quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Por que defender a democracia e um país mais justo, mais solidário , mais criativo e mais alegre é votar em Lula. Coração Civil (Milton Nascimento) É (Gonzaguinha).

 


É - Gonzaguinha  




É
A gente quer valer o nosso amor
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
A gente quer do bom e do melhor
A gente quer carinho e atenção
A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
A gente quer viver felicidade
É
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Pra passar a mão nela
É
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
É é é é é é é é
É
A gente quer valer o nosso amor
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
A gente quer do bom e do melhor
A gente quer carinho e atenção
A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
A gente quer viver felicidade
É
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Pra passar a mão nela
É
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação

Coração Civil, Gonzaguinha e a teimosia de sonhar um Brasil democrático

Tem canção que a gente escuta, gosta, guarda na memória e, de vez em quando, a vida se encarrega de devolver com outro significado. Não porque a letra tenha mudado, mas porque o mundo, com suas contradições, esperanças e decepções, volta a nos colocar diante das perguntas que ela nunca deixou de fazer. É assim que me chegam, neste outubro de 2026, “Coração Civil”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, na interpretação de CantaVento e Convidados, e “É”, de Gonzaguinha, quando olho para as manifestações que vêm ocupando as ruas brasileiras em defesa da democracia.

O que essas duas canções têm a nos dizer neste momento? Talvez seja justamente aquilo que a política, quando se afasta da vida real das pessoas, corre o risco de esquecer: o desejo de viver bem, de ter direitos respeitados, de criar os filhos com dignidade, de estudar, trabalhar, amar, cantar, descansar e participar das decisões que definem os rumos do país. Parece simples, mas não é. Basta olhar em volta para perceber quanto ainda precisamos caminhar até que essas coisas, tão presentes nos nossos sonhos, deixem de ser privilégios e se tornem direitos efetivamente vividos.

Em “Coração Civil”, a utopia não tem nada de distante da vida cotidiana. Ela aparece na felicidade dos olhos de um pai, na alegria de muita gente, no pão, no vinho, na amizade, no amor e na justiça. Milton Nascimento e Fernando Brant nos convidam a pensar um Brasil em que a liberdade não seja apenas uma palavra bonita nos discursos, mas uma experiência compartilhada, capaz de chegar às famílias, aos bairros, às periferias e aos lugares onde o povo inventa maneiras de sobreviver, conviver e continuar acreditando.

E tem aquele desejo que atravessa a canção e parece nunca perder a atualidade: ver os meninos e o povo no poder. Não é pouca coisa. Afinal, quem decide os destinos do país? Quem tem a oportunidade de participar das decisões? Quem consegue fazer sua voz chegar aos espaços onde são definidas as políticas que afetam a educação, a saúde, o trabalho, a cultura e a vida das comunidades? Quando essas perguntas saem da letra e chegam às ruas, a música deixa de ser apenas música e se transforma numa maneira de interpretar o que estamos vivendo.

Foi o que me chamou a atenção nas manifestações destes últimos dias. Entre as reportagens da Agência Brasil sobre os atos realizados em diferentes cidades, encontrei falas de estudantes e de pessoas de outras gerações que ajudam a compreender por que tanta gente considera importante sair de casa, encontrar outras pessoas e expressar publicamente suas preocupações. No Rio de Janeiro, em 7 de outubro, a estudante de Design Raissa Bispo falou da importância de estar presente para lutar pela soberania e pelos direitos. Em Palmas, no dia seguinte, o jornalista Kaio Costa, ex-aluno da Universidade Federal do Tocantins, resumiu sua disposição de participar numa frase que poderia servir de provocação para muita gente: “Eu não posso me dar o luxo de só assistir a coisa acontecer”.

É isso. A vida pública não pode ser apenas um espetáculo que assistimos pela televisão ou acompanhamos pelas redes sociais, enquanto esperamos que alguém resolva os problemas por nós. Cada pessoa tem seus limites, suas responsabilidades e suas formas de participação, mas a democracia precisa dessa disposição de não entregar inteiramente aos outros a tarefa de decidir o nosso futuro.

É aqui que Gonzaguinha entra nessa conversa com a força de quem conhece a dignidade e as contradições da vida comum. Em “É”, ele não pede privilégios. Quer que o trabalho tenha valor, que o afeto seja respeitado, que as pessoas possam viver com saúde, liberdade e felicidade. E há uma reivindicação que atravessa toda a canção: queremos ser cidadãos, não apenas figurantes de uma história escrita por outros.

Quando o estudante de Direito Paulo Victor de Almeida Coelho, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, reivindica melhores condições para que todos possam estudar e concluir uma universidade pública, o que está em jogo é muito mais do que uma questão educacional. É a possibilidade de construir o próprio caminho, ampliar horizontes e participar da sociedade com mais autonomia. O sonho de uma nação democrática fica pela metade quando a origem social continua determinando quem terá acesso às oportunidades e quem precisará lutar muito mais para chegar aos mesmos lugares.

A estudante de pós-graduação Suelen Geovana, entrevistada pela Agência Brasil durante a manifestação de Copacabana, em 12 de outubro, também relacionou sua presença à defesa da democracia, da educação, da saúde e da igualdade. Sua trajetória, marcada pelo ingresso na universidade pública por meio de cotas, ajuda a lembrar que as políticas de inclusão não são números perdidos em relatórios administrativos. Elas podem representar mudanças concretas na vida de pessoas e famílias que, durante muito tempo, tiveram as portas da universidade praticamente fechadas.

