informações sobre ações culturais de base comunitária, cultura periférica, contracultura, educação pública, educação popular, comunicação alternativa, teologia da libertação, memória histórica e economia solidária, assim como noticias e estudos referentes a análise de politica e gestão cultural, conjuntura, indústria cultural, direitos humanos, ecologia integral e etc., visando ao aumento de atividades que produzam geração de riqueza simbólica, afetiva e material = felicidade"
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Por que defender a democracia e um país mais justo, mais solidário , mais criativo e mais alegre é votar em Lula. Coração Civil (Milton Nascimento) É (Gonzaguinha).
O ETERNO AGITO. O jornalista José Teles escreve sobre Jomard Muniz de Brito falecido neste 12 de Outubro de 2026 no Recife.
Foto de Jomard Muniz de Brito em uma de suas últimas vezes em que esteve com a gente, na Mamede Simões (atrás dele, o poeta Domingos Alexandre). Antes da pandemia. Nos conhecíamos desde que começamos, eu, Bione e Ral a fazer o. Papa-Figo, em 1984. Fosse pra agitar a província ele dava força.
Jomard me entregou seus arquivos, de fotos ao documento que o proibia de ensinar na Universidade Federal da Paraíba. Com este livro, também com capítulo sobre o udigrudi pernambucano dos anos 70, os dois movimentos passaram a ser conhecidos nacionalmente. Jomard me foi sempre grato por isto.
Tenho um livro de contos inéditos, pesados, influências de Rubem Fonseca, que tirou menção honrosa num concurso da Fundarpe, acho que em 89 (fui um dos vencedores do concurso anterior), Mário Helio era diretor de literatura ou algo assim. Um escritor de que não me lembro mais o nome, num artigo no DP, comentou os vencedores do concurso, e chamou meus contos de chulow e obscenos.
Resolvi publicá-lo. Jomard leu, e escreveu o prefácio, entusiasmado. Depois descobri que o conto que dava título ao livro, O Dia de Matar a Velha, era cópia, inconsciente, de um trecho do romance O Casamento, de Nelson Rodrigues. Perdi o tesão de lançá-lo. Ele ficou irado com a minha desistência, de vez em quando me cobrava o livro.
Enfim, Jomard esteve em todos os agitos acontecidos no Recife, Olinda, e adjacências, desde início dos anos 60. O espaço é curto pra tantas peripécias. Volto a ele.
CONVITE. Segunda às 20h no Instagram romerojunior4503 teremos uma live sobre a obra e a vida de Jomard Muniz de Britto... Tropicalismo, as relações com Paulo Freire, a universidade e o curso de filosofia, o cinema marginal super8, a poesia e as agitações culturais entre Recife e João Pessoa. Jomard faleceu hoje...
Flávio quer destruir o que faz do Brasil um dos lugares mais maravilhosos do mundo
Opinião - Folha de São Paulo
Se eleito, senador do PL tentará apagar uma
liberdade que existe em poucos países; político quer uma sociedade do medo e
tornaria a vida dos pobres mais difícil
Edouard Louis
Escritor francês, é autor de "Para
Acabar com Eddy", "História da Violência" e "Quem Matou Meu
Pai", publicados no Brasil pela Tusquets.
Pequeno mapa do tempo
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Uso de IA e vídeos estrangeiros marcam guerra de desinformação após ato na Paulista
🛑 FACT CHECK: O caso do vídeo falso do Chile compartilhado por TarcísioUm dos conteúdos de maior alcance compartilhados pela oposição após o ato de domingo foi um vídeo publicado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em suas redes sociais. As imagens mostravam uma jovem ruiva consumindo substâncias ilícitas no meio de uma multidão, com a legenda sugerindo que o flagrante refletia o comportamento dos manifestantes na Avenida Paulista.Os Fatos: Agências de checagem independentes, como o Aos Fatos e o Estadão Verifica, realizaram a busca reversa dos quadros do vídeo e constataram que a gravação é antiga e foi feita em Santiago, no Chile, durante protestos estudantis ocorridos semanas antes. O material não possui qualquer vínculo geográfico ou temporal com o comício pró-Lula em São Paulo. Após a repercussão e a contestação jurídica por parte da coligação governista, a postagem foi apagada do perfil oficial do governador.
