Nota do Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe sobre a Sala de Cinema Walmir Almeida - 14/09/2026
O Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe segue acompanhando, com preocupação, as discussões sobre a Sala de Cinema Walmir Almeida, equipamento cultural público que integra o Centro Cultural de Aracaju.
1. Contexto histórico e institucional
Antes de discutir a situação atual, é preciso compreender o contexto em que a sala está inserida.
O prédio da antiga Alfândega, localizado na Praça General Valadão, é tombado pelo Decreto Estadual nº 21.765/2003. Foi doado à Prefeitura de Aracaju em 2005 e posteriormente reformado com recursos públicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em 2014, passou a funcionar como Centro Cultural, constituído por salas para oficinas, sala de exposição, um teatro e uma sala de exibição nomeada Sala Walmir Almeida.
Compreender esse quadro é importante para pensar a utilização da sala, pois ela não deve ser compreendida de forma isolada, mas como parte de uma estrutura pública para a democratização do acesso e o fortalecimento da circulação e da produção audiovisual em Aracaju.
É importante destacar que, embora não operasse de forma comercial, com uma programação diária de exibições fílmicas, a Sala Walmir Almeida funcionou abrigando diversas mostras e festivais de cinema da cidade, além de exibições institucionais promovidas pela gestão municipal, inclusive para estudantes da rede pública. Em 2017, passou a abrigar também o Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira (NPD-OV), importante espaço de formação e desenvolvimento do audiovisual no município.
2. A necessidade de investimentos e a Lei Paulo Gustavo
Ao longo dos anos, tornou-se evidente a necessidade de investimentos na manutenção e modernização da sala. O sistema de som e o projetor deixaram de funcionar adequadamente, e outros problemas de infraestrutura e manutenção também passaram a ser percebidos em diferentes áreas do prédio.
Em diversas ocasiões, o Fórum Permanente do Audiovisual chamou a atenção da gestão para a necessidade de investimentos e de uma reforma no espaço. O não atendimento das solicitações sempre tinha como argumento a falta de recursos.
Com a Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), abriu-se uma possibilidade concreta de destinação de recursos para recuperação e modernização da Sala Walmir Almeida. É importante, entretanto, lembrar a origem e a finalidade desses recursos. A verba destinada, no âmbito do Eixo II, para a manutenção, digitalização, reforma e modernização de salas de cinema é oriunda do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e possui regras de aplicação e destinação estabelecidas pela legislação e pelos instrumentos que regulamentam sua execução.
3. O Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju
Em Aracaju, a regulamentação foi regida pelo Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju, que objetivava selecionar uma Organização da Sociedade Civil (OSC), a fim de firmar Termo de Colaboração com a Funcaju para a adequação da Sala de Cinema Walmir Almeida, bem como para a gestão da programação do espaço por 12 (doze) meses, no valor de R$ 668.059,15 (seiscentos e sessenta e oito mil, cinquenta e nove reais e quinze centavos).
O edital estabelece uma série de condições que precisam ser consideradas ao analisar a atual situação da sala. Entre as exigências para a apresentação da proposta estavam:
Planejamento Técnico;
Planejamento Financeiro, incluindo o valor global e a previsão de captação de recursos complementares, como patrocínios e recursos da Lei Rouanet, outros editais ou emendas parlamentares;
Cronograma de Trabalho;
Programação mínima de quatro exibições por semana;
Apresentação de uma lista tríplice para a escolha da Diretoria Artística, composta por dois profissionais indicados pela OSC e um servidor da Funcaju.
Pelos termos do edital, os bens permanentes adquiridos são, em regra, de titularidade da Administração Pública e, após o término do termo, a Administração decide se os mantém, se os doa à OSC ou se os doa a terceiros para fins de interesse social.
Também é importante observar o item 3.3 do edital, que trata da governança do espaço, pois estabelece a criação de uma Coordenação Gestora da Sala, formada pela Diretoria Executiva, uma Diretoria Artística e um representante da própria OSC. Previa ainda que as diretrizes executivas da sala fossem definidas conjuntamente.
