Ontem, sexta-feira, 24/072026. tive o privilégio de assistir ào ensaio aberto da sequência de cenas curtas trabalhadas ao longo do processo de ensino-aprendizagem da primeira oficina de teatro popular do Ponto de Cultura Ação Cultural em 2025, depois de 10 anos de suspensão.
O que posso garantir é que o burburinho que ouvi durante os quatro dias em que estive próximo ao grupo — tanto alunos inscritos quanto professores — correspondia exatamente ao que vinha sendo comentado e que já havia sido registrado no primeiro artigo sobre a oficina, disponível no blog da cultura. aqui
Da parte dos alunos, confirmo a impressão do professor Raimundo Venâncio, que me disse ter se surpreendido com o talento dos inscritos e com o compromisso e a responsabilidade de todos, sem distinção. O que vi durante as apresentações foi exatamente isso: atores e atrizes bem centrados em seus papéis, buscando uma interpretação fluida, com pouca hesitação, esforçando-se para extrair o que os personagens tinham de mais expressivo e desafiador — e não era pouco, pois os textos escolhidos carregam uma densidade psicológica e existencial intensa.
Mais importante ainda: os temas das histórias colocam em cena questões fundamentais, que nos fazem pensar sobre o mundo em que vivemos. Questões que, na verdade, atravessam o convívio humano e social há séculos, reaparecendo sob novas roupagens ao longo do tempo. Basta lembrar do drama de Hamlet, de Shakespeare — um príncipe que se vê diante do pai assassinado pelo próprio tio, que ainda trai o irmão com a cunhada para apossar-se do trono. Um conflito de poder, lealdade e identidade que ressoa até hoje, em diferentes contextos. E não custa recordar que Shakespeare, embora hoje seja considerado um clássico erudito, foi, em sua época, um autor de peças bastante populares, que dialogava diretamente com o gosto e as inquietações do público comum — algo que esta oficina resgata com maestria.
Entre as outras cenas curtas, algumas me chamaram particularmente a atenção por abordarem questões bem contemporâneas, que me fizeram recordar o conceito de amores líquidos, cunhado pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman — relações frágeis, descartáveis, que se esvaem como água. Outra cena, de forma inteligente e inventiva, valeu-se da linguagem da literatura de cordel para misturar São Pedro, o Céu, o Diabo e um ex-deputado num diálogo cuja conclusão nos oferece uma reflexão aguda sobre como construímos o céu e o inferno aqui mesmo na Terra, por meio de nossas escolhas políticas e éticas.
Embora nos tempos atuais as peças de Shakespeare, assim como as de outros autores clássicos e contemporâneos, estejam, em geral, distantes do grande público — restritas a circuitos especializados ou a temporadas elitizadas —, iniciativas como a do Ponto de Cultura Ação Cultural vêm justamente para romper essa barreira. Ao trazer o teatro popular para o centro da comunidade, elas reafirmam a arte como direito de todos, e não como privilégio de poucos. Mais do que entretenimento, essa oficina demonstra que o teatro pode ser um espaço de formação crítica, de acolhimento de vozes diversas e de reinvenção coletiva da realidade.
Ao final, fica a certeza de que a semente lançada nesses dias já germinou — não apenas nos talentos revelados, mas na consciência de que a cena, quando é genuinamente popular, reflete e transforma a vida. Que venham as próximas oficinas, e que o burburinho continue, pois ele é o sintoma de uma cultura viva, pulsante e necessária.
Hoje, sábado, 25/07/2026 será o encerramento, com o segundo ensaio aberto para familiares e amigos convidados. Às 16h30 no pátio do espaço de convivência da Paróquia São Pedro Pescador.
No dia 22 de agosto a apresentação das cenas serão repetidas na Mostra Arte e Cidadania juntamente com outras apresentações culturais, musica, audiovisual, hip-hop e maculelê mirim do povoado São Braz de Nossa Senhora do Socorro em homenagem ao dia 22 de agosto, comemorado como dia do folclore.
Abaixo a lista dos textos de onde as cenas foram retiradas:
1. Sou Criança (Ivone Boechat)
2. Seu Darlei (Nicolás Monastéri)
3. Valsa N° 6 (Nelson Rodrigues)
4. Hamlet (William Shakespeare)
5. Espelho, Espelho Meu! (Nicolás Monastéri)
6. Campanha Eleitoral (Maviel Melo)
7. A Encalhada (Ingrid Guimarães e Aloísio Abreu)
*Recorte da Peça Cócegas
"Hamlet" soviético é exibido hoje
21 de Junho de 1999
PAULO SANTOS LIMA
free-lance para a Folha
A obra mais conhecida de William Shakespeare é exibida hoje numa versão que nem todos conhecem ou esperavam conhecer.
"Hamlet", produção soviética de 1964 dirigida por Grigory Kozyntsev, integra o ciclo Teatro, Cinema e Psicanálise, promovido pela Sala Cinemateca em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicanálise.
Após a exibição do filme, o psicanalista Luis Carlos Menezes e o crítico e professor de Letras da USP José Miguel Wisnik -mediados pelo também psicanalista Uracy Simões- abrem mesa-redonda para discutir o filme e a obra do dramaturgo inglês.
Enganam-se os que esperam ver um filme de técnica rústica. Antes de qualquer metáfora política, "Hamlet" ("Gamlet", em russo), é uma adaptação em princípio fiel ao texto original. Há, ainda, um rigor estético e narrativo como pouco se vê nessas transposições.
Como no original, Hamlet é o príncipe que ouve o fantasma de seu pai pedindo vingança por ter sido assassinado pelo irmão, que assumiu o trono da Dinamarca.
O problema é que o jovem príncipe (Innokenti Smoktunovsky, ator de prestígio na época, mas, convenhamos, com 39 anos, um tanto velho para o papel) não sabe como viabilizar a vingança, uma vez que não há provas fáceis que incriminem seu tio. Outra questão: sua mãe, Gertrudes, traiu o rei com o cunhado.
Quem é culpado, o quanto é culpado e o quanto a natureza humana contribuiu para esse e outros crimes é o dilema que faz de Hamlet um louco para os cortesãos.
Não é só. Junto a traições de amigos -o único confiável é Horácio- e tentativas de assassinato, ele ainda nutre um amor tortuoso por Ofélia (a bela Anastasiya Vertinskaya), mulher que cai na verdadeira loucura, aquela que leva à destruição.
Apesar de parecer um filme dos anos 50, o "Hamlet" soviético possui fotografia e cenografia adequadas, simples e cumprindo a caracterização do texto. O diretor não o rodou como teatro-filmado, ao contrário, mantém uma câmera sempre em panorâmicas e travel-lings, instigando o olhar do espectador que mais se ateria ao discurso da obra shakespeareana.
Adaptações de "Hamlet" não faltam. Pelo menos 25 versões "fiéis" existem -do "Hamlet" de Clement Maurice (1900) ao "Hamlet" de Michael Almereyda (99), passando pelos ótimos "Hamlet" de Laurence Olivier (48) e de Kenneth Branagh (96) e o péssimo de Franco Zeffirelli (90).
O que só fortalece a leitura de Grigory Kozyntsev. Basta a última sequência, que mostra o protagonista carregado por espadas.
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac21069901.htm
quarta-feira, 22 de julho de 2026
"Cortina Levantada! 1ª Oficina de Teatro Popular da Ação Cultural Encanta e Mobiliza o Bairro Industrial"
Iniciativa gratuita da Ação Cultural une história, expressão corporal e inclusão para jovens e adultos a partir de 13 anos.

.jpeg)


.jpeg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário