segunda-feira, 11 de maio de 2026

Frei Betto acende o sinal vermelho para a esquerda

 Vinte anos após “A mosca azul”, frade dominicano alerta que esquerda abandonou bases, deixou Paulo Freire na estante e abriu espaço para avanço do conservadorismo religioso, milícias e extrema direita.

Frei Betto fez, em entrevista ao Brasil 247, um dos alertas mais duros à esquerda brasileira neste momento de campanha eleitoral. 

Segundo o escritor, teólogo e frade dominicano, as forças progressistas se afastaram das periferias, abandonaram a educação popular e deixaram de investir na formação política que foi decisiva durante a resistência à ditadura militar e na construção das condições que levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. 

“Nós fomos abandonando as bases. Não há reprodução, não há formação política, não há equipes de educação popular. Paulo Freire hoje, no máximo, fica nas estantes e não na prática”, afirmou Frei Betto. 

Na mesma entrevista, ele disse que partidos e sindicatos perderam capacidade de mobilização social após o enfraquecimento das estruturas populares. Também apontou um processo de elitização de setores da esquerda ao ocuparem cargos institucionais e espaços de governo. 

Foi nesse contexto que usou uma expressão dura: “esquerda de salto alto”

Para Frei Betto, é a esquerda que chega ao governo e começa a se afastar do povo; que não quer mais ir à periferia, subir favela ou estar ao lado dos movimentos populares. 

A crítica tem peso porque não vem de fora da esquerda. Vem de alguém que dedicou a vida à educação popular, à Teologia da Libertação, à resistência democrática e à formação das bases sociais que ajudaram a tornar Lula possível. 

O diagnóstico é ainda mais grave porque aponta uma consequência concreta: o vazio deixado pela esquerda nas periferias foi ocupado por outras forças. 

“Hoje essas áreas estão dominadas por fundamentalistas, milícias e narcotráfico. Ninguém mais da esquerda faz trabalho político nessas regiões”, afirmou. 

O alerta, portanto, não é apenas moral. É político. E, em 2026, é também eleitoral. 

A advertência que já estava em “A mosca azul 

A entrevista ganha mais força quando lida à luz de “A mosca azul”, livro em que Frei Betto refletiu sobre sua experiência no primeiro governo Lula. 

Entre 2003 e 2004, ele foi assessor especial da Presidência da República e coordenador da Mobilização Social do programa Fome Zero. 

O livro não era apenas relato de bastidores. Era uma reflexão crítica sobre o poder, suas seduções e seus riscos. Frei Betto escrevia como alguém que havia visto, por dentro, a chegada da esquerda ao Palácio do Planalto. 

Vinte anos depois, sua entrevista retoma a mesma advertência em outro momento histórico. 

Em “A mosca azul”, Frei Betto alertava para o risco de a esquerda se encantar com o poder. Agora, aponta uma consequência concreta desse encantamento: o afastamento das bases populares. 

A “mosca azul” do poder não produz apenas vaidade pessoal. Produz deslocamento político. Faz lideranças confundirem governo com povo organizado. Faz partidos confundirem cargos com presença social. Faz militantes confundirem comunicação institucional com educação popular. 

Faz a esquerda acreditar que políticas públicas, por si só, substituem o trabalho paciente de formação, escuta e organização. 

É contra essa ilusão que Frei Betto volta a falar. 

Lula nasceu da base, não do marketing 

Um dos pontos centrais da entrevista é a lembrança de que Lula não chegou à Presidência por obra de marketing eleitoral ou apoio empresarial. 

Para Frei Betto, Lula foi resultado do acúmulo político do movimento popular construído desde a luta contra a ditadura. 

Essa frase reorganiza o debate. 

Lula não foi criação publicitária. Foi construção histórica. 

Nasceu das greves do ABC, das comunidades eclesiais de base, das pastorais, dos sindicatos, dos movimentos de bairro, da resistência democrática, da Teologia da Libertação, da educação popular e dos círculos de formação política. 

Esse é o ponto essencial do alerta. 

Se Lula nasceu de um longo processo de organização popular, o que acontece quando esse processo se enfraquece? 

Se a esquerda venceu porque formou consciência social, o que acontece quando abandona a formação? 

Se o campo progressista construiu sua força nas periferias, nos sindicatos, nas comunidades e nos movimentos, o que acontece quando deixa esses espaços vazios? 

A resposta aparece no próprio diagnóstico de Frei Betto: esses territórios passaram a ser ocupados por outras forças. Forças conservadoras, autoritárias, religiosas fundamentalistas, milicianas, criminosas ou diretamente vinculadas à extrema direita. 

Não foi apenas erro 

O alerta de Frei Betto levanta uma pergunta incômoda: por que a esquerda saiu das periferias, das favelas, dos sindicatos, das escolas públicas, das igrejas, dos movimentos sociais e do contato direto com o povo? 

A resposta não é simples. 

Houve erro da própria esquerda, sim. Houve institucionalização excessiva, deslumbramento com cargos, dependência da política parlamentar, perda de trabalho de base e substituição da educação popular pela comunicação de campanha. 

É disso que Frei Betto fala quando denuncia a “esquerda de salto alto”. 

Mas não houve apenas erro interno. 

Desde o fim dos anos 1960, a América Latina foi alvo de uma ofensiva geopolítica, religiosa e ideológica contra as formas de organização popular que ameaçavam os interesses dos Estados Unidos e das classes dominantes locais. 

Essa ofensiva mirava sindicatos combativos, movimentos populares, experiências de educação política, setores progressistas da Igreja Católica e, especialmente, a Teologia da Libertação. 

Washington entendeu cedo o perigo representado por uma Igreja que deixava de ser apenas sustentáculo da ordem e passava a atuar ao lado dos pobres. Documentos oficiais norte-americanos mostram que, já em 1969, no governo Richard Nixon, a Casa Branca pedia estudos sobre o papel da Igreja Católica na América Latina e sobre as razões pelas quais setores religiosos se aproximavam de posições consideradas radicais. 

A Teologia da Libertação era perigosa para os donos do poder porque ligava fé e justiça social. Ligava Evangelho e pobreza. Ligava comunidade e consciência política. Ligava a missa, a Bíblia, a associação de bairro, a luta por terra, o sindicato, a alfabetização e a organização popular. 

