informações sobre ações culturais de base comunitária, cultura periférica, contracultura, educação pública, educação popular, comunicação alternativa, teologia da libertação, memória histórica e economia solidária, assim como noticias e estudos referentes a análise de politica e gestão cultural, conjuntura, indústria cultural, direitos humanos, ecologia integral e etc., visando ao aumento de atividades que produzam geração de riqueza simbólica, afetiva e material = felicidade"
Mais solidariedade e politização critica, qualificada e propositiva.
"Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. (mais solidariedade) Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista. (politização critica, qualificada e propositiva)."
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AMABA/PROJETO RECULTURARTE – O ESQUECIDO CÍRCULO DE CULTURA DA ARACAJU DOS ANOS DE 1980 E 1990
RESUMO
Este artigo apresenta o Projeto Reculturarte (Reeducação, Cultura e Arte), realizado nos anos de 1990 em Aracaju, proposta pioneira e inovadora de arte-educação popular, atual e necessária nestes tempos de fake news, individualismo exacerbado e falta de espaços para a socialização criativa e crítica de crianças, jovens e adultos. Os resultados preliminares da pesquisa iniciada em 2018 mostram avanços no campo da construção de sentido, protagonismo cidadão e preenchimento do tempo livre de forma construtiva.
Palavras-chave: adolescentes; arte; comunidade; cultura de paz; educação popular.
E-BOOK DO CURSO ‘PAULO FREIRE EM TEMPOS DE FAKE NEWS’ JÁ ESTÁ NO AR!
São 57 artigos e 6 projetos de intervenção, em 421 páginas, escritos por 75 autores(as) que analisam sob diferentes pontos de vista as "fake news" em relação ao pensamento, à obra e até mesmo à pessoa de Paulo Freire.
Quando os historiadores do futuro historiarem as condições que permitiram a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, certamente perceberão que uma onda de anti-intelectualismo na internet precedeu esse movimento político em alguns anos. Durante esse período, na linha liberal de anti-intelectualismo, uma ideia foi recorrente: os intelectuais odeiam o capitalismo. De influenciadores isolados a think-tanks conservadores, o refrão foi martelado com uma insistência obsessiva.
Um dos textos mais circulados nesse período de preparação ao bolsonarismo foi “Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?”, de um autor ligado à chamada Escola Austríaca, o espanhol Jesús Huerta de Soto. Entre nós, seu libelo foi difundido por um think-tank direitista, o Instituto Mises Brasil. As ideias de Huerta de Soto sob esse aspecto, por certo, não merecem em si mesmas discussão séria; seu texto é um texto de combate; como tal, lança mão da retórica característica do gênero. Os intelectuais são “os intelectuais”, e essa classe homogênea é movida por paixões como se fosse um só homem. Todo um grupo de pessoas mais ou menos influentes na cultura seria movido pela inveja, pelo ressentimento e pela arrogância. A crítica à sociedade capitalista que venha desses setores é remetida, de saída, a um discurso de ódio. Não decorreria de insuficiências e de excessos em uma economia de mercado, mas de paixões tristes nos descontentes.
Líderes como Bolsonaro não se criam do dia para a noite.
Huerta de Soto
Para além da pura lógica da provocação, característica de toda militância e exacerbada pelo proselitismo de direita na nossa época, o panfleto de Huerta de Soto carrega a sua verdade. Não pelo seu conteúdo, mas pelo próprio fato da sua enunciação. Ele manifesta o profundo-mal estar da mentalidade capitalista quanto à atividade intelectual e aos intelectuais enquanto grupo social. Essa hostilidade é projetada no adversário e borrada na consciência do odiador. O outro odeia; eu sou odiado; por isso odeio. A própria pergunta que intitula o artigo poderia ter como resposta sua forma invertida: “Por que o capitalismo odeia os intelectuais?”.
A opinião de Huerta de Soto não é única. Uma busca no Google encontra discursos semelhantes, em graus diferentes de elaboração, na boca de personagens os mais variados. Em 2015, o CEO da Whole Foods, John Mackey, deu uma entrevista à Reason com acusações parecidas. O ódio aos intelectuais que odeiam o capitalismo é uma das coisas mais bem repartidas neste mundo.
Lagarde e Sarkozy
Essa animosidade da mentalidade capitalista por um certo tipo de atividade intelectual pode também se exprimir de maneira mais sutil e por personagens mais consistentes. Em 2007, Christine Lagarde, ao assumir como Ministra da Economia da França, sob o governo liberal de Nicolas Sarkozy, pronunciou um discurso de saudação na Assembleia Nacional. Citando Tocqueville, Lagarde associava de perto democracia e trabalho, lançando: “Quantas voltas para dizer uma coisa no fundo tão simples: é preciso que o trabalho compense. Mas trata-se de um velho hábito nacional: a França é um país que pensa. Não há muitas ideologias cuja teoria não tenhamos feito. Possuímos em nossas bibliotecas o que discutir pelos próximos séculos.” E fulminou: “Eis por que eu gostaria de dizer: chega de pensar agora. Arregacemos as mangas”.
Em 2007, segundo a linha dada pelo próprio Sarkozy, a ministra Lagarde opunha estritamente ação e pensamento em favor do imperativo hands on. Soava bem em um governo explicitamente inspirado na direita dos Estados Unidos, como o de Sarkozy em seu início. Repercutia, e isso é surpreendente, as idéias fixas dos conservadores americanos quanto à Europa. Mais surpreendente ainda, fazia-o apelando a Tocqueville — justamente Tocqueville, que analisou os perigos do igualitarismo democrático-capitalista na América e que pensou sobre os contrapesos e sobre os antídotos a esses males.
