terça-feira, 14 de julho de 2026

Do ‘Game of Thrones’ bolsonarista ao ‘Conto da Aia’

 PROIBIÇÃO DO VOTO FEMININO

Quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino.

Beto Vasques

13 de julho de 2026
A fala de Paulo Figueiredo, segundo a qual mulheres “votam mal”, sobretudo as solteiras, não deve ser tratada como mais uma grosseria de um influenciador em busca de engajamento. Seria confortável reduzi-la a uma bizarrice, uma provocação machista ou uma excrescência isolada do submundo digital. O problema é mais grave. Trata-se da expressão local de uma corrente internacional da ultradireita que voltou a mirar direitos civis das mulheres, e não só o sufrágio.

A obscenidade contemporânea raramente chega de uma vez. Ela se naturaliza por aproximações sucessivas. Primeiro aparece como piada. Depois, como provocação. Em seguida, como “debate”. Logo surge alguém dizendo que é apenas uma hipótese, um “dado estatístico”, uma reflexão incômoda, uma tese contraintuitiva ou o legítimo direito à liberdade de expressão.  Quando se percebe, o indizível já foi dito, o absurdo já entrou na agenda e a barbárie já encontrou seus porta-vozes.

Foi assim com a curvatura da Terra e com a higidez das urnas eletrônicas, atacadas sem provas durante anos. Foi assim com as vacinas em plena pandemia e, recentemente, com a tentativa de normalizar a ingerência norte-americana no Brasil. De tema em tema, a extrema-direita testa os limites do tolerável. O objetivo não é convencer todos de imediato, mas deslocar a fronteira do aceitável, normalizar a obscenidade civilizatória e permitir que seja desejada a céu aberto por uma legião medievalesca.

Agora, o alvo é o voto feminino.
O Boletim Especial do Instituto Democracia em Xeque, de 3 de julho, destacou que a controvérsia ganhou tração entre 30 de junho e 1º de julho, exatamente quando se aprofundava a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Foram mais de 23 mil menções ao termo “voto feminino”, com pico no dia 30. Na base classificada pelo DX, o maior cluster do debate, com 38% dos posts, foi justamente o da frase “mulheres votam mal”. O segundo, com 30%, enquadrou o voto feminino como direito democrático histórico e inegociável.

O dado mais revelador, porém, não é apenas quantitativo. É político. O relatório aponta que Figueiredo uniu duas engrenagens que vinham operando em paralelo: de um lado, a manosfera red pill, com sua hostilidade organizada às mulheres; de outro, o gabinete do ódio bolsonarista, hoje em grande medida fora do país, alimentado pelos enquadramentos originados pelo ecossistema MAGA norte-americano. A misoginia deixou de ser apenas uma expressão difusa de ressentimento masculino e passou a funcionar, primeiro, como instrumento e, agora, como motor da disputa eleitoral.

A fala apareceu no meio do Game of Thrones bolsonarista: a disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro entre o primogênito e a ex-primeira-dama. O que começou como ataque a Michelle – acusada de não entender de política – rapidamente transbordou para as mulheres como sujeito político. A lógica é antiga: quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino.

Atrizes marcham contra ditadura militar em 1968 (Foto: Reprodução/O Globo)
Eis o ponto: quando diferentes correntes da direita radical começam a tratar o voto individual como problema, o alvo não é apenas a mulher. São os marcos democráticos e civilizatórios. A justificativa muda conforme a conveniência. Beneficiários de programas sociais votariam mal porque seriam “comprados”. Trabalhadores pobres votariam mal porque seriam dependentes. Mulheres solteiras votariam mal porque teriam sido capturadas pelo feminismo. Pessoas trans, imigrantes, jovens, pobres, negros, indígenas, moradores de periferia: sempre haverá um grupo considerado incapaz de votar corretamente quando não vota como a extrema-direita quer.