Não por acaso, foi combatida por fora e por dentro. 

Por fora, pelas ditaduras latino-americanas, pelas elites econômicas e pelos aparelhos ideológicos da Guerra Fria, que viam qualquer organização popular como ameaça comunista. 

Por dentro, pela própria hierarquia conservadora da Igreja Católica, sobretudo a partir do papado de João Paulo II e da ação doutrinária do cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI. 

Em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a “Instrução sobre certos aspectos da Teologia da Libertação”, documento que reconhecia a preocupação cristã com os pobres, mas condenava o uso de categorias marxistas e advertia contra a transformação da fé em projeto político revolucionário. 

O resultado foi profundo. 

A Igreja popular perdeu força. As comunidades eclesiais de base foram esvaziadas. Padres, freiras, agentes pastorais e leigos comprometidos com a luta social foram isolados, substituídos ou empurrados para a margem. 

A opção preferencial pelos pobres continuou como expressão aceita no discurso, mas perdeu parte de sua potência organizada no território. 

Ao mesmo tempo, a direita religiosa cresceu. 

Esse deslocamento não pode ser explicado por uma única causa. Seria simplista atribuir o avanço conservador nas periferias apenas a uma operação externa. Houve urbanização acelerada, crise da presença católica, abandono pastoral, busca popular por acolhimento, redes de apoio e linguagem direta. 

Mas é impossível ignorar que esse processo foi funcional à estratégia conservadora. 

Onde antes havia comunidade eclesial de base, educação popular e organização política, passaram a existir púlpitos anticomunistas, redes de obediência moral, guerra cultural e mobilização eleitoral da direita. 

O espaço da fé popular, antes disputado por uma leitura libertadora do cristianismo, passou a ser ocupado por fundamentalismos e lideranças alinhadas aos projetos das classes dominantes. 

É nesse ponto que o alerta de Frei Betto encontra sua dimensão histórica. 

Quando ele diz que Paulo Freire ficou na estante, está falando de uma derrota política profunda. Paulo Freire é odiado pela extrema direita porque seu método ensina o povo a ler o mundo, não apenas a ler palavras. 

Sua pedagogia transforma alfabetização em consciência. Transforma experiência de opressão em pergunta política. Transforma o pobre em sujeito, não em objeto de caridade, manipulação ou obediência. 

Vista por esse ângulo, a ausência da esquerda nas periferias não foi apenas abandono. Foi também resultado de uma disputa perdida — ou negligenciada — por território, fé, linguagem, formação e presença. 

Frei Betto não absolve a esquerda. Ao contrário: cobra dela responsabilidade histórica. Mas seu alerta permite compreender que o vazio atual não nasceu do nada. Foi produzido por décadas de ofensiva conservadora, repressão às organizações populares, neutralização da Igreja progressista, demonização de Paulo Freire e ocupação religiosa, política e digital das periferias. 

A eleição começa antes da eleição 

O alerta de Frei Betto é ainda mais importante porque o Brasil entra numa campanha duríssima. 

A disputa de 2026 não será apenas entre candidatos. Será entre dois projetos de país. 

De um lado, o projeto representado por Lula e pelo campo democrático-popular: reconstrução do Estado, defesa da soberania, combate à fome, ampliação de direitos, valorização do trabalho, recuperação de políticas públicas e preservação da democracia. 

De outro, o projeto da extrema direita: autoritarismo, submissão internacional, guerra cultural permanente, destruição de direitos sociais, perseguição política, captura religiosa da política, manipulação digital e tentativa de anistiar o golpismo

Mas Frei Betto parece advertir que essa disputa não se resolve apenas no horário eleitoral, nos palanques, nas pesquisas, nas redes sociais ou nas alianças parlamentares. 

A eleição começa antes da eleição. 

Começa no bairro. Na igreja. No sindicato. Na escola. Na associação de moradores. No grupo de WhatsApp da família. Na conversa com o trabalhador endividado. No diálogo com a juventude precarizada. Na escuta das mães que vivem a insegurança cotidiana. 

É aí que a extrema direita tem atuado com método, disciplina e agressividade. 

E é aí que, segundo Frei Betto, a esquerda se ausentou. 

Voltar ao povo 

A advertência de Frei Betto aponta para uma tarefa concreta: voltar ao povo. 

Voltar às periferias, às favelas, aos sindicatos, às escolas públicas, às igrejas populares, aos movimentos sociais, às associações de bairro, aos jovens trabalhadores, às mulheres que sustentam famílias inteiras, aos aposentados, aos entregadores, aos informais, aos endividados, aos invisíveis. 

Voltar não como visita de campanha. 

Voltar como presença. 

Voltar como escuta. 

Voltar como formação. 

Voltar como educação popular. 

Voltar como reconstrução de laços. 

Esse é o sentido mais profundo do alerta de Frei Betto. Ele não oferece uma frase de efeito. Oferece uma memória histórica e uma advertência política. 

A esquerda que levou Lula ao poder nasceu no chão do Brasil. 

Se quiser sustentar Lula, defender a democracia e enfrentar a extrema direita em 2026, terá de reencontrar esse chão. 

A mosca azul já havia sido identificada por Frei Betto vinte anos atrás. Agora, ele volta para dizer que a picada deixou marcas profundas. 

A pergunta, neste momento decisivo, é se a esquerda terá humildade para ouvir. 

https://revistaforum.com.br/opiniao/frei-betto-sinal-vermelho-esquerda/

Leia mais sobre Frei Betto

Importância histórica de Frei Betto é resgatada em quatro documentários

Frei Betto, 80 anos: o frade que nunca se rendeu à margem errada da História






Scholas Occurrentes e Fratelli Tutti: quando a cultura do encontro chega às periferias. Por Zezito de Oliveira

Oficina de audiovisual com celular revela sintonia com legado do Papa Francisco e inspira nova geração de jovens contadores de histórias

papa-francisco-da-pincelada-em-projeto-scholas-ocurrentes-jmj-lisboa-2023-_-foto-Vatican-Media-1. Introdução

Na tarde do último sábado, 9 de maio, aconteceu o lançamento dos curtas produzidos pelos aprendizes da 1ª Oficina de Audiovisual com Celular, "Cinema na Palma da Mão". Foram exibidas as obras Música da Fé, O Peso da Batina e Brasinha – O som que não envelhece. Mais do que filmes, o que vimos foi um encontro: entre gerações, entre vizinhos, entre histórias que talvez nunca tivessem sido contadas – e entre uma experiência comunitária concreta e dois grandes legados deixados pelo Papa Francisco: a encíclica Fratelli Tutti e a Fundação Pontifícia Scholas Occurrentes.

