terça-feira, 15 de setembro de 2026

Artigos e Notas relativas as discussões sobre a Sala de Cinema Walmir Silveira

 Nota do Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe sobre a Sala de Cinema Walmir Almeida  - 14/09/2026

O Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe segue acompanhando, com preocupação, as discussões sobre a Sala de Cinema Walmir Almeida, equipamento cultural público que integra o Centro Cultural de Aracaju.

1. Contexto histórico e institucional

Antes de discutir a situação atual, é preciso compreender o contexto em que a sala está inserida.

O prédio da antiga Alfândega, localizado na Praça General Valadão, é tombado pelo Decreto Estadual nº 21.765/2003. Foi doado à Prefeitura de Aracaju em 2005 e posteriormente reformado com recursos públicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em 2014, passou a funcionar como Centro Cultural, constituído por salas para oficinas, sala de exposição, um teatro e uma sala de exibição nomeada Sala Walmir Almeida.

Compreender esse quadro é importante para pensar a utilização da sala, pois ela não deve ser compreendida de forma isolada, mas como parte de uma estrutura pública para a democratização do acesso e o fortalecimento da circulação e da produção audiovisual em Aracaju.

É importante destacar que, embora não operasse de forma comercial, com uma programação diária de exibições fílmicas, a Sala Walmir Almeida funcionou abrigando diversas mostras e festivais de cinema da cidade, além de exibições institucionais promovidas pela gestão municipal, inclusive para estudantes da rede pública. Em 2017, passou a abrigar também o Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira (NPD-OV), importante espaço de formação e desenvolvimento do audiovisual no município.

2. A necessidade de investimentos e a Lei Paulo Gustavo

Ao longo dos anos, tornou-se evidente a necessidade de investimentos na manutenção e modernização da sala. O sistema de som e o projetor deixaram de funcionar adequadamente, e outros problemas de infraestrutura e manutenção também passaram a ser percebidos em diferentes áreas do prédio.

Em diversas ocasiões, o Fórum Permanente do Audiovisual chamou a atenção da gestão para a necessidade de investimentos e de uma reforma no espaço. O não atendimento das solicitações sempre tinha como argumento a falta de recursos.

Com a Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), abriu-se uma possibilidade concreta de destinação de recursos para recuperação e modernização da Sala Walmir Almeida. É importante, entretanto, lembrar a origem e a finalidade desses recursos. A verba destinada, no âmbito do Eixo II, para a manutenção, digitalização, reforma e modernização de salas de cinema é oriunda do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e possui regras de aplicação e destinação estabelecidas pela legislação e pelos instrumentos que regulamentam sua execução.

3. O Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju

Em Aracaju, a regulamentação foi regida pelo Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju, que objetivava selecionar uma Organização da Sociedade Civil (OSC), a fim de firmar Termo de Colaboração com a Funcaju para a adequação da Sala de Cinema Walmir Almeida, bem como para a gestão da programação do espaço por 12 (doze) meses, no valor de R$ 668.059,15 (seiscentos e sessenta e oito mil, cinquenta e nove reais e quinze centavos).

O edital estabelece uma série de condições que precisam ser consideradas ao analisar a atual situação da sala. Entre as exigências para a apresentação da proposta estavam:

Planejamento Técnico;

Planejamento Financeiro, incluindo o valor global e a previsão de captação de recursos complementares, como patrocínios e recursos da Lei Rouanet, outros editais ou emendas parlamentares;

Cronograma de Trabalho;

Programação mínima de quatro exibições por semana;

Apresentação de uma lista tríplice para a escolha da Diretoria Artística, composta por dois profissionais indicados pela OSC e um servidor da Funcaju.

Pelos termos do edital, os bens permanentes adquiridos são, em regra, de titularidade da Administração Pública e, após o término do termo, a Administração decide se os mantém, se os doa à OSC ou se os doa a terceiros para fins de interesse social.

Também é importante observar o item 3.3 do edital, que trata da governança do espaço, pois estabelece a criação de uma Coordenação Gestora da Sala, formada pela Diretoria Executiva, uma Diretoria Artística e um representante da própria OSC. Previa ainda que as diretrizes executivas da sala fossem definidas conjuntamente.