É por isso que a democracia precisa ser discutida também a partir das condições de vida da população. Não basta garantir o direito de escolher representantes se tantas pessoas continuam sem acesso adequado à educação, à saúde, à cultura e às oportunidades de trabalho digno. Tampouco basta reivindicar melhores condições materiais sem reconhecer a importância das liberdades que permitem à sociedade se organizar, questionar governos e defender seus direitos. Uma coisa não elimina a outra. A democracia política e a justiça social precisam caminhar juntas.

Há ainda outra dimensão que me parece importante nessa aproximação entre as canções e as ruas: o encontro das gerações. Na manifestação de Copacabana, a professora aposentada Clara Davidorch, de 87 anos, relacionou sua participação à luta das mulheres pelo direito ao voto e à preocupação com o futuro dos filhos e netos. Sua presença nos lembra que os direitos que hoje parecem naturais foram conquistados por pessoas que, em outros tempos, também precisaram enfrentar resistências e sair às ruas.

A advogada Carolina Estrela, que levou os filhos à manifestação, chamou a atenção para o direito de discordar. E talvez seja uma das lições mais importantes que podemos deixar às novas gerações: democracia não é todo mundo pensar igual, muito menos concordar sempre com quem está no governo ou com quem ocupa a tribuna. É garantir que as diferenças possam ser expressas, que as divergências sejam debatidas e que ninguém precise abrir mão de seus direitos para ser reconhecido como cidadão.

O que essas vozes têm em comum não é necessariamente a mesma visão política, nem uma interpretação idêntica dos acontecimentos. São experiências diferentes, atravessadas por idades, histórias e expectativas próprias. Mas elas nos ajudam a perceber que a democracia ganha sentido quando deixa de ser apenas um assunto de especialistas e passa a fazer parte das preocupações concretas das pessoas.

E a cultura tem muito a ver com isso. Uma manifestação também se faz de canções, cartazes, imagens, encontros e gestos que ajudam a transformar inquietações individuais em expressão coletiva. Quem acompanha a trajetória dos movimentos culturais de base comunitária sabe que a participação não começa nem termina nas grandes mobilizações. Ela se constrói no cotidiano das associações, dos coletivos, dos Pontos de Cultura, dos grupos juvenis e das iniciativas de educação popular, onde as pessoas descobrem, muitas vezes na prática, que podem fazer coisas juntas e interferir na realidade em que vivem.

Em Sergipe, fortalecer essas experiências significa reconhecer que cultura não é enfeite de política pública, nem atividade que deve aparecer apenas nas festas ou nos calendários oficiais. É também formação cidadã, construção de vínculos, preservação da memória e criação de oportunidades para quem historicamente teve menos acesso aos bens e serviços culturais. Quando uma comunidade organiza seu grupo, recupera sua história, realiza uma atividade artística ou reivindica a continuidade de um espaço cultural, está exercitando uma forma de participação que ajuda a dar consistência à democracia.

É claro que ocupar as ruas não resolve tudo. As manifestações podem dar visibilidade a reivindicações, mobilizar pessoas e pressionar instituições, mas a transformação exige continuidade, organização e capacidade de converter demandas em políticas concretas. É preciso acompanhar os governos, participar dos espaços de decisão, fortalecer as organizações sociais e cobrar resultados. O voto tem sua importância, mas não pode ser tratado como uma procuração para que os eleitos façam o que quiserem até a próxima eleição.

Talvez seja justamente aí que “Coração Civil” e “É” se encontrem de maneira mais profunda. Uma nos convida a sonhar com um país em que a justiça e a liberdade sejam parte da vida comum; a outra nos lembra que esse sonho precisa aparecer no respeito aos direitos, nas oportunidades oferecidas à juventude e nas condições para que as pessoas vivam com dignidade. Uma fala da utopia coletiva; a outra nos chama a olhar para as necessidades concretas de cada cidadão.

Gosto de pensar que a utopia não é o contrário da realidade, mas aquilo que nos impede de aceitar a realidade como se ela fosse imutável. Sonhar com um país melhor não significa fechar os olhos para os problemas, nem acreditar que tudo se resolve com boas intenções. Significa reconhecer que as coisas podem ser diferentes e que essa mudança depende também da disposição de agir, de se organizar e de não abandonar a esperança diante das dificuldades.

Afinal, quantas vezes, ao longo da nossa história, direitos que pareciam impossíveis começaram a se tornar realidade porque alguém decidiu não se conformar? Quantas conquistas nasceram de encontros, conversas, mobilizações e da teimosia de gente que não tinha garantias de vitória, mas sabia que ficar de braços cruzados não era a única opção?

Volto, então, àquela imagem de “Coração Civil”: sonhar coisas boas e esperar pelos frutos no quintal. Mas fruto não aparece por milagre. Precisa de terra, cuidado, tempo e trabalho. A democracia também. Precisa de instituições que respeitem os direitos, de políticas públicas que enfrentem as desigualdades e de uma sociedade disposta a participar da construção do seu próprio futuro.

Enquanto isso não se realiza plenamente, cantar continua sendo uma maneira de lembrar o que nos falta e aquilo que não podemos perder de vista. Gonzaguinha nos recorda que queremos viver com liberdade, respeito e cidadania. Milton Nascimento e Fernando Brant nos convidam a não desistir da utopia de um país mais justo, onde o povo tenha voz e a alegria possa ser compartilhada.

No fim das contas, talvez seja essa a conversa que as duas canções mantêm com as manifestações destes dias: a democracia precisa de gente que sonhe, mas também de gente que participe; precisa de direitos escritos, mas igualmente de condições para vivê-los; precisa de memória para reconhecer as conquistas e de esperança para continuar avançando.

