sábado, 3 de janeiro de 2026

El Movimiento Latinoamericano de Cultura Viva Comunitaria (MLCVC) repudia la invasión y agresión bélica del gobierno de Estados Unidos, encabezado por Donald Trump, contra el territorio soberano de Venezuela.

Esta acción constituye una intervención imperial directa, una violación flagrante del derecho internacional, de la Carta de las Naciones Unidas y del principio de autodeterminación de los pueblos, y representa una amenaza concreta para todos los pueblos de América Latina y el Caribe.

Cuando un imperio prueba su fuerza sobre un pueblo, está ensayando sobre los demás.

Esta agresión no es un hecho aislado: forma parte de una larga genealogía de violencia imperial en Abya Yala, responsable de dictaduras, saqueo, desplazamientos forzados y criminalización de los pueblos.

América Latina y el Caribe no son patio trasero de nadie: son territorios de pueblos con memoria, identidad, organización y resistencia.

RECHAZAMOS toda acción bélica, injerencista e imperial que vulnere la paz, la soberanía y la vida comunitaria.

LA CULTURA VIVA ES DEFENSA ACTIVA DE LA PAZ

Convocamos a ACCIÓN DIRECTA NO VIOLENTA, COORDINADA Y CONTINENTAL

EXIGIMOS

Cese inmediato de toda acción militar contra Venezuela.

Retiro de toda fuerza extranjera del territorio venezolano.

Respeto irrestricto a la soberanía y autodeterminación del pueblo venezolano.

Salidas políticas y pacíficas, sin violencia ni imposiciones externas.

Cuando atacan a un pueblo, respondemos como continente.

Si tocan a Venezuela,

responde Abya Yala.

Movimiento Latinoamericano de Cultura Viva Comunitaria

Enero de 2026

A Rede Nacional de Pontos de Cultura e Memória Rurais e o Pontão Territórios Rurais e Cultura Alimentar manifestam sua profunda solidariedade ao povo da Venezuela, diante das graves notícias e incertezas que marcam o momento atual. Reafirmamos nossa preocupação com a vida, a segurança e a dignidade da população, bem como com a soberania nacional.

Expressamos nosso repúdio a toda forma de violência, intervenção armada e violação da soberania dos povos, e defendemos que quaisquer impasses sejam enfrentados por meio do diálogo, da diplomacia e do respeito ao direito internacional. Acreditamos que a paz, a autodeterminação e a justiça social são condições indispensáveis para que os povos possam viver com dignidade e preservar suas culturas, territórios e modos de vida.

Reiteramos nosso compromisso com a integração solidária entre os povos da América Latina e com a defesa dos direitos humanos, da cultura e da vida. Que a solidariedade internacional, a cooperação entre nações irmãs e o fortalecimento dos laços entre territórios sejam caminhos para superar a violência e construir um futuro de paz, soberania e esperança para o povo venezuelano e para toda América Latina.


As veias abertas da América Latina voltam a sangrar

Edward Magro

Nada mais excessivamente esperançoso do que imaginar que a política internacional obedece a algum código de boas maneiras, uma espécie de manual de etiqueta para Estados supostamente civilizados. Antes que o velho imaginário hollywoodiano apresente ao mundo sua versão épica da invasão da Venezuela, com heróis inflados e explicações glamourosas, vale uma pausa breve para distinguir o que ainda resiste à ficção. Não por devoção ao factual, mas por um gesto simples de consideração pela inteligência alheia — ao menos pela nossa, que ainda tenta não se deixar seduzir pelo espetáculo.

A história latino-americana é fértil em episódios cuidadosamente embalados para o consumo externo. Sempre que um interesse estratégico estadunidense perde a paciência, surge depressa uma explicação conveniente, coberta por um verniz moral suficientemente sedutor para conquistar corações e mentes pouco atentas. Desta vez, o expediente escolhido foi o clássico “combate às drogas”, expressão que possui a estranha habilidade de suspender o pensamento crítico. Afinal, quem ousaria contestar uma cruzada contra o tráfico? É uma fórmula confortável: basta evocá-la para que se produza uma aparência de virtude, mesmo que funcione apenas como cortina para ações que passam longe dela.

