terça-feira, 1 de setembro de 2026

Precisamos falar sobre as horas não remuneradas que os fazedores de cultura precisam enfrentar para tentar aprovação em editais.

 

Quantas horas por mês são dedicadas à escrita de projetos para editais voltados para artes e cultura? O Nonada fez essa pergunta para artistas de diferentes regiões do Brasil focando especificamente no mês de julho. Sete depoimentos permitiram elaborar uma estimativa mensal de 133 horas em média.

A produtora cultural Amanda Rabelo estimou ter dedicado entre 80 e 100 horas à elaboração e acompanhamento de projetos e editais em julho. A conta inclui pesquisa, leitura das chamadas, reuniões, orçamento, documentação, planejamento, articulação com artistas e parceiros, inscrição e acompanhamento das propostas.

"Para conseguir trabalho, muitas vezes precisamos trabalhar primeiro sem saber se vamos conseguir ser contratados", diz.

Para Mayara Assis, artista e educadora da Zona Oeste do Rio de Janeiro, se trata de "uma lógica complexa e perversa de trabalho intelectual invisível” a disputa por recursos de editais. Para ela, obrigar o trabalhador a acumular também as funções de analista burocrático e diagramador de portfólio retira tempo da própria criação. “Alguns chamam de autonomia e tenho preferido reconhecer isso como precarização."

Day Sena argumenta que, se todas essas horas fossem incorporadas ao cálculo dos cachês, seria difícil encaixar os valores nos orçamentos disponíveis, que precisam sustentar várias outras rubricas da produção. “Nosso cachê está bem abaixo se a gente for contabilizar as horas de trabalho”.

Heloisa Marina resume essa diferença entre temporalidades ao afirmar que “projeto não é um programa, não é um planejamento de longo prazo”. Ao mesmo tempo, reconhece que financiar permanentemente determinados grupos também produz uma escolha: se uma parcela maior do orçamento fica comprometida com quem já recebe recursos, diminui a possibilidade de alcançar novos agentes.

Participaram das entrevistas os artistas Amanda Rabelo, Gerson Dias, Day Sena, Ana Canedo, Alessandra Grandini, Ciça Pereira e Arthur Gomes e Mayara Assis. 

https://www.nonada.com.br/2026/08/horas-que-nao-se-pagam-sem-garantia-de-retorno-artistas-realizam-trabalho-invisivel-na-escrita-de-editais/









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