Esse entendimento é fundamental para a compreensão de que a parceria firmada não se trata da transferência da gestão integral, autônoma e por tempo ilimitado de um equipamento público para uma organização da sociedade civil. Trata-se da execução de um objeto específico, por prazo determinado, submetida às condições estabelecidas no referido edital, no Termo de Colaboração e à governança compartilhada prevista para o espaço.

4. A instituição contemplada

A instituição contemplada no edital foi o Terreiro Centro São Lázaro, com o qual foi firmado um termo de colaboração. Ou seja, a Instituição Terreiro São Lázaro foi a responsável pela execução do objeto do edital: adequar a Sala de Cinema e gerir sua programação por 12 (doze) meses.

Outro ponto importante é que, de acordo com as disposições da Lei nº 13.019/2014 (MROSC), que rege as organizações sem fins lucrativos e está prevista no Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju, o objetivo da parceria deve ser a realização de atividades sem fins lucrativos, uma vez que sua execução do objeto só ocorre por já haver verba pública para tal.

Apesar do que está disposto no edital, o Terreiro São Lázaro firmou uma parceria com a AVBR Produções e passaram a desenvolver as atividades de forma conjunta. Essa parceria tornou possível a transformação da Sala Walmir Almeida no “Cinema do Centro”, uma sala de cinema de rua, mas com viés comercial.

Por meio dessa parceria, a sala recebeu um projetor digital DCP proveniente de outro projeto contemplado com recursos públicos do audiovisual: a AVBR Produções foi contemplada no Edital nº 06/2023 — Tarcísio Duarte, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe — FUNCAP/SE, também do Eixo II, nas categorias 2.1. Digitalização de Sala de Cinema, no valor de R336.000  ode Sala de Cinema, no valor de R 204.835,81 (duzentos e quatro mil, oitocentos e trinta e cinco reais e oitenta e um centavos).

A situação merece atenção porque envolve a utilização de recursos públicos provenientes de diferentes instrumentos de fomento e sua aplicação em um mesmo equipamento cultural. Mas antes de fazer qualquer apontamento, é necessário compreender com clareza:

a) quais foram os objetos de cada edital;

b) quais obrigações foram assumidas pelos respectivos contemplados;

c) de que forma os equipamentos e recursos foram incorporados à Sala Walmir Almeida;

d) qual será a utilização da sala agora, com o fim do termo de colaboração.

5. A Audiência Pública de julho de 2026

Em 17 de julho de 2026, durante Audiência Pública realizada pela Secretaria de Cultura de Aracaju, no Centro Cultural, a gestão municipal informou sobre o fim do termo de colaboração, apresentou as possibilidades de realização de um novo chamamento público e discutiu formas de participação dos agentes culturais na gestão da Sala Walmir Almeida.

Na ocasião, também foi anunciado que o próximo edital seria realizado com recursos próprios da Prefeitura, e não com recursos federais, e que a Sala seria mantida com vocação para a exibição cinematográfica. A gestão informou ainda que a publicação do novo edital estava prevista para acontecer até o final de agosto, fato que não ocorreu.

Entretanto, na audiência não foram apresentadas de forma clara as diretrizes para o novo modelo de funcionamento da Sala Walmir Almeida. Permanecerá uma parceria com uma Organização da Sociedade Civil, nos moldes do Termo de Colaboração anteriormente adotado? Será estabelecido outro instrumento de parceria com uma instituição ou empresa? Será adotado um modelo de gestão compartilhada, envolvendo o poder público e agentes culturais?

A definição do modelo é fundamental para garantir a continuidade das políticas públicas e a clareza quanto às responsabilidades da gestão municipal e dos eventuais parceiros, especialmente considerando a natureza pública do equipamento e os investimentos já realizados na Sala Walmir Almeida.

6. Posicionamento do Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe

Diante desse cenário, o Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe entende que o debate sobre o futuro da Sala Walmir Almeida precisa ser realizado de forma pública, transparente, fundamentada e com urgência. Principalmente, que a definição de seu modelo de gestão e de sua programação deve considerar a vocação original e a função pública do equipamento, garantindo uma curadoria que contemple a diversidade da produção cinematográfica nacional e internacional, especialmente obras que não encontram espaço no circuito predominantemente ocupado pelo cinema blockbuster.

