segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Farra dos Shows no Brasil e em Sergipe e o Futuro da nossa Cultura.

E  se uma parte expressiva desse dinheiro fosse investido em ações culturais nas escolas, em iniciativas culturais de base comunitária, em programas de comunicação  e midia digital voltadas para difusão das culturas locais e seus artistas? 


1. O Espetáculo do Desperdício

Quando um show de um único artista consome R$ 1,3 milhão dos  cofres públicos e ainda assim há   indícios de superfaturamento de mais de R$ 900 mil — não estamos falando de cultura. Estamos falando de um sistema perverso que transforma dinheiro público em moeda de troca eleitoral, em vitrine de promoção pessoal e em entretenimento de uma noite que se dissolve no dia seguinte, sem deixar rastro.

Não é exagero. Os números estão aí, escancarados pela investigação do portal "De olho nos ruralistas": só no ano passado, 131 emendas "Pix" destinaram R$ 61 milhões para shows em todo o país. Um "sistema paralelo de financiamento de campanha", como definem os especialistas, onde a transparência é a primeira vítima e a cultura, coadjuvante de luxo, assiste ao show passar.

2. O Rebaixamento do Debate em Sergipe

Mas em Sergipe, essa discussão assume um contorno ainda mais delicado. Enquanto a imprensa nacional escancara a farra dos grandes cachês, aqui o debate foi rebaixado a uma falsa dicotomia: ou se faz uma festa com artistas locais, ou se traz grandes nomes de fora. (saiba mais aqui )

O mais grave é que esse pensamento não é restrito às lideranças políticas. Ele está impregnado na mentalidade de muita gente. Há uma crença tácita de que valorizar a produção local é sinônimo de "festa menor", de evento provinciano, como se o talento sergipano fosse, por si só, insuficiente para atrair público e gerar fruição cultural.

Esse engano é duplamente perverso.

Primeiro, porque desqualifica a cena local. Ao tratar o artista sergipano como "opção de segunda linha", a própria classe política e parte do público desestimulam o fortalecimento das carreiras locais, mantendo um ciclo vicioso de dependência de atrações externas. O artista da terra fica sem palco, sem visibilidade, sem renda — e depois se espantam quando ele precisa migrar para outros estados em busca de oportunidades.

Segundo, porque escamoteia a verdadeira questão. O problema nunca foi "artista local versus artista de fora". O problema é o critério de gasto. Um show de um artista sergipano pode ter cachê justo e ainda sobrar verba para estrutura, som, iluminação e contratação de outros talentos locais. Um show de um artista nacional pode consumir 90% do orçamento e deixar a cidade apenas com o lucro político de quem o contratou.

Não somos nem oito nem oitenta. E essa é a chave da discussão.

3. A Pergunta que Incomoda

E se uma parte expressiva desse dinheiro — que hoje vai para um show de uma única noite — fosse investido em ações culturais nas escolas, em iniciativas culturais de base comunitária, em programas de comunicação e mídia digital voltados para a difusão das culturas locais e seus artistas?

A pergunta parece simples, mas ela incomoda. Porque mexe com interesses. Porque exige planejamento. Porque exige que o gestor público pense no longo prazo, e não apenas no próximo fim de semana de campanha.

Se o temor é que "com artistas locais a presença do público diminui de forma expressiva", a resposta não é trazer um artista de fora para "salvar" a festa. A resposta é construir público ao longo do ano inteiro.

4. O que Significa Construir Público?

Construir público é um trabalho paciente, cotidiano e estruturante. É entender que a plateia de um show não nasce no dia do evento. Ela se forma na escola, nos projetos comunitários, nas rádios comunitárias, nos canais digitais que divulgam a produção local.

Um show de um grande nome nacional atrai 50 mil pessoas em uma noite. Mas um programa contínuo de:

Oficinas de música, teatro e dança nas escolas, que formem novas plateias e novos artistas;

Editais de fomento para bandas, grupos teatrais, cineastas e poetas sergipanos, que garantam renda e produção artística estável;

Programas de rádio, televisão e redes sociais dedicados a divulgar a produção cultural do estado;

Festivais descentralizados que levem arte para os bairros e municípios do interior;

... pode atrair, em 12 meses, centenas de milhares de pessoas para eventos culturais espalhados por todo o território sergipano. E mais do que isso: pode gerar pertencimento, identidade e valorização do que se produz aqui.

5. Modelos que Dão Certo

Não estamos inventando a roda. O governo federal já reconhece essa necessidade, com iniciativas como o programa Arte e Cultura nas Escolas de Tempo Integral, uma parceria entre os Ministérios da Educação e da Cultura. A ideia é que a cultura seja parte do currículo e do desenvolvimento integral do aluno — algo que um show de um final de semana não pode proporcionar.

O Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, já atua há anos nessa direção, apoiando os Pontos de Cultura — entidades que desenvolvem atividades culturais de forma contínua em territórios e comunidades. Esse modelo garante que a cultura seja feita pela e para a comunidade, e não apenas para o público de um evento isolado.

Em Sergipe, temos exemplos inspiradores. Projetos como o Prata de Casa, similar sergipano do Projeto Pixinguinha e o Palco Giratório, em suas melhores fases, mostraram que é possível circular a produção local com qualidade e capilaridade. O que falta é continuidade, planejamento e, principalmente, orçamento compatível com a importância dessas iniciativas.

6. A Armadilha da Descentralização sem Capacidade

Mas é preciso cuidado. A experiência com a Lei Aldir Blanc — um dos maiores avanços na política cultural brasileira — mostrou que a descentralização de recursos para estados e municípios encontra um grande obstáculo: a falta de capacidades institucionais locais.

Cidades com conselhos de cultura ativos, planos municipais de cultura elaborados e estruturas administrativas consolidadas tiveram melhor desempenho na execução dos recursos. Já aquelas que receberam o dinheiro sem ter equipe técnica ou planejamento viram o recurso devolver ou mal aplicado.

Portanto, o debate não é apenas sobre "o que" financiar, mas também sobre "como" financiar. É necessário:

Mais transparência — controle rigoroso e prestação de contas clara sobre a destinação de emendas, com dados abertos e acessíveis ao cidadão;

Fortalecimento institucional — apoio técnico para que prefeituras e estados possam gerir projetos culturais de fomento com qualidade;

Planejamento participativo — substituir a lógica do "evento isolado" pela lógica do "programa estruturante", construído com a participação da sociedade civil e dos fazedores de cultura.

7. O show de um ou alguns poucos dias ou o direito à Cultura?

Em Sergipe, como no resto do país, o que está em jogo não é a qualidade dos artistas que sobem ao palco, mas a qualidade do planejamento cultural que antecede e sucede aquele palco.

O "rebaixamento" do debate sergipano é sintoma de uma mentalidade que confunde fruição cultural com consumo de entretenimento. O entretenimento de um show de final de semana é válido, legítimo e pode até ser desejável. Mas não pode consumir quase todo o orçamento público destinado à cultura, deixando a produção local definhar no esquecimento.

A cultura não é um adereço. Não é o "foguinho de artifício" que se acende numa festa e se apaga na manhã seguinte. A cultura é o que nos define como povo. É a língua que falamos, as histórias que contamos, as músicas que cantamos, as danças que dançamos, os sabores que saboreamos, as crenças que professamos.

Quando investimos em cultura de forma estruturante, estamos investindo em cidadania. Em autoestima. Em desenvolvimento econômico — porque a cultura gera emprego, renda e turismo. Em educação — porque a cultura forma pessoas mais críticas, mais sensíveis, mais preparadas para a vida.

8. Um Chamado à Mudança

Este artigo não é um manifesto contra os artistas de fora. Pelo contrário: a circulação de artistas nacionais e internacionais é saudável, enriquece o debate cultural e pode, sim, ser um motor para o turismo e a economia local. O que se critica aqui é a desproporção — o fato de que o dinheiro que poderia fomentar uma cena cultural inteira é gasto em uma única apresentação.

A pergunta que fica é: qual Sergipe queremos construir?

O Sergipe que se contenta com o brilho efêmero de um show de final de semana, ou o Sergipe que investe na formação de plateias, na valorização de seus artistas e na construção de uma identidade cultural forte e orgulhosa de suas raízes?

Não se constrói plateia com um show. Constrói-se plateia com educação, com presença, com valorização cotidiana do que se produz aqui.

Que a próxima vez que um gestor público pensar em gastar milhões em um único show, ele se pergunte: e se uma parte desse dinheiro fosse para as escolas? E se fosse para os Pontos de Cultura? E se fosse para criar um canal de comunicação que divulgasse a produção sergipana o ano inteiro?

A resposta a essas perguntas pode ser o divisor de águas entre a cultura como espetáculo e a cultura como direito.

Zezito de Oliveira  — historiador, professor, educador popular,  pesquisador cultural e cidadão  engajado. Escreve sobre políticas culturais e valorização da produção local em Sergipe.

Compartilhe este artigo. A discussão sobre o uso do dinheiro público em cultura não pode ficar restrita a artistas, especialistas e saudosistas.. 

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