sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Mancuso e sua proposta de um neo-cristianismo. Por Faustino Teixeira (*)

Aproveito o mês de janeiro para fazer uma imersão no novo livro de um jovem teólogo que eu aprecio muito, que traçou seus passos no seguimento do cardeal Martini. Trata-se de Vito Mancuso, que acaba de lançar a volumosa obra, de quase 800 páginas, sobre Jesus e Cristo (Gesù e Cristo – Garzanti, 2025). É um livro que levanta uma ousada tese em favor de um “Neo-cristianismo”. 

Na abertura de seu livro, Mancuso sublinha que sua reflexão vai na mesma linha da observação feita por Teilhard de Chardin na abertura de seu livro: O meio divino. Ele chama a atenção dos leitores para uma advertência fundamental: seu livro não se volta para os cristãos que estão solidamente instalados em sua crença, mas para aqueles que estão inquietos e que se movem numa busca sincera e acolhedora.

O que motivou Mancuso ao árduo trabalho foi a constatação de que hoje a maior parte dos ocidentais define-se como não cristã. Segundo Mancuso, os ocidentais demonstram cada vez menos interesse com a doutrina e a história do cristianismo, e não frequentam seus ritos e ignoram as pregações realizadas nas igrejas. 

Na visão de Mancuso, a causa desse divórcio entre a nossa sociedade e a religião pode ser buscada “na qualidade originária da religião do Ocidente”, de um cristianismo que se configurou com base “no processo iniciado em Jerusalém e culminado em Niceia e Constantinopla”. Trata-se do cristianismo petrino-paolino e sua “infidelidade” ao jesuanismo e à autêntica espiritualidade de Jesus. Para Mancuso, o cristianismo petrino-paulino não consegue corresponder mais às exigências da consciência contemporânea. Há buscar, em linha de sintonia com Teilhard de Chardin, uma “religião à medida da nova Terra”.

Daí Mancuso buscar com afinco no livro libertar, em nível histórico, Jesus de todas as sobreposições lançadas sobre sua figura, bem como desvelar em âmbito teológico o verdadeiro significado de Cristo, entendido como Ideia. É um trabalho que busca distinguir Jesus (História) do Cristo (Ideia), para depois relacioná-los sob uma nova base, de forma a favorecer um melhor acesso à sensibilidade contemporânea.

“Jesus é historia, Cristo é ideia”. Essa é a tese de Mancuso, que com a leitura do livro, foi se esclarecendo para mim. Sobre Cristo, sublinha Mancuso, as fontes que temos à disposição são muitas: os 27 livros do Novo Testamento, as obras dos primeiros autores cristãos (padres apostólicos), os autores dos primeiros séculos (padres da igreja), bem como a produção teológica. Sobre Jesus, a única fonte de que dispomos são os quatro evangelhos.

O texto mais antigo do Novo Testamento disponível é a Primeira Carta aos Tessalonicenses, que vem à tona por volta dos ano 50. O evangelho mais antigo é o Marco, que veio composto por volta do ano 70. A leitura cristão dos evangelhos foi realizada contando com uma ocular específica, que conta com o pensamento teológico de Paulo e Pedro. 

Como diz Mancuso, os autores dos evangelhos canônicos “dependem da teologia da Paulo”. E nos escritos de Paulo não há nenhuma referência precisa ao essencial da vida e mensagem de Jesus: “nenhuma menção ao Nazareno, ou a Belém, nenhuma menção aos milagres e exorcismos realizados por Jesus”. Em suas cartas, Paulo fala mesmo é de Cristo ou de Jesus Cristo. Paulo não se interessava pelo Jesus terreno.

Mancuso busca distinguir, como fez Claude Geffré, a Bíblia da Palavra de Deus. A seu ver, “a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas contém a Palavra de Deus”. E continua: “As muitas palavras humanas contidas na Bíblia  podem ser consideradas inspiradas pelo Espírito doador de vida somente na medida em que suscitam vida: isto é, promovem, servem e protegem a vida. E a vida de todos”. Há palavras na Bíblia que “não contêm esta energia positiva e, assim, contribuem para incrementar a sepação, o sectarismo, o fanatismo”. Dai, ser tarefa fundamental de uma teologia livre distinguir no interior da Bíblia uma palavra da outra.

Como sublinha Mancuso, “Jesus é um evento histórico e como tal deve ser situado no espaço e no tempo; Cristo, por sua vez, é uma ideia sob a forma de mito e como tal situa-se fora do espaço e do tempo”. O objetivo da reflexão de Mancuso em seu livro é “restabelecer o verdadeiro rosto de Jesus terreno, libertando-o da instrumentalização que se deu ao longo do tempo”.