A Sala também deve estabelecer formas gratuitas de utilização, visto o caráter público do espaço, para a realização de atividades promovidas por cineclubes, festivais, mostras e demais iniciativas do setor audiovisual de Aracaju, ampliando a circulação de obras, a formação de público e o acesso da população a diferentes cinematografias.

Mais do que definir quem irá administrar o espaço, é fundamental estabelecer o mais rápido possível qual será a finalidade da Sala Walmir Almeida. Por se tratar de um equipamento público concebido e estruturado para a exibição cinematográfica, sua utilização deve preservar essa finalidade, não permitindo que sua função de sala de cinema seja desvirtuada ou subordinada a outros usos que comprometam sua vocação cultural e audiovisual.

Eventuais parcerias firmadas pela gestão pública devem, portanto, contribuir para o fortalecimento da sala como espaço de exibição, formação, circulação e democratização do acesso ao cinema.

Dessa forma, compreendemos que a notícia do encerramento das atividades do “Cinema do Centro” gera preocupação e apreensão entre o público e o setor audiovisual. Isso porque, ao longo da vigência da parceria, não se observou a implementação, pela Prefeitura de Aracaju, da Coordenação Gestora prevista no edital, estrutura que deveria assegurar a participação conjunta da gestão pública e da OSC na definição das diretrizes do espaço.

Soma-se a isso a ausência de uma definição, em tempo hábil, sobre o modelo que sucederia o Termo de Colaboração. Como consequência, houve a interrupção das atividades da sala, sem que estivesse definida a transição para um novo modelo de gestão.

Para o Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe, uma transição dessa natureza deveria ter sido planejada, discutida com antecedência, sem que as atividades fossem interrompidas, especialmente por se tratar de um equipamento cultural público de extrema importância para o setor cultural.

Reforçamos, portanto, a urgência da publicação do próximo edital, que deve estabelecer um modelo de gestão que não se dissocie da finalidade cinematográfica e pública da Sala Walmir Almeida, assegurando uma programação diversa e o compromisso com a exibição da produção cinematográfica nacional e internacional, especialmente de obras que não encontram espaço nas grandes redes de cinema.

Esse modelo também deve definir com clareza as responsabilidades pela gestão dos bens e equipamentos instalados no espaço, garantindo sua preservação e utilização em benefício da população e do setor audiovisual.

A Sala Walmir Almeida é patrimônio público e integra uma política cultural construída ao longo de anos. Seu futuro, portanto, não deve ser definido apenas a partir de quem irá administrá-la, mas principalmente a partir da sua função pública e da sua vocação cinematográfica.

Qualquer modelo de gestão ou parceria deverá assegurar que o espaço permaneça acessível à população e ao setor audiovisual, fortalecendo a exibição cinematográfica, a formação de público, a circulação da produção nacional e internacional e o desenvolvimento das iniciativas culturais de Aracaju.

Att.,

Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe.

https://drive.google.com/file/d/1oHyHDEWJ7Ok5zs4yNW8FzZeSgtp6Ne3v/view

SOS Cine Walmir Almeida: ‘Cinema do Centro’ não pode virar mais uma porta fechada em Aracaju

Publicado em 11 de setembro de 2026 - às 10:00 - Fábio Rogério

O Cine Walmir é o único contraponto ao circuito comercial tradicional na capital sergipana. 

O Cine Walmir Almeida — carinhosamente conhecido como o Cinema do Centro — suspenderá suas atividades por tempo indeterminado a partir do próximo dia 15 de setembro. Como a gestão do espaço é realizada de forma compartilhada entre a AVBR Produções (Rosângela Rocha e Deyse Rocha) e a Secretaria Municipal da Cultura de Aracaju, a continuidade operacional da sala depende da formalização de um novo Termo de Cessão até que um novo edital seja publicado. 

Segundo nota da Secretaria, “a continuidade e o fortalecimento das atividades no local permanecem entre as prioridades da gestão municipal”. A realidade, no entanto, contraria a declaração: os trâmites internos de renovação poderiam e deveriam ter sido antecipados. A burocracia jamais pode se sobrepor à vida cultural da cidade, visto que, em nosso setor, a descontinuidade é sempre devastadora.

