domingo, 12 de julho de 2026

A Anatomia do Nosso Caos: O Que Vivaldi e as Irmãs Sandes Nos Ensinam Sobre a Urgência de Cultivar Públicos e Memorias

Por Zezito de Oliveira

Ontem, sábado, 11 de julho, manifestei minha indignação pela pouquíssima presença de público na primeira sessão de sábado do filme Anatomia do Caos, em cartaz no Cinema do Centro, em Aracaju. Publiquei o desabafo em alguns grupos e o enviei para conhecidos individualmente; alguns responderam, outros não. Ao encerrar a sessão, deparei-me com um grupo significativo de pessoas do lado de fora esperando a exibição seguinte. Perguntei a Rás de Sá — um grande companheiro interessado na vida cultural e na saúde cívica de nossa cidade, da qual o acesso diversificado à produção e fruição artística é um claro indicador — e ele me respondeu: "É sobre um filme da vida de Vivaldi, autor de As Quatro Estações. Foi um dos selecionados para o Festival do Cinema Italiano e teve uma boa repercussão, por isso retornou à programação." Rás estava acompanhado de sua tia. Antes, eu já o havia encontrado no sensacional concerto da Orquestra Sinfônica de Sergipe, alusivo às comemorações da emancipação política do estado, na companhia de sua mãe. Guardemos essa informação retomaremos mais adiante, porque essas companhias não são apenas um detalhe.
🎬 O Enigma das Salas Vazias no Cinema de Arte
Por ora, voltemos à pouca presença de pessoas na primeira sessão deste sábado. Vamos pensar juntos, como costuma provocar o professor João Cézar de Castro Rocha. A flutuação de público em cinemas de arte é comum, ocorrendo por razões inerentes ao perfil das obras e dos espectadores. Muitas dessas produções caracterizam-se pelo caráter crítico, altamente reflexivo, polêmico e experimental, sem perder o encantamento próprio da chamada Sétima Arte. Portanto, é esperado que algumas sessões esvaziem e outras lotem. Porém, há filmes que transcendem o mero entretenimento; são urgentes, necessários e relevantes. É muito comum dizermos — em aulas, escritos acadêmicos, transmissões de internet, podcasts, artigos impressos e rodas de conversa — que somos um país sem memória. Até o brilhante Gonzaguinha imortalizou essa temática em uma canção magistral "PEQUENA MEMÓRIA PARA UM TEMPO SEM MEMÓRIA" . A canção de Gonzaguinha homenageia os resistentes à ditadura militar, clamando pelo resgate da memória dos perseguidos e oprimidos. A letra exalta a coragem de anônimos que lutaram pela liberdade e critica o esquecimento, instando as futuras gerações a manterem viva a história e a resistência. 
🦠 Anatomia do Caos: O Testemunho de um Sobrevivente
É por isso que, quando surge um filme que trata de forma necessária e competente de um aspecto recente e traumático de nossa história — a pandemia do coronavírus, potencializada pelo pandemônio que foi o governo do inominável —, e essa obra não recebe a atenção merecida por parte de intelectuais, formadores de opinião, professores, lideranças ou ativistas sociais, não podemos "deixar barato". Dirigido pela cineasta baiana Dandara Ferreira, o documentário Anatomia do Caos organiza de forma condensada e potente os bastidores da CPI da Covid, realizada ao longo de 2021. A investigação revelou o nível de degradação ética e moral a que chegamos a partir da eleição de Jair Messias Bolsonaro. 
Essa degradação causou a morte de milhares de brasileiros, incluindo a de minha santa mãe, que faleceu de Covid enquanto eu me encontrava no leito de um hospital, em estado de quase morte. Por conta de um coma induzido que durou cerca de um mês, seguido por vinte dias para o desligamento dos aparelhos e mais um longo período de recuperação de uma infecção hospitalar, só fui informado da partida dela dias após acordar. Como apenas 20% dos intubados naquela situação sobreviveram, considero minha sobrevivência um milagre. 
Através do filme de Dandara Ferreira, podemos recordar a incapacidade da gestão federal em lidar minimamente com aquela crise sanitária e, pior, o despudor de integrantes do alto escalão do governo. Enquanto a população agonizava, esquemas obscuros moviam os bastidores do poder, como o chocante escândalo da compra superfaturada da vacina indiana Covaxin. A CPI revelou que o Ministério da Saúde pressionou servidores para fechar um contrato bilionário a um preço quatro vezes maior que o de outros imunizantes e com indícios de reajuste de até 1.000% sobre o valor original — tudo isso enquanto ignoravam propostas anteriores de laboratórios consolidados. Ver o cinismo de autoridades tentando lucrar em cima de vidas humanas, sob o pretexto de defenderem "a família", escancara a gravidade histórica retratada no documentário. E o nível das  brigas internas reveladas recentemente no seio da família apenas confirma essa baixeza moral. 
🎻 Primavera: A Arte Como Espaço de Resistência
Encerrado o assunto Anatomia do Caos, passo para o outro filme, Primavera, que retrata a opressão e a objetificação das jovens órfãs no Ospedale della Pietà, em Veneza, durante o século XVII. Dirigido pelo renomado encenador italiano Damiano Michieletto em sua estreia no cinema de longa-metragem, o drama foca em como as meninas recebiam uma educação musical de excelência, mas viviam reclusas e tratadas como mercadorias para a elite. Nesse cenário, a música surge como a única via de emancipação e resistência, tendo a chegada de Antonio Vivaldi como o catalisador que ajuda a protagonista Cecília a romper as barreiras institucionais e encontrar a própria voz. Baseado no romance Stabat Mater (2008), de Tiziano Scarpa, o filme de Michieletto exibe uma esplendorosa carpintaria cinematográfica, acumulando prêmios de público e do júri em festivais internacionais, além de receber quatro prestigiadas estatuetas no David di Donatello.
🎭 O Legado das Irmãs Sandes e a Memória Afetiva
É exatamente aqui que a presença de Rás de Sá no concerto e no cinema se conecta ao esvaziamento de Anatomia do Caos. Rás é filho e sobrinho de duas mulheres que brilharam na cena cultural de Aracaju: as irmãs Walkyria Sandes de Sá e Walmir Sandes, figuras pioneiras do teatro sergipano entre as décadas de 1970 e 1980. Walkyria marcou época como professora da CULTART/UFS e fundadora da FETAS, enquanto Walmir, a "Dama do Teatro Sergipano", cofundou o influente Grupo Opinião de Espetáculos. Ao crescer acompanhado por elas nos palcos de Aracaju e no Festival de Arte de São Cristóvão (FASC), Rás desenvolveu desde cedo um hábito cultural profundo e afetivo. Essa trajetória prova que o interesse por obras densas e a preservação da nossa saúde cívica e cultural dependem de uma transmissão de memória geracional, afinal no passado,  Ras é quem era levado pela mãe e/ou pela tia  para assistir peças de teatro, de dança, show musicais, filmes, concertos, filmes,  exposições de arte e etc., e quando cresceu até foi incluído como colaborador em algumas produções das duas irmãs Sandes, ele me contou certa vez como atuou como bilheteiro no Teatro Lourival Baptista, uma espécie de teatro de bolso antigo que existe em Aracaju, atualmente fechado, mas com perspectivas de ser reformado e reaberto até o final deste ano,   através de parceria do governo estadual com o governo federal através do PAC.
🏛️ Educação e Cultura Como Estratégias de Saúde Cívica
Para que salas de arte não fiquem vazias diante de filmes tão necessários, faz-se urgente que os professores da educação básica também frequentem assiduamente esses espaços. Ao expandirem seus próprios repertórios críticos, os educadores tornam-se capazes de motivar os alunos de forma autêntica, agindo como os catalisadores culturais que Vivaldi foi na ficção de Damiano Michieletto e que as irmãs Sandes foram na realidade sergipana. Contudo, essa circulação não pode depender apenas do esforço individual. Ela precisa ser consolidada como uma estratégia de política educacional de Estado. Espelhando-se em programas de sucesso de outros estados — como o Cinesaberes no Rio de Janeiro —, o poder público deve estruturar parcerias que garantam transporte escolar gratuito para itinerários culturais, ingressos subsidiados e formação continuada para os professores. Somente integrando o cinema de arte e o teatro ao currículo pedagógico formal será possível combater a nossa crônica falta de memória, lotar as salas de exibição com as novas gerações  e assegurar, de fato, a cidadania cultural, que é um dos pilares principais de nossa democracia incompleta, inconclusa e insuficiente, o que significa dizer de forma bem poética,  uma flor com pouca defesa. O investimento maciço e combinado em educação e cultura pode garantir a saúde e outras flores e frutos mais robustos e sustentáveis.
Para quem puder ir, ainda tem sessão de "Anatomia do Caos" nesta segunda-feira. "Primavera" pela grande receptividade do público ainda pode voltar. Todos os dois dois merecem ser vistos ou revistos também no streaming,  quando estiver disponível.