🤖 FACT CHECK: Fotos forjadas por Inteligência Artificial simulam pichaçõesAlém da reciclagem de vídeos antigos, a disputa digital ganhou contornos de alta tecnologia com a circulação de imagens simuladas digitalmente. Perfis hiperpartidários de oposição viralizaram a foto de uma operária de limpeza urbana apagando pichações com dizeres ofensivos dentro da estação Trianon-MASP, atribuindo o cenário ao rastro de destruição do último domingo.Os Fatos: A imagem foi submetida a ferramentas de análise forense digital por plataformas de checagem como a Lupa. Os testes apontaram mais de 90% de probabilidade de o arquivo ter sido gerado artificialmente por Inteligência Artificial (IA). Especialistas identificaram "alucinações" típicas de softwares de geração de imagem, como deformações nos dedos da trabalhadora, texturas inconsistentes nos azulejos da parede e letras com traçados geometricamente impossíveis para uma pichação manual.
A imagem acima fez o que a extrema direita atribui aos organizadores do ato deste domingo na Paulista, O que significar dizer, acusaram estes de transformarem o ato verde e amarelo em ato vermelho por meio de inteligência artificial, quando a verdade é o inverso.
Em que medida o fechamento de estações do metrô depois das manifestações contribuiu para isso?
Como Lula veio e deu a mão para construirmos o novo nordeste. A canção de Lucas Santtana e as canções e falas vigorosas dos artistas das CEBs e Pastorais Sociais, Roberto Malvezzi e Zé Vicente.
🌵💧 Do sertão que vira cisterna à juventude que ocupa a rua: o Nordeste não é só paisagem, é projeto de vida.
A canção de Lucas Santtana com Duda Beat, a força de Zé Vicente e Roberto Malvezzi (Gogó) e as lutas das CEBs e Pastorais Sociais nos lembram: a seca não precisa ser sentença. Com água de chuva, cisternas, organização popular e políticas públicas, é possível conviver com o Semiárido — com dignidade, comida e autonomia.
No segundo turno de 2026, essa energia tomou as ruas: juventude pela democracia, educação pública, fim da escala 6x1 e valorização da cultura popular. Como cantam, “ninguém vai ser feliz se andar sozinho”. A esperança é jovem, e a música nordestina não se cala. ✊🎶
Que este post seja memória e convite: defender a democracia é defender a água, o pão, a arte e o direito de existir no próprio território.
👉 Compartilhe e marque quem acredita nesse Brasil.
🎵 Referências: Lucas Santtana ft. Duda Beat – “Meu Primeiro Amor”; Zé Vicente – “Esperança Jovem” e “Ei, Nós Aqui de Novo”; Roberto Malvezzi – “Água de Chuva”.
#Nordeste #Semiárido #ÁguaDeChuva #Cisternas #Democracia #JuventudeNaRua #CulturaPopular #ZéVicente #RobertoMalvezzi #LucasSanttana #DudaBeat #Lula #CEBs #PastoraisSociais #Brasil
Lucas Santtana ft. Duda Beat - Meu Primeiro Amor (clipe oficial)
Nasci menina na cidade grande
A maior da América do Sul
Comia hambúrguer, via filme gringo
Falava inglês e ouvia Blur
Um belo dia já adolescente
No Remelexo conheci forró
E desde então é coração saudade
Foi, foi, foi
Foi meu primeiro amor
Foi, foi, foi
E até hoje eu danço esse calor
Nasci menino longe da cidade
No semiárido lá do sertão
Não tinha água tão pouco comida
Até que Lula veio e deu a mão
Um belo dia já adolescente
No Remelexo fui fazer forró
E conheci uma galeguinha linda
Foi, foi, foi
Foi meu primeiro amor
Foi, foi, foi
E até hoje eu danço esse calor
Será que pode um nordestino pobre
E uma menina classe média, sim
Juntar os trapos, romper as barreiras
De um país que ainda pensa assim
Hoje moramos na cidade grande
Mas nossa casa é do interior
E nossos filhos cada vez mais lindos
Foi, foi, foi
Foi meu primeiro amor
Foi, foi, foi
E até hoje eu danço esse calor
Ei Nós Aqui de Novo
Ouça Álbum Belo Chico 2. Aqui
Roberto Malvezzi (Gogó)
14 de agosto de 2026
Publicação que aborda a crítica de Gogó à inteligência artificial na produção musical, relacionando tecnologia, autoria, criatividade e direitos dos artistas. Inclui também um perfil biográfico do compositor.