Mas basta um instante de atenção para que o descompasso entre o slogan e os fatos se revele. A invasão nada teve a ver com narcotráfico. O que a impulsionou foi o velho motor da política externa estadunidense: a necessidade de preservar sua posição central num tabuleiro global cada vez mais disputado, mantendo intacta a hegemonia construída após o desaparecimento da União Soviética, seu último contraponto relevante. E, como de hábito, são os interesses econômicos — públicos e privados — que definem o rumo, numa simbiose entre Estado e grandes corporações energéticas que raramente encontra espaço nos pronunciamentos oficiais.

A Venezuela, com reservas petrolíferas de escala excepcional, tornou-se peça central nesse tabuleiro. O país abriga algo em torno de 303 bilhões de barris, e boa parte desse petróleo se ajusta com rara precisão ao parque de refinarias estadunidenses na Costa do Golfo — detalhe que dificilmente escaparia a quem conduz a política energética de Washington. Não é coincidência, mas oportunidade. Antes de 2019, os Estados Unidos eram os principais compradores do petróleo venezuelano. As sanções impostas por Washington, porém, empurraram Caracas para outra rota: a China; em 2023, Pequim absorveu cerca de 68% de todo o petróleo exportado pelo país. Para contornar o bloqueio, o governo venezuelano passou a usar o petróleo como garantia de empréstimos — quase 50 bilhões de dólares em uma década — mecanismo pragmático que assegurava aos chineses fornecimento por muitos anos. Na prática, parte relevante do subsolo venezuelano foi penhorada, irritando profundamente os estrategistas estadunidenses, que viram um ativo estratégico escapar de sua órbita.

É nesse ponto que a narrativa se torna mais nítida. Ao remover Maduro, a invasão estadunidense não se restringe ao presente: busca redesenhar o futuro. Um governo tutelado certamente revisaria a relação com a China, com o objetivo de desfazer a moratória lastreada no subsolo petrolífero oferecido como garantia. A disputa, portanto, está longe de ser apenas territorial. É estratégica, financeira e prenuncia efeitos que ultrapassam em muito o ato militar que lhe deu origem.

Além disso, a invasão da Venezuela não é o desfecho da operação — é apenas o prólogo. No horizonte imediato está a Guiana Essequiba, região que desperta interesse pelo motivo mais previsível de todos: petróleo. E a história continental é pedagógica: quando um território estratégico passa a ser administrável sob tutela estrangeira, as áreas vizinhas entram automaticamente no radar das ambições. Guatemala, Chile, Haiti, Panamá — a lista de intervenções norte-americanas é longa demais para ser tratada como coincidência. A América Latina sabe — pois vivenciou isso ao longo de toda a sua história — que seus recursos costumam viajar muito mais rápido do que sua soberania.

Sobre a invasão em si, antes que Hollywood povoe o imaginário popular com uma epopeia do bem contra o mal, é preciso afirmar o óbvio: nada disso teria ocorrido sem colaboração interna. A propaganda nos vendeu, durante todo o dia de hoje, a cena fantástica de helicópteros estadunidenses surgindo do nada, entrando no espaço aéreo venezuelano, localizando o presidente com precisão absoluta e concluindo a captura sem resistência. Segundo Donald Trump, o sequestro de Maduro e sua esposa durou exatos 48 segundos. Essa narrativa não se sustenta, nem mesmo nos 48 trumpianos segundos. O episódio só foi possível porque setores do próprio “exército bolivariano” forneceram a chave do recinto. Coordenadas, acessos, rotas de deslocamento — tudo indica que a entrega veio de dentro. Parte da cúpula militar traiu Maduro e, com ele, a própria Venezuela. A história latino-americana conhece bem esse roteiro, no qual frações das Forças Armadas se veem mais vinculadas a Washington do que ao país que deveriam defender. Lamentavelmente, o Brasil, como sabemos, não é exceção.