Este artigo busca exatamente explorar essa sintonia. Afinal, o que há em comum entre uma oficina de audiovisual na periferia de Aracaju e documentos escritos no Vaticano? Mais do que se imagina.

2. O que é a Scholas Occurrentes?

A Scholas Occurrentes nasceu na Argentina, ainda quando o cardeal Jorge Mario Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires. Inspirada na ideia de "escola de encontros", a proposta era simples e revolucionária ao mesmo tempo: reunir jovens de diferentes origens, religiões e realidades sociais para que aprendessem uns com os outros por meio da arte, da tecnologia, do esporte e do diálogo.

Em 2013, já como Papa Francisco, Bergoglio transformou a Scholas em Fundação Pontifícia – um reconhecimento oficial da Santa Sé. Desde então, a Scholas está presente em mais de 190 países, promovendo uma educação que não se limita à sala de aula, mas que acontece na vida, com a vida e para a vida.

Como o próprio Papa Francisco afirmou: "A Scholas Occurrentes é uma escola que não ensina conteúdos, mas ensina a vida, ensina a se encontrar com o outro."

3. A Scholas no Brasil: presença ainda pouco conhecida

Durante a pesquisa para este artigo, confesso que encontrei poucas informações sistematizadas sobre a atuação da Scholas Occurrentes no Brasil. Seus projetos mais conhecidos ocorreram em países como Argentina, Itália, Estados Unidos e Moçambique. No Brasil, a presença parece mais discreta – o que não significa ausência.

Há registros de ações pontuais em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, muitas vezes em parceria com escolas públicas, universidades e organizações da sociedade civil. No entanto, falta uma articulação mais ampla com a capilaridade das pastorais sociais, das comunidades eclesiais de base e dos pontos de cultura espalhados pelo país.

Essa lacuna de informações foi justamente o que motivou este artigo e o contato com representantes da Scholas no Brasil. Afinal, se a proposta é tão potente, por que ainda não chegou com força às periferias brasileiras? E como podemos mudar isso?

4. Conexões com a CNBB e a Pastoral da Juventude

Outra questão que emerge naturalmente é: como a Scholas se relaciona com as estruturas eclesiais já existentes no Brasil, especialmente a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a Pastoral da Juventude?

Pelo que foi possível apurar, ainda não há um protocolo formal de parceria institucional. A Scholas atua de maneira mais autônoma, muitas vezes diretamente com escolas e prefeituras. No entanto, os princípios são absolutamente convergentes:

A Pastoral da Juventude sempre trabalhou com a metodologia "ver, julgar, agir" – que dialoga com a proposta Scholas de partir da realidade concreta dos jovens.

A CNBB, por meio de suas campanhas da fraternidade e documentos sobre educação, tem reiterado a necessidade de uma escola que forme para a cidadania, o diálogo e a paz – exatamente o núcleo da Scholas.

Faltam, portanto, pontes. É um convite aberto. Como dizia Dom Hélder Câmara: "É de vento o que voa. É de chão o que fica." A Scholas tem tudo para criar raízes no solo fértil da juventude brasileira – mas para isso precisa de braços abertos e chão batido.

5. Na prática: o que a Scholas pode ensinar às comunidades periféricas

A experiência da oficina "Cinema na Palma da Mão" é um exemplo vivo do que a Scholas Occurrentes propõe. Vejamos:

Princípio Scholas Como apareceu na oficina

Protagonismo juvenil Os jovens escolheram os entrevistados, as temáticas e conduziram todas as etapas de produção acompanhados por dois adultos com experiência profissional (Marcel Magalhães e Zezito de Oliveira).

Cultura do encontro Vizinhos que nunca tinham conversado profundamente se tornaram personagens e expectadores de suas próprias histórias.

Tecnologia a serviço da comunidade O celular, antes visto como distração, tornou-se ferramenta de criação e expressão.

Arte como linguagem de paz Os curtas trouxeram memórias, afetos e reconciliação – não violência ou competição.

Sem muros, sem fronteiras Pessoas de bairros distantes (Aruana, Bairro América) vieram prestigiar a sessão do cineclube.

O que a Scholas pode ensinar às periferias não é um método fechado, mas uma atitude aberta: a de que qualquer escola, igreja, centro cultural, centro comunitário,  podem se tornar um ponto de encontro – desde que esteja disposta a sair de si mesma e ir ao encontro do outro.

6. Conclusão

A encíclica Fratelli Tutti nos chama a reconhecer que somos todos irmãos, independentemente de raça, religião ou condição social. A Scholas Occurrentes nos dá ferramentas concretas para transformar esse reconhecimento em prática educativa.

A oficina "Cinema na Palma da Mão" não foi apenas um curso de audiovisual. Foi um gesto profético: adolescentes e jovens, com celulares nas mãos, disseram ao mundo que suas histórias importam, que seus bairros existem, que seus vizinhos têm alma e que a arte pode sim mudar vidas.

Que outras comunidades se sintam inspiradas por essa experiência. E que a Scholas Occurrentes encontre no Brasil o chão fértil que merece.

7. Referências e contatos

Scholas Occurrentes (site oficial): www.scholasoccurrentes.org

Encíclica Fratelli Tutti (texto completo): www.vatican.va

Ponto de Cultura Ação Cultural Juventude e Cidadania: oscacaocultural@gmail.com

Texto produzido por Zezito de Oliveira, professor de História aposentado e assessor pedagógico do Ponto de Cultura Ação Cultural Juventude e Cidadania com apoio da IA deepseek.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Inscrições abertas para a 2ª turma "Cinema na Palma da Mão" de 11 a 18 de maio como Iniciativa da Ação Cultural realizada na Paróquia São Pedro Pescador (Bairro Industrial).


https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSe57SNeRgzRndNOsXbbKJXR721ASBGNpQMI9Wyg5iC78peUaA/viewform?usp=dialog




sábado, 21 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 23 de março de 2026

“Cinema na Palma da Mão”: jovens lançam curtas emocionantes com participação da Politica Nacional Aldir Blanc de Fomento a Cultura.