Esse entendimento é fundamental para a compreensão de que a parceria firmada não se trata da transferência da gestão integral, autônoma e por tempo ilimitado de um equipamento público para uma organização da sociedade civil. Trata-se da execução de um objeto específico, por prazo determinado, submetida às condições estabelecidas no referido edital, no Termo de Colaboração e à governança compartilhada prevista para o espaço.
4. A instituição contemplada
A instituição contemplada no edital foi o Terreiro Centro São Lázaro, com o qual foi firmado um termo de colaboração. Ou seja, a Instituição Terreiro São Lázaro foi a responsável pela execução do objeto do edital: adequar a Sala de Cinema e gerir sua programação por 12 (doze) meses.
Outro ponto importante é que, de acordo com as disposições da Lei nº 13.019/2014 (MROSC), que rege as organizações sem fins lucrativos e está prevista no Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju, o objetivo da parceria deve ser a realização de atividades sem fins lucrativos, uma vez que sua execução do objeto só ocorre por já haver verba pública para tal.
Apesar do que está disposto no edital, o Terreiro São Lázaro firmou uma parceria com a AVBR Produções e passaram a desenvolver as atividades de forma conjunta. Essa parceria tornou possível a transformação da Sala Walmir Almeida no “Cinema do Centro”, uma sala de cinema de rua, mas com viés comercial.
Por meio dessa parceria, a sala recebeu um projetor digital DCP proveniente de outro projeto contemplado com recursos públicos do audiovisual: a AVBR Produções foi contemplada no Edital nº 06/2023 — Tarcísio Duarte, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe — FUNCAP/SE, também do Eixo II, nas categorias 2.1. Digitalização de Sala de Cinema, no valor de R336.000 ode Sala de Cinema, no valor de R 204.835,81 (duzentos e quatro mil, oitocentos e trinta e cinco reais e oitenta e um centavos).
A situação merece atenção porque envolve a utilização de recursos públicos provenientes de diferentes instrumentos de fomento e sua aplicação em um mesmo equipamento cultural. Mas antes de fazer qualquer apontamento, é necessário compreender com clareza:
a) quais foram os objetos de cada edital;
b) quais obrigações foram assumidas pelos respectivos contemplados;
c) de que forma os equipamentos e recursos foram incorporados à Sala Walmir Almeida;
d) qual será a utilização da sala agora, com o fim do termo de colaboração.
5. A Audiência Pública de julho de 2026
Em 17 de julho de 2026, durante Audiência Pública realizada pela Secretaria de Cultura de Aracaju, no Centro Cultural, a gestão municipal informou sobre o fim do termo de colaboração, apresentou as possibilidades de realização de um novo chamamento público e discutiu formas de participação dos agentes culturais na gestão da Sala Walmir Almeida.
Na ocasião, também foi anunciado que o próximo edital seria realizado com recursos próprios da Prefeitura, e não com recursos federais, e que a Sala seria mantida com vocação para a exibição cinematográfica. A gestão informou ainda que a publicação do novo edital estava prevista para acontecer até o final de agosto, fato que não ocorreu.
Entretanto, na audiência não foram apresentadas de forma clara as diretrizes para o novo modelo de funcionamento da Sala Walmir Almeida. Permanecerá uma parceria com uma Organização da Sociedade Civil, nos moldes do Termo de Colaboração anteriormente adotado? Será estabelecido outro instrumento de parceria com uma instituição ou empresa? Será adotado um modelo de gestão compartilhada, envolvendo o poder público e agentes culturais?
A definição do modelo é fundamental para garantir a continuidade das políticas públicas e a clareza quanto às responsabilidades da gestão municipal e dos eventuais parceiros, especialmente considerando a natureza pública do equipamento e os investimentos já realizados na Sala Walmir Almeida.
6. Posicionamento do Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe
Diante desse cenário, o Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe entende que o debate sobre o futuro da Sala Walmir Almeida precisa ser realizado de forma pública, transparente, fundamentada e com urgência. Principalmente, que a definição de seu modelo de gestão e de sua programação deve considerar a vocação original e a função pública do equipamento, garantindo uma curadoria que contemple a diversidade da produção cinematográfica nacional e internacional, especialmente obras que não encontram espaço no circuito predominantemente ocupado pelo cinema blockbuster.
