quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Papo Reto com Neri Silvestre em dose dupla (7) Conseguiremos superar o neoliberalismo que habita em nós?


Vamos rezar pelo bem do patrão, e ajudar na exploração infantil.
Uma sociedade falida e condicionada à riqueza, enquanto outra parte vive a infinita pobreza, a submissão, a exploração e a invisibilidade de sua cultura, seja pelo preconceito ou simplesmente pela aculturação. Esse povo sofrido, de baixo, já não se mobiliza nem se organiza, restando meia dúzia de gatos pingados que resistem ao neoliberalismo. Quero  o povo das quebradas revolucionando.

Aliás, o neoliberalismo nos trouxe algumas “coisas importantes”: alienação, busca incessante pelo prazer, consumo, o deus dinheiro, tédio incontrolável e um individualismo cruel todo mundo é um pouco o Trump. O que se impõe é a concorrência entre os indivíduos, somos a livre concorrência, levando a um debate exausto sobre o que é participação e como ela se dá. A cidadania morreu?
Sim.

Não se trata apenas de uma crítica isolada. Essa condição tem a ver diretamente com o neoliberalismo, que vem raqueando culturas e promovendo a aculturação, transformando tudo em uma coisa só: supermercados, bares, arquitetura padronizada, falsas soluções, que não são soluções, mas formas de alienação. Como diria Gonzaguinha: “e se roubarem o seu carnaval?”

As multinacionais governam, os CEOs criam tendências de modelos austeros, uma infinidade de besteiras. Já pensou que consumimos roupas produzidas por crianças? Seria essa a “solução”: transformar a população em escravos desde o berço? No domingo, quando for ao shopping, procure saber, veja escala 6x1, jovens em lojas, pretos e pretas na limpeza que degrada e não sustenta. Observe a cultura. Como apostar na chamada indústria criativa da cultura se, sem garantirmos nem nossos direitos culturais e o neoliberalismo nos impõe essa lógica?

Ainda temos que lidar com crenças: não existe justiça social. Basta ver como os territórios são tratados, zero autonomia, zero recursos, zero políticas sociais. Estudiosos da educação, o professorado e os sindicatos têm quase nenhum trabalho de base e ainda concorrem com quem está na ponta, buscando sobreviver, enquanto o sistema nacional de educação é destruído. Essa é a velha confusão: o debate é sobre educação ou sobre a política de Estado e democracia para a educação?

E isso também acontece na cultura e na assistência social, que muitas vezes confundem direito com benefício. É grave. Lidamos com mentalidades conservadoras, egoístas e mesquinhas, que invariavelmente estão atrás de privilégios. Cuidem-se: o neoliberalismo venceu, e a violência é apenas uma pequena amostra de como esse totalitarismo, com suas facetas fascistas, opera. Um manifesto em que a vítima acaba sendo transformada no grande algoz enquanto resistimos à maléfica ideologia neoliberal.



 Estúpida, mesquinha, tapada maioria o mundo é de vocês! 

Para quem não sabe, muitas entidades de Santo André têm convênios com a Prefeitura de Santo André nas áreas da educação, da assistência social, Cultura e esporte. Entramos naquele velho ditado: o cachorro toma conta da linguiça. Muitas dessas entidades fazem o jogo sujo dos tucanos, dos petistas e da política local. Seus dirigentes, muitas vezes, são pessoas que vivem bem do Estado há 40, 50 anos, mantidos a pão de ló.

Sou suplente no Conselho de Educação, e é uma vergonha: a presidência, membros do sindicato, militantes e um monte de gente movida por interesses pessoais. No Conselho de Assistência Social, a manipulação é tremenda ninguém entende o que é esse lugar e o que sistema de assistência social, seu Zé e Dono Maria são clientes da indústria da miséria. Para quem não sabe, os conselhos foram criados como forma de participação e governança social e são direitos, mas a sociedade civil é totalmente alienada do debate sobre orçamento, plano municipal, e quais são as prioridades e quem será beneficiado. Tudo se decide por meio de conchavos, e aqueles que têm poder fazem o jogo sujo para continuar vivendo bem, não existe isonomia.

Os conselhos deveriam ser colegiados, garantindo o direito ao controle social e à participação popular, mas o que vemos é uma cara de pau gigantesca. No Conselho de Cultura, então, é uma piada: só a sociedade civil fala, o pessoal do governo não abre a boca, e tudo segue como se estivesse normal. Do lado de fora, a classe média, acostumada a uma democracia moldada pelo poder econômico, segue omissa.

O fato é que todos deveriam, ao menos duas vezes por ano, participar das reuniões dos conselhos para cobrar e entender que são os algozes do povo . Falta formação, e a relação se torna difícil quando o interesse pessoal ultrapassa o interesse público. Assim, tudo fica nas mãos dos algozes. Essas figuras, se dependesse delas, já teriam privatizado e terceirizado todas as políticas públicas. Um “dono do Pentágono” chega a dizer que nem toda privatização é ruim e esse sujeito está no Conselho de Educação.

E a governança passa a ser feita pelo secretário autocracia, sem participação social. Por que o Plano Municipal de Educação, cultura, assistência social, cultura etc...  não é executado? Na assistência social, a política pública é feita para atender entidades e trabalhadores, e não é pautada pelo Plano Municipal de Assistência Social. A governança da sociedade é quase inexistente, e tanto a sociedade civil quanto os trabalhadores desconhecem o modelo sistêmico e têm pouca intimidade com o fazer democrático, .

Vejam os equipamentos da assistência social e da cultura sem conselhos gestores: isso é uma vergonha. Esses equipamentos não podem ser geridos por funcionários encarregados isoladamente da gestão. Na cultura, os equipamentos são administrados por uma única pessoa, de forma rudimentar e ultrapassada. Cada espaço passa a ter um “dono” que, em vez de observar o Plano Municipal de Cultura, atende aos gestores e coloca amigos e amigas na programação.

Agora, com esse delírio global de falar em cidadania enquanto o olho grande sobre o poder cresce, vivemos o pior dos mundos. Vereadores e vereadoras não cumprem seu papel de fiscalizar nem de criar leis que garantam participação em massa. Quem recebe auxílio de qualquer ordem deveria obrigatoriamente participar das reuniões e formações para cidadania , e os conselhos deveriam ser independentes do Executivo.

Gentinha medieval.


Neri Silva Silvestre: Produtor cultural, articulador e gestor cultural, idealizador do Sarau na Quebrada, poeta e agitador cultural. Sempre foi um sujeito inquieto. Quando jovem lança com o grêmio escolar, o Jornal Macunaíma, daí não parou mais. Esteve à frente como coordenador do 1° Ponto de Cultura de Santo André (SP) de 2010/2013. Produziu inúmeros eventos que vão da música à literatura.


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