Zé da Velha: Um Mestre que Sergipe Pouco Ouviu
4 de janeiro de 2026
A trajetória silenciosa de um mestre do choro brasileiro
Zé da Velha, José Alberto Rodrigues Matos, não foi apenas um trombonista. Foi o eco vivo de Aracaju correndo nas veias do choro carioca, um grave profundo que ligou o litoral sergipano ao asfalto pulsante do Rio de Janeiro. Seu som desenhava mapas invisíveis de saudade, pertencimento e comunhão, sustentando rodas inteiras com a firmeza de quem entende que a música nasce do coletivo.Nascido em 1º de junho de 1941, em Aracaju, Sergipe, Zé cresceu em uma casa onde o ofício e a arte dividiam o mesmo espaço. Filho de um alfaiate que costurava tecidos e sonhos, teve no saxofone amador do pai a primeira presença musical do cotidiano. A música não era espetáculo, era convivência. Era som misturado ao trabalho, ao tempo lento, às conversas e aos silêncios.
Nas ruas quentes de Aracaju, embaladas pelo vento do rio Sergipe e pelo murmúrio das praças antigas, aprendeu os primeiros compassos da vida. Ouvia o pai entre linhas, agulhas e melodias improvisadas, entendendo cedo que a música nasce do chão comum e do encontro entre trabalho e sensibilidade. Ainda menino mudou-se para o Rio de Janeiro, mas jamais rompeu com as raízes. Elas seguiram pulsando em cada respiração harmônica, como rios que sempre encontram o mar.
No Rio, adolescente, encontrou no trombone de vara sua voz definitiva. Não buscava o brilho do solista, mas o chão firme que sustenta a roda. Foi assim que se integrou às rodas de samba e choro, convivendo com mestres da Velha Guarda, tocando com nomes fundamentais do gênero como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo. A tradição o reconheceu como guardião do grave, conferindo-lhe o apelido que atravessaria toda a sua trajetória, Zé da Velha, não como rótulo, mas como reconhecimento de uma sonoridade ancestral.
Durante o dia, trabalhou como telegrafista no aeroporto, lidando com sinais elétricos que cruzavam continentes. À noite, entregava-se às gafieiras, aos clubes e às rodas escondidas da cidade, onde o trombone sustentava danças, encontros e afetos. Servia à música como quem cuida de um jardim coletivo, sem vaidade, sabendo que o florescer depende do conjunto. Seu som não disputava espaço, criava espaço.
Passou por grupos como Sambalândia, Orquestra Gentil Guedes, Chapéu de Palha e Suvaco de Cobra, deixando marcas profundas em cada formação. Seu trombone combinava leveza e firmeza, antecipando caminhos que só seriam plenamente reconhecidos pelas gerações seguintes. Em 1986, ao lado do trompetista fluminense Silvério Pontes, formou uma dupla que ficaria conhecida como “a menor big band do mundo”. Dessa parceria nasceram seis álbuns fundamentais do choro instrumental, entre eles Só Gafieira! (1995), obra seminal em que o trombone deixa de ser apenas base harmônica e passa a narrar, dialogar e emocionar, com sete choros que se tornariam referência musical e acadêmica.
Zé da Velha tornou-se decano das rodas de choro, mestre pelo exemplo, pai musical de muitos. Ensinava sem impor, transmitia sem discursos, oferecendo o fôlego de quem compreende a música como serviço. Seu saber fluía como rio generoso, nutrindo sem exigir retorno.
Esse legado ganhou contornos acadêmicos na tese de doutorado O estilo de Zé da Velha no CD Só Gafieira!: práticas de performance do trombone no choro, defendida em 16 de dezembro de 2017 na Universidade Federal de Minas Gerais, sob orientação de Fausto Borém de Oliveira. A pesquisa analisa minuciosamente sete choros do álbum, revelando uma linguagem performática própria, marcada por precisão expressiva, contrapontos sutis, diálogo constante com o silêncio e ornamentos que dialogam com a expressividade do cavaquinho e do pandeiro. O trombone, em suas mãos, deixa de ser coadjuvante e se transforma em narrador sensível do choro brasileiro.