A Sala também deve estabelecer formas gratuitas de utilização, visto o caráter público do espaço, para a realização de atividades promovidas por cineclubes, festivais, mostras e demais iniciativas do setor audiovisual de Aracaju, ampliando a circulação de obras, a formação de público e o acesso da população a diferentes cinematografias.
Mais do que definir quem irá administrar o espaço, é fundamental estabelecer o mais rápido possível qual será a finalidade da Sala Walmir Almeida. Por se tratar de um equipamento público concebido e estruturado para a exibição cinematográfica, sua utilização deve preservar essa finalidade, não permitindo que sua função de sala de cinema seja desvirtuada ou subordinada a outros usos que comprometam sua vocação cultural e audiovisual.
Eventuais parcerias firmadas pela gestão pública devem, portanto, contribuir para o fortalecimento da sala como espaço de exibição, formação, circulação e democratização do acesso ao cinema.
Dessa forma, compreendemos que a notícia do encerramento das atividades do “Cinema do Centro” gera preocupação e apreensão entre o público e o setor audiovisual. Isso porque, ao longo da vigência da parceria, não se observou a implementação, pela Prefeitura de Aracaju, da Coordenação Gestora prevista no edital, estrutura que deveria assegurar a participação conjunta da gestão pública e da OSC na definição das diretrizes do espaço.
Soma-se a isso a ausência de uma definição, em tempo hábil, sobre o modelo que sucederia o Termo de Colaboração. Como consequência, houve a interrupção das atividades da sala, sem que estivesse definida a transição para um novo modelo de gestão.
Para o Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe, uma transição dessa natureza deveria ter sido planejada, discutida com antecedência, sem que as atividades fossem interrompidas, especialmente por se tratar de um equipamento cultural público de extrema importância para o setor cultural.
Reforçamos, portanto, a urgência da publicação do próximo edital, que deve estabelecer um modelo de gestão que não se dissocie da finalidade cinematográfica e pública da Sala Walmir Almeida, assegurando uma programação diversa e o compromisso com a exibição da produção cinematográfica nacional e internacional, especialmente de obras que não encontram espaço nas grandes redes de cinema.
Esse modelo também deve definir com clareza as responsabilidades pela gestão dos bens e equipamentos instalados no espaço, garantindo sua preservação e utilização em benefício da população e do setor audiovisual.
A Sala Walmir Almeida é patrimônio público e integra uma política cultural construída ao longo de anos. Seu futuro, portanto, não deve ser definido apenas a partir de quem irá administrá-la, mas principalmente a partir da sua função pública e da sua vocação cinematográfica.
Qualquer modelo de gestão ou parceria deverá assegurar que o espaço permaneça acessível à população e ao setor audiovisual, fortalecendo a exibição cinematográfica, a formação de público, a circulação da produção nacional e internacional e o desenvolvimento das iniciativas culturais de Aracaju.
Att.,
Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe.
https://drive.google.com/file/d/1oHyHDEWJ7Ok5zs4yNW8FzZeSgtp6Ne3v/view
SOS Cine Walmir Almeida: ‘Cinema do Centro’ não pode virar mais uma porta fechada em Aracaju
Publicado em 11 de setembro de 2026 - às 10:00 - Fábio Rogério
O Cine Walmir é o único contraponto ao circuito comercial tradicional na capital sergipana.
O Cine Walmir Almeida — carinhosamente conhecido como o Cinema do Centro — suspenderá suas atividades por tempo indeterminado a partir do próximo dia 15 de setembro. Como a gestão do espaço é realizada de forma compartilhada entre a AVBR Produções (Rosângela Rocha e Deyse Rocha) e a Secretaria Municipal da Cultura de Aracaju, a continuidade operacional da sala depende da formalização de um novo Termo de Cessão até que um novo edital seja publicado.
Segundo nota da Secretaria, “a continuidade e o fortalecimento das atividades no local permanecem entre as prioridades da gestão municipal”. A realidade, no entanto, contraria a declaração: os trâmites internos de renovação poderiam e deveriam ter sido antecipados. A burocracia jamais pode se sobrepor à vida cultural da cidade, visto que, em nosso setor, a descontinuidade é sempre devastadora.
