terça-feira, 15 de setembro de 2026

Cineclube Realidade promove sessão especial do documentário "Como Ela Faz?" na Casa da Doméstica durante o Setembro Amarelo

Iniciativa do Sindomestico-SE em parceria com a Ação Cultural/Cine Realidade  reuniu trabalhadoras domésticas para debate sobre sobrecarga feminina, saúde mental e a invisibilidade do trabalho de cuidado


No último sábado, 12 de setembro de 2026, a Casa da Doméstica, em Aracaju, foi palco de uma sessão especial do Cineclube Realidade. A exibição do documentário "Como Ela Faz? – Episódio 1: O Trabalho", dirigido por Tatiana Villela, integrou a programação de formação do Setembro Amarelo, campanha nacional de valorização da vida e prevenção ao suicídio. A atividade, realizada em parceria com o Sindomestico-SE, reuniu 17 participantes, entre trabalhadoras domésticas, equipe organizadora e convidados.

O evento teve início às 11h e se estendeu até 12h45, combinando a projeção do documentário com um debate mediado pelo curador do Cine Realidade, Zezito de Oliveira, apoiado por Iasmin Feitosa, responsável pelo registro das falas no debate, no qual as participantes compartilharam experiências pessoais e refletiram sobre os temas abordados na obra.

O documentário

"Como Ela Faz? – O Trabalho" acompanha um dia na vida de 13 mulheres – entre astrônomas, jogadoras de futebol, filósofas, enfermeiras, professoras, diaristas e executivas – para revelar o significado amplo e complexo da palavra trabalho. A produção evidencia como a dupla ou tripla jornada, a carga mental e a desigualdade de gênero atravessam o cotidiano feminino, com especial atenção às trabalhadoras domésticas.

A narrativa do documentário parte de histórias reais e testemunhos pessoais, apresentando personagens como Cida, Adriana, Cris, Maitê, Kamila, Djamila, Duilia, Tábata, Gabriela, Carla, Jéssica, Gina e Nina. São mulheres que, em suas jornadas diárias, enfrentam desafios constantes no acesso à educação, salário, cuidados com a casa e os filhos, ascensão na carreira e reconhecimento profissional. O fosso que separa homens e mulheres – e também mulheres brancas e mulheres negras – em termos de oportunidades é apresentado como uma realidade ainda persistente.

O debate: vozes que ecoam a realidade

Após a exibição, o debate proporcionou um espaço de escuta e partilha. As falas das participantes revelaram não apenas identificação com o documentário, mas também a urgência de se discutir a sobrecarga feminina e suas consequências para a saúde mental.

Uma das participantes relatou como percebeu a reprodução de padrões geracionais em sua própria família:

"Peguei a última parte do filme e me identifiquei com uma cena. Quando casei, a mãe do meu marido colocava a comida dele, e eu acabei fazendo o mesmo. Até que passei a agir diferente com meus filhos, ensiná-los a serem independentes. Se eu aprendi sozinha, eles também podem, independente de serem homens."

Outra participante destacou a importância de criar filhos – especialmente meninas – para a autonomia:

"Tenho uma menina, e agora vai nascer outra. Eu crio ela de uma forma que ela seja independente, para que não dependa de ninguém. Minha irmã e eu temos uma mãe que por muitos anos foi doméstica,  Achei esse filme muito necessário, pois fala sobre as diferenças emocionais, financeiras e raciais entre os gêneros."

A discussão também abordou a educação de meninos e a necessidade de não reproduzir desigualdades:

"Tenho seis filhos. Tenho receio só de um, dos meus três filhos homens, ele tem um jeito arrogante de falar. Os outros dois são tranquilos e parceiros. Não é porque meus filhos vão casar com as filhas de outros, que não irei deixar de orientar meus meninas e minhas meninas de maneira igual. Não quero que meus filhos façam com as filhas dos outros o que outros podem fazer com as minhas filhas. Tem que aprender a não fazer diferença entre os filhos, deve sempre orientá-los."