https://www.instagram.com/cinemadocentro/

Zezito de Oliveira é historiador,  professor e ativista cultural em Sergipe. Sobrevivente severo da Covid-19 — após enfrentar um longo período de intubação e tratamento —, traz em sua escrita a urgência de quem compreende a arte e o resgate histórico não apenas como ferramentas pedagógicas, mas como pilares inegociáveis para a memória coletiva, a justiça social e a saúde cívica do país.

sábado, 27 de junho de 2026


Primavera encontra a história que faltava a Antonio Vivaldi

O documentário CEM APLAUSOS (2015) acompanha um dia na vida da atriz Walmir Sandes, considerada a dama do teatro sergipano. Com mais de 40 anos de palco, a atriz continua em cena e é memória viva de grandes momentos da cultura local. Através da coleta de depoimentos, ações e materiais de arquivo, este filme busca retratar a vida dessa mulher ao mesmo tempo em que resgata a história e as personalidades que marcaram os últimos 40 anos do teatro em Sergipe.(Este vídeo foi apresentado ao Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe, como requisito final para obtenção da graduação em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo).
Biografia, Documentário - 0:0 - Sergipe, Brasil, 2015
Tipo de Obra: Cinema
Direção: Anne Samara Torres
Direção de Fotografia: EDUARDO FREIRE
Edição - Montagem: ANNE SAMARA TORRES LU SILVA
DIREÇÃO, PRODUÇÃO E ARGUMENTO ANNE SAMARA TORRES   ASSISTENTE DE DIREÇÃO   EVERLANE MORAES ASSISTENTE DE PRODUÇÃO JOEL COSTA JUNIOR  DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA E CÂMERA  EDUARDO FREIRE   CAPTAÇÃO DE ÁUDIO   SÉRGIO ROBSON CAMPOS MONTAGEM  ANNE SAMARA TORRESLU SILVAA RTE E ANIMAÇÃO MARCOS SANTOS PESQUISA ANNE SAMARA TORRES EDIÇÃO E FINALIZAÇÃO LU SILVA  EDIÇÃO DE ÁUDIO LEO AIRPLANE   TRILHA SONORA  FLOR (COUTTO ORQUESTRA)


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