O que diríamos se uma escola pública fosse fechada? Um cinema público possui exatamente essa mesma força formadora. Ele não é mero passatempo: educa, expande sensibilidades, molda personalidades e nos ensina a enxergar o outro. Por isso, suspender as operações do Cine Walmir Almeida, ainda que em caráter temporário, equivale a fechar as portas de uma escola. Além disso, manter uma sala de exibição no centro de Aracaju tem um peso urbanístico, social e político incalculável. Significa preservar a região central, mantendo-a viva e ocupada para além do horário comercial, combatendo o esvaziamento urbano noturno e devolvendo as ruas à população. O centro de Aracaju precisa ser vivo, humano e pulsante.

A importância do Cine Walmir Almeida sobressai quando analisamos o circuito exibidor de Aracaju em sua totalidade. Atualmente, a cidade conta com seis cinemas: o Cinemark do Shopping Jardins (9 salas), o Cinemark do Shopping RioMar (7 salas), o Centerplex do Aracaju Parque Shopping (7 salas), o Cinesercla do Shopping Praia Sul (5 salas), além de duas opções de rua: o Cine Alquimia (no Espaço Alquimia) e o próprio Cine Walmir Almeida, ambos de sala única. 

À primeira vista, percebemos dois grupos distintos nesse cenário: as grandes redes situadas em shoppings (multiplex) e os cinemas independentes localizados fora deles. Na prática, contudo, o Cine Alquimia acaba reproduzindo rigorosamente a mesma lógica de mercado dos multiplex. Seu histórico de curadoria apresenta uma alta aderência à programação das grandes redes. Se historicamente não podemos esperar muito dos cinemas de shopping — que sempre cederam pouquíssimo espaço ao cinema brasileiro e não hollywoodiano —, é lamentável constatar que uma sala de rua, sem vínculos com megacorporações, renda-se à mesma mentalidade comercial focada em blockbusters.

É nesse cenário que o Cine Walmir Almeida surge como o grande contraponto ao circuito tradicional de Aracaju. Focado em cinematografias diversas e atento a filmes que exploram linguagens e estéticas para além dos blockbusters, o espaço destaca-se por oferecer uma programação praticamente exclusiva na cidade, além de ser o único cinema a exibir produções sergipanas. Para ilustrar essa relevância, basta observar o caso de Nosso Segredo, de Grace Passô. Vencedor do prêmio de melhor filme brasileiro no Festival de Gramado deste ano, a obra só chegou aos espectadores de Aracaju graças ao Cine Walmir Almeida. Quando a obra vencedora de Gramado é ignorada pelos demais cinemas da cidade, a importância do Cine Walmir Almeida torna-se incontestável.

O preço do ingresso no Cine Walmir Almeida é praticamente a metade do que é cobrado nos outros cinemas da cidade. É um diferencial social imenso, mas que torna a bilheteria insuficiente para cobrir os custos operacionais de uma programação regular ao longo de toda a semana. Em qualquer lugar do mundo, os cinemas voltados para a exibição de filmes que não sejam blockbusters sobrevivem com incentivos e aportes públicos. Cultura não é gasto, e sim investimento para o futuro de sua população.

A construção de uma política pública estruturante para o audiovisual em Aracaju é urgente. A gravidade da situação fica evidente diante da não adesão do município aos Arranjos Regionais do Fundo Setorial do Audiovisual, o que resultou na perda de investimentos vitais para um setor essencial na geração de emprego, renda e identidade cultural. 

Considerando que esse mercado movimentou R$ 70,2 bilhões no PIB brasileiro apenas no ano passado — representando 0,7% da economia nacional —, a criação de uma coordenação específica dentro da pasta da Cultura torna-se imprescindível, tanto por seu peso econômico quanto simbólico. Diante desse cenário, cabe à Secretaria Municipal da Cultura sair da inércia e agir com rapidez para impedir que o Cine Walmir Almeida feche as portas.