Desse estudo nasceu o livro O Trombone no Choro: A História e o Legado de Zé da Velha, publicado pela Editora Appris em 2025, que aprofunda a análise histórica e estética do instrumento no choro e reafirma que seu toque não é apenas estilo ou sotaque, mas uma linguagem musical completa, capaz de unir tradição nordestina e sofisticação urbana carioca.
Zé da Velha faleceu em 26 de dezembro de 2025, no Rio de Janeiro, aos 84 anos, em decorrência de infecção bacteriana. Sua morte provocou comoção entre músicos, pesquisadores e amantes do choro, que o celebraram como mestre, referência e guardião do coletivo. Mas sua ausência nunca foi silêncio. Seu trombone segue ecoando nas rodas, nas gravações, nas partituras e nas pesquisas que eternizam sua contribuição.
Quando o vento ainda hoje atravessa o rio Sergipe, em Aracaju, parece carregar um grave distante, firme e acolhedor. É Zé da Velha lembrando que o choro não se constrói com estrelas solitárias, mas com o chão fértil de quem sustenta, escuta e serve. Seu som permanece como ponte viva entre Sergipe e o coração musical do Brasil, unindo passado, presente e porvir em uma mesma respiração sonora.
Zé da Velha partiu longe de sua terra natal, no Rio de Janeiro que o acolheu e que ele ajudou a moldar sonoramente. Ainda assim, muitos sergipanos nunca souberam quem ele foi. Outros tantos não se interessaram em saber. Sua ausência física passou quase silenciosa em sua própria origem, como tantas vezes acontece com aqueles que servem à cultura sem buscar holofotes. Enquanto seu nome ecoa em rodas de choro, pesquisas acadêmicas, gravações históricas e salas de musica pelo Brasil, em Sergipe sua memória ainda aguarda reconhecimento mais amplo. Mas o tempo, que sabe separar ruído de permanência, há de fazer justiça. Porque Zé da Velha não pertence apenas à história do choro ou do Rio de Janeiro. Ele é patrimônio sensível de Aracaju, do litoral sergipano e da música brasileira, um mestre do grave que ensinou, com humildade e som, que sustentar também é criar
Luiz Americano, o Clarinetista que o Brasil Consagrou e Aracaju Ignorou
11 de janeiro de 2026
A história do músico sergipano que ajudou a moldar o choro nacional e segue fora da memória local
Aracaju ainda aprendia a ser cidade, abrindo ruas sob o sol firme do Nordeste, quando nasceu Luiz Americano Rego, em 27 de fevereiro de 1900. Era uma capital jovem, desenhada em linhas retas sobre areias claras, onde o vento vinha do rio e do mar misturando sal, poeira e promessa. Entre mangueiras frondosas, quintais largos e ruas de chão batido, surgia um menino de olhar atento, destinado a dialogar com o vento por meio do clarinete. A cidade tinha poucos anos, mas já pulsava com bandas em coretos, procissões sonoras, dobrados ecoando nas festas cívicas e religiosas. Aracaju crescia devagar, e Luiz crescia com ela, ouvindo a música como quem aprende a ler o mundo.
Filho do mestre de banda Jorge Americano, recebeu cedo não apenas as primeiras lições musicais, mas uma herança inteira de rigor, sensibilidade e afeto. Aos treze anos, o pai lhe ensinou os primeiros sopros e lhe compôs um dobrado em homenagem, gesto que selou um destino. Luiz cresceu entre dobrados militares, serestas discretas, ensaios à sombra das árvores e o rumor das ruas ainda em formação. Iniciou-se na Sociedade Filarmônica Santa Cecília de Brejo Grande e tocou em bandas de Aracaju e Maceió, quando a música já deixava de ser passatempo para se afirmar como caminho inevitável.
