O curta-metragem Domésticas, produzido pela ONG Themis — Gênero, Justiça e Direitos Humanos em parceria com a ONU Mulheres (Fundo de Igualdade de Gênero) e o fundo ELAS, conta a história de três mulheres trabalhadoras domésticas. Com direção de Felipe Diniz e realização da Casa de Cinema, o documentário integra o projeto “Trabalho Doméstico: Construindo Igualdade no Brasil”. O filme — lançado em 2016 será exibido nesta sexta-feira (31), às 14h, no Sindoméstica_SE, no Centro de Aracaju — acompanha o cotidiano de profissionais como a baiana Creuza Oliveira, presidenta da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, e outras duas mulheres contatadas pela ONG a partir de atividades com a categoria.
A produção surge em um contexto fundamental: em 2013, a Themis começou a fortalecer redes da categoria com oficinas pelo país. No mesmo ano, foi aprovada a PEC que garante direitos às domésticas — regulamentada apenas em 2015 e que, ainda hoje, formaliza apenas cerca de 30% das trabalhadoras (dado de 2016). Diante da desvalorização, da discriminação, da vulnerabilidade e da herança racista e sexista que marcam a atividade, o objetivo do curta, conforme explica a coordenadora Michele Savicki, é mostrar essa realidade e fomentar o debate. “Queremos que as pessoas possam debater sobre elas e sobre a lei aprovada, que estejam atentas a isso”, afirmou. A produtora executiva Ana Luiza Azevedo, da Casa de Cinema, reforça que a ideia é continuar ampliando esse registro, "contar um pouco a história delas em vários lugares do Brasil".
E essa mensagem encontrou eco imediato. Desde suas primeiras exibições, o curta se transformou em um espelho doloroso para muitas espectadoras. Mais do que um registro audiovisual, a obra provocou uma onda de relatos sinceros nas redes sociais — memórias de infância roubada, promessas não cumpridas, humilhações silenciosas e uma luta incessante por reconhecimento e direitos trabalhistas. A seguir, uma reportagem construída a partir das vozes de quem viveu essa realidade na pele.
“Doeu, me vi nesse filme”: a realidade das domésticas em depoimentos.
“Meu sonho era estudar”: a infância interrompida
Entre os depoimentos, um dos mais comoventes é o de uma mulher que, aos 13 anos, foi trabalhar na casa de uma professora. “O meu sonho era estudar, amava os livros, cheirava, abraçava, pedia para as crianças me ensinarem”, relembra. Ela caprichava no uniforme, mas o sonho esbarrava na rotina exaustiva: “Era muito trabalho, não dava tempo”. Viúva, sua mãe tinha muitos filhos, e ela foi trabalhar para diminuir as despesas de casa, com a promessa de que poderia estudar — promessa que, na prática, nunca se cumpriu.
Outra história semelhante é a de uma mulher que, com apenas 11 anos, foi levada para outra cidade com a promessa de brincar, mas acabou trancada em um apartamento, limpando e tomando banho gelado. “Quando eles saíam, eu ficava trancada no apartamento, com muito medo”, desabafa. “Foram tempos difíceis.”
Invisibilidade e desumanização: “alicerce dos prédios”
A metáfora talvez mais forte veio de um dos comentários: “A empregada doméstica ou a diarista no Brasil são como alicerces dos prédios: fundamentais, mas invisíveis” . Essa invisibilidade se traduz em gestos cotidianos de desrespeito. Uma usuária relata que sua mãe, manicure, tinha uma amizade de longa data com uma cliente. Quando sua mãe faleceu, a cliente nunca mandou uma mensagem de pesar. Anos depois, ao reencontrá-la na igreja, a única pergunta foi: “Você faz unha igual sua mãe também?” — ou seja, ainda buscava uma serviçal.