Na realidade, Jesus foi um profeta que consagrou sua vida a falar de Deus, estando profundamente animado por seu vigor, dedicando-se à missão de anunciar a vinda iminente do Reino de Deus. Mancuso gosta de identificá-lo como o profeta escatológico-apocalíptico. Cada evangelho traço uma imagem de Jesus: o Jesus de Mateus é mais institucional e menos inquietante; o Jesus de Lucas é provocador, alguém que teve a coragem de rebelar-se contra a injustiça; o de João já é o Jesus transformado em Cristo.

A tese defendida por Mancuso aproxima-se das teses defendidas por Teilhard de Chardin, Panikkar e outros. Ele busca precisar o seu pensamento: “eu penso que a revelação divina veiculada com o título Cristo não se manifesta só em Jesus, mas também em outra figuras espirituais que comunicam em forma humana o esplendor da energia divina enquanto inteligência, bem, amor, perfeita justiça”. Assim como Jesus foi tomado pela paixão de Deus e por sua justiça, manifestando o esplendor e tornando-se Cristo, assim também ocorre com outras personagens mesmo antes dele, como Confúcio, Lao-Tsé e Sócrates.

Daí Mancuso concluir que Jesus, o Cristo, não constitui “a única e absoluta instância verdadeira, e por consequência não aceito a ideia de que a salvação seja alcançada unicamente no âmbito do cristianismo”. Mancuso distancia-se da perspectiva exclusivista, que defende a tese de que só Jesus Cristo revela Deus, e que todos os outros caminhos religiosos são “falsos”. 

Um tal cristocentrismo soteriológico entra em tensão com a perspectiva plural que marca o nosso tempo. Esse cristocentrismo gera, por sua vez, uma eclesiocentrismo sacramental, que cerca-se de um perigoso risco de integralismo e fundamentalismo. É a posição defendida pela Dominus Iesus, e aceita até hoje por boa parte da tradição católica. O autor distancia-se igualmente da perspectiva inclusivista, discordando de qualquer reflexão que pretenda incluir os não-cristãos no cristianismo.

Com sua tese ousada, Mancuso não propõe um desligamento de Jesus do Cristo, que a seu ver revela-se “ingênua e imatura”. Ele busca harmonizar o vínculo, mas sob novas bases. O autor propõe com sua tese uma harmonização entre Jesus (história) e o Cristo (Ideia). Quando sublinha a importância do Cristo, ele está defendendo uma posição que é parelha à de Panikar. O que está em jogo, sublinha, é um traço operativo. O que sua tese propõe é a permanência de uma “operatividade crística”, que garante a plausibilidade do que está verdadeiramente em jogo em tal conceito.

E reitera Panikkar: “Com suas palavras e ações Jesus é o Cristo enquanto convoca a uma lógica nobre e libertadora”. Mas participam igualmente desta lógica crística outros personagens, além de Jesus, como Sócrates, Confúcio, Buda, Lao-Tsé, e em nosso tempo: Simone Weil, Etty Hillesum, Gandhi, Thich Nhat Hanh. Todos eles são igualmente intérpretes verdadeiros da lógica crística.

Na visão de Mancuso, Jesus e o Cristo não podem estar desvinculados. Trata-se, a seu ver, de “compor em harmonia o real e o ideal, a dimensão material e a dimensão espiritual”.

Já na parte final de seu livro, onde Mancuso dedica-se a falar de sua hipótese de um neo-cristianismo, ele recorre a uma passagem de autoria de Simmaco, senador pagão de Roma, que viveu uma disputa com o bispo de Milão, Ambrósio, entre os anos de 382 e 384. Ele dizia:

“Contemplamos as mesmas estrelas, temos o céu em comum, somos parte de um mesmo universo: que importa a ideologia de cada um na sua busca pela verdade? Não se pode por um só caminho alcançar um mistério assim abissal” (“uno itinere non potest perveniri ad tam grande secretum”.

Paz e Bem #2612 - Cristo e Jesus: livro do teólogo Vito Mancuso relança a espiritualidade jesuânica



(*) Autor dos livros: Antropologia da religião - Autores e temas e As orações da humanidade - Das tradições religiosas do mundo inteiro, entre outros.
Faustino Teixeira é professor titular aposentado do programa de pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente colabora no Instituto Humanitas da Unisinos com cursos livres sobre literatura e religião e como debatedor no projeto Filmes em Perspectiva. Atua igualmente na elaboração das Orações ilustradas e declamadas do IHU.

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