O voto só é legítimo quando confirma a hierarquia desejada. A ideia de “voto da família” reveste-se de pseudo-coerência e harmonia doméstica, mas não é mais que subordinação política. Parece defender valores, mas elimina autonomia. Finge celebrar a família, mas consagra o mando masculino. O voto deixa de ser expressão da cidadania individual e passa a ser extensão da autoridade patriarcal.

Não por acaso, a reação de Flávio foi tardia e ambígua. Como pré-candidato, ele sabe que não vence eleição hostilizando mulheres. Como herdeiro do bolsonarismo, sabe que parte relevante de seu ecossistema digital se alimenta justamente dessa hostilidade. Precisa repudiar Figueiredo, não sem elogiar “tudo que está fazendo por nós” nem romper com o mundo que o produziu. Precisa acenar ao eleitorado feminino sem desautorizar de fato a máquina que o sustenta. Precisa dizer que “a mulherada manda”, enquanto seus aliados difundem teses que gostariam de devolver as mulheres ao silêncio político da época das cavernas.

A crise expõe uma contradição estrutural. O bolsonarismo depende das mulheres para vencer, mas parte de sua vanguarda digital não tolera a autonomia feminina quando ela contraria seus interesses eleitorais. As mulheres são bem-vindas como eleitorado cativo, como escada moral, como símbolo de família. Não como sujeitos autônomos.

A comparação com o Conto da Aia é precisa. O mundo de Gilead não começa com mulheres de vermelho nas ruas e direitos extintos de um dia para o outro. Inicia antes, quando a sociedade aceita ouvir, em tom de brincadeira ou cálculo eleitoral, que talvez algumas pessoas não devam decidir por si mesmas.

O episódio Figueiredo é mais um desses testes. Não o primeiro. Certa e infelizmente, não será o último.

A defesa do voto feminino não pode ser tratada como pauta identitária lateral. Trata-se de defesa elementar da democracia. O sufrágio universal é conquista histórica contra todos os que sempre desejaram restringir a cidadania aos que consideram obedientes, racionais, proprietários ou “aptos”.

A cada nova barbaridade, alguém dirá que é exagero levar a sério. Que é só provocação. Que é só internet. Que é o preço da sacrossanta liberdade de expressão. A experiência histórica ensina o contrário: democracias começam a adoecer quando passam a tratar ataques a direitos fundamentais como mera excentricidade retórica.

Entre o Game of Thrones bolsonarista e o Conto da Aia, há um fio comum: a disputa por quem manda. Na família, no partido, no corpo das mulheres e, agora, no voto. A resposta democrática precisa ser simples, frontal e inegociável: nenhuma estatística “mandrake”, nenhum “influenciador” recalcado e nenhum projeto de “voto familiar” tem o direito de transformar metade da população em cidadania tutelada.

Beto Vasques é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque. Professor de Estratégia e Comunicação Política e coordenador do projeto de implantação do Laboratório de Opinião Pública da FESP    

Michele Bolsonaro e o Paradoxo de Serena Joy: Quando a Ascensão Feminina Serve ao Patriarcado Estrutural

A minha resposta abaixo, a partir de conversa com uma jovem feminista, anterior  a leitura do texto em acima, coincidentemente  minutos antes de termos acesso ao mesmo,  analisa o paradoxo da possível ascensão política de Michele Bolsonaro. Em vez de representar um avanço feminino, seu movimento se alinha ao papel de Serena Joy em O Conto da Aia: ela é a exceção que legitima a regra. Ao disputar o poder internamente (lógica do Game of Thrones), ela não subverte o patriarcado, mas o fortalece, servindo como escudo para um projeto conservador que, na prática, restringe a autonomia feminina. Sua vitória individual cimentaria, paradoxalmente, os alicerces da opressão estrutural que o movimento defende.

 1. O "Game of Thrones" com uma nova jogadora (Michele vs. os Herdeiros)
No enredo da disputa interna do bolsonarismo, Michele deixou de ser a "rainha consorte" decorativa para se tornar uma jogadora ativa. O conflito gerado por ela no seio do clã (especialmente contra os filhos Carlos e Eduardo) não é um mero "rachismo" familiar; é uma luta direta pelo controle do capital político do patriarca.