 


Como divulgado nas redes digitais da Ação Cultural nos últimos dias, aconteceu na tarde deste último sábado, 9 de maio, o lançamento dos curtas produzidos pelos aprendizes da 1ª Oficina de Audiovisual com Celular, intitulada “Cinema na Palma da Mão”. Foram exibidas as obras: Música da Fé, O Peso da Batina e Brasinha – O som que não envelhece.

Foi uma tarde muito bonita, carregada de emoção, novos conhecimentos, surpresas e gratidão.

A emoção pairou no local diante do resultado incrível proporcionado pela parceria entre a Ação Cultural e a Paróquia São Pedro Pescador, com participação da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. O objetivo foi viabilizar um processo formativo inicial para que um grupo formado majoritariamente por adolescentes e jovens aprendesse a contar histórias de vida de pessoas da comunidade. Essa experiência exigiu dedicação, disciplina e paciência para pesquisar sobre a vida dos entrevistados. Trata-se de um aprendizado que vai além de assistir: é ser protagonista de uma experiência de produção até então reservada, em geral, a quem tinha renda acima da média para aprender e comprar equipamentos.

Quanto aos novos conhecimentos, ficou evidente — tanto no processo das aulas quanto nos depoimentos dos membros das equipes após a apresentação de cada filme — o quanto foi significativo aprender sobre a escolha da temática, a seleção dos entrevistados, o esforço de produção envolvido, a construção do roteiro, as noções de fotografia, a edição e o trabalho que isso impõe.

Em termos de surpresas, destacou-se a oportunidade de conhecer pessoas que estavam próximas, mas distantes no que diz respeito ao conhecimento mais profundo sobre elas e sua visão de mundo (ou cosmovisão) — tanto por parte dos aprendizes quanto de quem assistiu aos filmes. Outra surpresa foi, na tarde de sábado, a presença de pessoas de bairros distantes, como Aruana e Bairro América, atendendo ao convite publicado nas redes virtuais para a sessão especial do cineclube.

Em relação à gratidão, recebemos e retribuímos da mesma forma. Registramos o apoio de lideranças da comunidade paroquial, em primeiro lugar do Padre José Soares, além das lideranças da catequese, crisma, da Renovação Carismática Católica e da Pastoral da Comunicação.

Em um dos momentos da minha fala na abertura destaquei que as atividades realizadas pela Ação Cultural — como a oficina "Cinema na Palma da Mão", o cineclube, o blog, o canal no YouTube, os  saraus e as mostras culturais — estão profundamente alinhadas com o legado do Papa Francisco por meio da proposta da Scholas Occurrentes (Escola de Encontros) e da encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos), pois ambas defendem a construção de uma cultura do encontro, da fraternidade e da cidadania ativa. A Scholas Occurrentes, reconhecida como Fundação Pontifícia, promove a integração de jovens por meio da arte, da tecnologia, do esporte  e do diálogo, valorizando as histórias e os saberes das comunidades periféricas — exatamente o que a oficina de audiovisual com celular fez ao ensinar adolescentes e jovens a contar, com seus próprios olhos e ferramentas simples, as vidas e memórias de pessoas do bairro. Já a Fratelli Tutti convoca todos a reconhecerem o outro como irmão, a superar indiferenças e muros invisíveis, e a valorizar o pertencimento comunitário. O cineclube, o blog e o canal no YouTube ampliam esses princípios ao criar espaços abertos de partilha, escuta e visibilidade para vozes muitas vezes silenciadas, promovendo o encontro entre gerações, bairros distantes e diferentes visões de mundo. Assim, cada curta produzido, cada sessão exibida e cada texto publicado se tornam gestos concretos para a sociedade civil como para  uma igreja em saída, que educa pelo afeto, pela cultura e pelo reconhecimento mútuo da dignidade humana.

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

P.S.: 1 -  A sessão especial do Cineclube Realidade conforme descrito acima, não estreou somente os filmes produzidos na oficina "Cinema na Palma da Mão", mas também o novo projetor com capacidade para melhorar a exibição de filmes em locais semiabertos ou com quantidade significativa de luz, assim como a caixa de áudio JBL e  vinte cadeiras plásticas com braços e mais espaçosas.

P.S.: 2 - No dia 01 de junho às 15 horas no SAME - Lar de Idosos, teremos sessão especial com o objetivo de celebrar a identidade local e promover o protagonismo dos idosos, com a  exibição dos filmes Brasinha, "O som que não envelhece".  "A Menina que Tocou o Arco-Íris" de Marcel Magalhães e "HAN" de André Aragão.  O segundo  destaca a cinebiografia de Maria Feliciana, ícone cultural  do estado, e o terceiro traz uma perspectiva sensível sobre o tempo e a maturidade. Juntos, os filmes somam menos de 45 minutos de duração, oferecendo uma experiência dinâmica e envolvente. Com classificação indicativa livre, a sessão é pensada para integrar diferentes gerações, tendo como pilar central a valorização do público 60+ e o fortalecimento das raízes culturais de Sergipe. É uma oportunidade única de enxergar o estado e sua gente através das lentes do afeto e da memória. 

Zezito de Oliveira - Assessor Pedagógico das Oficinas Culturais e Curador do Cine Realidade..

Primeiro filme da tarde: "A Música da Fé" prendeu a atenção do público do início ao fim.

Passando para agradecer e parabenizar aos envolvidos  pela tarde maravilhosa! Um projeto incrível, riquíssimo e agregador para todos os  participantes que se dedicaram na coleta e edição dos vídeos, assim como para os telespectadores como eu, que me senti muito agraciada com tamanho conhecimento cultural repassado. Parabéns e Sucesso à todos...Que as próximas edições sejam ainda mais construtivas e edificantes.   Paz e bem🙏 Att, Luana Caroline, mãe de Sabrina.

