Sábado, 03 de janeiro de 2026
Paolo Demuru, especialista em semiótica, analisa a campanha de Zohran Mamdani e a comunicação dos progressistas para pensar em como disputar com as utopias da extrema direita.A esquerda passou alguns anos sem sonhar, mas está na hora de voltar. Esse é o mote do livro “Políticas do encanto” (Editora Elefante, 2024), escrito pelo semioticista italiano radicado no Brasil Paolo Demuru.
“A luta da vez é a luta pela maravilha”, ele escreve, defendendo que os progressistas precisam voltar a valorizar a utopia e inventar novas histórias para reconquistar o espaço perdido para a extrema direita e seu populismo conspiratório.
Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Demuru usa a semiótica, disciplina que estuda a produção e interpretação de sentidos, para analisar a comunicação política e as histórias contadas pela extrema direita.
Para falar de teorias da conspiração, ele pega emprestado o termo “fantasias de conspiração” do coletivo de escritores Wu Ming, que defende que “teoria” é uma palavra muito carregada de racionalismo, e não consegue comunicar o componente mágico presente nas conspirações contemporâneas.
Como disputar o encanto com a extrema direita? Só apresentar os fatos não é suficiente contra histórias que são mentirosas, sim, mas também envolventes e cativantes.
É preciso, de acordo com Demuru, focar nos desejos e sonhos das pessoas e trazer novas pautas, novas possibilidades de encanto, para o debate público.
É isso que Zohran Mamdani, o prefeito eleito de Nova York, fez em sua campanha. Num texto publicado na Folha de S.Paulo, Demuru defende que o socialista muçulmano mostrou que é possível reverter a tendência em que o encanto é exclusividade da extrema direita.
O candidato democrata fez isso, de acordo com o semioticista, unindo pautas e reivindicações concretas a valores universais. Uma cidade mais acessível e barata também representa mais liberdade e dignidade para seus cidadãos.
No Brasil, pautas que conectam o concreto com o utópico incluem o movimento Vida Além do Trabalho, VAT, que foi fundado pelo vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo, do PSOL, e defende o fim da escala 6x1.
Em entrevista ao Intercept Brasil, Demuru comentou a importância de retomar a dimensão utópica da política, focando em pautas positivas e propostas novas ao invés de simplesmente posicionar a esquerda contra algo — especialmente nas redes sociais, onde ceder ao ódio e à indignação significa favorecer as big techs.
Qual a importância do encanto para mobilização política?
É fundamental retomar a dimensão do encanto e da utopia na política para projetar cenários com os quais os cidadãos possam se identificar.
Num mundo em que somos atravessados cotidianamente por discursos catastrofistas, as pessoas precisam se encantar, precisam de um cenário de esperança, de um futuro que faça acreditar no mundo em que vivemos.
O governo Lula deu uma guinada nas práticas de comunicação e em algumas pautas mais de esquerda, mas, nos últimos anos, quem estava fazendo isso era a extrema direita, tanto no Brasil quanto mundo afora, apresentando uma utopia própria, uma utopia hiperindividualística e mais neoliberal do que o sistema neoliberal atual.
O grande exemplo são os bilionários do Vale do Silício, que constroem foguetes para explorar o espaço e buscar uma vida além desse planeta ou bunkers para proteger só eles e suas famílias, ou o discurso da prosperidade pessoal, do bem estar e da cura de si, entre outros.
Quanto às esquerdas, é preciso lembrar que projetar sonhos não significa propor um discurso irracional, descolado da realidade. Elas precisam de um discurso que junta utopia e concretude, como no caso da campanha do [Zohran] Mamdani, que parte de temas concretos (o custo de vida) e promove um desejo de outro futuro enraizado neste mundo aqui, uma utopia coletiva centrada na ideia de bem comum.
Eu acho que a gente precisa de uma inversão de rota discursiva, de uma narrativa que não seja tão catastrofista e que reforce a crença neste mundo para engajar e criar pertencimento.
Enquanto os outros vão para Marte, nós precisamos acreditar e fazer as pessoas acreditarem na beleza desse planeta, numa outra utopia de vida em comunidade nesta terra aqui.