O que ocorre hoje em Caracas guarda, de fato, uma familiaridade desconfortável com o golpe dado por Michel Temer. Dilma Rousseff teve seu mandato legítimo surrupiado por interesses subterrâneos ligados à entrega da Petrobras. A América Latina parece condenada a protagonizar versões renovadas da mesma história: governos eleitos removidos quando se tornam obstáculos, riquezas estratégicas tratadas como prêmios de consolação, elites locais brindando discretamente a cada entrega, enquanto a população paga a conta. Nesse sentido, Dilma e Maduro são vítimas dos subsolos de seus países. A metáfora de Galeano não envelheceu — apenas ganhou novos instrumentos de extração. A Venezuela vive agora o mesmo capítulo que o Brasil atravessou no ciclo Temer–Bolsonaro.

Por isso, qualquer tentativa de minimizar a gravidade do que ocorreu é puro autoengano. A invasão, vendida como missão moralizadora, inaugura uma sequência previsível de desdobramentos. Cada golpe bem-sucedido abre caminho para o próximo. Cada traição institucional prepara a seguinte. A América Latina, quando esquece disso, torna-se presa fácil.

Se há um recado urgente dado por essa invasão, é o de recusar a indiferença. Não se trata de Maduro; é a Venezuela — e não um governo em particular — que está sendo punida pelo que deveria fortalecê-la: suas riquezas naturais. E nós, se não estivermos atentos, veremos esse roteiro reaparecer dentro de nossas próprias fronteiras. Uma região que não defende sua soberania logo descobre que outros o farão em seu lugar — e, como sempre, jamais em seu benefício.

E é exatamente aqui que o momento exige mais do que observação: exige posicionamento e denúncia. Porque o que se decide agora em Caracas não é apenas o futuro da Venezuela, mas a linha que separa a autodeterminação latino-americana da servidão resignada tão desejada pelas nossas elites. Assistir calado é consentir. Aceitar a normalização de um crime é abrir as portas para sua repetição. A América Latina sangra porque a deixam sangrar. E, se permanecer imóvel, descobrirá cedo demais que o que está em disputa não é Caracas, mas o futuro inteiro do continente — um futuro que, se abandonado, será escrito por mãos alheias e jamais em nosso benefício. 

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TERRORISMO IMPERIALISTA
 
Frei Betto

          O sequestro terrorista do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na madrugada de 2 para 3 de janeiro desse ano, por parte do governo de Donald Trump, é uma gravíssima afronta à soberania e independência dos países da América Latina e do Caribe. Diaz-Canel, presidente de Cuba; Gustavo Petro, da Colômbia; e Gabriel Boric, do Chile, foram os primeiros a reagir indignados. É a primeira vez que os EUA atacam diretamente um país da América do Sul. 

          Lula reagiu um pouco mais tarde, enfatizando que "os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional."

          Lula afirmou ainda que a ação militar da madrugada deste início de janeiro é uma flagrante violação do direito internacional e abre espaço para um mundo de "violência, caos e instabilidade". "Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões", acrescentou. 

          Lula salientou que "a ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe, e ameaça a preservação da região como zona de paz. A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação."

          Sempre foram no mínimo tensas as relações dos EUA com líderes latino-americanos e caribenhos que não concordam com sua política imperialista fundada na Doutrina Monroe.

          Ao longo do século XX, durante o contexto da Guerra Fria e da política de contenção ao comunismo, os EUA envolveram-se direta ou indiretamente em ações que levaram à deposição, morte ou desaparecimento de líderes latino-americanos. A maior parte dessas intervenções ocorreu por meio de apoio a golpes de Estado, operações clandestinas ou alianças com grupos locais.

          Entre os casos mais notórios se incluem o do Jacobo Árbenz, presidente democrata da Guatemala. Deposto em 1954 por um golpe apoiado pela Casa Branca, morreu no exílio em circunstâncias consideradas acidentais -afogamento -, em 1971. Há teorias não comprovadas sobre assassinato.   Na ocasião do golpe, Che Guevara se encontrava no país e conseguiu se refugiar no México.

