segunda-feira, 27 de julho de 2026

Morre o artista plástico sergipano Joubert Moraes e com ele um pouco da Aracaju pacata e com ares de interior..

O corpo dele foi sepultado na Colina da Saudade, em Aracaju. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.

Por g1 SE

26/07/2026 

O artista plástico sergipano Joubert Moraes morreu aos 78 anos, em Aracaju, neste sábado (25). A informação foi confirmada por familiares.

O velório aconteceu neste domingo (26) na Colina da Saudade, na capital, onde o corpo de Joubert também será sepultado. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.

Joubert nasceu no dia 13 de dezembro de 1947 em Propriá, em uma família de artistas: o pai era poeta e escritor, a mãe cantora e bordadeira, e a irmã pintora.

O artista construiu mais de 55 anos de uma carreira rica com trabalhos de pintura, desenho, escultura, música, cenografia, poesia e diversas outras linguagens artísticas.

Ainda em vida, Joubert recebeu diversas premiações como o Prêmio Horácio Hora de Artes Plásticas e Prêmio J. Inácio, além de participações no Festival de Artes de São Cristóvão (FASC).


Joubert Moraes: A Alma Visual de Sergipe que Conquistou o Mundo

Por Blog da Cultura (conteúdo produzido com IA)

Quando se fala em artes visuais sergipanas, um nome ressoa com a força das dunas e a poesia do São Francisco: Joubert Moraes (1947–2026). Ao longo de mais de seis décadas de dedicação integral à criação, ele não apenas pintou e esculpiu — ele fundiu a identidade cultural de seu estado natal a uma linguagem estética universal, construindo pontes sólidas entre o Nordeste e o cenário artístico nacional e internacional.

Sua trajetória é um testemunho vivo de como a arte pode ser, ao mesmo tempo, profundamente enraizada e radicalmente livre. Vamos explorar a vida, a obra e o legado desse mestre que transformou Sergipe em tela e o mundo em seu ateliê.

O Artista que Carregava o São Francisco na Alma

Joubert Moraes nasceu em 13 de dezembro de 1947, em Propriá, às margens do Rio São Francisco. Filho de João Teixeira de Moraes, um celebrado poeta e escritor local, e de Dona Júlia, que se dedicava ao canto e ao bordado, o menino cresceu imerso em um ambiente profundamente poético.  Curiosamente, o nome "Joubert" era o pseudônimo literário que seu pai utilizava para assinar crônicas e poesias na imprensa regional — um prenúncio da vocação artística que viria a se manifestar no filho.

Aos sete anos, mudou-se com a família para Aracaju, onde seu universo de referências se expandiu. Mas foi aos 13 anos que sua jornada como artista ganhou um impulso decisivo: sua irmã mais velha, Gêlda Maria, desistiu de pintar e doou ao jovem irmão todo o seu estoque de tintas, telas e pincéis.Foi o pontapé inicial de uma carreira que moldaria a identidade visual de todo um estado.

A Formação de um Mestre: Entre a Bahia e o Mundo

Na adolescência, já em Aracaju, Joubert tornou-se frequentador assíduo da pioneira Galeria Acauã, onde absorvia debates e arte contemporânea. Frequentou os ateliês de ícones da pintura sergipana como Florival Santos e J. Inácio, aprendendo técnicas de luz, cor e a valorização temática do Nordeste.

Em 1968, aos 21 anos, realizou sua primeira exposição individual na histórica Galeria de Arte Álvaro Santos, consolidando o fim de sua juventude artística.  

Mas foi na Bahia que sua formação estética e intelectual atingiu novo patamar. No final dos anos 1960, mudou-se para Salvador para cursar o Curso Livre de Arte da Universidade Federal da Bahia, sob a tutela rigorosa do mestre Juarez Paraíso. Lá, sua mente se expandiu ao travar amizade com o arquiteto russo Lev Smarchevski e com o famoso navegador solitário Aleixo Belov, que o introduziram às teorias da geometrização e do abstracionismo internacional.

Integrou um efervescente núcleo de jovens artistas na Bahia, convivendo com nomes como Luiz Jasmim, Tatti Moreno e Fernando Coelho.  E, sobretudo, assimilou uma lição fundamental: a arte não deveria ter amarras geográficas. Essa visão, consolidada pelo contato com o crítico Wilson Rocha, permitiu-lhe fundir a tradição literária paterna ao expressionismo pictórico.