Por que a esquerda perdeu a capacidade de encantar?
Pergunta difícil, mas podemos tentar enquadrar o problema, sem a pretensão de dar respostas definitivas, fazendo um pequeno salto ao passado. O começo dos anos 2010 veio logo depois de uma década marcada por crenças utópicas muito fortes, com o movimento altermundialista e as críticas à globalização dos fóruns sociais mundiais, com o slogan de “um outro mundo é possível”.
Eram movimentos marcados por discursos de comunidade e de crítica à mídia, produzindo conteúdos para a internet pré-redes sociais, sem algoritmos gerenciando a fruição dessas plataformas.
A isso se seguiram as chamadas “primaveras árabes”, junto do movimento dos indignados na Espanha e o Occupy Wall Street nos Estados Unidos. Esse último tinha um slogan muito eficaz, “somos os 99%”.
O que o campo progressista precisa fazer é construir maiorias, como nesse slogan. Isso constrói uma unidade contra o verdadeiro problema: a desigualdade socioeconômica.
A extrema direita conseguiu se apropriar desse discurso antissistema, surfando na onda de protestos. O grande exemplo é 2013: uma explosão de demandas após a crise de 2008 e as conquistas dos primeiros governos Lula, junho de 2013 era uma insurgência popular que dizia “queremos mais”.
E tinham demandas populares extremamente legítimas ali. Mas a esquerda não conseguiu entender esse “queremos mais”, veio com um discurso extremamente burocrático, cheio de números de inflação e desemprego diminuindo. Isso é ótimo, mas você não pode comunicar isso de maneira tão fria e objetiva.
A política é movida pelo desejo, sempre. E a extrema direita conseguiu entender que havia espaço ali e deslocou esse discurso de “queremos mais” para o seu campo.
Eles aproveitaram uma brecha discursiva e fizeram as pessoas acreditarem que o problema eram os comunistas, os “marxistas culturais”, e não a concentração de riqueza, a injustiça, a precariedade do trabalho e da vida imposta pelo capitalismo neoliberal.
Produziram fantasias de conspiração que contavam que o mundo era dominado por seitas de poderosos esquerdistas, desviando o foco dos reais problemas.
Mamdani passou a campanha eleitoral focando em custo de vida, um núcleo de verdade que também foi pauta central na reeleição de Trump. Os dois partem do mesmo ponto, mas apresentam respostas radicalmente diferentes. Quais outras pautas os progressistas precisam resgatar dessa apropriação distorcida?
No caso de Trump, os culpados são os democratas progressistas e suas políticas migratórias. Se o custo de vida aumenta, é por causa dos mexicanos, latinos, africanos e asiáticos que vem roubar os trabalhos dos norte-americanos. Mamdani identifica outros culpados, os Elon Musks e Mark Zuckerbergs da vida, quem controla o sistema financeiro neoliberal.
A resposta que ele apresenta também é diferente. Não é individualista e excludente, mas é uma utopia concreta fundada no comum, no público: congelar os aluguéis, ônibus de graça, creches gratuitas, mercados mais baratos. Não é ir para Marte ou ganhar seu primeiro milhão para se distinguir da massa, é querer viver bem na sua cidade.
No Brasil, um exemplo disso é a luta contra a escala 6x1. Não é um sonho abstrato: é sobre ter mais tempo para ficar com os filhos, a família, os amigos, ler, descansar… a utopia política, nestes tempos, poderia e deveria ser isso: o descanso. É um realismo utópico possível, que acho que é o que precisamos. Cenários mais otimistas e realistas no meio dessa catástrofe toda.
Custo de vida, trabalho, redução de injustiça social, igualdade, segurança pública, são todas pautas com potencial transversal, de alcançar muitas pessoas. É preciso encontrar novas formas, por exemplo, de falar de segurança pública.
Isso não é só uma questão de discurso: não existe comunicação sem ideias e propostas. Precisamos desmontar esse mito de que é só um problema de comunicação.
Confira a entrevista completa no site do Intercept Brasil AQUI

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