O relato de uma sobrinha expõe a crueldade com que muitas são descartadas: sua tia trabalhou 46 anos na mesma casa, criou os filhos da patroa e abriu mão de constituir a própria família. Seu quarto era do tamanho de uma cama, sem água quente. “Quando ela adoeceu, eles não sabiam como descartá-la bem rápido”, conta. “Ela morreu deprimida, magoada pelo desprezo.”
A luta por direitos: “para futilidades, pagam caríssimo”
A disparidade de valores é um dos pontos mais citados. “Para futilidades, os patrões pagam caríssimo. Para o direito das domésticas, tudo custa muito”, resume uma internauta. Outra denuncia: “Tem patrões que não querem pagar passagem e ainda dizem que queremos ganhar mais que eles que estudaram.” A resposta é direta: “É cada um limpar sua casa e organizar sua própria bagunça.”
Apesar dos avanços legais — como a PEC das Domésticas e a LC 150/2015 —, muitos apontam que a exploração persiste. “Pra mim é uma escravidão até hoje. Fazem mil e uma coisas por um salário horrível e ainda são humilhadas”, desabafa uma jovem. Outra lamenta: “Minha mãe trabalhou 20 anos numa casa e saiu sem nada.”
Resiliência e esperança: “graças a Deus, estudei muito”
Em meio à dor, há relatos de superação. A mesma mulher que começou aos 13 anos conseguiu, anos depois, estudar à noite e trabalhar de dia. “Terminei ensino médio, fiz Enem”, conta com orgulho, embora lamentando não ter concluído a faculdade de fisioterapia. “Eita, tenho história pra contar.”
Outras vozes celebram as conquistas: “Graças a Deus, hoje o direito está esclarecido para acabar com essa escravidão no Brasil” . E há quem veja no curta uma ferramenta de transformação: um professor de história do Ceará conta que usa o documentário em suas aulas na periferia , e uma internauta defende que “deveria ser obrigatório assistir esse documentário nas escolas”.
Um seminário para além das telas
Mas a programação do dia 31 de julho, data marcada para a exibição do curta no Sindoméstica_SE, vai muito além das telas. A data foi escolhida para abrigar um verdadeiro seminário dedicado às trabalhadoras domésticas, com início às 9h e encerramento às 17h. A manhã começa com o credenciamento e a composição da mesa oficial, que dá lugar a uma série de falas fundamentais: a presidenta Quitéria abre os trabalhos, seguida por representantes da CUT e do DIEESE, que trazem a perspectiva histórica do movimento sindical e os dados econômicos que envolvem a categoria. Em seguida, especialistas em nutrição, psicologia e direito — este último com um enfoque direto nos direitos garantidos pela PEC — oferecem palestras informativas.
Após a pausa para o almoço, os trabalhos retomam às 14h, horário exato em que o documentário é exibido, criando uma ponte perfeita entre a arte e o debate. Na sequência, uma roda de conversa convida as participantes a compartilhar vivências e esclarecer dúvidas, transformando a plateia em protagonista. O dia ainda reserva um acolhedor "Momento da Beleza" e atendimentos individuais com nutricionista, psicóloga e advogado para aquelas que desejarem, antes do encerramento oficial com agradecimentos às 17h. Esse seminário, ao reunir conhecimento, autocuidado e troca de experiências, materializa na prática a luta por dignidade que o documentário expõe na tela.
Os depoimentos revelam que o curta Domésticas não é apenas um filme — é um retrato cru de uma realidade que ainda persiste, mesmo com os avanços legislativos conquistados pela luta organizada da categoria. São histórias de infâncias roubadas, de corpos invisibilizados, mas também de resistência. Como resume uma das participantes: “Temos direitos atualmente, obrigada a vocês que lutaram por essa conquista!” A luta, porém, continua — e cada relato, assim como cada palestra e roda de conversa do seminário, é um lembrete de que o trabalho doméstico, essencial para a autonomia econômica de tantas famílias e para o funcionamento da sociedade, merece ser tratado com a dignidade que sempre lhe foi negada.


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