Saúde mental e esgotamento: relatos de quem vive a sobrecarga

Um dos momentos mais impactantes do debate foi quando as participantes foram convidadas a refletir sobre esgotamento mental e físico. Os relatos evidenciaram a gravidade da situação enfrentada por muitas mulheres.

Uma das trabalhadoras compartilhou sua trajetória de superação:

"Eu já passei por isso. Hoje aprendi a lidar mais com essa situação. Vou ao psicólogo, comecei a dividir minhas tarefas, pensar no meu bem, na minha saúde, minhas próprias atividades. Com toda essa ajuda, comecei a ver que eu tinha que fazer divisões, senão eu continuaria presa naquela exaustão."

Outra participante descreveu um quadro de sofrimento intenso:

"Lido do jeito que dá. Não consigo dormir, me irrito fácil, tudo me estressa. Quando chego em casa, choro devido ao acúmulo do estresse que não consigo lidar.  Tenho dois filhos, um com TDAH e outro hiperativo, e quando ambos se estressam, a bolha estoura. Isso também é um agravante pra mim. Pra homem que trabalha fora, é fácil porque a casa é o lugar de paz dele. Mas pra quem trabalha dentro de casa, vira uma bolha sufocante."

A discriminação de gênero no ambiente de trabalho também foi pauta:

"Eu consegui um trabalho em uma fábrica, estava tudo ótimo. Mas, quando engravidei, senti que tudo desandou pra mim. Chegava à noite do trabalho, estava quase enlouquecendo de tanto cansaço. Chegava em casa e não tinha tempo pra cuidar de mim. Pelo meu bem-estar, saí do trabalho, terceirizei meu serviço de casa. Eu tinha acabado de ser promovida no trabalho, e depois de saberem da minha gravidez, simplesmente desandou. Senti que houve uma discriminação nessa questão."

Setembro Amarelo: falar para prevenir

A escolha do documentário para a sessão do Setembro Amarelo não foi aleatória. A campanha, que ocorre anualmente em setembro, tem como objetivo fortalecer a valorização da vida e a prevenção do suicídio. Uma das principais estratégias de prevenção é a criação de espaços seguros onde as pessoas possam falar sobre seus sentimentos, reconhecer seus limites e buscar ajuda.

"Como Ela Faz? – O Trabalho" contribui para essa reflexão ao mostrar que o sofrimento não é sinal de fraqueza e que o cansaço não é fracasso. Ao retratar o cotidiano de mulheres reais e os fatores que podem produzir sofrimento ao longo do tempo, o documentário ajuda a quebrar estigmas e a promover a saúde mental.

A importância de cuidar de quem cuida

A formação promovida pelo Sindomestico-SE parte de uma pergunta fundamental: Quem cuida de quem cuida?

Valorizar as trabalhadoras domésticas significa reconhecer a importância do seu trabalho e defender condições dignas, direitos, respeito, remuneração justa, descanso e saúde. Cuidar da saúde mental não pode ser visto apenas como uma responsabilidade individual – é preciso olhar para as condições sociais e de trabalho que produzem sobrecarga e sofrimento.

Iniciativas como esta vão além da exibição de um filme. São oportunidades para conversar, ouvir, compartilhar experiências, conhecer direitos e fortalecer a organização coletiva. Porque cuidar de si também é um direito. E nenhuma mulher precisa carregar o mundo inteiro sozinha.

Serviço:

Evento: Sessão Especial do Cineclube Realidade – "Como Ela Faz? – Ep. 1: O Trabalho"

Local: Casa da Doméstica/Sindomestico-SE, Aracaju

Data: 12 de setembro de 2026

Realização: Ação Cultural em parceria com Sindomestico-SE

Participantes: 17 pessoas

O Cineclube Realidade é uma iniciativa de formação cultural que promove exibições seguidas de debates, incentivando a reflexão crítica sobre temas sociais relevantes.

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

Para quem quiser assistir o filme no youtube. AQUI  (episódio - O trabalho)


O filme completo. AQUI

Também nos dia de hoje, 15/09,  uma das mulheres que integra o documentário faleceu.
Amelinha Teles. Presente!! 





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