Na lógica de Game of Thrones, ela está disputando o "Trono de Ferro" do movimento, recusando-se a ser apenas uma regente enquanto os herdeiros crescem. Ela quer um pedaço do espólio e, ao lançar sua pré-candidatura ao Senado em 2026, ela institucionaliza essa disputa. É a guerra civil dentro da casa.

2. O Paradoxo de Serena Joy: A mulher que fortalece o próprio cárcere
Agora, entramos no paradoxo do Conto da Aia. Na série/obra de Margaret Atwood, Serena Joy é a arquiteta intelectual de Gilead. Antes do regime, ela era uma ativista que pregava a volta da mulher ao lar e a submissão ao marido. Quando o regime se instaura, ela se vê presa na própria gaiola que ajudou a construir.

O paradoxo de Serena é:

Ela tem poder de influência (sobre o Comandante, sobre os guardas, sobre a própria June).

Mas ela não tem poder institucional próprio (não pode ler, não pode ter propriedade, é reduzida ao papel de esposa estéril e vigiada).

Ela usa seu status para oprimir outras mulheres, acreditando que isso a coloca "ao lado dos vencedores", mas isso só aprofunda a estrutura que a subjuga.

3. Como isso se aplica a Michele Bolsonaro e à política brasileira atual?
Se Michele ocupar cargos de maior poder (como uma vaga no Senado) dentro deste projeto político, a vitória não será do feminismo, mas do patriarcado travestido de empoderamento individual. Eis o paradoxo:

Ela é a exceção que confirma a regra: A ascensão dela só é tolerada porque ela é a "esposa do líder". Ela não rompe com o teto de vidro do bolsonarismo; ela apenas prova que, dentro daquele ecossistema, a única mulher que pode ter poder é aquela que serve como extensão da vontade do homem (o marido).

Ela legitima a opressão estrutural: Ao disputar o poder usando a bandeira conservadora, defendendo pautas que restringem direitos reprodutivos e a laicidade do Estado, Michele está atuando como Serena Joy. Ela está "normalizando" a misoginia de Gilead. Se ela vencer, o discurso do movimento será: "Vejam, nós não somos machistas, temos uma mulher forte na liderança!".

O contributo à vitória do patriarcado: Esse discurso serve como um escudo perfeito para desarmar as críticas externas. Enquanto a sociedade vê uma mulher ocupando espaço, as bases do movimento (homens e mulheres tradicionais) continuam implementando políticas que, na prática, mantêm a maioria das mulheres subjugadas. Ela se torna a "prova viva" de que o sistema não é opressor, exatamente como Serena usava sua imagem nos eventos de Gilead.

4. A articulação final entre as duas séries
Aqui está a costura perfeita entre os dois enredos aplicados à realidade:

O "Game of Thrones" bolsonarista (disputa de Michele com os filhos) é a tática de curto prazo. É a luta para ver quem fica com os espólios e as candidaturas.

O "Conto da Aia" é a estratégia de longo prazo. Se Michele vencer essa disputa interna e chegar ao poder, ela não estará subvertendo a lógica de Gilead; estará institucionalizando-a. Ela será a Serena Joy brasileira: uma mulher que alcançou projeção nacional exatamente por defender um projeto que, se plenamente realizado, a reduziria (e reduziria todas as outras) a um papel subalterno.

Conclusão: Na política brasileira atual, o movimento de Michele não é um sinal de abertura democrática ou avanço feminino. É, como você bem colocou, um contributo paradoxal: ao chutar a escada do "Game of Thrones" para subir, ela está, ao mesmo tempo, cimentando os alicerces do "Conto da Aia" para as demais. A vitória dela é a vitória da exceção que protege a regra, garantindo que o patriarcado continue vitorioso exatamente porque usa uma mulher como sua principal fiadora.





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