E, se o poeta é aquele que sonha o que pode se tornar real, como nos lembra “Coração Civil”, cabe a nós não deixar que o sonho termine quando a música acaba. Porque o Brasil que desejamos não será construído apenas por quem ocupa os palácios ou sobe aos palanques, mas também por quem, nas ruas e nos territórios onde a vida acontece, continua insistindo que a democracia deve servir à liberdade, à justiça e à dignidade de todos.

Fontes para consulta

Agência Brasil — Estudantes fazem atos pelo país em apoio a Lula.

Agência Brasil — Estudantes fazem ato no Rio de Janeiro em defesa de voto em Lula.

Agência Brasil — Milhares de pessoas lotam orla de Copacabana em apoio a Lula.

Agência Brasil — Ato pela reeleição de Lula leva milhares à Avenida Paulista.

O ETERNO AGITO. O jornalista José Teles escreve sobre Jomard Muniz de Brito falecido neste 12 de Outubro de 2026 no Recife.

 Foto de Jomard Muniz de Brito em uma de suas últimas vezes em que esteve com a gente, na Mamede Simões (atrás dele, o poeta Domingos Alexandre). Antes da pandemia. Nos conhecíamos desde que começamos, eu, Bione e Ral a fazer o. Papa-Figo, em 1984. Fosse pra agitar a província ele dava força. 

No começo de 2000, eu escrevia o Do Frevo ao Manguebeat, que teria um capítulo sobre o tropicalismo à pernambucana, que aconteceu praticamente simultâneo ao dos baianos. Aliás, dos dois, o que teve manifesto foi o daqui, e assinado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. No entanto era desdenhado por quem escrevia sobre cultura local. 

Jomard me entregou seus arquivos, de fotos ao documento que o proibia de ensinar na Universidade Federal da Paraíba. Com este livro, também  com capítulo sobre o udigrudi pernambucano dos anos 70, os dois movimentos passaram a ser conhecidos nacionalmente. Jomard me foi sempre grato por isto. 

Tenho um livro de contos inéditos, pesados, influências de Rubem Fonseca, que tirou menção honrosa num concurso da Fundarpe, acho que em 89 (fui um dos vencedores do concurso anterior), Mário Helio era diretor de literatura ou algo assim. Um escritor de que não me lembro mais o nome, num artigo no DP, comentou os vencedores do concurso, e chamou meus contos de chulow e obscenos.

Resolvi publicá-lo. Jomard leu, e escreveu o prefácio, entusiasmado. Depois descobri que o conto que dava título ao livro, O Dia de Matar a Velha, era cópia, inconsciente, de um trecho do romance O Casamento, de Nelson Rodrigues. Perdi o tesão de lançá-lo. Ele ficou irado com a minha desistência, de vez em quando me cobrava o livro.

Enfim, Jomard esteve em todos os agitos acontecidos no Recife, Olinda, e adjacências, desde início dos anos 60. O espaço é curto pra tantas peripécias. Volto a ele. 

CONVITE. Segunda às 20h no Instagram romerojunior4503 teremos uma live sobre a obra e a vida de Jomard Muniz de Britto... Tropicalismo, as relações com Paulo Freire, a universidade e o curso de filosofia, o cinema marginal super8, a poesia e as agitações culturais entre Recife e João Pessoa. Jomard faleceu hoje...





Flávio quer destruir o que faz do Brasil um dos lugares mais maravilhosos do mundo

 Opinião - Folha de São Paulo

Se eleito, senador do PL tentará apagar uma liberdade que existe em poucos países; político quer uma sociedade do medo e tornaria a vida dos pobres mais difícil

Edouard Louis

Escritor francês, é autor de "Para Acabar com Eddy", "História da Violência" e "Quem Matou Meu Pai", publicados no Brasil pela Tusquets.

Estou com medo. Estou com medo porque Flávio Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do mundo.

Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.

No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo de que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.

A sublime e misteriosa floresta amazônica, sem a qual a humanidade não pode sobreviver, e graças à qual a oxigenação do planeta é respirável, o que Flávio Bolsonaro, assim como seu pai fez antes dele, quer destruir entregando-a aos grandes proprietários agrícolas e latifundiários. Ele quer apagar a diversidade cultural e étnica da floresta amazônica.

Toda essa liberdade, que existe em tão poucos países no mundo, Flávio Bolsonaro tentará apagar, dando cada vez mais espaço ao fundamentalismo religioso, opondo-se aos direitos das pessoas transgênero, gays e lésbicas, como fez tantas vezes no Senado e na Câmara, atacando os direitos reprodutivos e a dignidade de mulheres. Ele quer apagar uma liberdade que existe em pouquíssimos lugares do mundo.

O Brasil é também todas as vezes em que vi dois homens se beijando, ou duas mulheres, com total liberdade, na praia, em frente ao mar nas noites de verão, nas bares no Rio ou nas ruas quentes de São Paulo à noite, no samba do trabalhador ou nas areias de Paraty durante o festival de Flip.

Na verdade, todas as vezes que estive no Brasil, vi homens e mulheres se misturando de uma forma única: homens brancos, pretos, indígenas, todos dançando, cantando e rindo nas rodas de samba, celebrando a vida. Essa cultura da alegria, da amizade e da celebração popular, contra a qual a família Bolsonaro sempre declarou guerra aberta, ao atacar o Carnaval ou os desfiles de rua, supostamente ameaçadores e 'ofensivos à família tradicional'.