Alexis de Tocqueville
O mesmo Tocqueville poderia ter sugerido a Christine Lagarde outra linha de argumentação. Poderia ter servido a que ela mostrasse como a associação entre democracia e trabalho — e entre suas formas degradadas: o ressentimento igualitário e o utilitarismo materialista — é um motor precisamente ao anti-intelectualismo que a tecnocracia mais qualificada partilha com o seu antípoda, o populismo.
Para Tocqueville, a democracia de livre mercado convidaria todos ao banquete do bem-estar, mas a participação efetiva de cada um na sociedade do consumo e do conforto raramente estaria à altura das expectativas geradas pelo igualitarismo, e a cólera da injustiça só se tornaria mais aguda. Ora, não apenas o intelectual não contribui em muito a essa festa; seu papel por excelência é o de tomar distância, de estudar as ausências nas listas de convidados e de mostrar que alguns pratos estão requentados. Em suma, sua postura, mesmo quando distingue méritos na comilança, é de superioridade crítica. E de superioridade crítica quanto ao que as massas democráticas mais desejam, mesmo que ele o faça em favor delas. Daí que seja fácil a populistas — atualmente de direita, mas não só — lançar as paixões baixas dos cidadãos ansiosos por uma participação maior nessa festa contra os que, mesmo sentados à mesa, se dão o direito a comentários. Enquanto isso, muitos desses mesmos populistas reservam para si as melhores iguarias. Só isso explica que Trump seja das figuras centrais da reação antissistema, mesmo sendo um herdeiro e um milionário ostentatório. Sua parte leonina no banquete causa menos inveja do que a pretensão dos intelectuais ao alardearem que acham a festança toda de mau gosto.
Ensaio da família Trump na ‘Home Beautiful’
Esse modo de apresentar as coisas pode parecer excessivamente abstrato e generalizante. Temos sorte de a história haver registrado, em um país, esse processo de esvaziamento e de hostilização em alta velocidade do intelectual, com o advento do capitalismo.
As vozes da perestroika e da dissolução da URSS, colhidas por Svetlana Alexeievitch nos depoimentos que compõem O fim do homem soviético, dão a medida desse processo na Rússia pós-comunista. Os relatos de Svetlana insistem que a palavra do intelectual, na URSS, tinha um peso muito específico. Podia ser assim porque, depois do ódio professado por Lênin aos intelectuais, o Estado totalitário nascido da Revolução instrumentalizava escritores e artistas a seus fins — Górki talvez seja o caso mais emblemático desse uso. Podia ser assim também porque a existência econômica e social da antiga URSS facultava o tempo e o ritmo de vida próprios a uma certa imantação da palavra. Ou porque os burocratas do Partido tinham uma noção vertical e sacralizada da cultura. O império um dia cai, e as gerações que viveram esse mundo não se reconhecem no mundo dos novos-russos, dos três turnos de trabalho para garantir uma existência que antes a coletividade pretendia dar por assegurada. Qual tempo restou para a palavra pensada na sociedade russa hiperatarefada da democracia e da economia de mercado?
Svetlana Alexeievitch
“Estávamos dispostos a ouvir de joelhos nossos poetas e bardos favoritos. Os poetas enchiam estádios. A polícia montada ficava de plantão. As palavras eram atos. Levantar-se em uma assembleia e dizer a verdade era um ato, porque era perigoso. Ir para a praça… Era a maior viagem, a maior adrenalina, a maior válvula de escape. Tudo aquilo confluía nas palavras… Hoje isso é inacreditável, hoje tem que fazer alguma coisa, e não falar. Você pode falar absolutamente tudo, mas a palavra não tem mais nenhum poder.””
Lagarde não diria melhor do que essa anônima entrevistada por Svetlana Alexeievitch.
Não que haja nesses depoimentos nostalgias do totalitarismo. Ao contrário, se o poder soviético pretendia celebrar a pátria e o socialismo pelo culto a Puchkin, a verdade é que os opositores do regime — democratas ou socialistas dissidentes — valiam-se também precisamente da palavra pensada como forma de contestação política. Não faltam depoimentos em O fim do homem soviético que recordam a circulação frenética das edições clandestinas e a leitura febril dos poetas e escritores proibidos pela ortodoxia. Mesmo as conversas, as famosas conversas de cozinha na calada da noite moscovita, espionadas e temidas pelo poder, desapareceram em favor da corrida por status e pela sobrevivência, uma vez assentado como princípio máximo da sociedade o imperativo econômico. Outra testemunha conta:
“De algum lugar, surgiram pessoas completamente diferentes: jovens com casacos violeta e anéis dourados. E com novas regras do jogo: se você tem dinheiro, é um ser humano; se não tem, não é ninguém. Quem se importa se você leu todo o Hegel? ‘Pessoa de humanas’ soava como um diagnóstico. Tudo que eles sabem é ficar segurando um livrinho de Mandelstam, eles diziam”.
É importante que se diga: a animosidade e o desprezo dos novos-russos pelo intelectual não serviam como um marcador ideológico — dissidente com Soljenítisin ou nostálgico de Stalin, pouco importava; era a palavra pensada ela mesma que estava em jogo. Tratava-se de uma forma de vidacontra outra forma de vida. Em um trem, Svetlana Alexeievitch conhece uma dessas novas russas, brilhante e ambiciosa jornalista, ex-amante de um oligarca. Suas palavras talvez sejam as mais impressionantes em O fim do homem soviético, um livro em que não faltam palavras impressionantes sobre morticínios, torturas, desespero (e solidariedade):
“Por muito tempo, eu carreguei essa marca, de moça de boa família, vinda de uma casa com muitos livros, onde o principal móvel da casa era a estante de livros, e que escritores e pintores me davam atenção. Gênios incompreendidos. Mas eu não tinha intenção nenhuma de dedicar a minha vida a um gênio que só vai ser reconhecido após a morte e que vai ser adorado por nossos descendentes. E depois, tinha todas essas conversas, em casa eu já tinha ficado cheia delas: o comunismo, o sentido da vida, a felicidade para os outros… Soljenítsin e o Sákharov… Não, aqueles não eram os heróis da minha história, eram os heróis da minha mãe. Os que liam e sonhavam em voar, como a gaivota de Tchekhov, foram substituídos pelos que não liam, mas sabiam voar”.