Fábio Rogério

Cineasta, sergipano e pai de Rudá. Dirigiu duas dezenas de curtas e é co-diretor do longa Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo, vencedor de Melhor Filme na Mostra Aurora (Tiradentes 2025). É também criador do podcast Conversas de Cinema (Spotify). 

https://manguejornalismo.org/sos-cine-walmir-almeida-cinema-do-centro-nao-pode-virar-mais-uma-porta-fechada-em-aracaju/


Fiar imagens para tecer o mundo: em apoio ao ‘Cinema do Centro’

Única sala de Aracaju com curadoria fora do padrão de mercado, o caso do Cine Walmir Almeida expõe o que se perde quando uma sala de cinema suspende as atividades

12 de setembro de 2026

Em 15 de setembro, o Cine Walmir Almeida — mais conhecido como ‘Cinema do Centro’ — suspenderá suas atividades. Reaberto em maio de 2025 com recursos da Lei Paulo Gustavo, o espaço acumulou mais de 600 sessões, cerca de 11 mil espectadores e 170 títulos exibidos, sendo 136 internacionais e 36 nacionais, marca que supera até a exigência da Cota de Tela. Para seguir operando, a sala depende de um novo Termo de Cessão pelo município, mecanismo de fomento que sustente programação, manutenção e preços acessíveis.

Dezesseis meses de rotina

Os números reportados, para além do retorno bem-sucedido de uma estrutura física, indicam o que um equipamento cultural alcança quando funciona. Desde que reabriu, foram dezesseis meses que formaram rotina e constituíram público. 

A gestão do cinema, por sua vez, fica a cargo da AVBR Produções, conduzida por Rosângela Rocha e Deyse Rocha, junto à Secretaria Municipal da Cultura. Apesar de algumas ressalvas à gestão atual, é inegável que houve uma premissa que a programação sustentou semana após semana: exibir é uma etapa formativa da cadeia produtiva do audiovisual. Afinal, uma grade que atravessa filmes brasileiros e internacionais em pouco mais de um ano, aberta a parcerias com mostras, cineclubes e ações de extensão universitária, trata o espectador menos como um consumidor do que como uma pessoa em formação.

Um problema de gestão

Para remontar a cronologia dos fatos. No dia 17 de julho, a Prefeitura realizou uma escuta pública sobre o projeto e sinalizou que o Termo de Cessão seria encaminhado até agosto, acompanhado de um novo edital de credenciamento. A convocação circulou sobretudo por grupos do próprio setor, e a reunião teve repercussão mínima na imprensa local. Sem cobertura e sem divulgação posterior dos encaminhamentos, prazos, condições de cessão e responsabilidades de cada parte não chegaram ao público que frequenta a sala.

Agosto terminou sem oficialização e publicação do edital. Em nota, a Secretaria afirma que a continuidade e o fortalecimento das atividades permanecem entre as prioridades da gestão municipal e informa que o texto está em análise na Procuradoria-Geral do Município, com expectativa de publicação em setembro.

O ponto administrativo, contudo, é evidente: o vencimento de um termo de cessão é uma data conhecida no momento em que ele é assinado. Não se trata, portanto, de um evento imprevisto, de força maior ou de contingência orçamentária súbita. E, apesar da Prefeitura dispor de instrumentos de transição — termo de cessão provisório, prorrogação excepcional — que existem precisamente para impedir que a tramitação burocrática paralise um serviço, nenhum foi acionado. O que desloca o problema do campo da impossibilidade jurídica para o campo da gestão. Com isso, é lastimável como a prioridade não chegou a ser um dado de rotina de trabalho dentro da pasta.

Essa rotina que não se firmou, por sua vez, incide diretamente sobre aquilo que se vê na cidade. Tomada pelo circuito multiplex, Aracaju possui 28 salas espalhadas por 3 redes e uma sala de rua, o Cine Alquimia. Mas, como observa Fábio Rogério, em texto para o Mangue Jornalismo, o Alquimia opera com alta aderência à programação das grandes redes. Ou seja, das trinta salas da capital, apenas a do ‘Cinema do Centro’ sustenta uma curadoria desviante do padrão de mercado.