Eu tenho plena consciência de que, ao evocar minhas lembranças do Brasil e meu conhecimento muito limitado do país, não estou mencionando os problemas enfrentados pela sociedade brasileira, as desigualdades, a violência, a pobreza, a corrupção.

Mas, justamente, Flávio Bolsonaro não vai mitigar e sim agravar todos esses problemas. Bolsonaro quer uma sociedade do medo, da violência, da prisão, do ódio, da polícia, que da mesma forma que seu pai tornou a vida dos mais pobres e vulneráveis ainda mais difícil.
O que Flávio Bolsonaro quer é um Brasil vazio, ou seja, um Brasil esvaziado de tudo que constitui a força e a grandeza do Brasil, sua identidade.

O sonho de Flávio Bolsonaro é um Brasil submisso aos Estados Unidos e a serviço deles, um Brasil em que os bilionários possam continuar a devastar o país em detrimento do povo, um Brasil de prisões, armas de fogo, um Brasil em que o medo reinará, um Brasil em que os brancos terão medo dos negros, os negros da polícia, um Brasil em que os pobres terão medo dos pobres, em que os jornalistas terão medo de se expressar.

Mídia NINJA

O que foi esse ato dos sambistas nos arcos da Lapa?
O samba não se cala e o povo canta junto!

foto: WAGNER RODRIGUES




Coração Civil - CantaVento e Convidados



terça-feira, 13 de outubro de 2026

Uso de IA e vídeos estrangeiros marcam guerra de desinformação após ato na Paulista

Bloqueio logístico em estações de metrô atuou como estopim para depredações e inflamou disputas hiperpartidárias nas redes sociais.
SÃO PAULO — O encerramento da manifestação política pró-Lula na Avenida Paulista, no último domingo, transferiu o embate político das ruas para o campo da segurança pública e da desinformação digital. O balanço dos danos materiais e o bloco do transporte sobre trilhos tornaram-se o centro de uma intensa disputa de versões entre o governo federal e a oposição.
O que houve de vandalismo e depredação depois do ato da Paulista?
Os incidentes de vandalismo foram registrados pela Polícia Militar e pela Companhia do Metropolitano de São Paulo durante o período de dispersão do público, concentrando-se em três estações da Linha 2-Verde: Brigadeiro, Trianon-MASP e Consolação.
De acordo com os relatórios oficiais das autoridades paulistas, os danos ao patrimônio público incluíram a destruição de oito placas de vidro das coberturas de acesso voltadas para a avenida. Na estação Consolação, portões e grades de proteção foram forçados e danificados. Houve ainda registros de pichações nas paredes internas e em composições de trens, além da colagem de adesivos em escadas rolantes e corrimãos. As equipes de manutenção do Metrô e de limpeza urbana da prefeitura iniciaram os reparos na madrugada de segunda-feira. A companhia informou que analisa as imagens do sistema de monitoramento para identificar os suspeitos.
Em que medida isso foi superdimensionado pela grande mídia e grupos políticos contrários à manifestação, inclusive com publicação de fake news?
Embora as depredações tenham sido confirmadas pelos órgãos de segurança, agências de checagem de fatos comprovaram que canais digitais e lideranças de oposição recorreram à disseminação de conteúdos falsos e manipulados para inflar a gravidade dos episódios e desgastar politicamente os organizadores do ato.
As investidas de desinformação levaram a coligação governista a acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou a remoção imediata dos conteúdos enganosos. Paralelamente, abriu-se um debate sobre o enquadramento da imprensa tradicional: governistas acusaram veículos de comunicação de utilizarem atos isolados da dispersão para criminalizar todo o protesto, enquanto críticos de direita apontaram uma suposta tentativa da mídia de atenuar os prejuízos materiais.
🛑 FACT CHECK: O caso do vídeo falso do Chile compartilhado por Tarcísio
Um dos conteúdos de maior alcance compartilhados pela oposição após o ato de domingo foi um vídeo publicado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em suas redes sociais. As imagens mostravam uma jovem ruiva consumindo substâncias ilícitas no meio de uma multidão, com a legenda sugerindo que o flagrante refletia o comportamento dos manifestantes na Avenida Paulista.
Os Fatos: Agências de checagem independentes, como o Aos Fatos e o Estadão Verifica, realizaram a busca reversa dos quadros do vídeo e constataram que a gravação é antiga e foi feita em Santiago, no Chile, durante protestos estudantis ocorridos semanas antes. O material não possui qualquer vínculo geográfico ou temporal com o comício pró-Lula em São Paulo. Após a repercussão e a contestação jurídica por parte da coligação governista, a postagem foi apagada do perfil oficial do governador.


🤖 FACT CHECK: Fotos forjadas por Inteligência Artificial simulam pichações
Além da reciclagem de vídeos antigos, a disputa digital ganhou contornos de alta tecnologia com a circulação de imagens simuladas digitalmente. Perfis hiperpartidários de oposição viralizaram a foto de uma operária de limpeza urbana apagando pichações com dizeres ofensivos dentro da estação Trianon-MASP, atribuindo o cenário ao rastro de destruição do último domingo.
Os Fatos: A imagem foi submetida a ferramentas de análise forense digital por plataformas de checagem como a Lupa. Os testes apontaram mais de 90% de probabilidade de o arquivo ter sido gerado artificialmente por Inteligência Artificial (IA). Especialistas identificaram "alucinações" típicas de softwares de geração de imagem, como deformações nos dedos da trabalhadora, texturas inconsistentes nos azulejos da parede e letras com traçados geometricamente impossíveis para uma pichação manual.