A afirmação do que voa sobre o que sonha, do que age sobre o que fala, do que crê que vive sobre o que sabe que morre — como yuppie culta, a mulher entrevistada por Alexeievitch está no limiar entre essas duas formas de vida, e seu depoimento é cristalino porque ela encontra as palavras inteligentes e sinceras para testemunhar a passagem de uma a outra. Resta saber por que esse ódio da mentalidade capitalista aos intelectuais. Talvez porque a forma de vida intelectual seja incômoda ao excesso de presença que há na sociedade da produção. Ela lhe lembra que há uma lacuna fundamental no voo sem sonho e na ação sem palavra.
Rodrigo de Lemos
Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.
Seis anos depois da transferência, por falta de clientes, as putas saíam do Mocó, para onde foram enviadas e vinham oferecer seus corpos nas ruas de Caruaru. O jornal falso-moralista Vanguarda, ainda hoje existente, publicou em 11/03/1979, em uma “notinha” como chamou o bispo diocesano, Dom Augusto Carvalho, àquela pequena notícia que dizia que a polícia da cidade havia realizado uma blitz durante toda a semana, à noite, prendendo “um grande número de mariposas”, maneira como se referiu, naquele escrito, às prostitutas daquela urbe. A metáfora usada, “mariposas”, era uma referência aos hábitos noturnos daquelas mulheres, que tal e qual insetos gostavam de sair às ruas da cidade tarde da noite, depois das 22 horas, de modo bem diferente da maioria das “borboletas” saudáveis que desfilavam pelas ruas em plena luz do dia.
Achando pouco, o Vanguarda continuou dizendo nas linhas de sua “notinha” que as mundanas não foram somente presas, mas advertidas de que se continuassem na desobediência de estar nas ruas do centro da cidade, seriam processadas, pois quase “todas elas são do baixo meretrício (Mocó) e que vem à cidade vender seu corpo, atentando contra o pudor abertamente”. Conforme a matéria, o delegado regional e o municipal, estavam empenhados num trabalho conjunto para afastar em tempo rápido todas as prostitutas das ruas centrais de Caruaru, a fim de que mulheres casadas e mocinhas pudessem trafegar livremente nas ruas centrais da cidade sem a inconveniência de serem confundidas com prostitutas.
Eis o grande drama de Caruaru e da Humanidade não só naquele tempo como atualmente: uma mulher decente, casada ou solteira, ser confundida com uma prostituta. Fez até eu me lembrar da música da alagoana Clemilda, lançada anos depois: “você tem cara de Tuta/ você anda que nem Tuta/ você pode até não ser/ mas tem a cara de Tuta”.
O que não contava o jornal conservador Vanguarda, foi com a veemente defesa das prostitutas feitas pelo bispo Dom Augusto Carvalho em artigo escrito no jornal diocesano A DEFESA. O bispo achou o escrito “um tanto descaridoso e, porque não dizer, injusto”. Ele entendeu como descaridoso o modo como o jornal Vanguarda tratava aquelas “pobres criaturas” e se perguntava: “também elas não são pessoas humanas?” E como humanas, ele exigia “que fossem bem tratadas e respeitadas”. E ainda indagava no texto por que elas foram presas, se a prostituição era um problema social: “serão somente elas que faltam com o pudor e o respeito, de dia e de noite, nas avenidas, ruas, praças e jardins da nossa cidade? Está aí a injustiça. Quem as procura e explora? A quem servem elas de objeto de prazer?”
Para Dom Augusto, as prostitutas caruaruenses eram o resultado de uma série de questões, como as propagandas exageradas do sexo feitas através dos meios de comunicação social e da exploração lucrativa de alguns homens, o que transformava as mundanas em vítimas do machismo. O machismo era destacado pelo bispo porque, segundo ele, “é o que leva o homem a iniciar-se logo cedo, nas zonas do baixo meretrício; que é a cultura machista que contribui para a permanência da prática da prostituição em nossa sociedade”. É interessante perceber como o machismo ganha destaque na análise do bispo e como ele atenta para o comportamento masculino daquela época, culpando-o também pela “vergonha” nos espaços públicos da cidade. Pela primeira vez na história pernambucana, de forma contundente, o machismo era apontado como um problema a contribuir para outros tantos, isso dito por um religioso muito sério e respeitado até no Vaticano.
As “mariposas”, para Dom Augusto, eram o resultado da “falta de instrução, da ausência da família, da carência afetiva, da miséria em que se encontravam muitas mocinhas”, e terminava aquele parágrafo dizendo: “a prostituição é problema, sobretudo, dos homens mal-educados sexualmente”. E antes de encerrar sua análise, o vigoroso bispo discordava profundamente do que disse o Vanguarda quanto ao modo de vida daquelas prostitutas, quando afirma que “vivem em zona alegre”. Para o bispo, “aquela era uma vida errada e sofrida e não uma vida de alegria”.
E conclui seu pensamento dizendo que “a mulher da vida, por ser uma pessoa, não deve ser rebaixada, ridicularizada, explorada e tratada por bicha, mas valorizada, porque também ela é filha de Deus”. E arremata: “a pessoa humana, seja ela quem for, é sagrada, pouco importando se ela é uma prostituta ou a mulher do prefeito”. Botou pra lascar e eu gostei porque a verdade sempre dói!