2. Roberto Malvezzi, o Gogó, de volta a Aracaju para formação “O Cuidado da Casa Comum como Missão”
4 de março de 2024
Convite para a atividade formativa realizada em abril de 2024, apresentando Gogó como teólogo, filósofo, cantor, compositor, escritor e estudioso das questões sociais e ambientais.
Zé Vicente
1. Zé Vicente em Sergipe — Memória Histórica
14 de agosto de 2020
É um registro especialmente importante para a memória da Ação Cultural. Assinado por Zezito de Oliveira, recupera passagens de Zé Vicente por Sergipe, incluindo apresentações em Propriá, em 1994, em Aracaju, em 2004, e sua participação na II Jornada Ecologia e Espiritualidade, em 2012. Também registra a relação do cantor com as pastorais, as comunidades de base e os movimentos populares.
2. Lançamento de Zé Vicente neste 17 de fevereiro de 2024 em clima de Fraternidade e Amizade Social — Canção Urgente
17 de fevereiro de 2024
Publicação dedicada ao lançamento de Canção Urgente, relacionando a produção artística de Zé Vicente à fraternidade, à amizade social e à reflexão sobre o papel da arte na construção de outro mundo possível.
“As palavras do poeta e cantautor Zé Vicente nesse momento…”, publicado em 11 de fevereiro de 2025, com o texto Súplica para esta hora.
Sarau Brasil Atual - 29.03.24 - Roberto Malvezzi (Gogó) e Zé Vicente
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Esquerda cirandeira: quando a crítica à cultura popular afasta a esquerda do coração da nossa gente
A expressão “esquerda cirandeira” é utilizada em determinados debates políticos como uma provocação dirigida a setores da esquerda que valorizam a ciranda, o maracatu, o samba, o forró, as festas populares, as manifestações comunitárias e outras expressões da cultura popular. Dependendo de quem a utiliza e do contexto, pode ser uma crítica à suposta excessiva valorização da dimensão festiva da política, uma ironia contra militantes ligados à cultura ou uma tentativa de desqualificar uma esquerda identificada com práticas culturais populares.
É importante, porém, fazer uma distinção: não se deve tratar a expressão como se tivesse um único significado, uma origem histórica consensualmente estabelecida ou um autor reconhecido. Para esclarecer sua procedência, é necessário localizar os contextos concretos em que ela apareceu, quem a empregou e contra quem foi dirigida.
A questão política e cultural que está por trás desse debate é mais ampla: o que acontece quando uma parte da esquerda passa a olhar com desconfiança para as manifestações culturais por meio das quais o povo celebra a vida, constrói vínculos, expressa sua religiosidade, preserva sua memória e reconhece a si mesmo?
🔥População faz campanha pra Lula no transporte público, onde o trabalhador passa boa parte do dia🔥
1. Qual é a origem da expressão?
A reportagem do data_labe, intitulada “Ciranda não é bagunça”, reconstitui um episódio importante para entender a popularização do termo.
2016 — uma roda de ciranda em disputa
Durante manifestações contra o impeachment de Dilma Rousseff, integrantes do Partido da Causa Operária (PCO) impediram militantes do PSOL de participar de uma roda de ciranda. O episódio contribuiu para a circulação da expressão como meme depreciativo contra setores da esquerda identificados com manifestações culturais e formas festivas de mobilização.