Meus agradecimentos

Quero registrar aqui minha profunda gratidão por toda a experiência que tive nesta oficina. Cada aula foi uma verdadeira descoberta. Aprendi na prática como construir um roteiro, captar imagens com qualidade e editar um mini documentário usando somente o celular, algo que parecia impossível pra mim antes desse curso.

Ao Marcel, meu muito obrigada. Sua paciência, generosidade e mentoria cuidadosa fizeram toda a diferença. Você nos encorajou nos momentos de dúvida, celebrou nossas conquistas e nos ensinou com leveza e competência. Foi um privilégio aprender com você.

Participar dessas aulas me mostrou que, com criatividade, técnica e boas orientações, é possível contar histórias incríveis com recursos simples. Concluí não apenas com um trabalho final , mas com muita segurança e vontade de seguir fazendo pequenas produções com o que tenho na mão.

A toda a equipe e aos meus colegas dessa primeira turma, meu carinho e admiração. Foi inspirador dividir esse processo com vocês. 

Muito obrigada por tudo. Essa experiência ficará para sempre na memória.

 Iasmin Santos Feitosa, 11/05/2026.

Sobre a Fundação Scholas Ocurrentes



terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Pontos de Cultura são abraçados pelo Papa Francisco

  Historiador brasileiro tem encontro com Papa Francisco no Vaticano. Reunião em Roma selará acordo de cooperação na área de Cultura e Transformação Social.

Scholas Occurrentes torna-se uma associação privada de fiéis de caráter internacional. aqui

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Scholas Occurrentes e Fratelli Tutti: quando a cultura do encontro chega às periferias. Por Zezito de Oliveira

Oficina de audiovisual com celular revela sintonia com legado do Papa Francisco e inspira nova geração de jovens contadores de histórias

https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/05/scholas-occurrentes-e-fratelli-tutti.html

A CNBB, A DIREITA CATÓLICA DE PLANTÃO E AS REDES DIGITAIS. 10 PONTOS. Por Romero Venâncio (UFS) - Com republicação na página do Pe. Zezinho no facebook

 Acredito que a direção principal da CNBB não vai sair de seu lugar para “bater boca” em rede digital com grupos agressivos de católicos tradicionalistas. Vontade até podem ter, mas sabem que esse não é o melhor caminho. Talvez seja o pior. Mas não fazer nada e assistir como se nada tivesse acontecendo, não ajuda em nada diante da escalada delirante de extremistas católicos nas redes digitais e já chegando no tecido social do catolicismo brasileiro.

Uma coisa é certa: o estrago é grande devido a agressividade, estridência e ataques de uma extrema direita católica aboletada nestas redes digitais e seu “método” de ação (que chamam equivocadamente de “apostolado”). Os ataques aos Bispos já se precipitam e faz um tempinho. O caso mais recente são os ataques desonestos e maledicentes a Dom Ionilton. Nesse caso, a situação era tão absurda que o Regional onde atua Dom Ionilton escreveu uma nota pública em apoio irrestrito ao bispo da Prelazia de Marajó.

O campo católico progressista precisa de uma política efetiva de comunicação para estas redes digitais. Não precisa ser no mesmo “método” dessa extrema direita católica. O caráter sistemático e formativo ainda é um caminho importante. Já temos uma bibliografia orientadora nesse campo. Trata-se de: “Influenciadores digitais: efeitos e perspectivas” (Ideias e Letras/Paulus, 2024). Não estamos na estaca zero como em 2013. Já é possível fazer um balanço crítico de como as atuais redes digitais são utilizadas por grupos de extrema direita e seu dano à vida democrática deste país.

Dom Joaquim Mol vai no ponto: “Apesar dos riscos, a influência digital já se tornou uma tendência irreversível no campo católico, com a exaltação de algumas figuras públicas e a aceitação de estratégias de influência que, entretanto, muitas vezes não seguem as boas práticas da Igreja.” O Bispo de Santos diagnosticou e apontou uma crítica numa breve síntese extraordinária. O caráter irreversível do uso dessas redes digitais por religiosos e a importância desse uso. Mas o bispo alerta corretamente: “... não seguem as boas práticas da Igreja”. O bispo sabe que temos católicos nestas redes que se tornaram um ponto de divisão na Igreja e confusão pública para os católicos/Católicas.

Acredito ser muito importante um documento orientador em sentido pastoral e a partir de uma espiritualidade mais profunda sobre os meios de comunicação e o papel das redes digitais nos meios católicos. É preciso que se oriente as dioceses na importância e nos perigos no uso dessas redes digitais. A Igreja Católica Romana tem um papel relevante no tecido social brasileiro e sabe do papel político que exerce na vida dos brasileiros e brasileiras. Não se trata de um “jeito católico” nas redes digitais, mas de uma perspectiva evangélico-cristã de usar as redes digitais e saber do seu potencial em termos de formação de mentalidade.

Esse ano de 2026 será um ano de eleições. Em tempos eleitorais, essas redes ficam  mais estridentes e politizadas. As disputas e “tretas” tendem a se exacerbar e dividir muito os cristãos. O uso político das redes digitais para divulgação de ideias políticas é uma realidade. Precisamos estar sempre atentos aos projetos políticos nas redes e de como demarca posicionamentos na sociedade brasileira. Não é fácil. É exigente. Trata-se de uma responsabilidade social dos mais importantes na atual quadra histórica.  

A CNBB e suas pastorais sociais precisam ter a clareza de que as antigas pastorais de comunicação estão defasadas diante da velocidade das redes digitais. Não se trata de uma mera assessoria de comunicação. É preciso ter uma posição não-ingênua diante destas redes. Como diz João Francisco Cassino: “Já a sociedade do controle é mais sutil, ocorre à distância, penetrando os cérebros e forjando as mentes com seus mecanismos de influência”.