Trinta salas e o mapa do país

O caso local reproduz um quadro nacional amplamente documentado. Segundo dados da Ancine referentes a 2024, 88% das salas brasileiras funcionam em shopping centers; das 3.510 em operação, apenas 423 são salas de rua, e seis em cada dez salas novas continuaram sendo inauguradas em centros comerciais. A geografia da exibição no país se organiza em torno do consumo fechado e uma grade que replica a mesma lista de lançamentos de Norte a Sul. Nunca custou tão caro ser globalizado, isn’t that right?

Uma sala de rua, por outro lado, produz outro efeito sobre a cidade. Devolve a circulação a pontos em horários nos quais o comércio fecha, cria motivo de deslocamento para quem gostaria de ter uma opção fora do shopping, aproxima o cinema de preços compatíveis com a renda de quem pertence a realidades opostas ao ciclo pretendido pelos elefantes brancos que empilham lojas e mais lojas. Assim como as disputas pelo São Luiz em Recife, pelo Olympia em Belém e pelo Belas Artes em São Paulo, trata-se de uma disputa pela permanência e preservação do espaço urbano. Parte indissociável do quadro que compõe o Centro Cultural de Aracaju, o ‘Cinema do Centro’ ocupa uma posição no desenho da cidade, equipamento público que garante o contato com diferentes linguagens.

Fiar imagens

Dessa forma, a pergunta que a pesquisadora Kênia Freitas instaura como guia para processos curatoriais vem a calhar: “o que há mais para ver?”. Quando transposta à operação de um cinema, ela pressupõe uma configuração material, mobilizada por uma programação que assume riscos independente do retorno do público na semana seguinte, sendo capaz de se sustentar semanalmente e de recolocar filmes das mais variadas que visam, dentre outras propostas, a remediação do olhar.

O ato de olhar, no entanto, é uma operação que exige tempo e reincidência. Quando um filme acaba, outro começa a florescer no seu interior, visto que a imagem se faz no contato com a próxima, e é dessa fricção entre pontos de vista que se constitui o repertório. Um espectador que tem a possibilidade de atravessar 170 títulos em pouco mais de um ano, distribuídos entre cinematografias, durações e regimes narrativos distintos, constrói uma base comparativa que grade nenhuma de multiplex pode oferecer. E, apesar de estarmos localizados em um período histórico de adensamento das visualidades, as telas miniaturizadas que acompanham cotidiano dispersam a cada dia nossa atenção, colocando poucos espaços como a sala de cinema em uma posição capaz de reivindicar uma mediação sensível, que responde ao contexto mencionado com duração e com repetição variada. Infelizmente, é esse hábito que uma suspensão como a do Cinema do Centro interrompe.

O fio interrompido

Apesar de que a preservação e manutenção de um cinema envolva fatores por vezes demasiadamente complexos, como estrutura física, cronograma e critério técnico. O que se prejudica primeiro, e mais rápido, com uma suspensão é o público. Os dezesseis meses de rotina construídos até o momento podem se dispersar em poucas semanas de porta fechada, e reconstruir confiança e frequência custa caro em termos orçamentários.

Fiar imagens é um trabalho contínuo. Interrompido o fio, a retomada não acontece no ponto em que parou, uma vez que, ao refazer a torção, guarda-se a marca da emenda. Enquanto a porta do ‘Cinema do Centro’ permanecer fechada, quem perde é a própria população, que segue sem um espaço capaz de abarcar as sensibilidades de uma formação baseada no encontro, na possibilidade de acessar outras geografias e linguagens. 

Sintomaticamente, caberá a uma sessão do Entreato, cineclube parceiro da sala, encerrar — provisoriamente, espera-se — as atividades nesta segunda-feira (14/09), com Lola Montès (1955), de Max Ophüls. Um filme clássico diante de um grupo de cinéfilos que pulsam, anseiam pelo cinema. Quem sabe uma proposta de recomeço. 

Texto adaptado de um ensaio publicado originalmente na Jovens Persas.

Lwidge de Oliveira

Mestrando em Cinema e Narrativas Sociais pelo PPGCINE/UFS. Crítico de cinema pela Revista Nostalgia e editor pela Jovens Persas. Curador de cinema pelos festivais internacionais de Itabaiana (SE) e Ribeirão Preto 




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