domingo, 12 de junho de 2022

QUADRILHAS JUNINAS COMO UM GRANDE BALLET OU ÓPERA POPULAR. POR QUE NÃO?

Publicado no facebook em 30 de junho de 2017



Parabéns a Unidos em Asa Branca pela incorporação  da dança do São Gonçalo dentro da apresentação abaixo. 

Talvez isso não seja a quadrilha caipira ou tradicional, mas é bonito de  se ver. Talvez seja isso que pede uma forma de fazer São João com palco e platéia.

Um São João para  todos os presentes protagonizarem pede a quadrilha caipira, tradicional. 

O grande lance desse tempo que vivemos é aceitar a coexistência de vários tempos, de várias maneiras de produzir arte e cultura. De formas diferentes de produzir a própria existência.

Quanto as cabeças de muitos jurados, estas  foram feitas em outro tempo, com outra mentalidade. Até entendo a necessidade de mantermos alguns valores fundamentais da tradição, mas acho irreversivel essa situação da quadrilha ballet ou ópera popular. A questão é que ainda precisaremos de um tempo para um entendimento melhor sobre isso.



Já em relação a questão Tradição X Inovação, também em um artigo no portal  no overmundo, teci as seguintes considerações:

"Aqui em Sergipe ocorre, todos os anos, uma discussão acadêmica envolvendo a mudança de perspectiva das quadrilhas juninas que aos poucos vão perdendo a simplicidade e a ludicidade dos passos tradicionais para dar lugar a outros mais complexos e que se caracterizam pela inovação e pelo hibridismo. Com isso, a maioria das quadrilhas acaba se transformando em grupos populares de dança ou em balés populares. Da nossa parte, entendo que é um movimento que não tem volta, em função daquilo que alguns intelectuais chamam de “sociedade do espetáculo”, que é uma marca da cultura atual. Entretanto, como considero que a quadrilha tradicional tem o seu lugar, a sua razão para continuar a existir, penso que é incorporando ao movimento das danças circulares sagradas que isso estará garantido.

Já experimentamos os efeitos de integração, socialização, quebra do gelo, “distensionamento”, satisfação e etc. que os movimentos coreográficos da quadrilha tradicional podem nos proporcionar. Em alguns eventos realizados recentemente no Complexo Cultural “O Gonzagão”, como na celebração de 1 ano da atual gestão, na festa junina de confraternização dos funcionários da Secretaria da Cultura e também após a apresentação espetacular de algumas quadrilhas juninas durante o forró mensal, que é realizado naquele local, os presentes foram convidados para adentrar o salão principal e através dos passos da quadrilha tradicional celebrar a alegria de estarem juntos."

Zezito de Oliveira

Abaixo, publicado no facebook em 11 de junho de 2022

Réplica ao argumento apresentado acima:

"Gostaria que a discussão fosse assim tão simples, mas não é. Estas mudanças das quadrilhas para grupo cênico, não foi algo que decorreu de adaptações, ou lentamente, mas sim uma ruptura que tem um exato marco. A sua gênese, segundo entrevista de um “quadrilheiro” a um canal de TV pernambucano, está em um grupo que mudou as indumentárias e música para “homenagear o povo gaúcho em uma época em que os estados da Região Sul ensaiavam um movimento separatista”. A estilização gaúcha mostrou o caminho para a ruptura com a novidade sendo impulsionada pelo advento do concurso de quadrilhas da Rede Globo Nordeste no qual estas quadrilhas eram as vencedoras. A única que rompeu com este ciclo de quadrilhas estilizadas vencendo o concurso foi a Maracangaia aqui de Aracaju a qual fez um movimento de retorno às origens reintroduzindo partes tradicionais, como o quebra caranguejo, e ritmos de quadrilha que já estavam esquecidos como a polca e a mazurca, os quais estabelecem a ligação com as origens europeia, ainda que já “nordestinizados”, como canta Luíz Gonzaga (polca Fogueteira e Mazurca)
Há uma citação de Gandhi que gosto muito de usar “Não quero que minha casa seja murada por todos os lados e que minhas janelas sejam tapadas. Quero que a cultura de todas as terras seja espalhada pela minha casa o mais livremente possível. Mas eu me recuso a ser derrubado por uma aragem qualquer” Fiz uma adaptação porque no original ele faz um jogo de palavras com o verbo to blown (I do not want my house to be walled in on all sides and my windows to be stuffed. I want the cultures of all lands to be blown about my house as freely as possible. But I refuse to be blown off my feet by any.)
Durante o tempo em que militava no turismo muitas pessoas diziam que o turismo matava a cultura, enquanto eu mostrava que o turista buscava autenticidade, hoje além dos não lugares corremos o risco da não cultura, expressões que poderão ser de qualquer lugar.
Infelizmente a tendência é seguir aquilo que se torna predominante, independente do que levou a isto. Eu cheguei a criar um evento chamado forró dos turistas, realizado no Gonzagão, que era um ensaio aberto de quadrilhas juninas tradicionais em que no final os turistas eram integrados ao grupo, toda a renda arrecada era revertida para a quadrilha junina. Este evento era realizado no início do ano. Porém mudanças de políticas no turismo não deram continuidade. Outro exemplo de mudança foi o Arraiá do Povo. Poucos sabem que é um projeto meu. Em sua primeira realização experimental no ano 2000, ainda no governo Albano Franco, foi feito em abril na região da passarela das flores. A ideia seria de termos uma mostra das diferentes celebrações juninas com cada município tendo o seu espaço. No primeiro ano do Governo João Alves ainda conseguimos manter esta ideia, com os stands divididos por polos de turismo com cada município do polo trazendo a sua cultura junina. Quase ninguém lembra mas neste ano se chamou arraiá dos municípios. Até que alguém teve a ideia de mandar verem como funcionava em Caruaru e Campina Grande, pois queria fazer algo que competisse com o Forrocaju, resultado o projeto foi mudado e virou a Vila do Forró e depois Chapéu de Couro.
Quando voltei à Secretaria da Cultura, depois Funcap, reapresentei a ideia de retomar o projeto original, inclusive com a forma de financiamento, porém esta já é outra história..."

Alberto Nascimento

Tréplica 

"Muito grato pela sua exposição e contextualização, inclusive com base na experiência vivenciada... Sei que este debate aqui em Sergipe, coloca dois pólos opostos em disputa. Mas pelo que explanei acima, dá para perceber o meu lugar no meio dos dois pólos. O problema é que o pólo dos modernistas podemos dizer assim, encontra mais aderência em função da pouca formação cultural critica, assim como por causa dos apelos sedutores da sociedade de consumo."

Zezito de Oliveira

"As quadrilhas juninas  tipo hi-tech  fazem  o samba do criolo doido,  mistura saltimbancos,  revolução dos bichos,  boi de Ceará, Beatles e por aí segue."

Maíra Magno


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