A Pintura em Quatro Movimentos

A trajetória pictórica de Joubert Moraes é marcada por uma evolução contínua, que pode ser dividida em quatro fases distintas:

1. Fase Acadêmica e Clássica — Seu início foi focado no rigor do desenho anatômico, no domínio das proporções e nas técnicas tradicionais de luz e sombra. Uma base sólida que lhe daria liberdade para ousar depois.

2. Fase Surrealista e Psicodélica — Influenciada pelos anos 1970 e por sua vivência na Bahia, essa fase incorporou distorções formais, cores vibrantes e elementos oníricos. A realidade ganhava contornos de sonho.

3. Fase Abstrato-Expressionista — No amadurecimento, a cor e as texturas pesadas ganharam autonomia sobre as figuras. O gesto livre tornou-se protagonista, e a tela transformou-se em campo de experimentação emocional.

4. Fase Paisagística Universal — A síntese de sua carreira. Dunas, coqueiros e o litoral sergipano foram transformados em formas quase geométricas e poéticas. Era o Nordeste visto através de uma lente universal. 

Quando a Tela Ganha Volume: A Escultura

Para Joubert, a escultura não foi uma ruptura, mas uma extensão natural da pintura. Ela surgiu como uma necessidade de fazer os volumes de suas telas saltarem para o espaço real. 

Sua transição para a tridimensionalidade se consolidou em grandes monumentos públicos de metal e concreto, que dialogam com a arquitetura das cidades. O maior exemplo é a escultura "Formas e Cores", na Orla da Atalaia, em Aracaju — uma obra que traduz o dinamismo de seus quadros em linhas tridimensionais, tornando-se um marco urbano e um símbolo da identidade visual de Sergipe.

Música, Cenografia e a Arte Total

Joubert Moraes era um artista completo. Sua faceta musical e cenográfica revela um criador que via a arte como um campo integrado.

Como cenógrafo teatral, criou ambientações imersivas para peças locais, aplicando seu entendimento de espaço e iluminação dramática. Como músico, explorava a sonoridade regional e a MPB, enxergando o ritmo sonoro como um reflexo direto do ritmo visual de suas telas.

Para ele, som, palco e imagem faziam parte de uma mesma expressão artística. Essa unidade estética enriquecia não apenas suas performances, mas toda a sua concepção de arte. 

O Legado: Reconhecimento e Projeção

A importância de Joubert Moraes para as artes plásticas sergipanas é imensurável. Suas obras incorporaram de forma inconfundível os elementos da natureza de Sergipe — dunas litorâneas, coqueirais, o São Francisco — criando uma assinatura que ajudou a definir o imaginário visual da região. 

Ele rompeu barreiras técnicas locais ao transitar com maestria entre o rigor da proporção clássica, o psicodelismo surrealista e o abstracionismo expressionista, mostrando que a arte nordestina não precisava se restringir ao regionalismo estrito.  

Seu talento atraiu a atenção de importantes intelectuais e críticos de arte nacionais, como Wilson Rocha, que elogiou sua produção pela complexidade de sua "lucidez pictórica" e profundidade psicológica.【

No âmbito institucional, consolidou-se como mestre local ao receber as maiores condecorações artísticas de Sergipe, incluindo o Prêmio Horácio Hora, o Prêmio J. Inácio e a prestigiada Comenda Cultural Tobias Barreto. 

Sua relevância continuou ativa até o fim de sua vida. Em 2024, foi beneficiado pelo programa Funarte Retomada para a realização de sua grande exposição retrospectiva de 60 anos de carreira.

E suas obras superaram as fronteiras do Brasil, participando de mostras e integrando coleções em países como Estados Unidos, França, Portugal e Senegal. 

Conclusão

Joubert Moraes nos deixou em 2026, mas sua obra permanece viva — nas galerias, nos espaços públicos, na memória afetiva de Sergipe e no coração de todos que contemplam sua arte. Ele foi, acima de tudo, um artista que nunca deixou de ser ribeirinho: carregava consigo a fluidez do São Francisco, a força das dunas e a poesia de seu povo.

Sua trajetória nos ensina que a arte verdadeiramente universal não nega suas raízes — pelo contrário, as celebra. E, ao celebrar Sergipe, Joubert Moraes celebrou a humanidade.

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Joubert e as cores da memória. 

Por Pascoal Maynard no facebook

Há pessoas que partem, mas não vão embora. Permanecem nas ruas por onde caminharam, nas casas onde viveram, nas conversas que despertam sorrisos e, sobretudo, naquilo que criaram. Hoje, com a partida de Joubert, não consigo pensar apenas no artista consagrado. Minha memória insiste em reencontrar o menino e o jovem que fizeram parte da paisagem afetiva da minha infância.