2019 — a crítica ganha contornos ideológicos
Em artigo publicado no Diário Causa Operária, Nivaldo Orlandi contrapôs a ciranda e outras ações culturais àquilo que considera luta política efetiva. A crítica expressava uma concepção segundo a qual atividades culturais e mobilizações simbólicas não seriam suficientes para enfrentar o poder político e econômico.
2022–2024 — o termo chega ao debate eleitoral
A expressão também passou a criticar campanhas com artistas, vídeos, músicas e manifestações simbólicas, sob o argumento de que essas iniciativas não alcançariam o eleitorado popular ou seriam insuficientes para disputar votos. Em 2024, o deputado André Janones voltou a empregar o rótulo ao criticar setores do próprio campo político.
Portanto, é possível identificar uma trajetória documentada de circulação do termo desde 2016, mas convém distinguir a origem do episódio que ajudou a popularizá-lo da autoria exata da expressão. A documentação consultada não permite atribuir com segurança sua criação a uma única pessoa.
2. O que significa, afinal, ser chamado de “esquerda cirandeira”?
A expressão funciona como um rótulo político que reúne críticas diferentes, nem sempre compatíveis entre si.
A crítica à espontaneidade: acusa determinados grupos de acreditar que cantar, dançar, celebrar e produzir encontros seriam suficientes para transformar a sociedade.
A crítica ao ativismo simbólico: questiona manifestações que, embora expressem solidariedade e valores políticos, não se convertem necessariamente em organização duradoura, pressão institucional ou conquistas concretas.
A crítica de classe: acusa setores culturais, artistas, intelectuais e militantes universitários de estarem distantes das dificuldades materiais dos trabalhadores.
A crítica eleitoral: sustenta que campanhas com artistas, músicas, festas e mensagens otimistas não seriam suficientes para dialogar com eleitores preocupados com emprego, alimentação, segurança, moradia e custo de vida.
Essas questões podem e devem ser debatidas. Uma manifestação cultural não substitui a organização popular, a luta por direitos, a formação política nem a disputa por políticas públicas. Da mesma maneira, não basta reunir pessoas numa praça se não existe continuidade no trabalho político.
O problema aparece quando uma crítica específica a determinadas estratégias se transforma numa desqualificação generalizada da cultura como instrumento de mobilização e consciência social.
A ciranda vira sinônimo de ingenuidade; a música, de distração; a festa popular, de alienação; o artista, de alguém que vive numa bolha. É justamente essa associação automática que merece ser questionada. A reportagem da MultiRio, “Ciranda: história e origens”, destaca o potencial das práticas coletivas de canto e dança para produzir unidade, solidariedade, resistência e politização.
Aqui está o centro da questão. A cultura popular não é apenas uma atividade de lazer realizada depois que as pessoas terminam de trabalhar, nem um adereço que a política utiliza para tornar seus discursos mais atraentes. Ela participa da maneira como as comunidades constroem sua identidade, interpretam o mundo, preservam suas lembranças, enfrentam as dificuldades e encontram forças para continuar vivendo.
No Nordeste, essa dimensão é particularmente visível. O forró, o samba de coco, o reisado, as quadrilhas juninas, a ciranda, os folguedos, os grupos de cultura popular, as festas de padroeiro, os cortejos e os encontros comunitários são espaços de convivência entre gerações, transmissão de conhecimentos, construção de pertencimento e afirmação de identidades. Neles, as pessoas não apenas assistem a uma apresentação: muitas vezes, participam, ensinam, aprendem, organizam, compartilham responsabilidades e reconhecem os outros como parte de uma comunidade.
Isso não significa romantizar a cultura popular, como se todas as manifestações fossem naturalmente democráticas, progressistas ou livres de conflitos. A cultura também pode reproduzir preconceitos e desigualdades. Significa compreender que ela é um terreno de disputa de valores, visões de mundo e projetos de sociedade.
Quando alguém reduz essas experiências a uma ciranda de militantes distantes da realidade, corre o risco de não enxergar o trabalho cotidiano de quem mantém uma biblioteca comunitária, ensina música às crianças, organiza um grupo de dança, preserva a memória dos mais velhos, realiza um sarau na periferia ou reúne jovens para produzir vídeos sobre os problemas do bairro.
