Há estruturas na cidade que, mais do que concreto e telhas, carregam memórias institucionais e afetivas. Uma delas é o antigo edifício municipal sede da prefeitura que muitos conhecem, situado no coração da cidade. Após uma conversa recente com um funcionário de longa data da prefeitura, senti o impulso de ir a campo, documentar e, sobretudo, refletir. O que vi e ouvi me trouxe uma tristeza que não é apenas estética, mas civil.
Acompanhado da percepção de um engenheiro aposentado – um profissional com décadas de experiência e que realizou obras importantes para governos passados – ouvi uma avaliação técnica que contraria o discurso implícito do poder público: “o prédio é recuperável”. Eu mesmo, leigo, caminhei por ali e vi que reparos simples, como a troca do telhado, já seriam um começo. Sim, há plantas crescendo nas paredes, fruto do abandono, mas a estrutura de pedra dos corredores e as escadarias de pedra seguem firmes. O piso de madeira, desgastado e apodrecido pela chuva, dá uma sensação de perigo, mas não desabará. Uma troca resolve.
Então por que não se faz?
A resposta parece menos técnica e mais política. Falta interesse. Não só dos vereadores atuais, mas de gestões passadas e atual. E aqui reside o ponto mais grave: o que parece um descaso pode ser, na verdade, uma estratégia. O prédio, possivelmente tombado (portanto, legalmente protegido), já tem partes de seu pátio traseiro asfaltadas. Anexos foram demolidos. Hoje, funciona ali como estacionamento para funcionários da prefeitura. A suspeita, que compartilho com tristeza, é que o objetivo final seja transformar tudo em um estacionamento ainda maior.
Como viabilizar a demolição de um bem tombado? Simples: abandone-o deliberadamente até que se torne “irrecuperável”. É o que chamo de pensamento medíocre. Deixar apodrecer o público para justificar, no futuro, um retrovisor privado.
Foto: Goliath Xanatos
Minha incursão e os riscos à saúde pública
Ao explorar o local, subi apenas uma escadaria – da parte mais baixa ao meio, descendo pela parte superior. A intenção era percorrer o prédio inteiro, mas fui detido por um motivo nada burocrático: abelhas e marimbondos. É comum que esses insetos façam ninhos em espaços abandonados por muito tempo. Por precaução, para não ser atacado por um enxame, interrompi a exploração.
Mais grave foi o que encontrei no Palácio Inácio Barbosa, onde entrei de forma oportuna e rápida, sem o vestuário de proteção adequado (apenas uma camisa fina, sem jaquetas ou luvas). O interior é catastrófico: fezes espalhadas por todos os cantos. Tive que olhar mais para o chão do que para a câmera, tamanha a quantidade de dejetos. Consegui filmar o suficiente para mostrar a situação, mas o registro ficou prejudicado pelo esforço de não pisar no que não se deve.
Isso não é apenas abandono. É um problema de saúde pública. O telhado tem buracos enormes – é surpreendente que ainda não tenha desabado. A infiltração de água forma poças, criando um criadouro em potencial. Estamos diante de uma possível “usina de dengue” bem no centro da cidade, afetando quem mora, trabalha ou simplesmente transita por ali.
A tristeza de quem vê solução
Conversando com aquele funcionário antigo da prefeitura, fui impulsionado a registrar tudo isso. Acredito que o edifício pode ser salvo. Mas a minha vontade, infelizmente, não prevalece. Prevalece a vontade intermitente de vereadores e -prefeitos que fazem pouco ou quase nada.
Que fique este registro: não por falta de laudo técnico, não por falta de viabilidade, mas por falta de vontade política, podemos perder para um estacionamento o que deveria ser memória de pé.
É uma tristeza ver o público ruir enquanto se asfalta por baixo dos panos. Mas é uma tristeza ativa. E enquanto posso, denuncio.
(*)é cidadão ativo, observador atento da destruição crônica do patrimônio material do centro histórico de Aracaju, cinéfilo, frequentador assiduo de eventos culturas na cidade, incluindo eventos de rock , colaborador do Ponto de Cultura Ação Cultural, com destaque de participação na equipe que produziu o filme Brasinha - O som que não envelhece, resultado da primeira oficina de audiovisual com celular, promovido pelo Ponto de Cultura com recursos da Lei Aldir Blanc/Cultura Viva.

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