O que diríamos se uma escola pública fosse fechada? Um cinema público possui exatamente essa mesma força formadora. Ele não é mero passatempo: educa, expande sensibilidades, molda personalidades e nos ensina a enxergar o outro. Por isso, suspender as operações do Cine Walmir Almeida, ainda que em caráter temporário, equivale a fechar as portas de uma escola. Além disso, manter uma sala de exibição no centro de Aracaju tem um peso urbanístico, social e político incalculável. Significa preservar a região central, mantendo-a viva e ocupada para além do horário comercial, combatendo o esvaziamento urbano noturno e devolvendo as ruas à população. O centro de Aracaju precisa ser vivo, humano e pulsante.
A importância do Cine Walmir Almeida sobressai quando analisamos o circuito exibidor de Aracaju em sua totalidade. Atualmente, a cidade conta com seis cinemas: o Cinemark do Shopping Jardins (9 salas), o Cinemark do Shopping RioMar (7 salas), o Centerplex do Aracaju Parque Shopping (7 salas), o Cinesercla do Shopping Praia Sul (5 salas), além de duas opções de rua: o Cine Alquimia (no Espaço Alquimia) e o próprio Cine Walmir Almeida, ambos de sala única.
À primeira vista, percebemos dois grupos distintos nesse cenário: as grandes redes situadas em shoppings (multiplex) e os cinemas independentes localizados fora deles. Na prática, contudo, o Cine Alquimia acaba reproduzindo rigorosamente a mesma lógica de mercado dos multiplex. Seu histórico de curadoria apresenta uma alta aderência à programação das grandes redes. Se historicamente não podemos esperar muito dos cinemas de shopping — que sempre cederam pouquíssimo espaço ao cinema brasileiro e não hollywoodiano —, é lamentável constatar que uma sala de rua, sem vínculos com megacorporações, renda-se à mesma mentalidade comercial focada em blockbusters.
É nesse cenário que o Cine Walmir Almeida surge como o grande contraponto ao circuito tradicional de Aracaju. Focado em cinematografias diversas e atento a filmes que exploram linguagens e estéticas para além dos blockbusters, o espaço destaca-se por oferecer uma programação praticamente exclusiva na cidade, além de ser o único cinema a exibir produções sergipanas. Para ilustrar essa relevância, basta observar o caso de Nosso Segredo, de Grace Passô. Vencedor do prêmio de melhor filme brasileiro no Festival de Gramado deste ano, a obra só chegou aos espectadores de Aracaju graças ao Cine Walmir Almeida. Quando a obra vencedora de Gramado é ignorada pelos demais cinemas da cidade, a importância do Cine Walmir Almeida torna-se incontestável.
O preço do ingresso no Cine Walmir Almeida é praticamente a metade do que é cobrado nos outros cinemas da cidade. É um diferencial social imenso, mas que torna a bilheteria insuficiente para cobrir os custos operacionais de uma programação regular ao longo de toda a semana. Em qualquer lugar do mundo, os cinemas voltados para a exibição de filmes que não sejam blockbusters sobrevivem com incentivos e aportes públicos. Cultura não é gasto, e sim investimento para o futuro de sua população.
A construção de uma política pública estruturante para o audiovisual em Aracaju é urgente. A gravidade da situação fica evidente diante da não adesão do município aos Arranjos Regionais do Fundo Setorial do Audiovisual, o que resultou na perda de investimentos vitais para um setor essencial na geração de emprego, renda e identidade cultural.
Considerando que esse mercado movimentou R$ 70,2 bilhões no PIB brasileiro apenas no ano passado — representando 0,7% da economia nacional —, a criação de uma coordenação específica dentro da pasta da Cultura torna-se imprescindível, tanto por seu peso econômico quanto simbólico. Diante desse cenário, cabe à Secretaria Municipal da Cultura sair da inércia e agir com rapidez para impedir que o Cine Walmir Almeida feche as portas.
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