A imagem acima fez o que a extrema direita atribui aos organizadores do ato deste domingo na Paulista, O que significar dizer,  acusaram estes de transformarem o ato verde e amarelo em ato vermelho  por meio de inteligência artificial, quando a verdade é o inverso. 

Em que medida o fechamento de estações do metrô depois das manifestações contribuiu para isso?
A estratégia de fluxo adotada pela operação do metrô atuou como um fator de pressão logística que desencadeou os conflitos físicos e, posteriormente, alimentou as teses políticas de ambos os lados. Por volta de 12h50, a estação Trianon-MASP foi fechada sob a justificativa de controle de multidões, gerando um "efeito funil" em direção aos acessos vizinhos.
Ao fim do comício, a tentativa da segurança metroviária de restringir o fluxo e fechar os portões das estações Consolação e Paulista encurralou milhares de usuários em situação de exaustão e altas temperaturas. O atrito direto entre passageiros impedidos de embarcar e os agentes de segurança foi o estopim para que grupos forçassem as estruturas de ferro e quebrassem os painéis de vidro.
O caos no transporte foi imediatamente instrumentalizado na arena política. A esquerda classificou o fechamento como uma falha operacional deliberada ou "sabotagem" por parte da gestão estadual para prejudicar o retorno dos manifestantes. Por outro lado, parlamentares de oposição inverteram a cronologia dos fatos na internet, afirmando que o metrô havia sido paralisado unicamente em decorrência da violência da militância, utilizando o cenário de aglomeração nas plataformas para espalhar falsos alertas de saques e arrastões.


Como Lula veio e deu a mão para construirmos o novo nordeste. A canção de Lucas Santtana e as canções e falas vigorosas dos artistas das CEBs e Pastorais Sociais, Roberto Malvezzi e Zé Vicente.



🌵💧 Do sertão que vira cisterna à juventude que ocupa a rua: o Nordeste não é só paisagem, é projeto de vida.

A canção de Lucas Santtana com Duda Beat, a força de Zé Vicente e Roberto Malvezzi (Gogó) e as lutas das CEBs e Pastorais Sociais nos lembram: a seca não precisa ser sentença. Com água de chuva, cisternas, organização popular e políticas públicas, é possível conviver com o Semiárido — com dignidade, comida e autonomia.

No segundo turno de 2026, essa energia tomou as ruas: juventude pela democracia, educação pública, fim da escala 6x1 e valorização da cultura popular. Como cantam, “ninguém vai ser feliz se andar sozinho”. A esperança é jovem, e a música nordestina não se cala. ✊🎶

Que este post seja memória e convite: defender a democracia é defender a água, o pão, a arte e o direito de existir no próprio território.

👉 Compartilhe e marque quem acredita nesse Brasil.

🎵 Referências: Lucas Santtana ft. Duda Beat – “Meu Primeiro Amor”; Zé Vicente – “Esperança Jovem” e “Ei, Nós Aqui de Novo”; Roberto Malvezzi – “Água de Chuva”.

#Nordeste #Semiárido #ÁguaDeChuva #Cisternas #Democracia #JuventudeNaRua #CulturaPopular #ZéVicente #RobertoMalvezzi #LucasSanttana #DudaBeat #Lula #CEBs #PastoraisSociais #Brasil

 Nasci menina na cidade grande

A maior da América do Sul

Comia hambúrguer, via filme gringo

Falava inglês e ouvia Blur

Um belo dia já adolescente

No Remelexo conheci forró

E desde então é coração saudade

Foi, foi, foi

Foi meu primeiro amor

Foi, foi, foi

E até hoje eu danço esse calor


Nasci menino longe da cidade

No semiárido lá do sertão

Não tinha água tão pouco comida

Até que Lula veio e deu a mão

Um belo dia já adolescente

No Remelexo fui fazer forró

E conheci uma galeguinha linda

Foi, foi, foi

Foi meu primeiro amor

Foi, foi, foi

E até hoje eu danço esse calor


Será que pode um nordestino pobre

E uma menina classe média, sim

Juntar os trapos, romper as barreiras

De um país que ainda pensa assim

Hoje moramos na cidade grande

Mas nossa casa é do interior

E nossos filhos cada vez mais lindos

Foi, foi, foi

Foi meu primeiro amor

Foi, foi, foi

E até hoje eu danço esse calor


Roberto Malvezzi (Gogó)


Zé Vicente






Zé Vicente - Esperança Jovem



Ouça o álbum Nativo Aqui

Ouça o álbum Presentes Aqui


Água de Chuva


Ouça Álbum Belo Chico 2. Aqui 


Ouça Álbum   Belo Chico 1. Aqui


Leia também:  

Roberto Malvezzi (Gogó)


1. A Música e a IA — Roberto Malvezzi (Gogó)

14 de agosto de 2026

Publicação que aborda a crítica de Gogó à inteligência artificial na produção musical, relacionando tecnologia, autoria, criatividade e direitos dos artistas. Inclui também um perfil biográfico do compositor.

Ler o post no Blog da Cultura

Roberto Malvezzi (Gogó)

2. Roberto Malvezzi, o Gogó, de volta a Aracaju para formação “O Cuidado da Casa Comum como Missão”

4 de março de 2024

Convite para a atividade formativa realizada em abril de 2024, apresentando Gogó como teólogo, filósofo, cantor, compositor, escritor e estudioso das questões sociais e ambientais.