São poucos os Bispos do catolicismo no Brasil que tem uma atividade constante e sistemática nestas redes digitais. A compreensão de que esse “novo areópago” é lugar de evangelização e  pastoreio. Trata-se de uma concepção moderna de ação cristã. O problema é que nestas atuais redes quem chegou primeiro foi uma extrema direita que está beirando o alambrado do fascismo. É isto é bastante preocupante. A CNBB tem que ficar em alerta e atenta ao extremismo que nos aflige em dias atuais. Bispos que assumem uma posição crítica e democrática nestas redes é bem pouco. Uma pena!

Uma aposta. Percebo a importância de uma concepção efetiva de aliança de pessoas e grupos na atuação nestas redes digitais. É visível a presença importante de um grupo de católicos progressistas (“esquerda católica”, “Teologia da Libertação”, “Pastorais sociais”, “Padres da caminhada”...) nestas redes digitais atuando, influenciando, demarcando posição e ajudando numa reflexão de uma sociedade justa, fraterna e crítica do sistema capitalista. Será preciso que essas pessoas e grupo pactuem uma aliança estratégica de ação nas redes digitais, num combate cerrado a toda forma de fascismo. E vejo que a CNBB tem um papel importante e impulsionador. 

Para um possível projeto formativo, indico a seguinte bibliografia nesse campo das redes digitais em nosso tempo.

BIBLIOGRAFIA

LOVELUCK, Benjamin. Redes, liberdades e controle. Uma genealogia política da internet. Petrópolis: Vozes, 2018.

MEDEIROS, Fernanda de Faria e Outros. Influenciadores digitais católicos. Efeitos e perspectivas. São Paulo: Editora Ideias e Letras/Paulus, 2024.

MATTELART, Armand História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2002.

SILVEIRA, Sérgio Amadeo da e  outros. A sociedade do controle. Manipulação e modulação nas redes digitais. São Paulo: Hedra Editora, 2018. 

SILVEIRA, Sérgio Amadeo da e Outros. Colonialismo digital. Como opera a trincheira algorítmica na guerra neoliberal. São Paulo: Autonomia literária, 2021.

*Romero Venâncio (UFS)* 






domingo, 10 de maio de 2026

Há 40 anos foi assassinado em Imperatriz, MA, padre Josimo Moraes Tavares. 10 Maio de 1986


Há 40 anos foi assassinado em Imperatriz, MA, padre Josimo Moraes Tavares.

10 Maio de 1986

Acalente livre os seus sonhos que são os sonhos deste povo
Recorte, com ternura e faca aguda, as estrelas e abra o peito.
Mergulhe nos igarapés cristalinos,
Atravesse as matas espessas de babaçus,
os campos e os descampados.

Venha na primavera, colhendo as flores e as traga
Declame o último poema que você fez:
cante o verso ainda não cantado.

Venha. Venha!
Raimunda. Bertoldo, Nicole, Nicola, José,
Carlinhos, Domingos, Lourdinha, Goreth, Mada e Bia,
todos o aguardam...

Dona Olinda secou as lágrimas na ponta do avental.
O vento balançou as bandeirolas,
o sanfoneiro já arrancou as primeiras notas,
os violões foram afinados,
as quebradeiras de coco ajuntaram os balaios,
os lavradores guardaram as ferramentas.
Todos se banharam nus na fonte,
as moças se pintaram com gosto
e se vestiram domingueiramente.
A capela está cheia.

As crianças estão mudas. Esperam por você.
Sobre o altar há um pires com terra e um copo d´água,
o cálice com o vinho tinto, de sangue;
o pão partido, repartido do corpo,
na aliança hoje permanente, construída em tempos de dor.

Olhe Josim, estas mãos que o abraçam;
estes olhos que o fitam.

A festa começa hoje e você vem assim, banhado e purificado,
no sangue do Cordeiro,
rindo, faceiro, feliz porque acordou os sonhos. 

 Ricardo Rezende Figueira no facebook

terça-feira, 5 de abril de 2022

Falar em necessidade de trabalho de base é fácil, mas fazer.....


No dia 10 de Maio de 1986 ocorreu o assassinato do padre Josimo Tavares, tombando por defender a luta das famílias de trabalhadores rurais, em Imperatriz, no Maranhão, por latifundiários da região.
De família humilde, Josimo nasceu em Marabá, no Pará. Sua mãe, que era lavadeira. Ainda criança, sua família se mudou para a cidade de Xambioá, no Tocantins. Aos 11 anos, parte para  Tocantinópolis, para estudar em um seminário. De lá, parte para Brasília, depois para Aparecida do Norte, em São Paulo, até chegar em Petrópolis, no Rio de Janeiro, para estudar no seminário franciscano.
Por ser pobre, negro e filho de camponeses, foi alvo de muitos preconceitos. Quando terminou os estudos em Petrópolis, decidiu voltar para Xambioá, para dedicar sua vida à causa dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Tornou-se padre em 1979. Depois de tornar-se padre, mudou-se para Wanderlândia, no Tocantins, onde iniciou seu trabalho atuando em uma escola secundária e assumindo o trabalho da Pastoral da Juventude. Foi lá que compreendeu como a concentração da terra era o problema mais urgente da população da região. Foi coordenador da pastoral da Diocese, atuando na região do Bico do Papagaio, conhecida por intensos conflitos de disputa pela terra e que anos antes havia sido o cenário da guerrilha do Araguaia. Logo depois, tornou-se um dos coordenadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Ao longo de sua vida, denunciou os grileiros de terra, a opressão dos latifundiários contra os lavradores e defendeu os direitos do povo, conscientizando-o sobre sua força. Por suas ideias e ações, causou ódio aos fazendeiros da região, passando a receber diversas ameaças de morte. Em Abril de 1986, sofreu um atentado, mas as balas não o atingiram. Consciente do risco que corria por defender seus ideais, escreveu um testamento, no qual reafirmou seus compromissos com o povo brasileiro. Um mês depois do ataque, foi assassinado com dois tiros pelas costas quando subia as escadarias do prédio onde funcionava o escritório da CPT.
#josimotavares #imperatriz
#pastoraldaterra #cpt
#maraba #araguaia #luta
#bicodopapagaio #xambioa
#imperatriz #petropolis
#pastoraldajuventude
#plataformaantifascista 

Fonte: Plataforma Antifascista no facebook




Quem foi Clara Angélica, jornalista sergipana que faleceu neste domingo , 10 de maio de 2026, aos 76 anos?