      No mesmo ano de 1954, os EUA promoveram o golpe que implantou uma ditadura militar no Paraguai. Dez anos depois, replicou a erradicação da democracia no Brasil (1964), Argentina (1966 e 1976), Bolívia (1966 e 1971), Uruguai e Chile (1973).   

O presidente do Chile, Salvador Allende, eleito democraticamente, morreu durante o golpe militar de 1973, apoiado pelos EUA. A versão oficial é de suicídio, mas as circunstâncias ainda são nebulosas e polêmicas. 

          Omar Torrijos, presidente progressista do Panamá, faleceu em acidente aéreo, em 1981. Suspeitas de envolvimento dos EUA persistem, embora nunca tenham sido comprovadas.

          O progressista Maurice Bishop, escolhido primeiro-ministro de Granada, em 1979, foi derrubado, preso e fuzilado no cárcere, em 1983, durante o golpe de Estado que precedeu a invasão dos EUA ao país. Conheci-o em Manágua, em julho de 1980, nas festividades do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. 

          Manuel Noriega, militar que liderou o Panamá de 1983 a 1989, era agente da CIA. No entanto, por se envolver com carteis de drogas, foi derrubado por invasão estadunidense, levado para os EUA e sentenciado a 40 anos de prisão, dos quais cumpriu 17. Extraditado para a França, esta o enviou ao Panamá onde foi novamente encarcerado por crimes cometidos durante sua ditadura. Morreu de câncer no cérebro em 2017, aos 83 anos. 

          Por eleição democrática, Jean-Bertrand Aristide, sacerdote ligado à Teologia da Libertação, presidiu o Haiti em três períodos; o último de 2001 a 2004, quando devido a um conflito entre ex-militares e seus apoiadores os EUA intervieram e o retiraram do país com apoio de tropas brasileiras.

          Juan Orlando Hernández, que presidiu Honduras de 2014 a 2022, foi detido em seu país em fevereiro daquele ano a mando dos EUA. Em junho de 2024, foi condenado pela Justiça estadunidense a 45 anos de prisão, acusado de envolvimento com tráfico de drogas, do qual teria recebido milhões de dólares de cartéis para permitir a passagem de cocaína por Honduras.

      Em dezembro do ano passado, Trump concedeu-lhe perdão presidencial, alegando que Hernández foi vítima de "perseguição política" e "armação" do governo Biden, embora tenha sido condenado nos EUA por promotores que o acusaram de ter transformado Honduras em um "narcoestado".

           O perdão foi visto como uma manobra política de Trump para apoiar o partido conservador de Hernández nas eleições hondurenhas de 2025 e reforçar a base eleitoral do ex-presidente. A atitude gerou  críticas por contradizer a luta contra o narcotráfico e a política externa dos EUA, especialmente contra a Venezuela, segundo analistas e republicanos. 

          Além desses, há relatos de tentativas de assassinato de líderes políticos na região, desestabilização de governos ou apoio, por parte dos EUA, a regimes que violavam os direitos humanos.

      Vale ressaltar que o líder cubano Fidel Castro, considerado durante décadas inimigo número 1 dos EUA e que completaria 100 anos agora em 2026, faleceu tranquilamente na cama, cercado pela família, em novembro de 2016. E Raul Castro, seu irmão, continua ativo aos 94 anos.

          É crucial consultar fontes históricas sólidas e considerar o contexto político de cada época ao analisar esses eventos. Muitos documentos foram liberados ao longo dos últimos anos, revelando o envolvimento dos EUA em operações clandestinas, mas também mostrando que os resultados nem sempre foram os planejados.

          Para um estudo aprofundado, recomendo obras de historiadores como Greg Grandin, Stephen Rabe e Piero Gleijeses, além de documentos agora liberados do arquivo de segurança nacional dos EUA.

 
Frei Betto é escritor, autor do romance sobre a Amazônia “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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