Ler o post no Blog da Cultura

Ação Cultural SE

Zé Vicente

Zé Vicente | Spotify

1. Zé Vicente em Sergipe — Memória Histórica

14 de agosto de 2020

É um registro especialmente importante para a memória da Ação Cultural. Assinado por Zezito de Oliveira, recupera passagens de Zé Vicente por Sergipe, incluindo apresentações em Propriá, em 1994, em Aracaju, em 2004, e sua participação na II Jornada Ecologia e Espiritualidade, em 2012. Também registra a relação do cantor com as pastorais, as comunidades de base e os movimentos populares.

Ler o post no Blog da Cultura

Memória Histórica

Deus se vestiu de humanidade: Zé Vicente e Cantores de Deus cantam a Fraternidade e a Moradia | Música | Universo Paulinas - Tudo em um só lugar

2. Lançamento de Zé Vicente neste 17 de fevereiro de 2024 em clima de Fraternidade e Amizade Social — Canção Urgente

17 de fevereiro de 2024

Publicação dedicada ao lançamento de Canção Urgente, relacionando a produção artística de Zé Vicente à fraternidade, à amizade social e à reflexão sobre o papel da arte na construção de outro mundo possível.

Ler o post no Blog da Cultura

Canção Urgente

 “As palavras do poeta e cantautor Zé Vicente nesse momento…”, publicado em 11 de fevereiro de 2025, com o texto Súplica para esta hora.

Ação Cultura





segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Esquerda cirandeira: quando a crítica à cultura popular afasta a esquerda do coração da nossa gente

 A expressão “esquerda cirandeira” é utilizada em determinados debates políticos como uma provocação dirigida a setores da esquerda que valorizam a ciranda, o maracatu, o samba, o forró, as festas populares, as manifestações comunitárias e outras expressões da cultura popular. Dependendo de quem a utiliza e do contexto, pode ser uma crítica à suposta excessiva valorização da dimensão festiva da política, uma ironia contra militantes ligados à cultura ou uma tentativa de desqualificar uma esquerda identificada com práticas culturais populares.

É importante, porém, fazer uma distinção: não se deve tratar a expressão como se tivesse um único significado, uma origem histórica consensualmente estabelecida ou um autor reconhecido. Para esclarecer sua procedência, é necessário localizar os contextos concretos em que ela apareceu, quem a empregou e contra quem foi dirigida.

A questão política e cultural que está por trás desse debate é mais ampla: o que acontece quando uma parte da esquerda passa a olhar com desconfiança para as manifestações culturais por meio das quais o povo celebra a vida, constrói vínculos, expressa sua religiosidade, preserva sua memória e reconhece a si mesmo?

🔥População faz campanha pra Lula no transporte público, onde o trabalhador passa boa parte do dia🔥



1. Qual é a origem da expressão?

A reportagem do data_labe, intitulada “Ciranda não é bagunça”, reconstitui um episódio importante para entender a popularização do termo.

BRAZIL-CRISIS-CONGRESS-REMOVAL-CUNHA

2016 — uma roda de ciranda em disputa

Durante manifestações contra o impeachment de Dilma Rousseff, integrantes do Partido da Causa Operária (PCO) impediram militantes do PSOL de participar de uma roda de ciranda. O episódio contribuiu para a circulação da expressão como meme depreciativo contra setores da esquerda identificados com manifestações culturais e formas festivas de mobilização.


No 1º de Maio, trabalhadores foram às ruas do país contra inflação, desemprego e Bolsonaro - MST

2019 — a crítica ganha contornos ideológicos

Em artigo publicado no Diário Causa Operária, Nivaldo Orlandi contrapôs a ciranda e outras ações culturais àquilo que considera luta política efetiva. A crítica expressava uma concepção segundo a qual atividades culturais e mobilizações simbólicas não seriam suficientes para enfrentar o poder político e econômico.


Samba Schools Make "Carna-Lula" To Show Support To The Leftist Leader

2022–2024 — o termo chega ao debate eleitoral

A expressão também passou a criticar campanhas com artistas, vídeos, músicas e manifestações simbólicas, sob o argumento de que essas iniciativas não alcançariam o eleitorado popular ou seriam insuficientes para disputar votos. Em 2024, o deputado André Janones voltou a empregar o rótulo ao criticar setores do próprio campo político.

Portanto, é possível identificar uma trajetória documentada de circulação do termo desde 2016, mas convém distinguir a origem do episódio que ajudou a popularizá-lo da autoria exata da expressão. A documentação consultada não permite atribuir com segurança sua criação a uma única pessoa.

2. O que significa, afinal, ser chamado de “esquerda cirandeira”?

A expressão funciona como um rótulo político que reúne críticas diferentes, nem sempre compatíveis entre si.

  • A crítica à espontaneidade: acusa determinados grupos de acreditar que cantar, dançar, celebrar e produzir encontros seriam suficientes para transformar a sociedade.

  • A crítica ao ativismo simbólico: questiona manifestações que, embora expressem solidariedade e valores políticos, não se convertem necessariamente em organização duradoura, pressão institucional ou conquistas concretas.

  • A crítica de classe: acusa setores culturais, artistas, intelectuais e militantes universitários de estarem distantes das dificuldades materiais dos trabalhadores.

  • A crítica eleitoral: sustenta que campanhas com artistas, músicas, festas e mensagens otimistas não seriam suficientes para dialogar com eleitores preocupados com emprego, alimentação, segurança, moradia e custo de vida.