Li, mais uma vez, o belo texto de Mário Britto, e algumas de suas palavras ganharam um significado ainda mais profundo. Ele escreve que Joubert nasceu "no seio de uma família de artistas". É verdade. Aquela casa parecia respirar arte. O pai, poeta e escritor; a mãe, cantora e bordadeira. Não era apenas uma família que apreciava a cultura; era uma família que fazia da beleza um modo de existir.

Nossa proximidade ia além da geografia. Eu morava na Praça Fausto Cardoso. Joubert, na Rua Maruim, entre as ruas Itabaiana e Pacatuba. Eram poucos passos de distância. Naquele centro de Aracaju, onde as ruas ainda tinham o ritmo das conversas nas calçadas e o tempo parecia caminhar mais devagar, as famílias se conheciam, os meninos cresciam juntos e as amizades eram construídas sem cerimônia, como se fizessem parte da própria paisagem.

Naqueles dias, ninguém imaginava que aquele rapaz de fala tranquila carregava dentro de si um universo inteiro de cores, formas e poesia. Mário Britto lembra que, ainda adolescente, Joubert "tinha o hábito de visitar galerias de arte, comparecia a todas as exposições e frequentava, assiduamente, os ateliês dos mestres J. Inácio e Florival Santos". Hoje percebo que aquele jovem já perseguia um destino que só ele conseguia enxergar com nitidez.

Depois veio Salvador, a Escola de Belas Artes, os encontros com outros artistas, as experiências com a abstração. A vida foi ampliando seus horizontes, mas nunca lhe arrancou as raízes. Joubert levava Sergipe consigo. Em cada tela, em cada escultura, em cada cenário que criou, havia sempre um pouco da terra que o viu nascer e da sensibilidade que floresceu nas ruas da velha Aracaju.

Mário Britto encontrou uma definição que dificilmente poderia ser mais feliz: "Joubert tem uma relação completa e visceral com a arte". Talvez porque, para ele, a arte nunca tenha sido apenas profissão. Era respiração. Era linguagem. Era uma forma de compreender o mundo. E quando Britto escreve que "toca violão com a mão direita, pinta com a esquerda e, com ambas, faz as esculturas", desenha, em poucas palavras, um homem inteiro, cuja criatividade parecia desconhecer limites.

Hoje suas obras estão espalhadas pelo Brasil e por tantos outros países. Permanecerão onde sempre estiveram: nas paredes, nos museus, nas instituições, nas praças e nas casas de tantos admiradores. Mas permanecerão, sobretudo, onde Mário Britto tão bem registrou: "na memória e no coração do povo sergipano".

Quanto a mim, guardo outra galeria. Não é feita de quadros. É feita de lembranças. As ruas do centro de Aracaju, os encontros casuais, as famílias vizinhas, o cotidiano simples de uma cidade que nos ensinou o valor da convivência. Quando penso em Joubert, vejo também aquele pedaço da cidade que moldou nossas vidas e que continua existindo dentro de nós, mesmo quando o tempo transforma tudo ao redor.

A morte tem o estranho poder de silenciar uma voz, mas nunca consegue apagar uma presença. Os artistas conhecem esse segredo. Eles sobrevivem naquilo que deixam para os outros. Joubert compreendeu isso sem precisar dizê-lo. Pintou sua permanência em telas, esculpiu-a na matéria e gravou-a na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com sua arte e com sua generosidade.

Hoje Sergipe perde um de seus maiores artistas. Eu me despeço também de um companheiro de paisagem, de um rosto familiar da minha infância e juventude, de alguém cuja trajetória me enche de orgulho por ter acompanhado, ainda que de perto e silenciosamente, os seus primeiros passos.

Costuma-se dizer que a morte encerra uma vida. Talvez. Mas nunca encerra uma obra construída com talento, sensibilidade e amor. A verdadeira arte é uma forma de eternidade.

Joubert encerra hoje sua travessia humana. Paradoxalmente, é também hoje que sua obra se torna ainda mais definitiva. Porque o artista parte, mas a arte permanece. E, enquanto houver um sergipano capaz de se emocionar diante de uma de suas telas, de uma de suas esculturas ou da lembrança de sua delicadeza, Joubert continuará entre nós.

Adeus, meu querido Joubert.


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