Clara Angélica foi uma das figuras pioneiras do jornalismo e da comunicação cultural em Sergipe. Começou muito jovem, aos 16 anos, como colunista social do jornal Gazeta de Sergipe, ainda na década de 1960. Ao longo da carreira, trabalhou em rádio, jornal e televisão, além de atuar como tradutora, intérprete, advogada e gestora cultural.

Entre suas atuações mais conhecidas, foi:

  • subsecretária de Cultura de Sergipe;
  • editora do jornal “O Que”;
  • apresentadora da versão local do programa “TV Mulher”, na TV Sergipe;
  • ligada a projetos culturais, audiovisuais e à valorização da cultura sergipana.

Ela também viveu nos Estados Unidos nos anos 1970, onde constituiu família, retornando depois a Sergipe para retomar a carreira na comunicação e na cultura.

A morte de Clara Angélica gerou homenagens de jornalistas, artistas e instituições culturais sergipanas, que destacaram seu pioneirismo e contribuição histórica para a comunicação no estado. O velório ocorreu em sua residência, no bairro Atalaia, e o sepultamento foi realizado no Cemitério Santa Isabel, em Aracaju.

 Embora grande parte da produção de Clara Angélica tenha circulado em jornais, colunas e textos publicados em redes sociais e blogs, alguns escritos dela se tornaram bastante representativos por revelarem sua visão política, cultural e afetiva sobre Sergipe, a ditadura e a vida cotidiana.

Um dos textos mais marcantes é o relato autobiográfico sobre sua perseguição durante a ditadura militar, publicado em 2019. Nele, Clara mistura memória pessoal, jornalismo e testemunho histórico:

1. “Ditadura Nunca Mais” (2019)

Publicada no blog Sergipe, Sua Terra e Sua Gente.

Comentário

Esse talvez seja o texto mais politicamente explícito de Clara Angélica. Ela escreve como testemunha histórica, narrando experiências da juventude universitária sergipana sob a repressão militar. O texto combina memória pessoal e denúncia política sem perder o tom humano e afetivo.

A escrita é direta, mas profundamente emocional. Clara evita retórica grandiosa; prefere o testemunho íntimo. Isso dá força ao texto e o transforma em documento de memória coletiva sergipana.

“Ficou o retrato da amargura da ditadura militar no Brasil. O que se passou comigo nada é, comparado aos horrores sofridos por nossos amigos próximos e por milhares de brasileiros.
Não há nada para comemorar.
Ditadura nunca mais!”

Esse texto é considerado representativo porque mostra:

  • a participação da juventude universitária sergipana nos anos 1960;
  • o ambiente de repressão política em Sergipe;
  • o estilo memorialista e direto de Clara;
  • sua defesa permanente da democracia.

Esse talvez seja o texto mais politicamente explícito de Clara Angélica. Ela escreve como testemunha histórica, narrando experiências da juventude universitária sergipana sob a repressão militar. O texto combina memória pessoal e denúncia política sem perder o tom humano e afetivo.

Outro exemplo importante é o artigo “O Silêncio da Paixão”, de 2023, onde ela escreve de forma intimista e literária sobre família, religiosidade e memória afetiva de Aracaju:

Cresci numa família com mãe muito católica, e pai agnóstico.”

 Aqui aparece a Clara cronista. O texto mistura religião, infância, formação intelectual e afetividade. Há uma elegância clássica na construção das frases, típica do jornalismo literário de sua geração.

Ela transforma lembranças familiares em reflexão sobre identidade cultural e espiritualidade. O tom é íntimo, quase confessional, mas sem sentimentalismo excessivo.

Nesse texto aparecem características fortes da escrita dela:

  • linguagem elegante e oral ao mesmo tempo;
  • reconstrução afetiva da memória sergipana;
  • valorização da cultura local;
  • mistura de jornalismo, crônica e autobiografia.

Também há registros de sua atuação ainda adolescente na Gazeta de Sergipe, onde escrevia a coluna “Vida Social”. Pesquisas acadêmicas mostram que ela já imprimia comentários sobre comportamento, juventude e questões sociais em plena década de 1960.

“Os salões da juventude aracajuana fervilham de novidades...”
(trecho reconstituído a partir de referências acadêmicas e relatos históricos)

Comentário

Ainda adolescente, Clara escrevia sobre comportamento, sociabilidade e juventude. Mesmo em textos aparentemente leves, já demonstrava atenção às mudanças culturais e ao papel das mulheres na modernização urbana de Aracaju.

Sua presença precoce na imprensa era algo raro para mulheres tão jovens no Nordeste dos anos 1960.

Representatividade

  • pioneirismo feminino na imprensa sergipana;
  • modernização cultural de Aracaju;
  • olhar social além do colunismo tradicional.

Além disso, entrevistas e perfis revelam uma frase que sintetiza muito de sua visão de mundo e atuação cultural:

“Arte é a melhor coisa da humanidade. A arte salva.”

Essa ideia atravessou sua atuação no jornalismo, na gestão cultural e no audiovisual em Sergipe.

Representatividade

  • Memória da ditadura em Sergipe;
  • protagonismo feminino no jornalismo político;
  • defesa da democracia;
  • escrita autobiográfica com valor histórico.

 Coluna “Vida Social” – Gazeta de Sergipe (década de 1960)

4. Entrevistas e depoimentos sobre arte e cultura

“Arte é a melhor coisa da humanidade. A arte salva.”

Comentário

Essa frase resume a visão humanista de Clara Angélica. Ao longo da vida, ela transitou entre jornalismo, televisão, cinema, tradução e gestão cultural, sempre tratando cultura como instrumento de transformação social.

Seu pensamento cultural não era apenas institucional: havia forte dimensão ética e afetiva.

Representatividade

  • defesa da cultura como formação humana;
  • valorização da identidade sergipana;
  • atuação intelectual multidisciplinar.

Características da Escrita de Clara Angélica

1. Memorialismo afetivo

Grande parte de sua escrita reconstrói lembranças pessoais para discutir temas coletivos.

2. Jornalismo literário

Ela frequentemente ultrapassava a linguagem informativa tradicional, aproximando-se da crônica e do ensaio.