Essas questões podem e devem ser debatidas. Uma manifestação cultural não substitui a organização popular, a luta por direitos, a formação política nem a disputa por políticas públicas. Da mesma maneira, não basta reunir pessoas numa praça se não existe continuidade no trabalho político.

O problema aparece quando uma crítica específica a determinadas estratégias se transforma numa desqualificação generalizada da cultura como instrumento de mobilização e consciência social.

A ciranda vira sinônimo de ingenuidade; a música, de distração; a festa popular, de alienação; o artista, de alguém que vive numa bolha. É justamente essa associação automática que merece ser questionada. A reportagem da MultiRio, “Ciranda: história e origens”, destaca o potencial das práticas coletivas de canto e dança para produzir unidade, solidariedade, resistência e politização.

3. O que essa crítica não compreende sobre o coração da nossa gente?

Aqui está o centro da questão. A cultura popular não é apenas uma atividade de lazer realizada depois que as pessoas terminam de trabalhar, nem um adereço que a política utiliza para tornar seus discursos mais atraentes. Ela participa da maneira como as comunidades constroem sua identidade, interpretam o mundo, preservam suas lembranças, enfrentam as dificuldades e encontram forças para continuar vivendo.

No Nordeste, essa dimensão é particularmente visível. O forró, o samba de coco, o reisado, as quadrilhas juninas, a ciranda, os folguedos, os grupos de cultura popular, as festas de padroeiro, os cortejos e os encontros comunitários são espaços de convivência entre gerações, transmissão de conhecimentos, construção de pertencimento e afirmação de identidades. Neles, as pessoas não apenas assistem a uma apresentação: muitas vezes, participam, ensinam, aprendem, organizam, compartilham responsabilidades e reconhecem os outros como parte de uma comunidade.

Isso não significa romantizar a cultura popular, como se todas as manifestações fossem naturalmente democráticas, progressistas ou livres de conflitos. A cultura também pode reproduzir preconceitos e desigualdades. Significa compreender que ela é um terreno de disputa de valores, visões de mundo e projetos de sociedade.

Quando alguém reduz essas experiências a uma ciranda de militantes distantes da realidade, corre o risco de não enxergar o trabalho cotidiano de quem mantém uma biblioteca comunitária, ensina música às crianças, organiza um grupo de dança, preserva a memória dos mais velhos, realiza um sarau na periferia ou reúne jovens para produzir vídeos sobre os problemas do bairro.

É nesse ponto que a expressão pode produzir um efeito político contrário ao que seus críticos dizem desejar: em nome de aproximar a esquerda do povo, acaba desqualificando algumas das práticas pelas quais o povo constrói sua própria vida coletiva.

4. A cultura não é o contrário da luta política

A história brasileira oferece muitos exemplos de aproximação entre cultura e participação política. O teatro popular, a música de protesto, os movimentos estudantis, os grupos de educação popular, as associações comunitárias e as experiências de comunicação alternativa mostram que a criação artística pode contribuir para a formação de consciência crítica e para a organização coletiva.

SOBRE OS CÍRCULOS DE CULTURA EM PAULO FREIRE - Por Vera Dantas e Ângela Linhares

Paulo Freire e a educação popular

O diálogo, a valorização dos saberes das comunidades e a leitura crítica da realidade são elementos fundamentais da educação popular. A cultura não entra nesse processo como enfeite, mas como parte da experiência concreta a partir da qual as pessoas podem compreender e transformar o mundo.

Augusto Boal e a imaginação no poder | Outras Palavras

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido

O teatro pode deixar de ser uma apresentação na qual uns falam e outros apenas assistem para se transformar num espaço em que os participantes experimentam possibilidades de intervenção sobre conflitos sociais.

Pertencer à ciranda - Ocupação

A ciranda como experiência coletiva

Na roda, o indivíduo se reconhece como parte de um conjunto. Isso não produz automaticamente consciência política, mas cria condições de encontro, participação e solidariedade que podem integrar processos mais amplos de organização comunitária.

Essas experiências ajudam a compreender uma questão essencial: a luta política não acontece apenas nos sindicatos, nos partidos, nos parlamentos, nas greves ou nas campanhas eleitorais. Ela também se desenvolve nos territórios em que as pessoas se encontram, compartilham conhecimentos, produzem narrativas sobre suas vidas e descobrem que problemas aparentemente individuais têm raízes coletivas.

A cultura não substitui a luta econômica, a organização dos trabalhadores ou a disputa institucional. Mas pode contribuir para que essas lutas encontrem linguagem, memória, identidade e capacidade de mobilização.

5. Quando a esquerda se distancia da cultura popular, deixa espaço para outros projetos

Há outra dimensão importante nesse debate. A necessidade de aproximar a política das preocupações materiais da população é legítima. O trabalhador que enfrenta o preço dos alimentos, a precariedade do emprego, o transporte ruim ou a insegurança não pode ser tratado como se suas dificuldades fossem secundárias diante de qualquer agenda política.

Mas a conclusão não precisa ser abandonar a cultura. Pelo contrário: é preciso compreender como ela se articula com essas preocupações.

Uma quadrilha junina pode discutir as condições de vida de uma comunidade. Uma produção audiovisual feita por jovens pode denunciar problemas de transporte e saneamento. Um grupo de teatro pode abordar a violência doméstica. Uma biblioteca comunitária pode estimular o debate sobre direitos. Um festival pode colocar em evidência artistas locais, movimentar a economia do território e reivindicar investimentos públicos.

O desafio é transformar experiências culturais em oportunidades de formação, organização, comunicação e participação social, sem retirar delas a liberdade criativa, a alegria e o prazer que também lhes dão sentido.