Conforme se pode perceber, o bispo entendia muito de machismo e muito pouco da solidão do homem que não tinha mulher, namorada, amante ou quebra-galho e se valia das putas. A sua religiosidade também o impedia de ter empatia por aqueles que gostavam dos prazeres mundanos e iam à Zona para dançar balançando o pepino ou o quiabo (conforme o dote de cada um) e depois enfiá-lo num buraco quente a fim de ter espasmos gozosos que os livrassem dos estresses e dissabores da vida. A frase “nóis sofre, mas nóis goza” é a demonstração de um estado de necessidade humana!
Conheci pessoalmente o saudoso Dom Augusto Carvalho. Homem de bem, cabra macho e avesso às ostentações. Os conservadores de Caruaru o taxavam de comunista porque não bajulava o regime ditatorial implantado em 1964. Sua ação pastoral, no seu longo bispado, sempre ajudou muito os mais pobres, perseguidos, oprimidos e desamparados socialmente. Que Deus o tenha!
E assim chego ao fim desta crônica pervertida, sob a ótica de alguns, justificando porque escolhi certas músicas para adorná-la: CORAÇÃO MATERNO, de Vicente Celestino, foi em homenagem as duas mães de Ciço Gato. CHORE COMIGO, samba-canção de Adelino Moreira, gravado por Nelson Gonçalves, porque era música de Zona de altíssima qualidade. A versão de Los Panchos, LLORE CONMIGO, eu gostava mais do que a original. CHÁ CUTUBA, de Humberto Teixeira, com Jair Rodrigues, foi um aceno àquele homem da rola mole que citei na parte 1 da crônica, xote gravado em 1984, que dá a receita para quem não deseja ficar no desagradável estado do “levanta, mas não trava”.
O órgão fálico do homem, assim como sua vida, se olharmos direitinho, nada mais é do que um constante levantar, cair e tentar se erguer novamente. A única broxa definitiva é a morte. PESCARIA EM BOQUEIRÃO ou A MINHOCA, de João Gonçalves, foi escolhida por motivos óbvios e também porque merengue se dançava na Zona. ANGÚSTIA é uma obra-prima da música latina e foi composta pelo compositor cubano Orlando Brito e gravada originalmente em 1951 pela orquestra cubana Sonora Matancera a qual tinha Bienvenido Granda como crooner. Os apreciadores do bolero nunca esquecerão deles, mas esta canção cantada por Waldick Soriano arrepia até os pentelhos. Quem não dançou nada disso com uma dama bem cheirosa em algum puteiro reluzente de Caruaru ou alhures não sabe o que perdeu. Faço questão de repetir: se a única broxa definitiva é a morte, então vivamos alegres de verdade e não com aquela alegria triste das pobres, infelizes e necessárias prostitutas de amarga vida. Frouxo diante desse grande mal que é o Coronavírus, se o presente fosse o passado, correria para me esconder debaixo da saia de Margarida, abrigo quente para me guardar, fugir deste mundo hipócrita e depois morrer de porre em plena boemia. Isso é bem melhor do que a possibilidade de me transformar em estatística fria dessa terrível pandemia. Tenho medo, não de morrer, mas da falta de ar. Do ar da Zona!
Às moças da Zona de Caruaru, de 1964 a 1971, Margarida em especial (nome de flor), expresso a minha gratidão pelos momentos felizes em que todas acenderam em nós, frequentadores da Rua Almirante Barroso, AS LUZES DO PRAZER. Deus sabe de tudo, porém Deus perdoa, então o resto é bobagem.
(*) Pernambucano, 70 anos, é memorialista e pesquisador musical, além de pequeno colecionador de discos. Seu arquivo contém algumas obras que se tornaram preciosas na música brasileira diante do mau gosto popular nessas duas primeiras décadas do século XXI. São frevos, sambas, maracatus, forrós, xotes, polcas, toadas, marchinhas, merengues e choros. Tem mais de 400 artigos escritos sobre música que foram publicados em sites da internet, ‘terreno’ que se notabiliza pela impermanência. Seus artigos provam que a História também se conta através da música.
Música e sociedade, música e política, música e afeto, amizade, alegria e prazer. Uma delícia quando lemos o texto de uma pessoa que sabe fazer essa combinação. É o que faz Abilio Neto, o qual conhecemos nos anos do Overmundo, entre 2006 e 2011, primeiro portal nacional de internet dedicado a difusão da cultura independente, das periferias, dos sertões, dos que mesmo produzindo com qualidade e compromisso, não conseguiam espaços para fazer divulgação nos cadernos culturais dos grandes jornais.
Ler o texto do Abilio Neto é como conversar ao cair da tarde em um alpendre de varanda das casas coloniais, cercados pela brisa suave que sopra das árvores, grandes e pequenas que cercam o redor da casa. Ou então, é como conversar em uma barraca de praia, sentindo o vento que vem do mar soprando em nossas caras, bebendo uma boa caipirinha, intercalando com água de coco.
Esta sexta-feira, 3 de abril, completa cinquenta anos que o arcebispo Dom José Vicente Távora partiu para outra. Primeiro arcebispo da Diocese Metropolitana de Aracaju, fundador e primeiro presidente do Movimento de Educação de Base (MEB), parceiro de primeira hora de Dom Helder Câmara, o sacerdote pernambucano figura entre os signatários da Doutrina Social da Igreja pela banda fina do cacique Serigy.
Impulsionador da Rádio Cultura como primeira experiência das "Escolas Radiofônicas", o projeto de alfabetização, educação para Reforma Agrária e Legislação, chegou a ter mais de 12 mil assistidos e centenas de monitores por todos os cantos de Sergipe. Crítico mordaz das Ligas Camponesas de Francisco Julião, o bispo entendia a necessidade de antecipar a organização dos trabalhadores rurais antes dos "radicais" que, hora ou outra, desceriam de Pernambuco para levantar acampamento.