É nesse ponto que a expressão pode produzir um efeito político contrário ao que seus críticos dizem desejar: em nome de aproximar a esquerda do povo, acaba desqualificando algumas das práticas pelas quais o povo constrói sua própria vida coletiva.
4. A cultura não é o contrário da luta política
A história brasileira oferece muitos exemplos de aproximação entre cultura e participação política. O teatro popular, a música de protesto, os movimentos estudantis, os grupos de educação popular, as associações comunitárias e as experiências de comunicação alternativa mostram que a criação artística pode contribuir para a formação de consciência crítica e para a organização coletiva.
Paulo Freire e a educação popular
O diálogo, a valorização dos saberes das comunidades e a leitura crítica da realidade são elementos fundamentais da educação popular. A cultura não entra nesse processo como enfeite, mas como parte da experiência concreta a partir da qual as pessoas podem compreender e transformar o mundo.
Augusto Boal e o Teatro do Oprimido
O teatro pode deixar de ser uma apresentação na qual uns falam e outros apenas assistem para se transformar num espaço em que os participantes experimentam possibilidades de intervenção sobre conflitos sociais.
A ciranda como experiência coletiva
Na roda, o indivíduo se reconhece como parte de um conjunto. Isso não produz automaticamente consciência política, mas cria condições de encontro, participação e solidariedade que podem integrar processos mais amplos de organização comunitária.
A cultura não substitui a luta econômica, a organização dos trabalhadores ou a disputa institucional. Mas pode contribuir para que essas lutas encontrem linguagem, memória, identidade e capacidade de mobilização.
5. Quando a esquerda se distancia da cultura popular, deixa espaço para outros projetos
Há outra dimensão importante nesse debate. A necessidade de aproximar a política das preocupações materiais da população é legítima. O trabalhador que enfrenta o preço dos alimentos, a precariedade do emprego, o transporte ruim ou a insegurança não pode ser tratado como se suas dificuldades fossem secundárias diante de qualquer agenda política.
Mas a conclusão não precisa ser abandonar a cultura. Pelo contrário: é preciso compreender como ela se articula com essas preocupações.
Uma quadrilha junina pode discutir as condições de vida de uma comunidade. Uma produção audiovisual feita por jovens pode denunciar problemas de transporte e saneamento. Um grupo de teatro pode abordar a violência doméstica. Uma biblioteca comunitária pode estimular o debate sobre direitos. Um festival pode colocar em evidência artistas locais, movimentar a economia do território e reivindicar investimentos públicos.
O desafio é transformar experiências culturais em oportunidades de formação, organização, comunicação e participação social, sem retirar delas a liberdade criativa, a alegria e o prazer que também lhes dão sentido.
Além disso, a cultura popular não pertence exclusivamente à esquerda. Diferentes correntes políticas disputam seus símbolos, suas tradições e suas formas de expressão. Se os setores progressistas se afastam desses espaços por considerá-los pouco sérios, podem deixar de compreender linguagens e referências que continuam importantes na vida das comunidades.
Isso não autoriza concluir que a direita conquistará automaticamente o espaço abandonado, nem que toda iniciativa cultural produzirá adesão a determinado projeto político. O ponto é outro: quem deseja participar da vida de uma comunidade precisa compreender sua cultura, ouvir suas pessoas e construir relações que não se limitem aos períodos eleitorais.
6. O que isso significa para a Ação Cultural e para os Pontos de Cultura?
A experiência dos Pontos de Cultura ajuda a tornar essa discussão concreta. A Política Nacional de Cultura Viva reconhece iniciativas culturais de base comunitária como parte da política pública, valorizando a diversidade das expressões culturais e a participação social.
Nesse contexto, um Ponto de Cultura não deve ser avaliado somente pela quantidade de apresentações realizadas, pelo público de um evento ou pela capacidade de produzir uma manifestação vistosa nas redes sociais. Também é necessário observar a formação de pessoas, a continuidade das atividades, a articulação comunitária, o fortalecimento das organizações locais e a ampliação do acesso aos direitos culturais.