Além disso, a cultura popular não pertence exclusivamente à esquerda. Diferentes correntes políticas disputam seus símbolos, suas tradições e suas formas de expressão. Se os setores progressistas se afastam desses espaços por considerá-los pouco sérios, podem deixar de compreender linguagens e referências que continuam importantes na vida das comunidades.

Isso não autoriza concluir que a direita conquistará automaticamente o espaço abandonado, nem que toda iniciativa cultural produzirá adesão a determinado projeto político. O ponto é outro: quem deseja participar da vida de uma comunidade precisa compreender sua cultura, ouvir suas pessoas e construir relações que não se limitem aos períodos eleitorais.

6. O que isso significa para a Ação Cultural e para os Pontos de Cultura?

A experiência dos Pontos de Cultura ajuda a tornar essa discussão concreta. A Política Nacional de Cultura Viva reconhece iniciativas culturais de base comunitária como parte da política pública, valorizando a diversidade das expressões culturais e a participação social.

Nesse contexto, um Ponto de Cultura não deve ser avaliado somente pela quantidade de apresentações realizadas, pelo público de um evento ou pela capacidade de produzir uma manifestação vistosa nas redes sociais. Também é necessário observar a formação de pessoas, a continuidade das atividades, a articulação comunitária, o fortalecimento das organizações locais e a ampliação do acesso aos direitos culturais.

Para uma organização como a Ação Cultural, que trabalha com juventude, formação audiovisual, comunicação e participação comunitária, essa discussão coloca algumas questões práticas:

  • Como transformar oficinas culturais em processos continuados de formação e autonomia?

  • Como assegurar que jovens, idosos, artistas e moradores participem das decisões sobre as atividades?

  • Como articular cultura, educação, trabalho, economia solidária e políticas sociais?

  • Como garantir sustentabilidade financeira e institucional para que os grupos não dependam exclusivamente de editais eventuais?

  • Como fazer com que a experiência cultural fortaleça a capacidade de a própria comunidade formular propostas e reivindicar direitos?

Essas perguntas permitem enfrentar uma crítica legítima — a de que determinadas atividades podem não ter continuidade ou produzir resultados políticos duradouros — sem cair no erro de considerar a cultura uma atividade secundária.

A resposta à fragilidade de uma iniciativa cultural é qualificá-la, ampliar sua capacidade organizativa e fortalecer sua conexão com as necessidades do território, e não presumir que cantar, dançar, celebrar e criar coletivamente sejam atividades incompatíveis com a transformação social.

7. A questão não é escolher entre ciranda e organização política

O debate sobre a “esquerda cirandeira” coloca em confronto duas preocupações que não precisam ser antagônicas: de um lado, a exigência de uma política capaz de enfrentar as condições materiais de vida dos trabalhadores; de outro, o reconhecimento de que a cultura integra a própria experiência social desses trabalhadores.

Uma esquerda que se limite a festas e manifestações simbólicas, sem organização, propostas e continuidade, tem razões para rever suas práticas. Mas uma esquerda que considere a cultura popular uma distração também precisa examinar a distância entre seu discurso e a vida cotidiana das comunidades.

A questão, portanto, não é defender toda manifestação cultural de maneira acrítica, nem aceitar que a expressão “cirandeira” sirva para desqualificar indistintamente artistas, educadores populares, produtores culturais e militantes comunitários.

É perguntar que tipo de política se deseja construir: uma política que chega aos territórios apenas para apresentar suas propostas, pedir votos ou convocar manifestações, ou uma política que também reconhece os saberes existentes nesses lugares, participa de sua vida comunitária e contribui para ampliar as condições de organização e autonomia de seus moradores.

A ciranda não substitui a luta política, mas a luta política tampouco precisa expulsar a ciranda de seu horizonte. A roda pode ser um começo, um encontro, uma linguagem compartilhada e uma experiência de pertencimento. Para que se converta em força transformadora, precisa estar articulada a processos de formação, organização e conquista de direitos — sem perder a humanidade que faz as pessoas quererem estar juntas.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja por que uma parte da esquerda gosta tanto de cirandas, festas e manifestações culturais, mas por que a simples presença dessas expressões provoca tanto desprezo em determinados setores do próprio campo progressista.

Uma política comprometida com a emancipação humana precisa compreender não apenas aquilo que falta ao povo, mas também aquilo que ele já criou para sobreviver, celebrar, lembrar, ensinar, resistir e construir laços de solidariedade.

E precisa reconhecer que o coração da nossa gente não bate somente no ritmo das reivindicações econômicas ou das disputas eleitorais. Bate também no tambor, na sanfona, na voz coletiva, na festa comunitária e na roda em que ninguém precisa ficar de fora.

Referências para aprofundar o debate

1. data_labe — Ciranda não é bagunça. Reportagem sobre o episódio de 2016 e a apropriação pejorativa da expressão.

data_labe

2. MultiRio — Ciranda: história e origens. Contextualiza a ciranda como manifestação artística, cultural e política.

multi.rio

3. Diário Causa Operária — Esquerda cirandeira só pensa em eleições. Exemplo da crítica que contrapõe manifestações culturais à organização e à luta política.

Diário Causa Operária

4. Jornal GGN — Esquerda cirandeira: o que é, qual o problema e por que abandonar o termo. Debate sobre os sentidos políticos e os limites da expressão.

Jornal GGN

5. MultiRio — referência à reflexão de Sabrina Fernandes sobre cultura, politização e solidariedade, incluída na reportagem sobre a história da ciranda.

multi.rio