Ainda está para surgir um Sindicato de Trabalhador Rural (STR) em Sergipe que não sustente um quadro de Dom Távora em qualquer de suas paredes. O projeto das Escolas Radiofônicas funcionou até o dia 1 de abril de 1964, mais conhecido como golpe civil-militar que assolou o país por duas décadas de pesadelo. Acossado, Dom Távora só não testemunhou o sol nascer quadrado por intervenção do general Juarez Távora, seu primo.
Enquadrado na base do fuzil, o projeto das Escolas Radiofônicas se converteu em primo desconhecido do propalado Mobral, sob o comando do bispo auxiliar, Dom Luciano Cabral Duarte. Ajudava um ou outro quando possível, levantou uns trocados para a militância do movimento estudantil da UFS para o lendário Congresso de Ibiúna, da União Nacional dos Estudantes, em 1968.
Mas já fazia um tanto que o coração do velho bispo retumbava doente na caixa dos peitos, não aguentaria o batuque de outro infarto, assim foi em 3 de abril de 1970. Seu bispo auxiliar, signatário dos conservadores do golpe civil-militar, dos generais de 1964, dos intolerantes à reforma agrária e direitos sociais, seguiu o projeto de enquadramento dos trabalhos pastorais aos ditames do golpe.
Em tempos de espetacularização da fé, de avanço da bancada fundamentalista, dos prepostos da Teologia da Prosperidade, reivindicar o trabalho de Dom Távora é fundamental para a batalha da memória dos debaixo, daqueles que batalham para dividir corretamente o mesmo pão.
Aracaju, 03 de abril de 2020.
Padre dos pobres e bispo dos operários. A história de Dom José Vicente Távora
A relação de proximidade com a classe operária fez Dom José Vicente Távora ficar reconhecido como padre dos pobres. Mais tarde, como bispo no Rio de Janeiro, envolvido com a JOC, “ele se autodenominava o bispo dos operários”, conta Isaias Nascimento
“Dom Távora fez opção pela classe operária desde o início de sua vida sacerdotal lá na diocese de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Para ele, a JOC era ‘uma sementeira de líderes para o futuro’ dentro do movimento operário”. É assim que Isaias Nascimento, autor do livro Dom Távora, O Bispo dos Operários (São Paulo: Paulinas, 2008), lembra de Dom José Vicente Távora, nordestino que dedicou sua vida à causa dos excluídos. Dom Távora participou da reestruturação da Ação Católica Brasileira, no Rio de Janeiro, e fundou a Juventude Operária Católica – JOC, “cujo objetivo era formar operários católicos missionários atuando entre seus iguais para ‘converter a Jesus Cristo, não apenas este ou aquele colega individualmente, nem mesmo dezenas e dezenas de colegas, mas o próprio operariado’”.
Amigos oriundos do Nordeste brasileiro, Dom Hélder Câmara e Dom Távora “conheciam a sina dos filhos da seca” e viam, nas favelas do Rio de Janeiro, “seus irmãos nordestinos enxotados pela miséria e pela fome”. O clamor dos pobres, enfatiza Isaias Nascimento, fez com que os dois bispos firmassem “uma aliança em defesa dos excluídos nordestinos, os da Capital Federal e os que estavam na terra natal. Eles comprometeram e pagaram, ao longo de suas vidas todo tipo de perseguições, críticas jornalísticas, acusações mentirosas, mas não se desviaram do compromisso social com o Ecce Homo – Eis o Homem (João 19, 4-5) continuamente crucificado”.
Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail para a IHU On-Line, o padre da diocese de Propriá, Sergipe, relata alguns momentos da trajetória de Dom Távora e menciona que o período mais difícil de sua vida foi a ditadura militar. “Dom Távora teve seu telefone grampeado. Recebia com frequência um coronel do exército para pressioná-lo. Teve que enfrentar uma prisão domiciliar. Várias lideranças do Movimento de Educação de Base – MEB e dos sindicatos de orientação católica foram presas em Sergipe e em várias partes do país. Viu também parte do seu clero e religiosas comprometidos serem intimados a depor na Polícia Federal. (...) Sentiu-se só, muitas vezes, sem a visita e o carinho do povo, dos pobres, mas resistiu o quanto pode, até o dia 03 de abril quando seu coração não suportou mais o 3º enfarto”.
Isaias Nascimento é pároco da Paróquia de Brejo Grande, que fica no lado sergipano na foz do Rio Francisco e Coordenador da Cáritas Diocesana de Propriá.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O senhor pode nos contar como era o trabalho desenvolvido por Dom Távora na diocese e a iniciativa de fundar escolas operárias?
Isaias Nascimento - Quando chegou a Aracaju, em março de 1958, encontrou muita coisa encaminhada pelo seu antecessor Dom Fernando Gomes : grupos de Juventude Operária Católica – JOC (que ele mesmo fundou ainda como padre no início dos anos 50), Círculos Operários assessorados por Mons. João Moreira Lima, grupos de Ação Católica Especializada e a entidade assistencial conhecida como Serviço de Assistência à Mendicância – SAME que acolhia pessoas abandonadas. Além de dar continuidade pastoral ao que já havia, fundou a Rádio Cultura de Sergipe que, juntamente, com a criação do Movimento de Educação de Base – MEB, com suas escolas radiofônicas, ofereceu a educação do homem do campo e, a partir delas, fundaram e organizaram os primeiros Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e a sua Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Sergipe – FETASE. Dom Távora é reconhecido como o patrono do sindicalismo rural de Sergipe.
