quinta-feira, 30 de julho de 2026

COMO O AGRO DOMINOU A MÚSICA BRASILEIRA

 Recebi o link pra um dossiê intitulado Farra, um levantamento sobre os eventos promovidos por órgãos públicos e animados por artistas da Música Popularesca Brasileiram o texto estarrecedor, e disponível no site deolhonosruralistas.com.br


Um trechinho:

"Durante seis meses, a equipe de pesquisa do De Olho nos Ruralistas mergulhou em um universo de mais de 20 mil contratos, quase 40% deles ausentes na principal referência para jornalistas e pesquisadores, o Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP). E constatou uma escala de gastos muito maior do que aquela até agora noticiada.

No que se refere aos shows realizados em 2024, 2025 e início de 2026, cem bandas

receberam, cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais. Ao todo, o valor do top 100 ultrapassa os R$ 5 bilhões. Isso levando em conta contratos firmados até 31 de março de 2026, data de fechamento da pesquisa de dados — para podermos viabilizar as comparações e a divulgação.

Dentro desse top 100 há um grupo ainda mais exclusivo: o de artistas que ultrapassaram o rubicão dos R$ 50 milhões em contratos públicos. Esses 40 nomes receberam, juntos, R$ 3,08 bilhões desde janeiro de 2024. Um valor que se aproxima do recorde de captação pela Lei Rouanet, de R$ 3,41 bilhões em 2025. Com duas diferenças: 1) apenas a quantia do top 40 sai diretamente dos cofres públicos; 2) a Lei Rouanet se refere a diversas expressões artísticas, não somente a música.

2 - Mas seriam os artistas os únicos beneficiados? Nossa investigação foi além e mostrou que há uma concentração ainda maior em um grupo de cinco produtoras nordestinas que, sozinhas, receberam R$ 2,42 bilhões — quase metade do valor obtido pelo top 100. Esse oligopólio é liderado por dois cantores: Wesley Safadão, sócio da Camarote Shows e 3º colocado entre os artistas que mais receberam dinheiro público no Brasil; e Xand Avião, da produtora Vybbe, 10º lugar na lista.

Muito além de serem concorrentes, os antigos amigos Xand e Safadão ilustram a partir de suas empresas o quanto o universo dos shows públicos no Brasil tem a participação ativa das bets e do agronegócio (...) 


José Teles é um influente jornalista, escritor e crítico musical brasileiro radicado no Recife. Com mais de 30 anos de carreira no Jornal do Commercio e colaborações em revistas nacionais, ele é referência na cobertura cultural do Nordeste. É autor de diversos livros sobre a música e a cultura regional, incluindo a obra Do Frevo ao Manguebeat.

Nota do editor : Como Natanzinho Lima estraga a canção abaixo
A mensagem central de "Entre a Serpente e a Estrela" é a dualidade do amor e a dor inevitável de suas marcas. A música mostra o dilema humano de se equilibrar entre o perigo da paixão (a serpente) e a luz do romance (a estrela). Ela reforça que amar exige vulnerabilidade, o mistério do sentimento feminino é indecifrável e ninguém sai de uma relação sem cicatrizes. [1]

Grandes Canções 🎶 A música ‘Entre a Serpente e a Estrela’, interpretada pelo cantor e compositor Zé Ramalho, é uma obra que mergulha nas profundezas das emoções humanas, explorando a dualidade do amor e da dor que muitas vezes o acompanha. A letra da canção utiliza metáforas para descrever a complexidade dos relacionamentos amorosos e a inevitável marca que eles deixam em nossas vidas. O início da música já nos apresenta uma imagem forte com ‘um brilho de faca onde o amor vier’, sugerindo que o amor pode ser tanto luminoso quanto cortante. A referência ao ‘mapa da alma da mulher’ pode ser interpretada como a dificuldade de compreender completamente os sentimentos e pensamentos de outra pessoa, especialmente em um contexto amoroso. A serpente e a estrela, elementos centrais da canção, simbolizam respectivamente a tentação e a aspiração, o perigo e a beleza, o que torna o amor tão complexo e contraditório. A música fala sobre seguir em frente apesar do sofrimento, mantendo a esperança de que o futuro possa trazer de volta o que foi perdido, simbolizado pelo ‘semblante de mulher’. Essa esperança, no entanto, é tingida pela consciência de
Ao contextualizar a frase proferida pelo cantor de arrocha Natanzinho Lima antes de interpretar "Entre a Serpente e a Estrela", fica evidente o choque cultural e temático. A expressão "mulher bonita e gado nelore só tem quem pode" destrói, esvazia e inverte completamente a essência poética e filosófica da composição original por três motivos principais: [1, 2, 3]
1. Coisificação e Status vs. Vulnerabilidade e Dor
  • Na música original: A letra de Aldir Blanc aborda o amor como uma força avassaladora e mística. Ela traz vulnerabilidade absoluta, onde "ninguém sai com o coração sem sangrar". O foco é a entrega emocional e o sofrimento inevitável de quem ama. [1, 2]
  • Na fala de Natanzinho: Ao equiparar uma mulher ao gado Nelore (uma das raças de bovinos mais caras e valorizadas do mercado agropecuário), o cantor coisifica as relações. O amor deixa de ser uma experiência de sentimentos profundos e passa a ser tratado como um símbolo de status social, luxo, poder aquisitivo e posse. [1, 2, 3]
2. Orgulho de Ostentação vs. O Mistério Indecifrável
  • Na música original: A canção exalta a humildade diante do sentimento e a incapacidade do homem de controlar o afeto, eternizada no verso "ninguém tem o mapa da alma da mulher". É o reconhecimento de que o outro é um mistério sagrado e inalcançável. [1]
  • Na fala de Natanzinho: A expressão "só tem quem pode" sugere que mulheres bonitas seriam "conquistas" reservadas apenas a homens com poder ou dinheiro. Isso anula a ideia de mistério e conexão de almas, transformando o relacionamento em uma transação de ostentação. [1]
3. Redução Estética vs. Conflito Existencial (A Serpente e a Estrela)
  • Na música original: A canção vive no equilíbrio sutil entre o perigo carnal da paixão (serpente) e a iluminação espiritual (estrela). É um dilema profundo da existência humana.
  • Na fala de Natanzinho: Toda essa riqueza mitológica e metafórica é reduzida a um jargão raso do universo das vaquejadas e do agronegócio. A dualidade poética é substituída pela mera valorização da beleza estética física como um bem de consumo. [1]
Ao introduzir um clássico existencial de Zé Ramalho com uma frase de ostentação material, o cantor remove o misticismo e a sensibilidade da obra, transformando um hino sobre a dor de amar em uma celebração machista de poder e posse. [1, 2]





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