3. Elegância clássica

Sua geração valorizava ritmo, clareza e sofisticação vocabular sem perder fluidez.

4. Perspectiva feminina pioneira

Clara ocupou espaços ainda muito masculinos na imprensa e na gestão cultural sergipana.

5. Defesa da democracia e da cultura

Mesmo quando escrevia sobre temas íntimos, havia fundo político e humanista em sua visão de mundo.

Leia o Autorretrato de Clara Angélica AQUI

Ditadura, Politica e Censura: Gazeta de Sergipe e Rádio Liberdade (1964-1969) Carla Darlem Silva dos Reis  AQUI

Caros da Cultura de Aracaju,

Em um intervalo de pouco mais de uma década, Aracaju perdeu uma geração inteira de jornalistas, escritores, músicos, artistas plásticos, radialistas e agitadores culturais — figuras que não apenas registraram, mas verdadeiramente forjaram a identidade da cidade. Essa sucessão de perdas configura uma catástrofe silenciosa para o tecido cultural sergipano, um esvaziamento de memória e saber que dificilmente será reparado. A linha do tempo a seguir reúne, de maneira objetiva e cronológica, todos os nomes registrados neste documento entre 2014 e 2026, preservando suas trajetórias e contribuições essenciais — sem qualquer menção às circunstâncias de suas mortes, para que prevaleça apenas o legado.

O que podemos e devemos fazer para além de manter vivas suas memórias e histórias?

Mário Resende (UFS)

Linha do tempo completa (2014–2026)

2014

1. Araripe Coutinho (09/12/2014). Poeta, escritor e colunista social, conhecido por sua poesia irreverente e seu trabalho na imprensa local.

2. Clemilda (26/11/2014). A "Rainha do Forró", ícone da música nordestina com 50 anos de carreira, conhecida nacionalmente pelo sucesso Prenda o Tadeu.

3. Rogério (13/08/2014). Cantor e compositor, considerado o maior divulgador da música popular sergipana nos festejos juninos.

2015

1. Lu Spinelli (11/11/2015). Bailarina, coreógrafa e professora. Baiana de coração sergipano, formou dezenas de mestres na dança moderna.

2016

1. Eduardo Abril (29/07/2016). Radialista e jornalista.

2. Hunald Alencar (21/05/2016). Professor, dramaturgo, poeta e compositor, membro da Academia Sergipana de Letras, autor do livro Morte no Estuário.

2017

1. Euler Ferreira (2017). Jornalista (data exata não especificada).

2. Wagner Ribeiro (02/01/2017). Jurista, poeta e professor da UFS, membro da Academia Sergipana de Letras.

2018

1. Clarêncio Fontes (13/11/2018). Jornalista, diretor de Pesquisa e membro do Conselho Deliberativo da Associação Sergipana de Imprensa.

2. Victor Amaral (20/08/2018). Jornalista. Atuou em Aracaju e faleceu em Manaus (AM).

3. Paulo Lacerda (09/12/2018). Jornalista e radialista.

2019

1. João Oliva (03/04/2019). Escritor e jornalista, membro da Academia Sergipana de Letras, considerado o mais antigo profissional da imprensa do estado em tempo de vida.

2. Fernando Silva (28/11/2019). Repórter fotográfico.

2020

1. Amaral Cavalcante (07/07/2020). Jornalista, cronista e poeta, fundador do jornal Folha da Praia e membro da Academia Sergipana de Letras.

2. José Fernandes (12/07/2020). Artista plástico.

3. Cláudia Toscano (17/08/2020). Artista plástica.

2021

1. Ilma Fontes (03/04/2021). Médica psiquiatra, jornalista, escritora, cineasta e ativista cultural. Fundadora da Associação Sergipana de Psiquiatria e dos jornais Folha da Praia, Vídeo Artes News e Jornal da Cultura.

2. Rivaldo Dantas (14/05/2021). Maestro.

3. Luis Soares (20/07/2021). Jornalista, colunista social, cerimonialista e diretor da Galeria Álvaro Santos.

2022

1. Paulinha Abelha (23/02/2022). Cantora, vocalista da banda Calcinha Preta.

2. Pedro Amaro do Nascimento (12/07/2022). Poeta cordelista.

3. Jácome Góes (01/12/2022). Escritor e jornalista.

2024

1. Thaís Bezerra (01/04/2024). Jornalista e colunista social, conhecida como "TB", com mais de 40 anos de carreira no colunismo.

2. Osmário Santos (16/05/2024). Jornalista, escritor e colunista social.

3. Erivaldinho (18/08/2024). Cantor, sanfoneiro e produtor musical.

4. Eugênio Nascimento (31/10/2024). Diretor do Jornal da Cidade, com mais de quatro décadas dedicadas ao jornalismo.

2025

1. Ivan Valença (21/04/2025). Jornalista e crítico de cinema, atuou por muitos anos na Diretoria de Comunicação da Assembleia Legislativa.

2. Raymundo Luiz da Silva (05/05/2025). Jornalista, radialista e escritor.

3. Monsenhor José Carvalho de Souza (26/05/2025). Figura religiosa e histórica de Aracaju.

4. André Barros (17/06/2025). Jornalista, publicitário e radialista com atuação marcante desde os anos 80.

2026

1. Clara Angélica Porto (10/05/2026). Jornalista, tradutora, cronista, advogada e gestora cultural.

Com profundo pesar, a FUNSECOM e a Sistema de Comunicação Aperipê, lamentam o falecimento de Clara Angélica, profissional que marcou a comunicação e a cultura sergipana com sensibilidade, talento e dedicação. Jornalista, cantora, atriz e gestora cultural, Clara Angélica construiu uma trajetória de grande contribuição para Sergipe, atuando no rádio, televisão e em importantes projetos culturais e audiovisuais. Neste momento de dor, nos solidarizamos com familiares, amigos e admiradores, desejando força e conforto a todos. Seu legado permanecerá vivo na memória da comunicação e da cultura sergipana. *video: acervo/aperipe tv


  • MEMÓRIAS DE JORNALISTA - CLARA ANGÉLICA PORTO - A INFÂNCIA