sábado, 29 de novembro de 2025

Filme ¨Evangelho da Revolução" será exibido no Cinema do Centro, Aracaju, em 13/12, com a apoio do Cineclube Realidade na mobilização do público.

 O Evangelho da Revolução, retrato impactante da América Latina 

                                                            Frei Betto  (*)

 O filme O Evangelho da Revolução, documentário de François-Xavier Drouet sobre o impacto político das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação na conjuntura da América Latina, é uma obra de arte surpreendente. Longe de aderir ao panfleto fácil, a obra aposta em uma narrativa que mistura rigor documental, ousadia estética e uma dimensão profundamente humana para revisitar momentos de lutas revolucionárias em El Salvador, Brasil, Nicarágua e México. O resultado é um filme vigoroso, capaz de dialogar com quem viveu períodos de luta armada da segunda metade do século XX e o sentido bíblico da palavra “revolução” para camadas empobrecidas motivadas pela fé cristã. 

 Um dos aspectos mais positivos do filme é sua capacidade de iluminar personagens históricos — líderes políticos, pensadores, militantes anônimos — sem reduzi-los a caricaturas. A câmera acompanha cada figura com respeito, revelando contradições, medos, dúvidas e conquistas. Em vez de construir heróis idealizados, o filme apresenta pessoas reais, cuja força política nasce justamente da vulnerabilidade e da coragem cotidiana. Esse olhar humanizador fortalece a compreensão de que processos transformadores são feitos por gente comum: pobres, jovens, pessoas movidas por ética, empatia e um profundo senso de justiça.

 A direção aposta numa montagem engenhosa, que costura materiais de arquivo, depoimentos e registros históricos simbólicos. O ritmo é firme, mas nunca atropelado: o espectador é conduzido a refletir enquanto as imagens se desdobram com o mesmo ritmo das lutas populares por libertação. O filme sugere, sem didatismo, que a história é, por vezes, cíclica — e que os anseios por transformação retornam sempre que a sociedade se vê diante da desigualdade e da violência estrutural.

 A fotografia é outro destaque. Há um cuidado quase litúrgico com a luz: rostos tristes de pessoas oprimidas iluminados por uma árdua esperança; montanhas silenciosas sinalizando horizontes utópicos; depoimentos que evocam coragem e resistência. Essa estética confere ao filme uma aura poética, como se cada quadro fosse uma tentativa de captar não apenas fatos, mas o espírito de uma época. A beleza visual nunca é gratuita, sustenta a mensagem central de que a revolução também é feita de imaginação, sensibilidade e amor.

 O filme se destaca especialmente na forma como articula política e espiritualidade. Ao tratar a luta revolucionária como uma espécie de evangelho, boa-nova, anúncio de um mundo possível, a narrativa cria um campo fértil para a reflexão sobre ética, solidariedade e compromisso coletivo. A revolução não aparece como um mero gesto de violência, mas como opção paciente e comunitária em sociedades e contextos que suprimiram todas as vias pacíficas e democráticas. Esse enquadramento amplia o horizonte do espectador, que é convidado a enxergar a luta por transformação social como prática de cuidado, esperança e fé.

 O Evangelho da Revolução conecta passado e presente, traçando paralelos entre antigos ciclos de opressão e os desafios atuais, como a expansão do fundamentalismo evangélico e a inviabilidade da via revolucionária. Não se prende ao lamento: evidencia conquistas, aprendizados e, sobretudo, a persistência de pessoas que continuam acreditando na dignidade humana como base de qualquer mudança. Esse movimento dá ao público uma sensação de continuidade histórica, como se cada gesto de resistência fosse parte de uma longa corrente.

 O Evangelho da Revolução é, portanto, uma obra luminosa. Seu mérito maior talvez seja lembrar que, mesmo em tempos de desencanto, há vidas, ideais e experiências que insistem em apontar outro caminho. O filme celebra a coragem dos que ousaram sonhar e demonstra que a revolução, antes de ser uma proposta política, é um modo de caminhar à luz da fé e de realizar o projeto de Deus na história. 