Ainda como seminarista na sua diocese de Nazaré da Mata, em Pernambuco, aderiu ao movimento da Ação Católica que estava se formando no Brasil. Ela – Ação Católica - formava liderança das grandes cidades e do interior com os princípios da Doutrina Social da Igreja, principalmente os contidos na encíclica papal Rerum Novarum . Quando padre recém ordenado, no início dos anos 1930, fundou diversas Escolas Operárias na mesma diocese, principalmente em Nazaré da Mata e Goiana, em Pernambuco. Pegou tão bem que ela chamou de Legião Pernambucana do Trabalho, tendo como finalidade formar a classe operária sob a orientação católica. Já havia naquele tempo Círculos Operários em alguns municípios de Pernambuco e em Aracaju. Foi ele quem conseguiu realizar um Congresso Operário no final dos anos 1930 lá em Goiana, recebendo delegações de todo a região Nordeste, no qual esteve presente também o Pe. Leopoldo Brentano . Sua relação com a classe operária o fez reconhecido como padre dos pobres. Depois, como bispo no Rio de Janeiro, já envolvido com a JOC, ele se autodenominava o bispo dos operários.
IHU On-Line - Qual a relação de Dom José Vicente Távora com o período político getulista?
Isaias Nascimento - Lembremos que o Rio de Janeiro era a Capital Federal do Brasil, e a Igreja Católica, apesar de não ser a religião oficial do país, tinha muita influência junto aos poderes de uma República que ainda estava engatinhando. O Cardeal Leme , reconhecido como um bom estadista e pastoralista, procurou manter “cada qual no seu lugar”, isto é, procurou fortalecer a Igreja para continuar independente do Estado, e defender os interesses dela e seus princípios junto ao Estado e, para isto, formou uma boa equipe de padres competentes na defesa dos princípios da Doutrina Social da Igreja, relacionados às questões trabalhistas, educação católica e saúde, diante dos poderes públicos. Para tal intento, trouxe do Ceará o Pe. Hélder Câmara , de Pernambuco; Pe. José Vicente Távora e o Pe. Jorge Marcos . Ambos vivenciaram o período getulista. A liderança de Dom Hélder foi marcante neste período. Foram Dom Távora e Dom Hélder que no dia 24 de agosto de 1954 deram a notícia do suicídio de Getúlio Vargas , o então presidente da República, conforme o Padre Ivo Calliari detalhou em suas anotações: “Às 4h:30min do dia 24 de agosto de 1954, Dom Hélder e Dom José Vicente Távora vieram buscar Sua Emcia . Descemos imediatamente... No Palácio São Joaquim, ligamos o rádio: a notícia era que o Dr. Getúlio Vargas renunciara. Seguiu-se logo que pedira apenas licença de 90 dias. Celebrei às 6h:30min e Sua Emcia às 7h:30min na capela do Palácio São Joaquim. Depois do café, quando rezávamos o breviário, num pequeno hall em frente ao meu quarto, próximo ao refeitório, Dom José Vicente Távora chega com a estarrecedora notícia do suicídio. Dom Jaime pôs as mãos na cabeça e disse: “Meu Deus! Foi um choque tremendo. Ficamos parados!... Só poderíamos rezar e foi o que fizemos: continuamos o breviário!...”
IHU On-Line - Dom Távora enfrentou problemas no governo Carlos Lacerda e no período da ditadura militar. Como ele se posicionava politicamente nesses momentos?
Isaias Nascimento - Dom Távora tomou posições públicas que foram marcantes na história do Brasil: o primeiro foi na tentativa de golpe em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou e os militares impediram a posse de Jango como presidente. Ele reagiu publicamente e, juntamente com ele, a classe política de Sergipe exigindo o respeito à Constituição. Somente depois de muitas negociações no Congresso Nacional conseguiram permitir sua posse como presidente no regime Parlamentarista, com menos poderes.
Outro momento foi sobre a prisão da cartilha do MEB intitulada Viver é lutar. Ocorrido no início do ano de 1964, quando Carlos Lacerda mandou prendeu a cartilha do MEB. Dom Távora, não só por ser presidente do MEB, mas também por ser próprio da sua personalidade, não se intimidou diante do governador do Rio que acusava o material de ser comunista e, com ele, setores da mídia nacional fizeram uma humilhação pública (no programa Flávio Cavalcanti que a rasgou ao vivo). Dom Távora assumiu publicamente a responsabilidade pelo material em uma nota dizendo que “Os bispos... não podiam ser indiferentes nem omissos numa tarefa da mais alta importância, exigida pela própria Caridade Evangélica, qual seja, a de emprestar sua cooperação ao desenvolvimento social e cultural do povo e à elevação do nível geral da sociedade”, visto que o material trazia uma leitura sobre a questão da reforma agrária.
E o momento mais difícil da vida dele, penso eu, foi o da ditadura militar. O que parecia ser um impedimento contra as forças do comunismo internacional, como pensava a maioria dos bispos que foram favoráveis ao golpe, foi um golpe no processo democrático por 26 longos anos da história nacional. A perseguição, as prisões e torturas foram piorando ao longo dos anos de forma ascendente, a ponto de a maioria dos bispos irem se afastando do regime, principalmente, a partir de 1966. Neste momento histórico é marcante o profetismo da Igreja no Brasil tendo como porta voz Dom Hélder Câmara, tanto nacional como internacionalmente. Todos os bispos envolvidos com a pastoral social daquele tempo foram tachados como subversivos e, consequentemente, juntamente com os seus próximos, perseguidos. Dom Távora teve seu telefone grampeado. Recebia com frequência um coronel do exército para pressioná-lo. Teve que enfrentar uma prisão domiciliar. Várias lideranças do MEB e dos sindicatos de orientação católica foram presas em Sergipe e em várias partes do país. Viu também parte do seu clero e religiosas comprometidos serem intimados a depor na Polícia Federal. Testemunhou também o estreitamento de relações comprometedoras entre o seu bispo auxiliar – depois sucessor - Dom Luciano José Cabral Duarte e os militares a partir de 1967. Sentiu-se só, muitas vezes, sem a visita e o carinho do povo, dos pobres, mas resistiu o quanto pode, até o dia 3 de abril de 1970, quando seu coração não suportou mais o terceiro enfarto.