Em 1921, partiu para o Rio de Janeiro, como tantos nordestinos movidos pela esperança e pela necessidade. A travessia significava mais que distância geográfica, era um salto de mundo. Na então capital cultural do país, Luiz Americano encontrou uma cidade em permanente estado de som. O Rio acordava com música, atravessava o dia em ensaios improvisados e adormecia em serenatas, gafieiras e rodas que varavam a madrugada. Nos quintais, nos bares, nos estúdios de gravação ainda rudimentares e nas emissoras de rádio que começavam a ganhar força, o choro se refinava como linguagem urbana. Luiz viveu esse cotidiano intenso, tocando noites seguidas, aprendendo com os pares, disputando espaço pelo ouvido atento do público e lapidando um estilo que unia disciplina técnica e liberdade expressiva.
Nesse ambiente efervescente, firmou-se como um dos grandes nomes do choro, convivendo com Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Seu clarinete e seu saxofone ajudaram a consolidar a escola brasileira de sopro, marcada por fraseado elegante, precisão rítmica e um timbre imediatamente reconhecível. Na Lapa em ebulição, integrou formações ligadas aos Oito Batutas, participou dos Diabos do Céu, da Velha Guarda e de conjuntos como a American Jazz Band, circulando entre o popular e o sofisticado com naturalidade rara.
Gravou com Carmen Miranda, dialogou musicalmente com Radamés Gnattali e acompanhou grandes vozes da Era de Ouro do rádio, como Orlando Silva, Francisco Alves e Nelson Gonçalves. Seu som leve e preciso atravessou fronteiras, levando o sotaque nordestino à Argentina em 1928 e alcançando Nova York em 1939, na Feira Mundial, onde seu saxofone fez ecoar, em palcos distantes, uma saudade profundamente brasileira. Era o menino de Aracaju dialogando com o mundo, sem jamais perder a cadência da origem.
Como compositor, deixou valsas de lirismo intenso, a exemplo de “Lágrimas de Virgem”, sucesso imediato em 1931, e “Sorriso de Cristal”, além de choros marcantes como “É do que há”, “Numa Seresta”, “Intrigas no Boteco do Padilha”, “Tigre da Lapa” e “Assim Mesmo”. Suas melodias combinam melancolia, refinamento harmônico e ritmos que transitam entre o maxixe, a polca e o samba. A extensa discografia em 78 rotações registra um artista versátil, regravado por diferentes gerações e ainda vivo nas rodas de choro espalhadas pelo país.
Luiz Americano faleceu em 29 de março de 1960, aos 60 anos, no Rio de Janeiro que o consagrou. Em Sergipe, porém, sua memória não recebeu o mesmo cuidado. É mais um grande artista nascido em Aracaju que muitos aracajuanos não ouviram tocar, não aprenderam a reconhecer pelo nome ou simplesmente não lembram. Sua ausência na memória coletiva não é silêncio do acaso, mas resultado de um descuido histórico com aqueles que partiram e fizeram grandeza longe de casa.
Seu sopro permanece vivo na história da música brasileira, registrado em discos, estudado por músicos, respeitado nas rodas de choro. Ainda assim, segue pedindo reencontro com a cidade onde tudo começou. Como se o clarinete chamasse, do outro lado do tempo, pela escuta que lhe foi negada em casa. E talvez lembrar Luiz Americano seja também lembrar que Aracaju, além de ruas e prédios, é feita de sons, de artistas e de vozes que merecem voltar a ecoar no lugar onde nasceram.
Tocando pra você | Sopros
Música "Tocando pra você", de Luiz Americano, é interpretada no programa por Rafael Toledo, Douglas Alonso, Léo Rodrigues, Teco Cardoso, Enrique Menezes, Henrique Araújo e Gian Correa. A série teve direção e produção musical de Marquinho Mendonça e Swami Jr e mixagens de Alberto Ranellucci.



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