 (*) é escritor, autor da tetralogia sobre os evangelhos - Jesus Militante (Marcos); Jesus Rebelde (Mateus); Jesus Revolucionário (Lucas) e Jesus Amoroso (João) - da editora Vozes, entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Em 13 de dezembro, sábado, às 18 horas, o cinema do centro, localizado no Centro Cultural de Aracaju (Palácio - Museu Luiz Antônio Barreto), Pça. General Valadão,  estará exibindo o filme "O Evangelho da Revolução",  o primeiro documentário de longa-metragem sobre a teologia da libertação e a participação dos cristãos nas lutas revolucionárias na América Latina,  após  a exibição, um bate-papo com o doutor em filosofia e professor  Romero Venâncio (UFS).  

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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Primeiro longa-metragem sobre a Teologia da Libertação na América Latina estreia no Brasil  

Chega ao Brasil Evangelho da Revolução, o primeiro documentário de longa-metragem dedicado à história da Teologia da Libertação na América Latina. Após circular por diversos festivais e estrear em cinemas de cinco países europeus, o filme passará por várias capitais brasileiras e estará disponível em múltiplas plataformas.  

SOBRE O CINECLUBE REALIDADE

O Cineclube Realidade teve as atividades do ciclo inicial realizadas na Escola Estadual Júlia Teles , de agosto de 2015 até outubro de 2017, abrindo com o filme filme "Uma onda no ar" (2008) e encerrando com o filme" Quando sinto que já sei" (2014).

Em termos de números de participação, na sessão de estreia, em agosto de 2015, a quantidade em horário de pico chegou perto da meta pretendida de 20 pessoas,  Em geral, a meta esperada sempre foi essa, porém, poucas vezes chegamos a esse número. A média de participação ficou na maioria das vezes em 10 pessoas, a exceção de outras duas sessões com 30 e 50 pessoas. 

O Cineclube suspendeu suas atividades deste primeiro  ciclo no ano de 2017 em razão de adversidades decorrentes das mudanças na gestão pública federal, ascensão de Michel Temer a presidência da república em 2016.

No ano de 2019, a experiência adquirida com o Cineclube Realidade fez com que dois integrantes da Ação Cultural liderassem a retomada da proposta, inaugurando o segundo ciclo nos bairros de Aracaju, sendo agora de forma itinerante, com o nome de Cineclube Circular e com temática voltada para filmes que trouxessem questões mais urgentes e “nervosas” do contexto contemporâneo, tanto no âmbito politico, como nos âmbitos cultural, social, econômico e ambiental. Sendo esta iniciativa interrompida entre outras razões por causa da COVID, a qual foi  decretado como pandemia em  dia 11 de março de 2020 pela OMS.

No inicio de 2024 foi inaugurado o terceiro  ciclo na Igreja São Pedro Pescador e no SAME – Lar de Idosos, localizados no Bairro Industrial com média que variou entre 30 e 60 pessoas nas 9 sessões realizadas. 

Neste ano de 2025,  realizamos uma bem sucedida participação no circuito difusão 14ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, confira AQUI,  o que pretende-se repetir novamente com a nossa participação na 2º Mostra Mercosul Audiovisual nestes meses de novembro e dezembro. AQUI.


Para este  final de 2025 e durante 2026 o Cineclube Realidade foi contemplado com um dos componentes  principais do Projeto Ação Cultural Juventude e Cidadania,   apresentado em seleção pública através do  Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e da Política Nacional Cultura Viva com participação da Fundação Cultural de Aracaju (Funcaju) - Prefeitura de Aracaju.

O projeto em tela prevê,  além da sessões de cinema mensal, oficina de audiovisual com celular (março-abril-2026), oficina de teatro popular (abril-maio-2025), mostra cultural (maio-2026), seminário introdutório de educação popular, ação cultural e participação social (junho-2026) e transmissão aberta de formação cultural no youtube (agosto-setembro-outubro 2026).

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