IHU On-Line - Qual a relação de Dom Távora com o padre Leopoldo Brentano?
Isaias Nascimento - Sei que os dois se encontraram no Rio para preparar o Primeiro Congresso dos Operários de Pernambuco que aconteceu em Goiana, Pernambuco, no dia 30 de dezembro de 1938. Não tenho notícias de qualquer relação anterior. Dizem que foi a partir do sucesso do referido que Congresso, que reuniu milhares de trabalhadores vindos em delegações do Nordeste e do Brasil, que Pe. Leopoldo Brentano sugeriu o nome do Pe. Távora ao Cardeal Leme para ele atuar na Capital Federal junto aos Círculos Operários. Fato que aconteceu no final de 1939 para o início dos anos 1940.
IHU On-Line - O senhor diz que a amizade entre Dom Hélder e Dom Távora deu origem a uma transformação nas estruturas e estratégias da Ação Católica Brasileira. Em que consiste essa transformação e qual o impacto dela na tarefa de evangelização do país?
Isaias Nascimento - Primeiro, os dois eram nordestinos que conheciam a sina dos filhos da seca e vítimas das cercas. As favelas da então Capital Federal (Rio de Janeiro) mostravam seus irmãos nordestinos enxotados pela miséria e pela fome. O clamor dos pobres subiu até Deus que, por sua vez, comprometeu os dois nordestinos a verem nos seus irmãos o Cristo Crucificado e por Ele neles entregarem suas vidas. O clamor dos pobres os intimou a descer até eles. Foi por eles, portanto, os excluídos, que ambos se chamavam de “Eu”, assumindo juntos um mesmo projeto de vida sacerdotal, tanto como padres, e depois como bispos. Dom Távora e Dom Hélder firmaram uma aliança de nordestinos em defesa dos excluídos nordestinos, os da Capital Federal e os que estavam na terra natal. Eles comprometeram e pagaram, ao longo de suas vidas, todo tipo de perseguições, críticas jornalísticas, acusações mentirosas, mas não se desviaram do compromisso social com o Ecce Homo – Eis o Homem (João 19, 4-5) continuamente crucificado.
Várias iniciativas aconteceram em todo o Brasil, principalmente no Nordeste, a fim de levar propostas para erradicar a miséria e a fome na região. Desde o encontro dos Bispos do Vale do São Francisco em Aracaju (em 1953), depois em Campina Grande (26-05-1956) e Natal (23 a 27-05-1959).
Aqui eu me somo à resposta de Raimundo Caramuru que nos oferece mais informações. Veja o que ele descreve: “Ao longo dos anos 1940, três acontecimentos foram de capital relevância para a trajetória de Pe. Hélder e sua contribuição aos rumos da Igreja no Brasil. O primeiro foi sua amizade com o Pe. José Távora, um outro sacerdote nordestino, que Dom Leme havia trazido de Recife no início dos anos 1940, para desenvolver a pastoral operária na arquidiocese do Rio de Janeiro. Como os Círculos Operários do Pe. Leopoldo Brentano já estivessem atendendo os trabalhadores sindicalizados, Pe. Távora dedicou-se ao trabalho com aqueles que hoje seriam categorizados como excluídos, na sua maioria imigrantes recentes provenientes das áreas rurais do país, alojados nas periferias urbanas e nos morros favelizados. Este trabalho iniciado por Pe. Távora levantou o problema das favelas e das migrações, bem como suas conexões com os desafios enfrentados pelas populações rurais. A amizade entre Hélder e Távora teve um outro desdobramento, que deu origem ao segundo acontecimento, que, na realidade, havia constituído o grande sonho do Cardeal Leme nos últimos anos de vida deste insigne prelado: uma transformação nas estruturas e estratégias da Ação Católica Brasileira, adaptando-as às necessidades das tarefas de evangelização do país. Este segundo acontecimento foi tornado possível pelo contato de Hélder e Távora com o fundador da Juventude Operária Católica – JOC, o padre belga, altamente prestigiado pelo papa Pio XI , Joseph Cardijn . À primeira vista o segredo estava na pedagogia do ver-julgar-agir. Pouco a pouco, porém, tomou-se consciência de que muito mais do que uma opção pedagógica, a linha adotada por Cardijn implicava em uma opção teológico-pastoral, que aproximava o esforço de evangelização das suas fontes bíblicas e patrísticas e retomava toda a riqueza contida na teologia do Desígnio divino e na história da salvação” .
IHU On-Line - Por que, e em que contexto, Cardeal Leme chamou Dom Távora para trabalhar no Rio de Janeiro?
Isaias Nascimento - Creio que um dos fatores é que o Brasil estava se industrializando e a classe operária também se organizava em todo o país, tanto nas capitais como no interior. A ideologia comunista tomava corpo em várias categorias de trabalhadores das áreas urbana e rural, e no meio estudantil nas faculdades. A ida do Pe. Távora ao Rio de Janeiro foi para reforçar a equipe do Cardeal, da qual já fazia parte o Pe. Hélder Câmara, na execução de um “contra ataque” que tanto marcou a história da Igreja no Brasil, que foi o fortalecimento da Ação Católica Brasileira entre a elite intelectual e, mais tarde, a presença no meio dos jovens através das Juventude Agrária Católica - JAC, Juventude Estudantil Católica - JEC, Juventude Independente Católica - JIC, Juventude Operária Católica - JOC e Juventude Universitária Católica - JUC por onde a Igreja procurava evangelizar a sociedade à luz da Doutrina Social da Igreja.
IHU On-Line - Como o senhor descreve a atuação de Dom Távora na Juventude Operária Católica - JOC?
