20 de Jan de 2026, 10h50
[*] Emanuel Rocha
As leis brasileiras se apresentam como instrumentos de justiça e igualdade, prometendo proteger todos os cidadãos sem distinção. No papel, afirmam ser universais e imparciais. No cotidiano, porém, revelam outro desenho.
São aplicadas com dureza implacável sobre os pobres e desassistidos, enquanto se tornam flexíveis, discretas e indulgentes quando alcançam os ricos e poderosos.
O recente caso ocorrido em Aracaju escancara essa ferida antiga. Um veículo em alta velocidade cruzou a avenida Tancredo Neves, literalmente voou sobre o canteiro central e atingiu uma van de transporte escolar. Um impacto brutal. Um trabalhador ao volante, agora em estado crítico, lutando pela vida em um leito hospitalar. Uma família suspensa entre a esperança e o medo. Até aqui, o que se esperaria de uma sociedade minimamente justa seria indignação coletiva, investigação rigorosa e transparência.
Mas o roteiro muda quando se revela quem conduzia o veículo causador do acidente. Um menor de 17 anos. E, mais do que isso, alguém claramente protegido por um manto invisível de privilégios. Nenhum nome divulgado. Nenhuma referência aos responsáveis legais. Nenhuma exposição. Nenhuma curiosidade da mídia tradicional sobre o contexto familiar, o histórico, o acesso ao veículo, a velocidade permitida ou a responsabilidade de quem colocou um carro nas mãos de um adolescente.
O silêncio não é casual. Ele é seletivo.
É preciso deixar algo muito claro. A defesa da proteção integral às crianças e adolescentes não está em debate. Ela deve existir, ser respeitada e aplicada a todos, sem exceção. Ou a lei resguarda igualmente todos os adolescentes envolvidos em atos infracionais, ou não resguarda ninguém. O que não pode continuar acontecendo é a proteção virar privilégio, acionada apenas quando o sobrenome, o endereço e a condição social assim permitem.
Se esse mesmo acidente tivesse sido protagonizado por um adolescente da periferia de Aracaju, o espetáculo estaria montado. Já teríamos visto fotos, apelidos, relatos de vizinhos, notas escolares, histórico familiar. Qualquer detalhe serviria para construir a narrativa do suspeito perfeito. A manchete viria carregada de julgamento moral. O jovem seria tratado como ameaça pública, exposto antes de qualquer apuração, ignorando os limites, os cuidados e as garantias que a própria lei estabelece.
A crítica aqui não é a crucificação do adolescente envolvido no caso. Nenhum jovem deve ser transformado em bode expiatório. A crítica é à desigualdade no tratamento. A diferença não está na lei. Está em quem a lei escolhe enxergar e em quem ela escolhe proteger com silêncio.
Enquanto isso, o motorista da van segue lutando pela vida. Um homem invisível para os holofotes, mas essencial para dezenas de famílias que confiam seus filhos ao seu cuidado diário. Seu nome não vira assunto nas redes sociais. Sua história não rende debate em horário nobre. Sua dor não gera editoriais inflamados. A comoção é abafada pelo peso do sobrenome que não pode ser citado.
Esse caso não é exceção. É regra. É o retrato fiel de um país onde a justiça anda a pé para os pobres e de carro blindado para os ricos. Onde a lei tem pressa quando se trata dos vulneráveis e prudência excessiva quando se aproxima dos poderosos. Onde o erro do pobre vira crime exemplar e o erro do rico vira acidente, fatalidade ou silêncio.
Enquanto aceitarmos essa lógica, continuaremos chamando de justiça um sistema que apenas administra privilégios. E continuaremos contando mortos, feridos e histórias interrompidas, quase sempre do mesmo lado da avenida.
[*] Emanuel Rocha é historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico
publicado originalmente em: https://jlpolitica.com.br/colunas/aparte/posts/opiniao-quando-o-privilegio-impoe-silencio

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