Para uma organização como a Ação Cultural, que trabalha com juventude, formação audiovisual, comunicação e participação comunitária, essa discussão coloca algumas questões práticas:
Como transformar oficinas culturais em processos continuados de formação e autonomia?
Como assegurar que jovens, idosos, artistas e moradores participem das decisões sobre as atividades?
Como articular cultura, educação, trabalho, economia solidária e políticas sociais?
Como garantir sustentabilidade financeira e institucional para que os grupos não dependam exclusivamente de editais eventuais?
Como fazer com que a experiência cultural fortaleça a capacidade de a própria comunidade formular propostas e reivindicar direitos?
Essas perguntas permitem enfrentar uma crítica legítima — a de que determinadas atividades podem não ter continuidade ou produzir resultados políticos duradouros — sem cair no erro de considerar a cultura uma atividade secundária.
A resposta à fragilidade de uma iniciativa cultural é qualificá-la, ampliar sua capacidade organizativa e fortalecer sua conexão com as necessidades do território, e não presumir que cantar, dançar, celebrar e criar coletivamente sejam atividades incompatíveis com a transformação social.
7. A questão não é escolher entre ciranda e organização política
O debate sobre a “esquerda cirandeira” coloca em confronto duas preocupações que não precisam ser antagônicas: de um lado, a exigência de uma política capaz de enfrentar as condições materiais de vida dos trabalhadores; de outro, o reconhecimento de que a cultura integra a própria experiência social desses trabalhadores.
Uma esquerda que se limite a festas e manifestações simbólicas, sem organização, propostas e continuidade, tem razões para rever suas práticas. Mas uma esquerda que considere a cultura popular uma distração também precisa examinar a distância entre seu discurso e a vida cotidiana das comunidades.
A questão, portanto, não é defender toda manifestação cultural de maneira acrítica, nem aceitar que a expressão “cirandeira” sirva para desqualificar indistintamente artistas, educadores populares, produtores culturais e militantes comunitários.
É perguntar que tipo de política se deseja construir: uma política que chega aos territórios apenas para apresentar suas propostas, pedir votos ou convocar manifestações, ou uma política que também reconhece os saberes existentes nesses lugares, participa de sua vida comunitária e contribui para ampliar as condições de organização e autonomia de seus moradores.
A ciranda não substitui a luta política, mas a luta política tampouco precisa expulsar a ciranda de seu horizonte. A roda pode ser um começo, um encontro, uma linguagem compartilhada e uma experiência de pertencimento. Para que se converta em força transformadora, precisa estar articulada a processos de formação, organização e conquista de direitos — sem perder a humanidade que faz as pessoas quererem estar juntas.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja por que uma parte da esquerda gosta tanto de cirandas, festas e manifestações culturais, mas por que a simples presença dessas expressões provoca tanto desprezo em determinados setores do próprio campo progressista.
Uma política comprometida com a emancipação humana precisa compreender não apenas aquilo que falta ao povo, mas também aquilo que ele já criou para sobreviver, celebrar, lembrar, ensinar, resistir e construir laços de solidariedade.
E precisa reconhecer que o coração da nossa gente não bate somente no ritmo das reivindicações econômicas ou das disputas eleitorais. Bate também no tambor, na sanfona, na voz coletiva, na festa comunitária e na roda em que ninguém precisa ficar de fora.
Referências para aprofundar o debate
1. data_labe — Ciranda não é bagunça. Reportagem sobre o episódio de 2016 e a apropriação pejorativa da expressão.
2. MultiRio — Ciranda: história e origens. Contextualiza a ciranda como manifestação artística, cultural e política.
3. Diário Causa Operária — Esquerda cirandeira só pensa em eleições. Exemplo da crítica que contrapõe manifestações culturais à organização e à luta política.
4. Jornal GGN — Esquerda cirandeira: o que é, qual o problema e por que abandonar o termo. Debate sobre os sentidos políticos e os limites da expressão.
5. MultiRio — referência à reflexão de Sabrina Fernandes sobre cultura, politização e solidariedade, incluída na reportagem sobre a história da ciranda.