Isaias Nascimento - Ainda quando padre no Rio de Janeiro, ele participou da reestruturação da Ação Católica Brasileira a partir da visão do Pe. Cardijn, da Bélgica e fundador da JOC. A partir daí ele fundou a JOC do Rio de Janeiro cujo objetivo era formar operários católicos missionários atuando entre seus iguais para “converter a Jesus Cristo, não apenas este ou aquele colega individualmente, nem mesmo dezenas e dezenas de colegas, mas o próprio operariado”. Nas reuniões se usava o conhecido método de Cardijn: ver-julgar-agir, (que até hoje é usado pela Igreja na construção de seus documentos, a exemplo de Puebla e Aparecida), que ajuda a ler a realidade, analisar os dados coletados, e a construir novas ações/reações pastorais.
Dom Távora fez opção pela classe operária desde o início de sua vida sacerdotal lá na diocese de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Para ele, a JOC era “uma sementeira de líderes para o futuro” dentro do movimento operário. Ele mesmo disse que a “classe operária precisa dirigir-se com autonomia, com independência e grandeza, mas isto não pode ocorrer se ela não tem militantes de seu próprio meio, bem formados, capazes de tomar posição conscientemente, em todos os problemas que interessam ao bem do povo especialmente, quando se tratar da libertação econômica, social, moral e espiritual do mundo do trabalho. A JOC luta por um tempo diferente deste que está aí, cheio de clamorosas injustiças, de privilégios inaceitáveis e desacertos que revoltam, a cada instante. Onde houver um problema operário, particularmente dizendo respeito ao presente e ao futuro da juventude trabalhadora, aí estará presente sempre a JOC, atenta, ativa, cônscia de sua missão, isto é, a missão de fazer um programa de redenção da classe operária” (entrevista cedida ao jornal A Cruzada, 07-12-57).
Podemos vislumbrar aqui o início de uma revolução na prática pastoral da Igreja, começado lá na Europa, pois se inicia a semeadura de uma Igreja comprometida com os pobres. Vários padres que foram assistentes da Ação Católica e/ou da JOC foram nomeados bispos – Dom Hélder, Dom Távora e Dom Antonio Fragoso - que fizeram a diferença quando da realização do Concílio Vaticano II, clamando por uma Igreja a serviço dos pobres. Eles formavam o grupo conhecido “Igreja dos Pobres”. Podemos vislumbrar aqui as sementes da Teologia da Libertação e do compromisso da Igreja com os pobres do nosso continente.
IHU On-Line - Em que consistiu o 1º Plano de Pastoral, proposto por Dom Távora. O que isso significou para a Igreja a partir de 1966?
Isaias Nascimento - Consistia na reorganização da Pastoral da Igreja local à luz do Concílio Vaticano II e ao Plano Nacional de Pastoral de Conjunto 1966-1967, como está registrado na apresentação do referido Plano:
“No começo de 1966, após o encerramento do Concílio, para responder ao convite do Papa, que num discurso importante, engajava todos os Bispos da América Latina numa renovação de caráter extraordinário, unitário e planificado, sentimos a necessidade de reunir com Dom Távora, alguns presbíteros, religiosas e leigos para, juntos, estudarmos o referido discurso de Paulo VI, refletirmos em comum, determinar os setores prioritários de pastoral.
O primeiro encontro foi realizado nos dias 18 e 19 de fevereiro. No seu comentário do discurso do Papa, Dom Távora ressaltou as seguintes palavras: “Precisamos duma pastoral dinâmica adaptada às transformações atuais”. Em círculos, tentamos descobrir “essas transformações”. Esta reflexão em comum permitiu determinar como [estruturar] setores prioritários na pastoral da Arquidiocese: setor estudantil e setor operário. Um grupo de trabalho para cada setor seria encarregado de dinamizar a pastoral dos mesmos. Houve tentativas de criação do Grupo de Trabalho do setor estudantil, sem sucesso. O GT do setor operário se reuniu semanalmente, coordenando todos os movimentos católicos.
Após os dias de estudo realizados em fevereiro, a Equipe Central do Secretariado recebeu e estudou o Plano Nacional de Pastoral de Conjunto 1966-1967, elaborado pelo Secretariado Nacional de Pastoral da CNBB, o qual convidava todas as dioceses a um esforço de renovação de conjunto, e aconselhava cada diocese elaborar um plano de pastoral, enquadrando-se nas diretrizes do Plano Nacional.
Em março deste mesmo ano (1966) a referida equipe elaborou um pré-plano (maio de 1966 – novembro de 1966) cuja finalidade seria levar presbíteros, religiosos e leigos da Arquidiocese a uma consciência mais objetiva da necessidade de uma pastoral de conjunto, a fim de poderem atuar ativamente na elaboração e na execução do Plano Diocesano, baseado nas diretrizes do Plano Nacional. Para atingir este objetivo, foi tomada como primeira iniciativa a criação da Assembleia Arquidiocesana, constituída de presbíteros, religiosos e leigos que, com o Sr. Arcebispo, devia assumir mais diretamente a elaboração do Plano Diocesano. Foi também lançado um boletim mensal de pastoral, órgão de ligação dos membros da Assembleia Arquidiocesana. E de informação pastoral para o clero.
Paralelamente foram planejados um programa de atualização para o clero, para as religiosas e para os leigos e um programa de dinamização dos serviços mais necessários para desenvolver uma pastoral de conjunto” .
Na prática, encontramos algumas experiências que, devido ao contexto da ditadura militar e às tensões internas na Igreja, em Aracaju, duraram pouco tempo: as comunidades sacerdotais (grupo de padres assumindo áreas pastorais) comprometidas com o homem do campo e comunidades de religiosas inseridas no meio dos pobres. Encontramos também sementes de formação de comunidades eclesiais nas periferias de Aracaju e a relação estreita da Igreja com a classe trabalhadora, principalmente do meio rural.